questões cinematográficas
Dez 2010 19h31
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Na autobiografia de Eisenstein – “Memórias imorais” –, escrita depois dele ter sofrido um ataque cardíaco em fevereiro de 1946, sem ter expectativa de que fosse publicada em vida ou enquanto Stalin vivesse, ele lamenta não ter tido “a possibilidade de dar uma forma final através da montagem [ a ‘Outubro’] por falta de tempo”.
Eisenstein morreu em 1948, Stalin em 1953 e a primeira edição das “Memórias imorais” só foi publicada em inglês, 30 anos depois.
Nas 348 páginas da edição brasileira da autobiografia não há uma única menção a Stalin, muito menos ao fato das cenas de Trotski em “Outubro” terem sido cortadas. Eisenstein também não se refere às críticas feitas ao filme e as alterações que fez em “A Linha Geral”, seguindo recomendações de Stalin.
Doença, histeria, loucura, consumo de estimulantes, cegueira temporária, exaustão, convalescença no Cáucaso – nada do que a biografia de Oksana Bulgakowa descreve (leia aqui o post anterior) é mencionado.
Embora omita as circunstâncias, Eisenstein confirma na autobiografia que leu “Ulisses” em 1928: “O ano que deu nascimento à ideia de um cinema intelectual foi o mesmo em que entrei em contato com o “Ulisses”, de James Joyce.”
Por cinema intelectual, Eisenstein entendia uma linguagem capaz de fazer ideias abstratas florescerem de maneira emocional. Montando “Outubro”, teria constatado a possibilidade do cinema se expressar “a partir de ideias abstratas, de teses e conceitos intelectuais logicamente formulados, e não apenas de fenômenos emocionais […], sem recorrer às limitações de enredo, roteiro, personagens, atores etc., etc. […] de tal forma que se torne possível alcançar uma montagem eficaz de ‘atrações intelectuais’.”
Para Eisenstein, o fascínio de “Ulisses” estaria na “sensualidade inimitável do texto”. Para ele, só o gênio literário de Joyce poderia imaginar a fala interior “que cada um de nós fala à sua maneira, […] como sendo um possível alicerce da literatura.”
“[…] na cozinha linguística da literatura, Joyce se ocupa exatamente com aquilo que me faz delirar de entusiasmo e que se refere às pesquisas de laboratório sobre a linguagem do cinema.”
Na autobiografia, Eisenstein descreve o encontro que teve com Joyce em Paris, começando pela despedida:
“Ele me diz adeus no estreito corredor da entrada de seu pequeno apartamento tão iluminado. […] É um homem alto, ligeiramente encurvado; um homem quase sem fronte, a tal ponto que seu perfil tem traços vigorosos. Possui pele avermelhada e cabelos encanecidos e fartos. Quando o vejo parado, ele, por algum motivo qualquer, agita estranhamente a mão, como se estivesse buscando minuciosamente algo.”
Ao descrever Joyce apalpando a parede à procura do seu casaco, Eisenstein se dá conta de “como sua visão enfraquecera”.
“Essa cegueira externa sem dúvida influenciou aquela particular agudeza de visão interior com a qual, além dos recursos maravilhosos do monólogo interior, é descrita a vida recôndita de ‘Ulisses’ […].”
Joyce teria pedido a Eisenstein que lhe mostrasse seus filmes, por ter passado a se interessar por seus experimentos de linguagem. E antes de se despedir, autografou um exemplar de “Ulisses” com “marcas quase indecifráveis” e a data (30 de setembro de 1929). “E eu mesmo”, escreve Eisenstein,
“como um cego, passei toda uma tarde com um homem quase cego, sem notar, sem sentir, sem ver sua aflição…!”
Durante o encontro, Eisenstein ouviu a gravação em disco da voz serena de Joyce, lendo um fragmento de “Anna Livia Plurabelle”. Seguiu o texto “numa gigantesca folha de papel, com um metro de comprimento, repleto de linhas gigantescas, com letras gigantescas.
Foi graças a essas ampliações das páginas minúsculas do livrinho que Joyce, com dificuldade, reforçou a memória, ao gravar o disco.”
Ainda em Paris, antes de partir para os Estados Unidos, de onde seguiria para o México, Eisenstein comprou “A mentalidade primitiva”, de Lucien Lévy-Bruhl. A um jornalista que perguntou se estava interessado no pensamento primitivo, respondeu:
“Deus me livre! Estou de viagem aos Estados Unidos e estudo as estruturas de pensamento dos tubarões do cinema!”
A leitura de “A mentalidade primitiva” também não evitou a frustração dos projetos que Eisenstein tentou realizar nos Estados Unidos e no México. [continua]
[ Embora sem uso sistemático de aspas, o texto acima é baseado na autobiografia de Serguei Eisenstein, “Memórias imorais”. São Paulo: Companhia das Letras, 1987 ]