questões cinematográficas
Dez 2010 22h17
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O tema de “Notícias de Antiguidades Ideológicas” (2008), dirigido por Alexander Kluge – documentário exibido com esse título, em novembro, no Instituto Moreira Salles do Rio, e que deu origem a esta série de posts – são as anotações feitas por Eisenstein em seu diário sobre o projeto de filmar “O Capital”.
Registro que no artigo de Frederic Jameson, “Filmar ?”, publicado este ano no nº 30 de “Crítica marxista”, a tradução do título é “Notícias da Antiguidade ideológica”, o que parece estar mais de acordo com a entrevista de Alexander Kluge incluída na mesma revista em que ele declara:
“[…] O navegador se orientava pelas estrelas. Navegar é algo imortal e muito antigo. Este é, digamos, um pensamento muito antigo: acreditar que há algo, uma orientação, que é tão velha que não há necessidade de ser revista.”
Deixo a José Carlos Avellar, doutor em línguas germânicas, o encargo de esclarecer a discrepância entre os títulos.
Em março e abril de 1928, pouco depois de terminar “Outubro”, Eisenstein teria esboçado a intenção de tratar da dialética histórica aplicando o monólogo interior de Joyce a Marx. Mais que tudo, queria elaborar uma lógica narrativa que não fosse baseada em histórias e episódios. A um jornalista que perguntou quais eram suas ideias para filmar “O Capital, respondeu: ‘Isso é segredo industrial!’”
Para Frederic Jameson, o que Eisenstein tinha em mente era “algo como uma versão marxista da livre-associação de Freud – a cadeia de ligações escondidas que leva da superfície da vida e da experiência cotidianas à própria origem da produção”. Projeto distante, segundo Jameson, de um enredo com a forma de “um dia na vida de Bloom” assinalado por vários comentadores.
Na mesma época em que teria cogitado filmar “O Capital”, Eisenstein começou a lecionar na Escola Técnica de Cinema, iniciando sua atividade como professor de direção com uma oficina de pesquisa na qual queria revelar com seus alunos os segredos da arte. A primeira tarefa foi ler os romances de Zola e analisar como o autor representa amor, morte e êxtase com diferentes tipos de material.
Quando uma exibição de “O Velho e o Novo” em Paris foi proibida pela polícia, no início de 1930, Eisenstein falou ao público sobre a possibilidade de filmar “O Capital”:
“O cinema intelectual é a única coisa capaz de suplantar o desacordo entre a fala lógica e a fala imagética. Com base na fala da dialética ‘kino’, a cinematografia intelectual não será a cinematografia de episódios, nem a cinematografia de anedotas. O ‘kino’ intelectual será a cinematografia de conceitos. Será a expressão direta de sistemas ideológicos e conceituais inteiros.
Minha nova concepção do filme é baseada na ideia de que os processos intelectuais e emocionais que até aqui foram concebidos como existindo independente um do outro – arte versus ciência – e formam uma antítese até o presente nunca unida, podem ser reunidos para formar a síntese com base na ‘cinedialética’, processo que só o cinema pode alcançar. Uma fórmula científica pode ter a qualidade emocional de um poema. Eu tentarei filmar ‘O Capital’ de maneira que o trabalhador ou o camponês humilde possam entendê-lo de modo dialético.”
Hostilizado pela plateia, Eisenstein recusou manifestar qualquer oposição à União Soviética. Manteve sua posição de artista e cidadão disciplinado.
Na introdução da autobiografia de Eisenstein – “Memórias Imorais” – seu ex-aluno Herbert Marshall assinala a referência dele aos três períodos que teriam sido os mais trágicos da sua vida: “o malogro de ‘Que Viva México’, a supressão de ‘O Prado de Bejin’ e o banimento da segunda parte de ‘Ivan o Terrível’. Tudo isso por culpa de Stalin, mas Eisenstein jamais o declara abertamente.” Assim como não menciona os cortes feitos em “Outubro” e as alterações que transformaram “A Linha Geral” em “O Velho e o Novo”.
Oksana Bulgakova, por sua vez, trata a autobiografia de Eisentein como sendo um “romance semi-ficcional sobre si mesmo […] em que deu vazão a seu narcisismo”.
As referências elogiosas a Stalin, nos textos do próprio Eisenstein publicados a partir de 1935 em livros e jornais, dão a medida do conflito entre sua face pública e as restrições às quais sua obra foi submetida.
Eisenstein escreveu, por exemplo, que “hoje, quando os que trabalham no cinema são tão favorecidos pelas atenções de Stalin, nosso Partido, nosso governo e todo o país […].”
E quando a filmagem de “Prado de Bejin” foi interrompida por ordem do governo, em março de 1937, fez autocrítica:
“Meu erro está enraizado numa ilusão individualista, profundamente intelectual. Uma ilusão que começa em escala reduzida mas pode levar a grandes enganos e consequências trágicas. Uma ilusão que Lenin não aprovava e que Stalin tem desmascarado constantemente. Uma ilusão de que se pode fazer algo genuinamente revolucionário apenas contando com suas próprias forças, em vez de participar de um coletivo e marchar resolutamente com ele.”
Ano a ano, os elogios a Stalin vão em crescendo: “nada será suficientemente forte para destruir este país, […] um país que está sendo conduzido para vitórias sem precedentes pelo maior estrategista da história mundial – Stalin.”.
E ainda: “Graças à sabedoria e visão do governo soviético e do camarada Stalin, nossa União é o único lugar no mundo em que o artista pode criar em paz […]”.
Para coroar essa trajetória, em 25 de fevereiro de 1947, Eisenstein e Nikolai Cherkasov (intérprete de “Alexandre Nevsky” e “Ivan o Terrível”) foram convocados para uma reunião às onze horas da noite, no Kremlin, com Stalin, Molotov e Zhdonov, em que tratariam da proibição da segunda parte de “Ivan o Terrível”, banido por uma resolução do Comitê Central no ano anterior.
Depois de explicar que a resposta à carta de Eisenstein, mandada em novembro de 1946, estava atrasada e que preferira conversar por estar muito ocupado e sem tempo, Stalin perguntou: “Você estudou história?” E Eisenstein respondeu: “Mais ou menos.”
O minucioso relato dessa conversa foi escrito imediatamente depois da reunião por Eisenstein e Cherkasov. [continua]
[Embora sem uso sistemático de aspas, além da biografia de Eisenstein escrita por Oksana Bulgakowa, “Sergei Eisenstein – A Biography. San Francisco: PotemkinPress, 2001, o texto acima é baseado ainda em Marie Seton, “Sergei M. Eisenstein”. London: The Bodley Head, 1952; “Eisenstein Writings, 1934-1947”, Richard Taylor (ed.). London: British Film Institute, 1996; e Frederic Jameson, “Filmar ‘O Capital’?”, “Crítica marxista nº 30, 2010. ]