questões cinematográficas
Dez 2010 22h15
3 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Esta série de posts acabou se prolongando além do razoável, além de incluindo outras questões, além do interesse de Eisenstein por Joyce. Temo que eventuais leitoras e leitores estejam pensando que enlouqueci. Afinal, o assunto parece ser de interesse restrito. Para poder concluir esta incursão, porém, falta ainda tratar da reunião de Eisenstein com Stalin, a que fiz referência no post anterior; das menções a Joyce nos escritos de Eisenstein e do artigo “Filmar O Capital?” de Frederic Jameson. Tentarei fazer isso de maneira mais resumida possível e, se a anunciada implosão deste blog realmente não ocorrer, inaugurar 2011 com assunto mais ameno.
Pontualmente, às onze horas da noite de 25 de fevereiro de 1947, Eisenstein e Nikolai Cherkasov entraram no escritório de Stalin no Kremlin, para uma audiência sobre “Ivan o Terrível – parte 2”, banido por uma resolução do Comitê Central em 1946.
Além do diretor, do ator e do chefe de Estado da União Soviética, que era Secretário Geral do Partido Comunista desde 1922, participaram também da reunião Molotov (1890-1986), político e diplomata da velha guarda bolshevique, e Zhdanov (1896-1948), político e um dos principais responsáveis pelo chamado Grande Terror do período stalinista, além de ter sido censor da literatura e das artes.
Depois de perguntar a Eisenstein se ele estudou história, Stalin disse que o retrato feito no filme do exército real estava errado, mais parecendo a Ku-Klux-Klan. Eisenstein disse: “Eles usam capuzes brancos, os nossos são pretos.” Ao que Molotov respondeu: “Em princípio, isso não constitui uma diferença.”
Stalin passou a considerações sobre o tratamento dado ao Tsar que considerava ter resultado “indeciso, como Hamlet. Todo mundo diz o que ele deve fazer, ele não toma decisões por si mesmo.” Depois dele ter comparado o Tsar Ivan a Luís XI, e criticado Pedro I, Catarina, Alexandre I e Nicolau I, além de dizer que “Ivan o Terrível foi o primeiro, Lenin o segundo” a introduzir o monopólio do comércio exterior, Zhadonov emendou: “O Ivan o Terrível de Eisenstein parece um neurastênico.”
A reunião foi longa, e a transcrição feita logo depois por Eisenstein e Nikolai Cherkasov, minuciosa.
Para encerrar, transcrevo apenas mais esta intervenção de Stalin:
“Ivan o Terrível foi muito cruel. Você [Eisenstein] pode retratá-lo como um homem cruel, mas você tem que mostrar por que ele que ser cruel. Um dos erros de Ivan o Terrível foi não ter completado a destruição dos cinco clãs feudais chaves. Se tivesse destruído esses cinco clãs, não teria havido nenhum ‘tempo de problemas’ [tempo em que a Rússia foi dominada pelos clãs feudais conhecidos como boiardos, cujo poder Ivan e Pedro o Grande procuraram destruir]. E quando Ivan o Terrível ordenava a execução de alguém, ele passava um longo tempo se penitenciando e rezando. Nesse aspecto, Deus era um obstáculo para ele. Ele deveria ter sido mais decidido.”
Quando Eisenstein perguntou se havia instruções específicas sobre o filme, Stalin respondeu: “Não estou dando instruções mas transmitindo os pensamentos dos espectadores.”
Cherkasov pegou a caixa de cigarros e perguntou a Stalin se podia fumar. Fumar não é proibido, ele respondeu e permitiu que Cherkasov fumasse.
Stalin perguntou pelo coração de Eisenstein e disse que a aparência dele estava muito boa.
Um ano depois, na noite de 10 de fevereiro de 1948, Eisenstein escreveu: “Neste momento estou tendo um enfarte. Aqui, o traço na minha caligrafia. […]”. Morreu sozinho no chão do apartamento, na madrugada do dia 11. A autopsia revelou um coração gasto como se tivesse oitenta anos. E um cérebro parecido com o de uma pessoa de vinte. Ele tinha feito 50 no mês anterior. [continua]
[Embora sem uso sistemático de aspas, além da biografia de Eisenstein escrita por Oksana Bulgakowa, “Sergei Eisenstein – A Biography. San Francisco: PotemkinPress, 2001, o texto acima é baseado em “Eisenstein Writings, 1934-1947”, Richard Taylor (ed.). London: British Film Institute, 1996.]