questões cinematográficas
Jul 2010 04h49
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Armando Freitas Filho volta a escrever, desta vez em estado de graça depois de ter visto "Uma noite em 67". Transcrevo o email dele que me parece traduzir com precisão o sentimento de quem, como eu também, assistiu a transmissão ao vivo da final do Festival da Record:
“Fiquei totalmente tomado pelo filme de Renato Terra e Ricardo Calil, "Uma noite em 67". Afinal, ali estava a trilha sonora da minha mocidade montada por seus próprios criadores. Ouvi-la, sendo feita "ao vivo", foi encontrar o tempo perdido, foi encontrar comigo mesmo, aos 27 anos, hesitando entre "Roda viva" e "Alegria Alegria", e já com saudade de "Eu e a brisa", de Johnny Alf. A primeira, de Chico, intuía o que estava por vir, um ano e pouco mais tarde; a segunda, de Caetano, como que combatia com alegria, e desafiava, com o sol em punho, a noite ameaçadora que se avizinhava, e que caiu em 13 de dezembro de 1968: por que, não? Se naquele instante era imperioso escolher, era necessário votar, pois já não votávamos para nada, hoje posso dizer que preciso de todas as músicas, que aquele conjunto era um coral variado que me acompanhava, que me acompanha até agora, que não me deixa ficar sozinho. Só senti falta de Nara Leão (minha musa inalcançável, como devem ser as musas) e de Sidney Miller cantando com ela a melhor letra, segundo o júri, daquela noite decisiva: "A estrada e o violeiro", uma de suas composições inesquecíveis.
Com o abraço do Armando.”
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Feita essa concessão à nostalgia – afinal ninguém é de ferro –, faria algumas ressalvas, sem deixar de reconhecer o mérito da simplicidade conseguida na montagem, o valor do resgate de cenas de arquivo preciosas, e a sabedoria de limitar o filme praticamente à noite da final, deixando de lado o projeto de tratar de assunto tão vasto quanto a era dos festivais.
Além de não incluir duas finalistas, “Uma noite em 67” abre mão de uma reflexão explícita própria, limitando-se à postura discreta de ser porta voz dos participantes. Passados mais de quarenta anos, não teria sido possível, além de rememorar, fazer uma tentativa de interpretação histórica dos acontecimentos? Com fé no valor explicativo do testemunho, Renato Terra e Ricardo Calil preferiram ouvir, sem arriscar uma visão pessoal retrospectiva. Com isso, no final do filme, as principais perguntas continuam no ar. Para o espectador que queira algo além de uma celebração, o documentário pode resultar insatisfatório.
“Uma noite em 67” foi produzido pela Videofilmes, da qual João Moreira Salles, editor de piauí, é sócio