questões cinematográficas
Mai 2010 16h09
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Ao escrever sobre “Utopia e Barbárie” no “Globo”, Érico Reis extrapolou sua função de crítico. Além de dizer que “é um belo doc sem roteiro” que “atinge um grau de abrangência bem satisfatório”, afirmou que “seria mais digno suprimir” um depoimento, sem nomear a qual estava se referindo.
A insinuação despropositada, além de misteriosa para quem não tivesse visto o filme (embora evidente para quem o assistira), deu margem a uma carta de Silvio Tendler, diretor de “Utopia e Barbárie”, também publicada no “Globo”, cinco dias depois (28/4/2010). Na carta, Silvio Tendler transforma a petulância de Érico Reis, em pedido de censura “contra a presença de uma entrevistada que ele julga não ser apropriada ao filme”. O crítico estaria querendo mutilar o filme ao sugerir “a amputação de um personagem”, que Silvio Tendler acaba identificando, apenas pelo primeiro nome, como sendo a “Dilma”.
A reação de Silvio Tendler, embora compreensível, parece desproporcional ao comentário inadequado de Érico Reis. Quando vi “Utopia e Barbárie” pela primeira vez, também estranhei o destaque dado a Dilma Rousseff, que intervém quatro vezes ao longo do documentário, mais do que a maioria dos outros entrevistados. Acredito que, neste momento, essa estranheza seja generalizada. Ao incluir a ex-ministra e atual pré-candidata à Presidência, Silvio Tendler perturba a recepção do seu próprio filme, por ser difícil conceber que Dilma Rousseff teria sido incluida se além de ungida por Lula não tivesse a perspectiva de poder vir a ser presidente da República.
Essa pequena controvérsia prende-se a uma circunstância momentânea – estarmos em ano eleitoral e Dilma Rousseff ser candidata. Em qualquer outra época, a inclusão dela passaria despercebida na miscelânea heterogênea de mais de 60 entrevistados, que vai do general Giap ao cineasta Sérgio Santeiro. Afinal, sendo concedidos pouco tempo a cada um, poucos conseguem articular algo de mais consistente.
O método de “Utopia e Barbárie” é o da colcha de retalhos. Além de reciclar filmes de outros diretores e imagens de arquivo, costura pequenos trechos de depoimentos para formar um vasto painel. O que interessa a Silvio Tendler não é o entrevistado em si, mas a adequação do que tem a dizer ao objetivo pré-determinado do documentário.
Voltando o olhar para barbáries e utopias de Hiroshima e Auschwitz ao início deste século, “Utopia e Barbárie” reincide, de certa maneira, em um equívoco que custou muitas vidas. Na superfície pode haver fatores de identificação entre experiências históricas diversas, mas mimetizar o que ocorreu em contexto social e político diverso levou a desastres notórios. Ao compor o mosaico das lutas libertárias do século XX, “Utopia e Barbárie” volta a sugerir a existência de um suposto elo unificador que justamente está na raiz da construção mítica. Faltou assinalar as profundas diferenças, por baixo das semelhanças aparentes.
De abrangência desmesurada, “Utopia e Barbárie” é um almanaque, parecido com retrospectivas dos acontecimentos do ano que televisões costumavam fazer com regularidade. Apesar do viés ideológico não ser o mesmo, é a isso que se reduz o esforço de Silvio Tendler. Ao tentar dar conta de uma vastidão de eventos, reserva pouco tempo para refletir a respeito do significado e das implicações de cada um deles. Passa batido, por exemplo, ao se referir, da primeira vez, à Revolução Cultural chinesa, só comentando os horrores cometidos no final, numa segunda menção. Nesse caso, ao menos, as ilusões são revistas, o que não ocorre na maioria dos demais.
“Utopia e Barbárie” é um documentário ambicioso. Tenta entender as raizes das ilusões perdidas e encontrar base para novas esperanças. O empenho e a generosidade de Silvio Tendler não evitaram, porém, o que para mim resultou em um grandioso equívoco.