carta da bósnia

VÍTIMAS E ALGOZES LADO A LADO

A complicada coexistência na Bósnia, trinta anos depois da guerra
Imagem Vítimas e algozes lado a lado

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Entre 1992 e 1995, a Bósnia foi palco da guerra mais mortífera no continente europeu depois da Segunda Guerra Mundial: 100 mil mortos, 20 mil mulheres estupradas, mais de 2 milhões de refugiados. Quase 11 mil pessoas morreram durante o cerco em Sarajevo, que durou 1.425 dias – o mais longo do século XX, ultrapassando os de Stalingrado e Leningrado, na antiga União Soviética. Campos de concentração e genocídio voltaram à realidade europeia, menos de cinquenta anos depois do Holocausto. A Bósnia foi arrasada. Quase 40% dos mortos eram civis.

A guerra foi uma consequência da desintegração da Iugoslávia, então composta por seis repúblicas: Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Croácia, Eslovênia e Sérvia. Tudo começou em 1991, com movimentos separatistas da Eslovênia e da Croácia. Na Bósnia e Herzegovina, a maioria da população também votou pela separação da Iugoslávia.

Porém, quando a Europa e os Estados Unidos reconheceram o novo país, os ultranacionalistas sérvio-bósnios proclamaram uma nova república para se tornarem independentes da Bósnia – e começaram a expulsar e matar quem não era sérvio-bósnio. Contavam com milícias sérvias e com o apoio dos líderes sérvios que controlavam o governo iugoslavo, cujo Exército era o quarto maior da Europa, para assassinar croatas-bósnios e bosníacos, como são chamados os bósnios de credo muçulmano.

Apesar das atrocidades genera­lizadas, as principais vítimas dos mas­sacres foram os bosníacos: 80% dos mortos. O conflito durou três anos e meio e se encerrou com os Acordos de Paz de Dayton, cuja assinatura final ocorreu em dezembro de 1995.

Na piauí deste mês, Simone Duarte relata sua viagem de 1,5 mil km pelo passado e pelo presente da Bósnia e Herzegovina, com objetivo de compreender a situação atual do país e a coexistência de vítimas e algozes. Como em Prijedor, o município recordista mundial em número de criminosos de guerra indiciados: 161. Destes, 65 foram condenados por crimes de guerra pelo Tribunal Internacional ou em julgamentos na própria Bósnia e Herzegovina. A maioria dos condenados já cumpriu a pena. É comum criminosos de guerra e suas vítimas cruzarem nas ruas.

 “Uma noite dessas eu estava passeando com uma amiga, e um homem se aproximou, dizendo que era ótimo me reencontrar. Perguntou como eu estava e sugeriu que um dia desses fôssemos tomar um café”, conta Nusreta Sivac, de 74 anos, a única dos cinco juízes muçulmanos da cidade que sobreviveu aos massacres cometidos pelos sérvio-bósnios. “Minha amiga perguntou quem era aquele homem. Expliquei que era um dos guardas do campo de concentração de Omarska e que ele tinha sido condenado a dezoito anos de prisão graças ao meu depoimento. Nunca aceitei o convite para o café.”

Também o ativista Edin Ramulić já se deparou nas ruas com seus algozes. “Ontem, vi na rua o responsável pelo massacre de Korićani que eu ajudei a colocar na prisão”, ele conta. “Na época, ele estava foragido, e descobri o seu esconderijo. A família dele me acusa publicamente de tê-lo denunciado. Mas ele ainda não cumpriu toda a pena, estava andando tranquilamente por aí e me viu. Imediatamente publiquei um post com a foto dele no Facebook e reportei à Justiça.”

Muitos familiares de vítimas nunca puderam enterrar seus mortos. Os trabalhos de identificação de pessoas assassinadas e cujos corpos foram ocultados em valas no campo continua até hoje. Como os sérvios enterraram e desenterraram os corpos sucessivas vezes para apagar os indícios dos crimes, os ossos de uma mesma pessoa estão espalhados por diversos lugares. O caso mais extremo foi o de uma vítima cujos restos mortais foram encontrados em cinco valas diferentes.

Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem neste link.


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