A ARTE DO DIÁLOGO

O Convite, de Olivia Wilde, tem uma cinematografia simples, sem ângulos ou cenários surpreendentes
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Vultos brancos aparecem na tela. Mãos tocam um piano, acompanhadas por risos e pelo som das notas. Mas o que parece um sonho idílico logo é interrompido. De repente a câmera foca em Joe (Seth Rogen) estirado no chão, tentando aliviar a dor nas costas e a tensão após um dia exaustivo do trabalho que odeia (ele é professor de música). Sua esposa Angela (Olivia Wilde) o ajuda a se levantar e conta que os dois receberão um casal para jantar – Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), vizinhos que fazem barulhos excessivos durante o sexo, algo que irrita Joe há muito tempo. Marido e mulher discutem: ele está cansado da rotina, enquanto Angela está angustiada com a monotonia da vida que levam.

Assim começa O convite, terceiro filme dirigido por Olivia Wilde. O início dá a impressão de uma premissa cômica, mas o longa é mais ambivalente do que isso. O humor ácido, sobretudo nas falas de Rogen, nasce da familiaridade das situações. A dinâmica entre ele e Wilde sustenta boa parte do filme porque os dois não parecem estar interpretando uma sucessão de piadas soltas, como em muitas comédias atuais. Há intimidade até quando seus personagens discutem. Joe e Angela conhecem os hábitos um do outro, sabem como provocar um ao outro e, ao mesmo tempo, parecem não saber mais como recuperar a proximidade que perderam.

O Convite tem uma cinematografia simples, sem ângulos ou cenários surpreendentes. É um feijão com arroz que funciona bem devido aos seus diálogos – é aí que está toda a graça do filme. Quem assiste atentamente pode achar que o roteiro funcionaria bem se pudéssemos apenas escutá-lo ou lê-lo como literatura – e não estaria errado. O longa é uma adaptação de Sentimental, do cineasta espanhol Cesc Gay, inspirado na peça teatral Els veïns de dalt (Os vizinhos de cima, em catalão), escrita por ele mesmo em 2015. A origem teatral ajuda a explicar a importância dos diálogos: a direção não tenta esconder a simplicidade da encenação, e usa os quatro personagens para fazer a história oscilar entre o riso e o desconforto.

A certa altura, Hawk e Piña revelam o motivo de terem aceitado o convite para jantar: a vontade de pedir desculpas pelos barulhos e convidar Joe e Angela para uma experiência alternativa, uma “festa sexual”, nas palavras de Hawk. Angustiados com o próprio relacionamento, Joe e Angela aceitam, mesmo exageradamente nervosos. Mas a experiência sexual, em vez de trazer prazer ou novidade, produz situações constrangedoras que arrancam risos ou dão vontade de cobrir o rosto, de tanta vergonha alheia.

O sexo, porém, interessa menos como fonte de humor do que como forma de expor a crise entre os dois. É quando o filme deixa de tratar o constrangimento como piada que sua comédia ganha uma camada mais melancólica. O final tem pouquíssimos diálogos. Wilde, que passa grande parte do filme como uma mulher exagerada e visivelmente ansiosa, e Rogen, dono de um sarcasmo quase cirúrgico, mudam de pele. Ficam sérios e fechados, mas geram mais empatia. A química entre os dois se intensifica justamente quando o humor desaparece.


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