piauí recomenda
Jun 2025 11h09
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A fim de desafogar o orçamento, Luisão (Ailton Graça) se muda com a mulher e os dois filhos para uma sala comercial na zona urbana de Palmas, capital do Tocantins. A sala, onde antes funcionava um bar, é minúscula, sem banheiro, revestida com uma vitrine que dá de cara para a rua, localizada nas proximidades da escola onde os garotos estudam. Em outro episódio, dessa vez na casa de quintal com chão de terra, o patriarca precisa providenciar um muro para impedir que o cachorro da família continue devorando as galinhas da vizinha. Ele se alia ao enrolado Pablo (Otávio Muller), seu amigo-irmão ainda mais gaiato, e cria um paredão enfileirando orelhões antigos descolados num ferro-velho, um vexame para sua esposa Conceição (Dira Paes). Tal qual a Rochelle da série americana Todo mundo odeia o Chris (mas muitíssimo mais pobre), Conceição detesta que insinuem que os Vieira estão na pior, e as tentativas de disfarçar o óbvio só tornam as agruras mais evidentes. A gambiarra dos orelhões é então trocada por outra muito mais nociva: uma cerca elétrica de instalação caseira, cujos efeitos de choque se estendem aos portões da vizinhança, e que ninguém nunca consegue solucionar.
As histórias encadeadas na série são tão insólitas que parecem inverossímeis, mas essa impressão leva uma facada ao final de cada episódio, quando a frase “baseado em fat…” é riscada quase por inteiro, restando as últimas letras, “…os reais”. E então aparecem os verdadeiros Pablo, Luisão e Conceição, relembrando que a realidade foi tudo aquilo mesmo e muito mais (mais absurda, mais difícil, mais prolongada, com mais consequências). Quem conduz a conversa é o criador da série, o humorista Paulo Vieira, filho do casal, vivido na história pelo menino Yves Miguel, e em alguns momentos por ele próprio. Coerente com a trajetória luminosa do artista, a série é muito engraçada, uma qualidade que se tornou rara no humor da tevê, que anda excessivamente dedicado a emular o tom dos memes.
A comédia desbragada em meio ao contexto sócio-econômico dramático da família só é incompreensível para quem nunca viveu em alguma medida no aperto. Ao jogar luz no que falta, a série mostra menos, mas deixa entrever as riquezas da família – o afeto, a esperança e uma total impossibilidade de solidão, para o bem e para o mal. Conta com a inteligência de um roteiro honesto, que não faz média, e de atores de primeira linha em grande desempenho. Por enquanto, está restrita ao Globoplay, menos acessível aos Pablos e Luisões de cada esquina.