01 Jul 2026
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Mayah está em seu limite emocional. Ela tem mais de 30 anos, sente-se cansada, frustrada com os rumos da própria vida, angustiada com as notícias de um mundo em ruínas. Sustenta um relacionamento em que não é feliz e está farta das cotidianas microagressões racistas que enfrenta no trabalho, onde é uma das poucas profissionais negras. Numa manhã, explode, é demitida e precisa lidar com os desdobramentos de sua raiva. E o que parecia ser o fundo do poço revela-se uma oportunidade para percorrer uma surpreendente e comovente jornada de autoconhecimento. Uma chance de entender a fundo o que está se passando em sua pele.
A protagonista, interpretada por Taís Araújo, com vergonha de voltar para a casa dos pais e revelar a maré de fracassos que enfrenta, e sem muitas alternativas, decide alugar um quarto num edifício na periferia cuja proprietária é a enigmática imigrante jamaicana Mildred. Na tentativa de se encaixar e pertencer a um mundo hostil àquilo que ela é, uma mulher negra, Mayah foi acumulando dores e feridas. Na companhia de Mildred, uma mulher também negra e mais velha, que a princípio se mostra silenciosa e reticente, Mayah vê a chance de refletir sobre seu lugar no mundo. E, com isso, abrir, limpar e talvez curar feridas. Aos poucos, uma se abre para a outra; trocam confidências e confissões do passado. Na figura de Mildred, uma liderança comunitária forte na vizinhança, Mayah reflete sobre sua racialização e percebe que ser uma pessoa negra na sociedade é algo que se constrói em comunidade. Mayah consegue um novo emprego e conhece Kemi, uma colega de trabalho também negra e mais jovem que, como uma típica integrante da geração Z, mostra a ela que suas existências e identidades não precisam da permissão de ninguém.
E assim, entre a mais nova e a mais velha, Mayah vai descobrindo uma nova pele. Um jeito de existir num mundo com dores, mas também com alegrias e prazeres. Apesar de acessar inicialmente um profundo pessimismo, a peça, de autoria da dramaturga, atriz e cantora de jazz Amanda Wilkin, sugere que a saída para o mundo áspero e sufocante está no fortalecimento dos laços comunitários, na amizade e no afeto.
É bonito de assistir, no palco, ao muito que Taís Araújo consegue alcançar como atriz quando está dentro de um papel em que se sente confortável. O texto parece dialogar com sua própria trajetória e os desafios que enfrentou em mais de trinta anos de carreira. Ela explora com êxito habilidades que a tevê raramente lhe permite exercitar, como o humor e um sarcasmo rascante. As presenças cênico-musicais de Layla e Dani Nega (que assina a direção musical, os arranjos eletrônicos e a criação musical do espetáculo) enriquecem a dramaturgia e fazem da montagem uma encenação moderna e vibrante. A direção de Yara de Novaes é precisa e pulsante. A cenografia de André Cortez é cheia de soluções brilhantes para a jornada de montanha-russa da protagonista, e cada escolha da iluminação, assinada por Gabriele Souza, carrega uma função dramática muito própria. O mesmo vale para o desenho de som de Arthur Ferreira e Gabriel Salsi. Tudo trabalha de forma muito afinada para a humana e arrebatadora experiência de assistir a Mayah trocando de pele. A peça estreou no Rio numa curta temporada de casa lotada e atualmente está em São Paulo, no Teatro Raul Cortez, e segue em cartaz até o dia 5 de julho. Os ingressos já estão esgotados, e possivelmente só estarão disponíveis em sites de revenda, mas a peça terá ainda duas datas em Belo Horizonte (dias 8 e 9 de agosto, no Centro Cultural Unimed-BH) e uma temporada mais extensa no Teatro FAAP em São Paulo, de 13 de agosto a 6 de setembro.