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Mai 2025 10h14
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No cinema brasileiro, as cinebiografias ficcionais de pessoas famosas costumam ser decepcionantes. Com frequência, os roteiros são previsíveis, sem surpresas, seguindo cronologicamente os acontecimentos mais óbvios da vida dos retratados, o que resulta quase sempre em versões audiovisuais da Wikipédia. Atores se perdem em caricaturas medíocres, enquanto diretores parecem mais preocupados em satisfazer as famílias que cederam os direitos da história do que em criar uma obra cinematográfica pungente. Mas eis uma grata exceção: Homem com H, filme que retrata a trajetória do cantor Ney Matogrosso, foge desse molde. Esmir Filho, responsável pela direção e pelo roteiro, parte de um conceito fílmico, de uma ideia, para elaborar seu discurso.
Ele compreende a complexidade do personagem que tem nas mãos e se propõe a fazer cinema – não um tributo burocrático. Constrói, sem pressa, a história de um homem que não se submete. E que suplanta os desafios de seu tempo com coragem para se afirmar o que é: homem, bicho, artista, livre. Do menino arredio crescido no pós-guerra que não se submete ao autoritarismo e a imposição de uma masculinidade danosa imposta pelo pai; o filho de militar que larga tudo para viver de teatro respirando na janela de liberdade que os anos 1960 ofereciam; o artista transgressor que confrontava a moral e hipocrisia da ditadura militar com seu corpo elétrico; o homem com H que se permitia amar e trepar com quem quisesse, encarnando e radicalizando a ideia de liberdade perseguida por sua geração.
Foi também o homem que, mesmo sob a sombra funesta da disseminação do vírus HIV, não se rendeu ao sentimento de culpa e de desesperança que abateu parte da comunidade gay daquela época. “Esse vírus veio para nos matar”, diz Marco de Maria, parceiro de Ney interpretado pelo promissor Bruno Montaleone. “Não, o vírus veio pra mostrar que a gente existe”, responde Jesuíta Barbosa, que interpreta Ney com entrega rara. Nenhuma força moral consegue conter o protagonista. Ney busca afirmar o direito de existir – mesmo em tempos sombrios. O resultado é notável: Esmir Filho e Jesuíta Barbosa constroem um retrato longe da caricatura. O ator carrega no olhar e na fisicalidade algo profundamente fiel ao biografado – há um reconhecimento de pele, de um jeito de corpo, mas, principalmente, de um olhar e uma respiração comum, como se seus corpos já tivessem dançado a mesma dança, como se seus pés de alguma forma já tivessem dado os mesmos passos. Jesuíta Barbosa compreende e reconhece Ney Matogrosso.
A dublagem das músicas é impecável e as cenas musicais são eletrizantes. Homem com H marca a maturidade de Esmir Filho, que já revelava sua verve autoral em Os Famosos e os Duendes da Morte (2009). Ney é uma das figuras mais libertárias da cultura brasileira, e o diretor entende que a melhor maneira de homenageá-lo é com ousadia e inventividade: sabe extrair o essencial de cada momento, da atuação, da posição dos corpos, da luz e do enquadramento. Dirige e escreve com elegância – nada é excessivo, quase tudo está no lugar certo. Em uma cena, faz até um aceno à cineasta francesa Claire Denis e seu filme Beau Travail. Homem com H também reafirma o talento de Jesuíta Barbosa, revelado ainda jovem nos filmes de Karim Aïnouz. Acima de tudo, o longa mostra que, para realizar uma grande cinebiografia, não basta apenas ter autorização da família e pesquisa histórica. É preciso ter uma ideia – e transformá-la, não em burocracia, mas em cinema.