piauí recomenda
Dez 2022 11h34
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Certa vez, numa aula matinal, a professora entrou atrasada e chorando muito. Perguntamos o motivo, ela contou: precisou parar para socorrer uma mulher que estava sendo estuprada na praça ainda vazia àquela hora. A professora ouviu os gritos, gritou também, o agressor fugiu. Ela ajudou a vítima a chamar uma ambulância e esperou o socorro. A nós, suas alunas, confidenciou que hesitou em parar, socorrer, ajudar. Mas parou. “Podia ser eu.”
Pelos caminhos tortos da memória, foi dessa história que me lembrei quando li O Acontecimento, de Annie Ernaux. Vencedora do Nobel de Literatura, Ernaux relata nesse livro curto e poderoso sua experiência de se submeter a um aborto clandestino na França de 1963. Conta o desespero ao engravidar inesperadamente de um namorado que acabara de conhecer e como decidiu, sozinha, interromper a gravidez. Reconstitui o encontro com a “fazedora de anjos” e a consulta na qual um médico a quem pediu socorro acabou prescrevendo, sem que ela soubesse, um antiabortivo. Narra, por fim, o apoio que recebeu de algumas (poucas) mulheres e o vazio depois de uma quase morte. Além do desafio de seguir, sempre seguir.
Ernaux faz de sua história um caminho para abordar questões universais. E o conjunto de sua obra acaba mirando dores com as quais nós, mulheres, convivemos cotidianamente, seja a gravidez indesejada, a violência, o aborto, o estupro. Ou simplesmente a certeza de ser alguém fora do lugar. Com as dores, há espaço também para a solidariedade feminina, que hoje chamamos de sororidade, trazida pela mão estendida de outra mulher que, naquele ou em outro tempo, viveu e sofreu as mesmas ou outras dores, não importa. Ao finalizar O Acontecimento, não pude deixar de me lembrar das brasileiras de idades variadas que morrem em abortos clandestinos, das que lutam pelo direito ao aborto e da solidariedade inabalável dos serviços de aborto legal em funcionamento no Brasil.
É uma leitura que se faz com fluidez, mas não sem sofrimento. A prosa de frases curtas e linguagem simples funciona como uma agulha com a qual Ernaux vai pinçando lembranças aflitivas, que ela mesma só conseguiu descrever quando já era uma escritora consagrada em seu país (O Acontecimento foi publicado em 2000 na França).
Algumas dores são assim, exigem tempo para serem revividas. Porque sim, contar é uma forma de viver. E, no caso de Ernaux, cuja escrita costura a vida, a frase de Saramago serve à perfeição: “Escrever é um modo de viver, mas pressupõe ter vivido.”