piauí recomenda
Mai 2025 09h43
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O Rio de Janeiro costuma, em termos de MPB, produzir um tipo de música bastante conhecida. Bandas ou artistas solo fazem referência sempre a nomes célebres da bossa nova, do samba e do tropicalismo. E não há nenhum demérito nisso. Só torna a estreia do quarteto Vera Fischer Era Clubber mais interessante. O álbum de sete músicas até usa os componentes básicos da identidade da cidade – como em Altinha, samba dark que dá boas-vindas ao ouvinte –, mas ambienta a temática tropical em batidas eletrônicas, numa espécie de revival dos anos 1990 e 2000 de Fausto Fawcett e Noporn.
À frente da banda está Crystal Duarte, cineasta de formação e artista performática que toca em temas espinhosos, como drogas, suicídio e sexualidade. Assim como em sua produção pessoal, Duarte, num estilo spoken-word, traduz a cultura jovem para as sete canções que compõem o álbum de estreia, Veras I. Pelo seu estilo vocal, costuma ser comparada a Liana Padilha: as letras não são cantadas, são faladas. Há histórias sobre amizades homoafetivas (como na quarta faixa, em que ela discute a dubiedade do que há entre as amigas Coca e Ína: “São irmãs, são amigas?/ Ou essas duas se pegam escondidas?”), uso de loló (“Não era amor/ Era onda de loló”) e uma ode às referências que inspiram sua persona dos palcos (“Divas pop que são a minha essência/ Paixões que cultivo desde a adolescência”).
Uma despretensão reina tanto nas letras, quanto na produção. São bem pensadas (até porque boas sacadas são o forte do disco) e não parecem forçadas. Crystal, que é, além de tudo, nome conhecido da cultura notívaga carioca, aparenta sempre uma postura blasé, como se conversasse com seus colegas de pista, de praia e de vida. E, de fato, os maiores interessados na banda, que conta, ainda, com Pek0, Malu e Vickluz, todas apelidadas carinhosamente como Veras, são os que compartilham da mesma decadência da noite em inferninhos. Isso, porém, não torna a obra menos interessante para quem não frequenta as mesmas casas que Crystal e companhia. Vale a ouvida por oferecer um frescor à música carioca.
Desde o lançamento do disco, Vera Fischer Era Clubber tem sido cada vez mais convocada aos palcos paulistanos e cariocas. O disco é um convite a vê-las ao vivo. As músicas são mais efetivas ouvidas pessoalmente, quando Crystal e suas amigas exploram suas atitudes debochadas e ácidas para falar da vida que levam.