piauí recomenda
Mar 2025 16h55
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
O segundo capítulo de Casa de família, romance mais recente de Paula Fábrio, transcorre em novembro de 1983 e abre com a seguinte declaração: “Tenho 13 anos e meu maior desejo é arrebentar esse pedaço de fio encapado e estrangular Nilcélia.” Quem fala é Soraia, a narradora protagonista do livro. Nilcélia, a mulher que ela gostaria de estrangular, é uma empregada doméstica que também tem 13 anos e veio da Bahia trabalhar em São Paulo. Nilcélia cuida da mãe de Soraia, uma mulher acamada com uma doença degenerativa. Cabe à jovem doméstica manter a enferma asseada e mover o seu corpo de mais de 100 kg no lençol sujo de urina.
Em 2019, Soraia, adulta e doente da memória, começa a escrever uma espécie de diário, a fim de recuperar o que sua família viveu durante os dezessete anos que sua mãe passou doente. Quando tudo começou, coube ao pai, um bancário de salário modesto, prover para o sustento dos seus filhos e o cuidado de sua mulher. Tudo isso com a hiperinflação da era Sarney. Diante das dificuldades, o homem recorre ao dinheiro que tinha guardado na poupança, mas o confisco no governo Collor chega como nova derrota para a família. O sobrado fica decadente. A filha Soraia termina os estudos em uma escola pública. E as empregadas da casa, claro, recebem salários cada vez menos dignos.
É o medo de estar ficando tão pobre quanto as funcionárias que faz Soraia sentir nojo delas. Adolescente, a narradora tinha mania de bisbilhotar o pequeno quarto em que dormiam aquelas mulheres tão jovens quanto ela, tarefa facilitada pela porta mal fechada com um fio de cobre. Adulta, ela visita o quarto das empregadas para tentar reorganizar suas recordações familiares. “Eu invadia a intimidade delas e com isso muitas vezes partilhava da mesma solidão que elas. No passado, eu as via como inimigas ou simplesmente como um estorvo. Agora, pelo contrário, sinto uma tristeza infinita por ter sido ingrata.”
A combinação de repulsa e empatia da protagonista demonstra a complexidade do livro de Fábrio. A narradora lembra da vez que encontrou um coração desenhado com os nomes das empregadas Emília e Leila na parede do quartinho em que elas dormiam. As duas estavam namorando. E a família de classe média, que desprezava o amor homoafetivo, respirou aliviada ao descobrir a relação das empregadas. O motivo: como elas dormiam juntas, não tinham pressa em tirar folga.