DE VOLTA PARA CASA

Livro descreve retorno dos mantos tumpinambás ao Brasil após séculos na Europa
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Os mantos tupinambás estão no centro da luta dos povos indígenas pela preservação da sua cultura e no combate à herança do colonialismo. São trajes cerimoniais que eram tradicionalmente confeccionados pelo povo Tupinambá a partir de milhares de penas de pássaros, dentre as quais se destacavam as do guará, de um vermelho profundo. Os mantos despertaram o interesse de europeus que visitaram o Brasil a partir do século XVI, foram saqueados por eles e passaram a integrar o acervo de museus no exterior. Os tupinambás, que viviam de São Paulo ao Ceará e se contavam na casa das centenas de milhares, chegaram a ser (indevidamente) considerados extintos, e os mantos deixaram de ser fabricados. Os onze remanescentes que se conheciam foram fabricados séculos atrás e pertenciam à coleção de museus da Itália, França, Bélgica, Suíça, e Dinamarca. Só no Museu Nacional da Dinamarca estavam cinco exemplares, um dos quais foi devolvido ao Brasil em 2024, graças a uma articulação diplomática que envolveu a participação ativa dos indígenas. 

Agora, o leitor brasileiro pode ter acesso à história da repatriação contada por uma de suas protagonistas, Glicéria Tupinambá, no livro O feitiço do fio – a busca pelo manto tupinambá (Zahar). A autora é uma professora, pesquisadora e artista visual que retomou a confecção dos mantos e ajudou a reconectar os tupinambás com essa tradição. Ela convida o leitor a enxergar o manto menos como objeto de uso ritual ou peça de museu e mais como um ancestral dos indígenas dotado de vontade e agente de sua história. Glicéria dialogou com o manto em sonhos e encontrou nele um guia para as conversas que teve com os dinamarqueses e com curadores de museus europeus. Depois de aprender as técnicas de fabricação, ela tem agora planos de confeccionar treze novos mantos. Os trajes são descritos como objetos em movimento, movidos eles próprios pelo feitiço do fio que dá título ao livro, que a autora define como “a força que o chamado do manto tem de reunir pessoas, instituições e objetos ao redor dele para seguir seu caminho da retomada”. 

O feitiço do fio é derivado da pesquisa de mestrado em antropologia social que Glicéria Tupinambá fez no Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O orientador formal foi o professor João Pacheco de Oliveira, mas ela afirma que quem a guiou de fato foi o próprio manto. Capítulo importante do movimento pela decolonização dos acervos, o livro é um exemplo convincente de como a sociedade só tem a ganhar se os indígenas tiverem tratamento mais respeitoso e ocuparem mais espaço nos museus, universidades e centros de pesquisa, conforme defende a autora.


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