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DESEJOS DE VINGANÇA

Estreia de Raphael Montes como autor de novela, Beleza Fatal aborda tanto temas atuais quanto atemporais
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Quem consome rede social e cultura pop se deparou nas últimas semanas com memes e bordões oriundos de Beleza Fatal, da Max, a primeira novela feita para o streaming pela produtora americana. A trama é assinada pelo escritor Raphael Montes e dirigida por Maria de Médicis, sob supervisão de Silvio Abreu. Gira em torno de dois desejos de vingança: o de uma menina que se vê abandonada e órfã depois que sua mãe foi usada por uma prima golpista e inescrupulosa, e o de um casal que perdeu a filha após uma cirurgia de lipoaspiração feita por médicos que não honram o diploma. Costurando as duas tragédias, a protagonista da novela, Lola (Camila Pitanga), usa a prova de um crime para chantagear e conquistar o seu maior sonho, o de ser dona de uma clínica de estética.

Raphael Montes é um dos raros escritores com sucesso de crítica e de público. Ele venceu o Prêmio Jabuti em 2020 na categoria “Romance de Entretenimento” com Uma Mulher no Escuro. A sua novela atual trata de muitos temas – alguns atuais e outros atemporais: a busca pela fama, a vida de mentira das redes, os exageros e absurdos do universo das clínicas de estética, a corrupção policial, as brigas entre irmãos em torno de poder e dinheiro. Há a discussão assustadoramente real e contemporânea em torno do gaslighting praticado pelo Dr. Rog (Marcelo Serrado) contra a sua mulher, Gisela (Julia Stockler), com consequências físicas e psicológicas devastadoras.

Os capítulos se equilibram bem entre o drama e o humor. O casal protagonizado por Elvirinha (Giovanna Antonelli) e Lino (Augusto Madeira) é puro 171: eles dão churrascos usando carnes surrupiadas de mercados onde dão batidas se passando por agentes da vigilância sanitária; Lino trabalha como motorista de aplicativo usando carros alheios; Elvirinha dá consultas charlatonas como cartomante.

O roteiro traz referências e inspirações de outras obras. Há a criança-tornada-adulta contra a futura patroa (Nina e Carminha, da novela Avenida Brasil, da Globo), um pai ambicioso e sem pudores que estimula a briga por sua sucessão entre os filhos (Succession, série aclamada da Max), e os parentes que conseguem ir trabalhar dentro da residência de quem querem se vingar (Parasita, longa metragem sul-coreano, melhor filme do Oscar em 2020). A novela mostra cenas de sexo, com duas ou mais pessoas, tem humor ácido e cenas de violência que não são pasteurizadas. A hipocrisia é um tema subjacente à trama, do médico perfeito e conservador que se apaixona por um funcionário à investigadora séria que se vende para aniquilar um caso.

Apesar de suas qualidades, Beleza Fatal tem alguns descuidos de ambientação. Embora se passe no Rio, a cena em que o Dr. Rog foge supostamente na Lapa carioca foi gravada na região da Praça da República, em São Paulo. Há imagens aéreas de casas enormes que supostamente seriam do Rio que são, na verdade, residências do bairro do Pacaembu.

Com Beleza Fatal, Montes, carioca do Méier, se lança como um dramaturgo capaz de deixar a Rede Globo mordida de ciúmes. A maior produtora de audiovisual do país tem amargado problemas com as produções recentes. A atual novela das 9, de autoria de João Emanuel Carneiro, Mania de Você, tem uma trama confusa e baixa audiência (Montes trabalhou como assistente de Carneiro em A Regra do Jogo, de 2015). A Globo quer se redimir com o remake de Vale Tudo, que estreia no dia 31 de março e será o principal produto para celebrar os sessenta anos da emissora. Mas bater o sucesso da politicamente incorreta Beleza Fatal não será nada fácil.


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