01 Jul 2026
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A série Game of Thrones, baseada na saga homônima de imenso sucesso escrita por George R. R. Martin, é conhecida pelos dragões, batalhas sangrentas, e cenas de sexo incestuoso. Em meio a tanta pirotecnia visual, é fácil esquecer que muito do apelo da narrativa – e o que a diferencia de tantas histórias do gênero da fantasia – tem mais a ver com o entendimento apurado que o autor demonstra em relação às crenças fundacionais que sustentam uma civilização, e como o monopólio dos meios de violência se relacionam a elas. Game of Thrones é essencialmente uma grande crônica política e conta a história de uma crise de legitimidade. A habilidade de Martin reside em não trivializar essa crise, e mostrar – como uma espécie de Maquiavel mais divertido – que crises não acontecem todos os dias, e que às vezes elas precisam de décadas ou séculos até se cristalizarem numa tempestade perfeita de tramas e subtramas que se entrelaçam.
Por causa do sucesso comercial da série, a HBO tem investido em diversos spin-offs da adaptação nos últimos anos. O mais famoso deles – A casa do dragão, que se passa cerca de duzentos anos antes dos acontecimentos de Game of Thrones e narra uma batalha fratricida do clã Targaryen em busca do poder – não tem a mesma sofisticação narrativa da série anterior. Não à toa os produtores têm optado, no início desta terceira temporada, por aumentar o nível de violência retratado.
Outro spin-off mais modesto, porém, lançado no início deste ano, vale a pena ser visto. O cavaleiro dos sete reinos conta a história de Sir Duncan, o Alto (Dunk), e seu fiel (ou mais ou menos fiel) escudeiro Egg, um menininho careca e insolente que pede para acompanhar Dunk em sua tentativa de participar de um torneio de cavaleiros num vilarejo. Ocorre que Dunk não é cavaleiro: ele é um homem pobre, adotado quando menino por um cavaleiro andante bebum. Quando o velho morre, Dunk herda sua armadura e seu cavalo, e com isso tenta se cacifar para o torneio. De boa índole, Dunk hesita em seu plano, lhe falta certa autoestima e convicção (descobrimos que seu pai adotivo lhe batia), mas em sua saga, aos poucos, ele nota como cada pessoa que encontra se reinventa e molda sua identidade, e como a linha entre mitomania e a História oficial é sempre tênue. A revelação identitária mais chocante da trama tem a ver com seu pequeno companheiro.
A primeira temporada de O cavaleiro dos sete reinos tem seis episódios curtos e é viciante, especialmente para aqueles que apreciam as características mais sutis da escrita de Martin. A série contém a mesma inteligência política de Game of Thrones, mas com menos personagens e sem depender tanto de cenas violentas (embora estas persistam, naturalmente). Martin é como um pintor que descansa a grande tela a óleo e opta por um desenho minucioso a lápis.