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Jun 2024 10h22
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O revisor Eduardo Penna, um dos narradores de O último dos copistas, romance recém-lançado pelo escritor mineiro Marcílio França Castro, na Companhia das Letras, viu seu mundo desaparecer. Nascido nos anos 1970, o personagem aprendeu datilografia, fotografava com câmeras analógicas e usava fichas telefônicas para ligar dos orelhões. Com a chegada dos celulares e outras tecnologias digitais, alienou-se da realidade à sua volta – um exilado em seu próprio tempo, conforme a imagem usada por Castro.
Penna não é muito mais velho que a ilustradora e designer Lygia Delgado, sua parceira em vários projetos editoriais – e outra narradora do romance. Mas um abismo os separa, graças à revolução tecnológica que aconteceu nos pouco mais de dez anos transcorridos entre seus nascimentos. O revisor não vê televisão, não frequenta redes sociais e não tem a desenvoltura da colega para navegar no mundo digital. “Não é um limiar qualquer, é uma passagem entre milênios”, resume o narrador.
A experiência de Penna espelha a condição de Ângelo Vergécio, o personagem que inspira o título do livro. Nascido na ilha grega de Creta no século XVI, Vergécio foi um copista renomado que se tornou o escrivão oficial do rei Francisco I de França (sua caligrafia inspirou a fonte Garamond, muito empregada nos dias de hoje). O que aproxima Vergécio do revisor brasileiro é a escolha de um ofício em extinção, no qual se consagrou como copista em plena aurora da imprensa mecânica. Quando o invento de Gutenberg começou a se espalhar pela Europa, o trabalho dos calígrafos que, até o fim da Idade Média, copiavam os livros à mão, tornou-se obsoleto.
A diversidade das formas textuais que compõem a narrativa é um traço marcante de O último dos copistas, que marca a estreia de França Castro no romance e mostra que sua prosa original e saborosa funciona também em narrativas mais longas (antes disso, o autor mineiro já havia lançado três coletâneas de contos e novelas). O livro começa de forma original com um ensaio sobre Vergécio, que desperta a curiosidade dos narradores pelo copista, fixação que funciona como motor da trama (o texto foi antecipado pela piauí em 2019). Boa parte da narrativa vem de uma conversa de bar em Belo Horizonte entre Eduardo Penna e o autor do texto (identificado apenas com as iniciais F.C., as mesmas de França Castro), na qual só temos acesso à fala do revisor. A história conta ainda com vários cartões postais enviados a Penna por Lygia Delgado depois que ela vai para a Europa numa busca obstinada pelos rastros do copista e de uma suposta filha que teria ilustrado algumas de suas obras.
A ruptura radical que a internet promoveu na nossa temporalidade e subjetividade, tema central do novo livro, já estava presente em muitas das narrativas anteriores de França Castro. Além do texto sobre Vergécio, outro bom exemplo de história inspirada por essa ruptura é Roteiro para duas mãos, em que um datilógrafo vê seu ofício declinar com a popularização dos computadores. Publicado pela piauí em 2014, o conto foi incluído no volume Histórias naturais: Ficções, de 2016.