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Fev 2025 16h51
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Em 1996, o pintor, desenhista e escultor Leonilson disse em entrevista à TV Cultura: “Às vezes, eu fico um pouco triste, um pouco deprimido. Mas eu tenho 36 anos. Sou um rapaz que precisa administrar uma idade de 36 anos e mais um agravante.” Este agravante era um diagnóstico positivo de HIV, que meses depois levaria à morte um dos artistas mais seminais da geração de 1980.
No ano passado, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) apresentou uma exposição com mais de trezentas obras que Leonilson produziu nos últimos cinco anos de vida. O catálogo da mostra Leonilson: agora e as oportunidades é o documento mais extenso já publicado sobre o artista, e leitura essencial a quem interessa conhecê-lo. Um dos textos ajuda a compreender, por exemplo, por que a Aids forçou Leonilson a abandonar a pintura: a tinta o obrigava a lavar as mãos o tempo todo, o que irritava sua pele, mais suscetível a inflamações por causa da doença. A partir de então, o artista se dedicou ao uso de materiais não tóxicos, como a linha no tecido e o lápis.
Leonilson nasceu em Fortaleza, Ceará, e se mudou com a família para São Paulo quando tinha 4 anos. Cresceu na classe média alta da Vila Mariana. De família tradicional e religiosa, estudou em colégios católicos particulares exclusivos para meninos. A iconografia cristã cercou Leonilson na infância e impregnou a sua vida artística. Crucifixos, corações flamejantes e coroas de espinhos estão muito presentes em suas obras. Se na escola vivia em um ambiente exclusivamente masculino, em casa Leonilson acompanhava a mãe e as irmãs no bordado e na costura.
O texto de apresentação do catálogo, assinado pelo curador do Masp Adriano Pedrosa – que teve um relacionamento amoroso com Leonilson, além de ter sido seu amigo e parceiro intelectual –, o define como um artista tanto central quanto marginal na história da arte brasileira. Central, segundo Pedrosa, pois a importância e a influência do artista são inegáveis, levando em consideração o número de exposições e a presença de sua obra em coleções de museus no Brasil e no exterior. Marginal porque Leonilson não se encaixa facilmente em movimentos da arte brasileira. “Sua obra é imensamente singular, idiossincrática e pessoal, possuindo uma estética, genealogia e poética muito próprias e descoladas dos artistas brasileiros que o precedem, e mesmo os de sua geração”, escreve Pedrosa.
Leonilson era um viajante ávido, e a portabilidade do papel lhe permitia trabalhar longe do ateliê. Os temas de suas criações giram em torno de uma constante lamentação, um sentimento de solidão ou isolamento – o que foi expresso muitas vezes por meio de figuras, palavras e frases que reincidiram trabalho após trabalho. Sua arte foi profundamente marcada por uma fantasmagoria, escreve o professor da Unesp Carlos Eduardo Riccioppo no catálogo. E a vida privada dele, no fim das contas, é o único ponto fixo através do qual sua obra pode ser organizada.