MARCAS DO ABUSO

Série no Youtube discute como a violência doméstica se perpetua em lares cristãos
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Entre os ensinamentos do apóstolo Paulo, está a crença de que confrontar os erros da própria Igreja é essencial para garantir a pureza do evangelho. “E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as”, prega, em Efésios 5:11. É desse preceito que parte Violência doméstica em lares cristãos, o primeiro episódio da série documental Abuso Espiritual, disponível no YouTube. Lançado em 15 de agosto, o material expõe uma realidade violenta que muitos espaços de fé insistem em esconder: segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, 42,7% das mulheres que se identificam como evangélicas já sofreram alguma forma de violência ao longo da vida.

A obra é um esforço de mais de um ano da advogada Luciane Lersch e do cineasta Leonardo Michelon, que custearam toda a produção. A iniciativa veio da indignação da própria vivência como casal cristão e de relatos coletados na trajetória profissional de Lersch – dois dos quais abrem o documentário e dão o tom da denúncia. Durante quase uma hora, Lersch conversa com quem assiste, costurando as entrevistas como uma espécie de apresentadora. As falas das profissionais que atuam diretamente no enfrentamento à violência contra a mulher complementam os pungentes depoimentos das vítimas.

Os papéis de gênero, o controle da sexualidade, a suposta submissão feminina, a preservação do casamento às custas da vida da mulher e a obrigatoriedade do perdão são alguns dos temas explorados no documentário. Muitos dos abusos nascem desses preceitos que, quando levados às lideranças religiosas, são muitas vezes desacreditados, silenciados ou justificados pela “vontade divina”. Uma das vítimas questiona: quem é que tem coragem de ir contra Deus? São tantos princípios que atravessam essa violência que é impossível definir com precisão onde ela começa. Mas a série de Lersch e Michelon mostra onde ela pode terminar: no suicídio, no feminicídio, ou na denúncia. É essa última saída que o documentário escolhe e encoraja.

Destaca-se o cuidado que a obra tem em não generalizar os espaços religiosos. Pelo contrário, ela cultiva a esperança numa Igreja saudável e em líderes abertos ao tema. As entrevistadas de Lersch acreditam no potencial das comunidades religiosas para construírem redes de prevenção, acolhimento e proteção às mulheres. Fica a dúvida se escutarão o conselho que o documentário recupera de Paulo ou se, tal qual fizeram com as vítimas da obra, fecharão os ouvidos e os olhos.


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