piauí recomenda
Dez 2024 19h24
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Três camadas de noite, o romance mais recente de Vanessa Barbara, é uma meditação tocante e bem-humorada sobre maternidade, depressão e sobrevivência. A história é narrada do ponto de vista de uma mãe de primeira viagem que, entre criar uma criança e tentar produzir literatura, enfrenta uma depressão severa. Assim como a criança, ela não sabe bem como existir. E é nesse contexto que busca, na história de outros escritores, uma espécie de guia de sobrevivência. Os relatos domésticos dessa narradora se intercalam, então, com fatos sobre a vida de Sylvia Plath, Clarice Lispector, Henry e Alice James, e Franz Kafka.
O livro é um romance autobiográfico: Vanessa Barbara também teve um bebê pouco antes da pandemia, convive com a depressão e enfrenta distúrbios do sono. Em 2019, a piauí publicou seu relato sobre a odisseia que foi ter um parto normal no Brasil. Em janeiro de 2024, alguns meses antes do lançamento do livro, Vanessa escreveu no New York Times o texto Como contar histórias para minha filha me ajudou nos tempos mais difíceis, no qual relata como os mitos gregos foram um refúgio durante a pandemia e o governo Bolsonaro. A mitologia grega é também o ponto de partida do livro: o título vem da Teogonia de Hesíodo. A personagem principal é especialista no tema, e ao longo dos capítulos ela conta diferentes mitos: Damão e Pítias, o nascimento de Atena, as amazonas, entre outros. O filho se chama Heitor, numa referência clara ao verdadeiro herói da Ilíada.
Jornalista de formação, Vanessa Barbara demonstra suas qualidades de repórter na pesquisa meticulosa das biografias dos autores que aborda. O foco era explorar as estratégias que eles utilizavam para lidar com a depressão: Sylvia Plath precisava trabalhar, Clarice Lispector buscava o calor do Brasil, Henry James precisava viajar, e Kafka recorria ao exercício físico. É interessante notar os pontos em comum entre eles e como cada um definia a depressão: “‘Uma coisa orgânica, existente e viva’ (Plath), ‘uma natureza difícil e sombria’ (Lispector), ‘os demônios negros do nervosismo’ (James), ‘o corvo secreto’ (Kafka).”
Ao longo do livro, mãe e filho aprendem sobre a vida e sobre si. A narradora começa a entender melhor suas estratégias para sair da caverna da depressão, como dormir muito para melhorar o humor e sapatear. Ela encontra uma definição para o que vive: “Um tipo de clima: às vezes chovia, às vezes fazia sol. E eu era naturalmente friorenta.” Já o filho, Heitor, vai entendendo as especificidades do transtorno da mãe como quem apreende a linguagem e a escrita: quando ele aprendeu a falar, ele perguntava “por que a mamãe chora o tempo todo?”; mais para o final do livro ele percebe a mudança de humor já no olhar. “Pelo visto, Heitor havia sido calibrado desde o berço para detectar faíscas de angústia materna em questão de milissegundos. Isso, é claro, me deixou triste. Mas também podia ser encarado como uma rara habilidade psíquica a ser futuramente aprimorada pela CIA em seus treinamentos com armas psicotrônicas”, a narradora conta.
O livro transcende a temática da maternidade, uma vez que aborda aspectos tão comuns da natureza humana de forma acessível. O que se tem ali é uma investigação sobre como existir. Não é preciso ser mãe para gostar de Três camadas de noite (eu não sou nem mãe de pet). Vanessa Barbara tem um senso de humor apaixonante e uma forma de ver o mundo tão original que a coloca entre as melhores prosadoras de sua geração. Suas tiradas engraçadas evocam um Sísifo alegre em meio à dureza que é atravessar a vida quando tantas coisas jogam contra a gente.