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O POPULISTA RUSSO

Obra retrata a ascensão de Vladimir Putin
Imagem O populista russo

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“Ele foi o primeiro burocrata a recusar suborno”; “a patente dele é muito baixa”; “não é preciso um general para comandar um bando de coronéis.” As três frases podem soar familiares aos brasileiros que nos últimos quatro anos experimentaram o governo de Jair Bolsonaro, um sujeito que, por décadas, se autoproclamava honesto e deixou o Exército com uma patente baixa, sem que isso o impedisse de, como presidente, exercer poder sobre as mais altas camadas das Forças Armadas. Mas o sujeito em questão é, na realidade, Vladimir Putin, cuja ascensão é retratada pela jornalista russa Masha Gessen no livro O Homem Sem Rosto, publicado originalmente em 2012, agora relançado com prefácio atualizado, em razão da guerra da Ucrânia.

Como um típico populista, Putin gostava de demonstrar certa humildade. Quando foi sondado pela primeira vez por um enviado de Boris Yeltsin para assumir como sucessor do premiê, Putin veraneava com a família em Biarritz, no País Basco francês. O enviado chegou ao balneário imaginando que encontraria o aliado desfrutando as delícias da gastronomia local numa vila cercada de luxo. Mas, para a sua surpresa, encontrou Putin num apartamento de “um ou dois quartos”, que “parecia um flat desses bem baratos”.

Putin demonstrou óbvio interesse à sondagem, mas, embora fosse o chefe da polícia secreta, ninguém o conhecia de fato. Yeltsin o via como um nome apto a sucedê-lo porque, em meio à implosão de sua popularidade junto aos russos, tinha medo de ser preso. Acreditava que Putin (“ao mesmo tempo maleável e disciplinado”, segundo Gessen), não o perseguiria.

A verdadeira personalidade de Putin – um homem de caráter obsessivo, autoritário, manipulador e inescrupuloso que, ao mesmo tempo, demonstra simplicidade e devoção a um passado russo glorioso –, só veio à tona com o passar dos anos. Essa transformação é descrita minuciosamente por Gessen, que resgata no passado do líder os sinais definitivos do tipo de governante que seria. A jornalista também desmonta a imagem de burocrata incorruptível que o próprio Putin vendeu, descrevendo um esquema de desvio de recursos públicos liderado por ele no período em que era funcionário da Prefeitura de São Petersburgo. Segundo Gessen, Putin já era bastante rico quando passou o verão no modesto apartamento de Biarritz, em 1999.

Embora o livro seja permeado de informações inéditas obtidas por uma jornalista rigorosa e independente, o epílogo da obra não poderia estar mais equivocado sobre o futuro que se avizinhava no Kremlin. Ao descrever os últimos dias de 2011 em Moscou, Gessen se mostrava esperançosa nos movimentos de rua que pediam mudanças, e apostava que o país se livraria em breve do poderio de Putin. Na primeira reedição de seu livro, em 2014, mesmo ano da invasão da Crimeia, a jornalista já escreveria um posfácio menos alvissareiro. No prefácio atual, de 2022, Gessen caminha por toda sorte de tragédias que se abateram sobre o povo russo no intervalo dos últimos oito anos: a miséria, a radicalização, as sanções, a destruição de reputações pelo serviço secreto, as tentativas de assassinar opositores – algumas bem-sucedidas – e, por fim, a invasão da Ucrânia.

A nova previsão é desoladora: a jornalista acredita que o povo russo, oprimido pela crise econômica e pela repressão do Estado, jamais se levantará contra Putin, e que os mais ricos se aliarão cada vez mais ao poder. A exportação do exemplo russo para outros países hoje dominados por autocratas ou aspirantes a autocratas foi tema de outro livro de Gessen que vale ler – Surviving Autocracy, lançado em 2020 nos Estados Unidos, mas ainda sem previsão de lançamento no Brasil.


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