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Nov 2025 17h58
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Na primeira faixa de Lux, lançado no início de novembro, a cantora espanhola Rosalía compartilha um desejo: “Quién pudiera venir de esta tierra/Y entrar en el cielo/Y volver a la tierra.” Na companhia de órgãos, violinos e um coral angelical, ela combina elementos da música clássica e sacra, indicando que a espiritualidade é o principal tema do álbum. Em certas faixas, se dirige a Deus. Em outras, transforma o próprio Deus no eu lírico de suas músicas, gravadas com a Orquestra Sinfônica de Londres, sob regência do maestro islandês Daníel Bjarnason.
Em todo o álbum, os sons dos diferentes instrumentos musicais são incorporados aos graves e agudos da música eletrônica. A intenção de imprimir sua marca – uma produção detalhista e experimental – na música clássica chega ao ápice na faixa Berghain. Inspirada na obra de Johann Sebastian Bach, Rosalía utiliza recursos do canto lírico, com versos em alemão e é novamente acompanhada por um coral. Ainda há espaço para versos de um rap do músico e produtor Yves Tumor e a participação da cantora e compositora islandesa Björk anunciando sua “intervenção divina”. Em Mio Cristo piange diamanti, a cantora não tem medo de levar sua extensão vocal ao limite para encarnar outra inspiração do álbum: a cantora de ópera Maria Callas.
Ao todo, Rosalía canta em treze idiomas: catalão (sua língua materna), espanhol, inglês, árabe, ucraniano, italiano, francês, alemão, hebraico, japonês, latim, mandarim e português. Como a artista não é fluente em todas elas, o processo de composição teve que ser meticulosoe demorou um ano para ser concluído. Primeiro, a artista escreveu os versos em espanhol, traduziu as frases no Google Tradutor e em seguida consultou tradutores juramentados e falantes nativos. Esse vaivém foi a solução encontrada para garantir que construções linguísticas feitas em espanhol fariam sentido nos outros idiomas. Se não soasse natural, o verso era reescrito com palavras escolhidas a dedo, respeitando a estrutura de cada idioma e suas diferentes entonações.
O resultado é a naturalidade com que a cantora atravessa línguas completamente distintas na mesma faixa. Em Porcelana, por exemplo, ela mistura espanhol, inglês, latim e japonês, sem deixar que isso soe confuso ou atrapalhe a experiência imersiva da música. Ao mesmo tempo, a dramaticidade que Rosalía exprime na voz — aprendida no flamenco, ritmo fundamental de sua carreira — rompe as barreiras de linguagem.
A criação de um tipo de música “universal” simboliza a manifestação divina, conforme descrita na Bíblia, através das “línguas de fogo”, que Rosalía diz trazer consigo em De madrugá. Essa faixa abre o segundo momento do álbum, em que a cantora desloca suas aspirações divinas para seu porto seguro: a tradição musical ibérica. Ela faz jus à origem catalã em La rumba del perdón, composta por batidas em madeira, palmas e uma interpretação apaixonada. O português (de Portugal) aparece em Memória, um fado dilacerante que divide com a cantora portuguesa Carminho.
Amor, raiva e perdão são alguns dos sentimentos destrinchados nas músicas, tanto pela via religiosa quanto secular. A base do álbum são as histórias de santas católicas, monjas budistas e até uma mística sufi muçulmana chamada Rābiʿa al-ʿAdawiyya. A sensação é que esses relatos de coragem, resistência, redenção e sacrifício não são totalmente estranhos às mulheres do mundo atual. Como prometido no início do álbum, durante os três anos de gestação de Lux Rosalía conseguiu chegar o mais próximo possível da experiência divina – e, felizmente, voltou para cantar como foi esse transe.