piauí recomenda
Dez 2023 14h40
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É sempre difícil dimensionar qual seria o caminho trilhado por um gênero artístico não fosse o papel exercido por determinado personagem-chave. Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho mostra como o samba poderia ter trilhado outros rumos sem o ativismo de Beth Carvalho. O documentário narra a trajetória de uma cantora de bossa nova da Zona Sul carioca que, na década de 1960, decide virar sambista, aproxima-se dos pioneiros do gênero, e, em 1978, reinventa a música dos morros e subúrbios ao lançar De pé no chão, disco considerado marco fundador do pagode carioca.
O filme retrata esse percurso através do olhar de Beth Carvalho nos seus encontros com nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho, Elizeth Cardoso, Clementina de Jesus, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão. Nos seus 53 anos de carreira, Beth Carvalho cultivou o hábito de sempre gravar shows, rodas de samba, gravações em estúdio e encontros musicais. As 2.000 horas do acervo da cantora são a matéria-prima para o filme e guardam momentos históricos da música popular brasileira, como Cartola apresentando As rosas não falam e O mundo é um moinho para Beth, Nelson Cavaquinho cantando a versão original de Folhas Secas e as primeiras idas da cantora ao Cacique de Ramos, berço do pagode carioca.
O filme também destaca o caráter político do samba e de sua protagonista. Nas palavras do jornalista Leonardo Lichote, em texto para piauí, o documentário retrata o samba “como espaço de resistência política pela alegria, pela festa”. Beth Carvalho, através da música, estabeleceu um diálogo direto com o povo – ao defender arranjos mais simples nas gravações; cantar versos do samba Virada (‘O que adianta eu trabalhar demais/ Se o que eu ganho é pouco”) em um comício das Diretas Já; ou organizando uma assembleia democrática para definir quais canções entrariam em um dos seus álbuns.