piauí recomenda

TRAUMAS DO PASSADO

Valor sentimental, do diretor norueguês Joachim Trier, retrata o relacionamento conturbado entre um cineasta e suas duas filhas
Imagem Traumas do passado

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Nora passou boa parte da infância e da adolescência com sua mãe, Sissel, e sua irmã, Agnes. Seu pai, o respeitado e cultuado cineasta Gustav Borg, desapareceu de sua vida de uma hora para outra, dando mais valor ao seu trabalho do que às filhas. Agora já adulta, Nora é atriz de teatro e sua carreira parece estar a poucos passos de atingir o auge.

Quando Sissel morre, o velório acontece no casarão onde Nora cresceu. Na sala onde sua mãe psiquiatra atendia pacientes com os mais variados traumas, havia uma lareira que levava as vozes até o quarto da filha, e Nora passou os anos da infância e adolescência ouvindo de tudo. Durante o velório, ela sobe até seu quarto com o sobrinho para mostrar a ele – e, por consequência, a nós, os espectadores do filme – como funcionava a “escuta” instalada na casa. Mas ao colocar o ouvido na saída que passa por seu dormitório, ouve a voz de seu pai – o que desencadeia um terrível desconforto.

A partir de então, Nora, Agnes, e Gustav têm de lidar com um passado que há muito não é remexido. O cineasta é uma presença incômoda, mas, ao mesmo tempo, muito requerida pelas duas filhas ao longo dos anos. E ele retorna com uma novidade: passou os últimos anos escrevendo um roteiro pensado para Nora, e que será rodado na casa onde ela passou toda a vida.

Em Valor sentimental, o diretor norueguês Joachim Trier oferece um drama familiar cheio de virtudes, em que nenhum personagem é completamente mau ou bom. O pai, que abandonou as garotas, é um personagem complexo – assim como as filhas, que vivem momentos distintos de vida: enquanto Nora vive uma espécie de crise dos 30 anos por ainda morar num cubículo em Oslo e ser amante de um colega de trabalho, Agnes é casada e já lida com as dificuldades de ser mãe. Essas pequenas tramas se encadeiam e ganham sentido juntas.

A grande qualidade do filme é a forma como o espectador nunca está alheio ao que se passa – e a introdução à casa é fundamental para se sentir parte da conturbada situação. Todos os anos de sua existência são revisitados no filme – desde sua construção até os dias de hoje. A edificação, de paredes vermelhas, janelas grandes e jardim, alcança a estatura de sujeito. Observamos como a distância entre as filhas e o pai aumentou ano a ano, tornando-se cada vez mais fria e apática. Os mesmos adjetivos podem ser empregados para descrever a própria Nora – que, em razão de uma série de angústias, desenvolve uma terrível depressão. Passo a passo, ela se recupera, mas a condição volta a assombrá-la com o inesperado retorno de Gustav. Os personagens expressam arrependimentos, ressentimentos, e uma necessidade incontornável de falar o que não pôde ser dito ao longo dos últimos e muitos anos em que o pai esteve ausente. O filme estará em cartaz nos cinemas brasileiros a partir de dezembro.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.