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UM THRILLER DE INTRIGAS

Conclave revela a fogueira de vaidades e picuinhas dos cardeais que se juntam para eleger um novo Papa
Imagem Um thriller de intrigas

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Atualização em 21 de abril de 2025: o filme está disponível para assinantes do Amazon Prime e à venda em outras plataformas

Nas primeiras imagens de Conclave, filme atualmente em cartaz nos cinemas, o diretor suíço Edward Berger nos puxa com energia, mas discrição, pelos frios, pouco iluminados corredores da Santa Sé, até chegarmos ao quarto onde o Papa está morto sobre a cama. A alegação é de que o sumo pontífice morreu de enfarto, mas tudo naquele ambiente é nebuloso. Não demoram a se espalhar pelos corredores suspeitas palacianas, sussurradas pelos cardeais entre os ecos de passos miúdos sobre o mármore frio do Vaticano. Qual foi o último cardeal a ter uma audiência com o Papa? Sobre o que eles conversaram? O que diz e onde está o relatório secreto encomendado pelo Papa antes de morrer? O filme é sóbrio, mas também elétrico. E dentro daquela atmosfera sombria o filme te mantém, a ponto de que não desejamos sair daquele confinamento onde 222 cardeais se juntam para eleger um novo Papa entre eles.

As alas vão se articulando. Os cardeais progressistas temem a eleição de um ultraconservador. Os conservadores criam fofocas e levantam o passado de seus concorrentes. A ala tradicionalista quer ter de volta um Papa italiano. Cabe ao cardeal Lawrence (Ralph Fiennes), homem de confiança do Papa morto, organizar o conclave, mediar as baixarias e investigar as denúncias – tudo isso enquanto lida com uma crise de fé e está prestes a renunciar do cargo. Num discurso aos seus pares confinados, Lawrence diz: “Nossa fé é viva justamente porque anda de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse apenas certeza e nenhuma dúvida, não haveria mistério. E, portanto, não há necessidade de fé. Rezemos para que Deus nos conceda um Papa que duvida. E que Ele nos conceda um Papa que peca e pede perdão e que segue em frente.”

Na primeira parte do filme, a dramaturgia parece acenar para uma temática mais existencialista meio à moda do cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer, que em seus filmes discorria sobre a fé cristã em oposição ao catolicismo institucional. Mas não demora para que o filme, baseado no livro do escritor britânico Robert Harris, mostre uma face mais mundana. E isso não é ruim. Conclave logo se revela um cinemão clássico, um thriller de intrigas envolvendo segredos sexuais e corrupção. Berger não parece muito interessado em jogar uma luz elevada sobre aqueles homens e aquele ambiente. Pode decepcionar quem espera alguma elaboração teológica mais sofisticada, mas Berger entretém com habilidade, mostrando toda a fogueira de vaidades e picuinhas dos clérigos doidos pra assumir o trono daquele que ainda é o maior cargo religioso do mundo.

A sanha do cardeal Lawrence em caçar os vendilhões do templo e reivindicar uma igreja mais ética e alinhada aos reais valores cristãos pode fazer parecer que o longa-metragem tem um olhar positivo para a cúria romana. Mas Berger lança pistas de que vê aquele universo com alguma mordacidade e cinismo. Há uma cena muito exemplar sobre isso: Bellini (Stanley Tucci), o cardeal progressista, diz que prefere votar no perdulário cardeal Adeyemi a ter que votar no detestável e retrógrado cardeal Tedesco. Lawrence, indignado, argumenta que Adeyemi é um corrupto. “Já tivemos papas muito piores”, argumenta Bellini com desdém. Berger parece mais entusiasmado em extrair sobriedade e refinamento do seu elenco, dos diálogos argutos e da atmosfera soturna que cria do que fazer proselitismo institucional para o Vaticano. E se o desfecho da trama da eleição do novo Papa aponta para uma saída humanista, é menos por ingenuidade e condescendência e mais porque talvez seja o tipo de projeção que cabe a um artista nesses tempos infames de obscurantismo canalha.


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