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Dez 2023 14h48
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O Negro Visto Por Ele Mesmo, uma coletânea dos escritos da historiadora, pensadora e ativista do movimento negro Maria Beatriz Nascimento (1942-1995), reapresenta aos leitores uma voz potente e inusual, cuja rapidez argumentativa e lirismo seco não têm equivalente na tradição brasileira. O trabalho cuidadoso e o prefácio do antropólogo Alex Ratts, organizador da coletânea, são valiosos, mas é prazeroso e estimulante chegar à prosa de Nascimento sem muito preparo ou contextualizações prévias. Ela é incapaz de reproduzir jargões ou buscar atalhos para resumir raciocínios complexos.
A trajetória híbrida da autora – transitando entre a academia, a resenha jornalística, os movimentos sociais – encontra sua maior expressão, não por acaso, na mais híbrida das formas, o ensaio. “O Racismo na mídia”, o primeiro texto da coletânea, parece, no início, uma análise relativamente direta do racismo presente na adaptação televisiva de “Sítio do Picapau Amarelo”, obra de Monteiro Lobato. Mas, ao comparar a reação de duas crianças – uma negra e uma branca – ao desenho, o ensaio toma um caminho inesperado. Analisando a dificuldade da criança negra de se reconhecer nos personagens negros do desenho – e a facilidade do menino branco de associar um personagem negro à sua empregada –, Nascimento identifica um esforço midiático voluntário de simplificar as figuras negras ao longo da história, de reduzi-las a um segmento de classe, a tal ponto que um menino negro – que se sabe complexo e humano – não consegue se reconhecer nesses estereótipos repetitivos. “Somente para refletirmos: por que a historiografia e a literatura esqueceram de registrar pelo menos os políticos pretos do final do Segundo Reinado? Aqueles como Patrocínio, Rebouças, o jornalista Luiz Gama e mesmo os mestiços como Bocaiúva, Torres Homem, Maciel da Costa. Porque esses homens perderam sua face original.”
Esse primeiro texto mostra como o gosto de Nascimento pela clareza expositiva é sempre acompanhado de certa concisão, uma aparente repulsa por qualquer tipo de homilia. Essas constantes, porém, operam com mudanças de registro. O tom melancólico de sua homenagem bonita e ambivalente a maio de 1968, por exemplo, pouco tem a ver com a ferocidade mais impaciente de sua crítica aos descaminhos do Cinema Novo. Num momento de redescobertas literárias e revisões ao cânone, essa pequena coletânea – feita sobretudo de material que Nascimento produziu nas décadas de 1970 e 1980 –, merece um lugar de destaque.