piauí recomenda

VIAGEM DE VOLTA PARA O BENIM

O documentário Dahomey retrata, por diferentes ângulos, o retorno de 26 relíquias saqueadas pelas tropas coloniais francesas
Imagem Viagem de volta para o Benim

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

O documentário Dahomey acompanha a viagem de 26 relíquias de Paris até Benim (antigo reino de Daomé), na África. As obras, saqueadas pelas tropas coloniais francesas no século XIX estavam no Museu do Quai Branly, com peças de arte de povos da África, Ásia, Oceania e Américas. Entre as relíquias devolvidas a eles, destacam-se um imponente trono de madeira decorado em alto relevo e estatuetas zoomórficas em tamanho real.

Para mostrar o retorno dos tesouros, a diretora francesa Mati Diop, cuja família é de origem senegalesa, acrescenta um elemento imaginário à realidade documentada. O papel de destaque no filme é dado a uma estátua que representa Ghézo, o rei de Daomé entre 1818 a 1859, mas que no Quai Branly era identificado apenas com o número 26.

Em uma narração dramatizada, o escritor haitiano Makenzy Orcel dá voz à estátua, como se o espírito do rei contasse sua própria história, desde as memórias que guarda de sua terra natal ao tempo que passou sendo exibido no museu de Paris. “Será que eles [os beninenses] ainda se lembram de mim?”, questiona, a voz do rei Ghézo.

A decisão de ficcionalizar o relato é questionável – principalmente as primeiras frases, que soam exageradamente teatrais –, mas cumpre o papel de guiar o espectador pelas nuances dessa viagem de retorno e seu significado. O texto falado restringe-se a essa estátua, cuja viagem para Benim é acompanhada pela cineasta desde o seu empacotamento no museu até a recepção de gala com que é recebida no país de origem.

A primeira parte do documentário, disponível no Mubi, não apresenta reflexões de nenhum especialista, curador ou pesquisador. A maior vantagem dessa escolha narrativa é poder conduzir o espectador de maneira sutil a uma série de questionamentos complexos sobre as várias dimensões da violência colonial e sobre o direito à repatriação de bens culturais. Essa parte inicial também cumpre o papel de nos preparar para a segunda metade  – mais ágil e instigante.

A diretora apresenta, então, uma discussão de estudantes da Universidade de Abomey-Calavi. Sentados em círculo, eles debatem o significado de ter aqueles bens de volta em seu país, apesar de muitos não conseguirem desenvolver nenhuma relação com a antiga cultura iorubá. Inicia-se uma discussão sobre como interpretar esse retorno.

Alguns alunos criticam a devolução de apenas 26 dos 7 mil objetos etnográficos mundiais catalogados na França (mais de cem artefatos do próprio Benim ficaram de fora da restituição). Acham mais adequado continuar a cobrar os objetos que ainda estão em posse dos franceses. Uma estudante de cinema, por outro lado, argumenta que os colegas deveriam estar comemorando a conquista histórica. Há um impasse sobre qual o passo seguinte. Denunciar o comportamento colonialista do museu francês em manter parte das obras? Agradecer ao presidente Macron pela sua “generosidade”, ao devolver as peças com pompa e circunstância? Celebrar a volta das 26 obras junto ao presidente do Benim?

Felizmente, Dahomey – que ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim do ano passado ­­– não tem pretensão de oferecer uma resposta definitiva, nem apontar culpados. Seu maior mérito é ampliar os limites da discussão, seja no caso específico do Benim, seja no de vários outros países, como o Brasil, que ainda têm contas a acertar com museus europeus. Cabe a cada um de nós decidir o que fazer a partir de agora.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.