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A GUINADA DE JOE BIDEN, O AMERICANO PETISTA

Como o presidente americano adotou posições mais estatistas e pró-trabalhadores – e o que isso significa para o Brasil

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Tradução de Isa Mara Lando

Quando o presidente Lula visitou a Casa Branca em fevereiro passado, Joe Biden acabava de proferir um dos discursos mais dramáticos e veementes de sua gestão. Em sua fala anual sobre o Estado da União, dirigida às duas casas do Congresso e assistida por uma audiência televisiva de 27 milhões de pessoas, Biden defendeu uma lista de prioridades com as quais os progressistas americanos sonham há décadas – que vai de muitos bilhões de dólares para combater as mudanças climáticas até um imposto mínimo sobre as grandes empresas. “O capitalismo sem competição não é capitalismo”, disse Biden. “É exploração.”

“Parabéns pelo seu discurso”, disse Lula a Biden três dias depois, quando os dois líderes se sentaram para conversar. “Se eu fizesse esse discurso no Brasil, seria chamado de comunista.” Biden ficou surpreso: “Bem, não diga isso à imprensa!”, exclamou, com um sorriso, segundo o relato de uma fonte com conhecimento da conversa. Ambos riram e a reunião continuou.

A brincadeira estava calçada numa realidade: com sua forte ênfase em sindicatos, política industrial, tributação das grandes fortunas e uso dos mecanismos do governo federal para direcionar setores-chave da economia, Biden é, provavelmente, o presidente mais, digamos assim, “petista” dos Estados Unidos em pelo menos meio século. Existem, é claro, diferenças importantes entre os dois líderes e seus países. Mesmo em seu momento mais progressista, Biden fez questão de esclarecer para o público americano: “Sou um capitalista. Mas que cada um pague a sua justa parte.”

Ainda assim, as semelhanças entre Lula e Biden são reais e chegam a um ponto que teria sido inimaginável na política americana há apenas alguns anos. Desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2021, Biden virou as costas para décadas de dogma neoliberal, evitando seguir os acordos de livre-comércio e a relativa austeridade defendida por seus predecessores democratas, Bill Clinton e Barack Obama. Suas maiores conquistas legislativas, a Lei de Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês) e a Lei dos Chips e da Ciência, somam 1 trilhão de dólares, dando ao governo, ao longo de vários anos, vastos poderes para direcionar a indústria de semicondutores, promover energia limpa e negociar preços mais baixos para medicamentos. O mais recente orçamento de Biden propõe uma expansão ainda mais ambiciosa do poder federal, aumentando os gastos anuais de 6,3 trilhões para cerca de 10 trilhões de dólares daqui a uma década, com a diferença sendo financiada por aumentos sem precedentes nos impostos sobre as empresas e os mais ricos. Ainda que seja quase certo que os republicanos no Congresso irão bloquear muitas dessas propostas, a mensagem está dada com clareza: nem Washington acredita mais no Consenso de Washington.

Até mesmo líderes do PT, que há décadas fazem das críticas aos Estados Unidos uma parte central da sua identidade política, não deixaram de expressar admiração. “Biden revolucionando a economia capitalista. Nunca pensei que, depois de Franklin Delano Roosevelt, eu admiraria um presidente americano: crescimento de baixo para cima!”, escreveu Gleisi Hoffmann, a presidente do partido, num tuíte no início de 2021, quando a maior parte da agenda de Biden estava em discussão no Congresso.

Nem tudo são rosas, evidentemente. O governo Lula já teve inúmeras discordâncias e tensões com Biden acerca de diversas questões, da Ucrânia à China, da Venezuela a Cuba. Mas, em agosto passado, depois de uma conversa telefônica entre os dois líderes, Lula proclamou: “É a primeira vez que trato com um presidente [americano] interessado nos trabalhadores. Suas políticas e seus discursos sobre o mundo do trabalho soam como música para os meus ouvidos.” Em Nova York, quando se encontraram por ocasião da Assembleia Geral da ONU em setembro, os dois líderes anunciaram a Declaração Conjunta Brasil-Estados Unidos sobre a Parceria pelo Direito dos Trabalhadores e Trabalhadoras, prometendo atuar em conjunto para dar melhores condições aos trabalhadores na era da uberização e da inteligência artificial – não apenas em seus países, mas no mundo.

No dia 26 de setembro, uma terça-­feira, Biden tornou-se o primeiro presidente americano a comparecer a um piquete de grevistas. Esteve em Bellville, no estado do Michigan, berço da indústria automotiva. De megafone na mão, discursou em apoio às reivindicações dos trabalhadores. No dia seguinte, Lula fez um tuíte: “Ontem eu tive um momento de muita felicidade. Eu vi o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, com o megafone durante uma greve dos trabalhadores. Isso, dias depois de discutirmos um projeto de dignidade no mundo do trabalho […] É importante que os presidentes dos dois países estejam preocupados com a situação do mundo do trabalho.”

Como é possível que o “Tio Joe” – que passou 36 anos no Senado americano e na campanha presidencial de 2020 era visto como o candidato mais centrista do Partido Democrata – tenha abraçado uma plataforma que poderia ter saído do ABC paulista dos anos 1980?

Assessores e ex-assessores do governo Biden me contaram histórias diferentes sobre essa metamorfose, mas todas terminam mais ou menos com a mesma conclusão: Joe Biden acredita sinceramente que as políticas econômicas adotadas nas últimas décadas causaram uma erosão na classe média americana, deram poder excessivo às grandes corporações empresariais e aos mais ricos e colocaram em grave risco o tecido social do país – e também a própria democracia.

Os Estados Unidos de hoje podem até não estar exatamente em declínio. Muitos de seus problemas demográficos e econômicos, de fato, parecem menos severos do que os enfrentados pela Europa, pela China e parte da América Latina. Mas é indiscutível que o país enfrenta graves dificuldades, como a queda da expectativa de vida, a estagnação do padrão de vida da maioria dos trabalhadores, um recorde de 100 mil mortes anuais por overdose de drogas e uma polarização política tão severa que, às vezes, parece prestes a rasgar o país ao meio.

O rescaldo das eleições presidenciais de 2020, quando Donald Trump tentou reverter o resultado das urnas e depois incentivou uma insurreição – fracassada – no Capitólio, representou um ponto de virada para Biden e sua equipe, segundo me contam auxiliares próximos. Essa crise, aliada à surpreendente eleição de uma maioria democrata no Senado, convenceu Biden a seguir uma agenda mais audaciosa do que planejava no início e, com isso, reverter a imagem de que, durante o governo Trump, os republicanos haviam substituído os democratas como o verdadeiro partido da classe trabalhadora americana.

Biden conservou várias políticas do seu antecessor numa extensão que ninguém gosta de admitir em Washington: seu programa Buy American (Compre produtos americanos), segundo o qual, entre outras exigências, todos os materiais de construção em infraestrutura federal devem ser fabricados nos Estados Unidos, é muito parecido ao protecionismo dos anos Trump. Mas Biden levou certos aspectos ainda mais longe, apostando em uma visão que combina os sindicatos fortes e os impostos elevados de meados do século XX com uma matriz energética de viés ambiental e uma ênfase na igualdade racial e de gênero firmemente enraizadas no século XXI.

Essas políticas têm sido bem recebidas em Brasília – ou, pelo menos, no Palácio do Planalto e em setores da Esplanada dos Ministérios. Porém, em lugares como Youngstown, no estado de Ohio, ou Tupelo, no Mississippi, ou Tempe, no Arizona, o veredito tem sido negativo. Depois de contar com o apoio da maioria da população no primeiro semestre do seu mandato, desde então Biden patina na casa dos 40% de aprovação. É o menor índice de um presidente americano do pós-­guerra nessa fase do mandato, com apenas duas exceções: Jimmy Carter e Donald Trump, e ambos perderam a reeleição.

Praticamente todos os demais indicadores do clima político nos Estados Unidos também estão piscando o alerta amarelo para Biden. No geral, 3 em cada 4 americanos dizem que o país está na direção errada. As pesquisas não esclarecem se isso significa desaprovação das suas políticas. Muitos itens específicos da agenda econômica de Biden – como investimentos em infraestrutura, perdão de dívida dos estudantes e combate à inflação – contam com apoio amplo, até mesmo bipartidário. Mas está claro que até agora a maioria dos americanos não está gostando dos resultados. É uma situação paradoxal: a agenda de inclinação estatista de Biden é bem-vista, mas, apesar disso, o eleitorado americano parece discordar do rumo que o país está tomando. Além de Biden estar empatado com Trump nas pesquisas para 2024, uma enquete da CNN em setembro mostrou que dois terços dos democratas preferem ver outro candidato do partido na disputa presidencial. É isso mesmo: nem o partido de Biden deseja que Biden se candidate à reeleição.

No esforço para compreender o presidente, seus problemas e o que eles significam para o futuro da democracia dos Estados Unidos, vários países passaram a interpretar a realidade americana por meio de seus próprios filtros. Comentaristas e políticos argentinos, incluindo o presidente Alberto Fernández, por exemplo, já insistiram que Biden é um peronista de coração. Líderes socialistas de toda a Europa também demonstraram uma afinidade. Mas os brasileiros parecem especialmente bem posicionados para compreender a questão – e não creio que eu esteja dizendo isso só porque sou um brasilianista americano escrevendo numa revista brasileira.

Em um ensaio para a piauí publicado em dezembro de 2022, escrevi que, nos últimos anos, quem observa os Estados Unidos e o Brasil parece estar assistindo a “duas adaptações da mesma novela, uma delas com a trama um pouquinho mais adiantada em relação à outra”. Nos últimos meses, dois líderes idosos venceram, por pequenas margens, as eleições contra figuras autoritárias da direita. Ambos sobreviveram a insurreições golpistas em suas capitais e ambos procuraram sustentar sua democracia, fortemente polarizada, focando nas classes trabalhadoras e pressionando os ricos a ajudar a mitigar a dívida social dos anos de pandemia. Recentemente, parece que a história do Brasil passou a divergir da americana de maneira positiva – com Lula agora desfrutando de boa aprovação, o golpista banido das eleições, e a economia, pelo menos por ora, em recuperação. Em contraste, examinar a Presidência de Biden é contemplar um país que está mudando de maneira surpreendente. Um país onde ainda há esperança para a democracia e o consenso – mas on­de, mais do que no Brasil de hoje, vai se disseminando um sentimento de que a crise mais grave pode ainda estar por vir.

Vista de fora, a baixa aprovação persistente de Biden parece um mistério digno de Sherlock Holmes. A culpa tem recaído sobretudo na inflação, que atingiu o pico de 9,1% em meados de 2022, chocando toda uma geração de americanos que acreditava que inflação alta era uma coisa exótica que só acontecia em países longínquos, tal como a malária ou a medicina pública. A pior inflação nos Estados Unidos em quatro décadas foi resultado das distorções causadas pela pandemia e, também, segundo muitos economistas, do excesso de gastos governamentais feitos por Biden no início do mandato.

No entanto, a tempestade foi se acalmando ao longo do ano passado e a inflação está agora em 3,7%, um nível quase normal. Alguns outros aspectos essenciais da vida americana estão melhores do que se poderia imaginar: o desemprego está em 3,6%, perto do nível mais baixo em meio século. A Bolsa de Valores e os salários estão subindo, assim como a confiança do consumidor. Os crimes violentos nas grandes cidades, que aumentaram muito durante a pandemia, voltaram a baixar, com queda de 10% dos homicídios até agora.

Sendo assim, por que as pesquisas mostram que Biden corre o risco de perder em 2024 para um ex-presidente que enfrentou duas tentativas de impeachment, tentou reverter a última eleição na marra e já foi indiciado quatro vezes?

Em outros tempos, seria possível culpar o ativismo de Biden em favor de um “governo grande” ou acusar sua versão ianque de “desenvolvimentismo” como uma iniciativa fundamentalmente contrária ao espírito americano. Afinal, este foi o país de Ronald Reagan, que lançou uma nova era na política dos Estados Unidos ao declarar, em seu discurso de posse em 1981: “O governo não é a solução para o nosso problema. O governo é o problema.” A decisão de Reagan, no mesmo ano, de demitir 11 mil controladores de tráfego aéreo que estavam em greve é considerada, ainda hoje, como o fim de uma era para os sindicatos americanos, que sofreram uma queda histórica no volume de filiações nos anos seguintes. E, mais recentemente, faz só uma década que o Tea Party, com suas exigências de menor déficit fiscal durante a Presidência de Barack Obama, se tornou uma das forças populares predominantes na política americana. A ameaça de ser tachado de “socialista” gastador foi um sério impedimento para políticos de ambos os partidos durante toda uma geração.

Mas as coisas mudaram. Houve uma guinada extraordinária na política americana nos últimos oito anos – tão inesperada que as palavras seguintes que vou escrever ainda me soam estranhas: até mesmo muitos republicanos agora aceitam que a era neoliberal de Reagan já acabou e que os eleitores desejam que o governo os proteja contra o mercado. Ao tomar o controle do Partido Republicano em 2016, Trump iniciou essa conversão, mas a tendência está se acelerando agora de uma maneira que nem ele mesmo poderia prever. Um exemplo: Marco Rubio é o senador cubano-americano da Flórida que dedicou sua carreira política a lutar contra os comunistas (os reais e os imaginários) e recentemente chamou Lula de “um radical antiamericano de extrema esquerda”. Ele acaba de publicar um livro chamado Decades of decadence (Décadas de decadência) em que critica a globalização, a desigualdade e “nossas elites mimadas”. Rubio, junto com um punhado de outros senadores republicanos, incluindo J. D. Vance, de Ohio, queridinho do bloco trumpista no Congresso, participaram recentemente do lançamento de um manifesto que pedia o seguinte: uma renovada ênfase nas negociações coletivas de trabalhadores, uma atuação mais assertiva dos sindicatos e um novo imposto sobre as transações financeiras, mirando os ricos de Wall Street.

“Nós gostamos muito do capitalismo, mas reconhecemos que no momento ele não está funcionando”, disse Oren Cass, ex-assessor do senador Mitt Romney e atual chefe de um influente centro de estudos conservador, em entrevista ao jornal The New York Times. Muitos comentaristas veem uma divisão geracional no Partido Republicano, em que conservadores da velha guarda, como Karl Rove, ex-assessor de George W. Bush, continuam a publicar manifestos a favor de cortes nos impostos e no livre-comércio – mas os republicanos das gerações que hoje têm entre 20 e 40 anos denunciam o “reaganismo zumbi” e o “dogma libertário” como os principais flagelos da política atual. Qualquer pessoa que tem planos de carreira de longo prazo e compreende os fundamentos dos fatores demográficos está se alinhando com esse último grupo. Em uma pesquisa da Gallup publicada em agosto, metade dos republicanos entrevistados e 67% dos americanos em geral afirmaram que aprovam os sindicatos. Foi o nível mais alto desde meados dos anos 1960. E um salto dos 48% registrados em 2009.

Boa parte dessa mudança continua meramente hipotética, já que apenas 1 em cada 10 trabalhadores americanos é filiado a um sindicato hoje. É um nível perto dos mais baixos no último século. O governo dos Estados Unidos ainda continua relativamente pequeno em comparação com o de países europeus ou, digamos, do Brasil. Mas há um surpreendente consenso bipartidário em torno da necessidade de um Estado maior e mais forte também em relação a questões econômicas. O cerne da política industrial de Biden – usar subsídios federais para ajudar a construir a indústria de semicondutores no país – foi defendido durante anos por um grupo bipartidário de senadores, incluindo Tom Cotton, de Arkansas, 46 anos, veterano do Exército e considerado um dos mais conservadores do Congresso. E, mesmo com o déficit orçamentário subindo a novos patamares sob Biden – e devendo dobrar em 2023, chegando a 2 trilhões de dólares –, a maioria dos republicanos tem sido curiosamente comedida em suas críticas.

A mudança cultural foi tão abrupta que, quando os republicanos recorrem a táticas à moda antiga, o tiro, frequentemente, sai pela culatra. Em julho, Marjorie Taylor Greene, legisladora e sensação das redes sociais da extrema direita – uma espécie de Nikolas Ferreira de cabelos loiros e salto alto –, aparece em um vídeo atacando Biden com uma linguagem que durante décadas colocava os democratas na defensiva. Entre várias outras acusações, disse o seguinte: “Joe Biden fez os maiores investimentos públicos em infraestrutura social e em programas ambientais. Ele está realmente terminando o que FDR [Franklin Delano Roosevelt] começou […]”, disse Greene, em tom escandalizado. “Programas que tratam da educação, atendimento médico, problemas urbanos, pobreza rural […] e sindicatos, e ele continua trabalhando em tudo isso!”

A Casa Branca pegou os trechos de Greene que lhe interessavam, aplicou um fundo musical e fez um anúncio pró-Biden, dizendo que sim, na verdade, é exatamente isso que estamos fazendo. “Eu aprovo esta mensagem”, disse Biden num tuíte, compartilhando o vídeo. O anúncio teve 40 milhões de visualizações nos dois dias seguintes à sua publicação, um raro triunfo para um presidente que, como ele mesmo reconhece com orgulho, não é muito bom nas redes sociais.

Existem diferenças significativas entre as agendas econômicas dos dois partidos em áreas como mudança climática, a regulação de empresas e a estrutura tributária, entre outras. Mas também é verdade que a atual política americana às vezes parece uma competição para ver qual partido pode oferecer à classe trabalhadora mais benefícios e proteções. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, nenhum partido em Washington está verdadeiramente interessado em buscar novos acordos de livre-comércio. Argumentam que tais acordos acabaram beneficiando sobretudo dois grupos: os ricos e os chineses. Trump, que teve um déficit orçamentário de 1 trilhão de dólares no ano anterior à pandemia, não diz quase nada sobre planos para conter os gastos caso venha a vencer novamente. Na verdade, ele criticou ferozmente outros pré-candidatos republicanos à Presidência que sugeriram cortar os benefícios concedidos por programas populares. Trump também enfatizou seu protecionismo, sugerindo a criação de uma nova tarifa de 10% sobre todas as importações estrangeiras – às quais classificou como “corda apertada no pescoço” da economia do país. É uma das suas propostas centrais para a campanha do próximo ano.

Alguns se perguntam se todas essas mudanças vão realmente beneficiar os Estados Unidos no longo prazo. Na história, a lista de países que prosperaram graças ao protecionismo não é muito extensa. Os brasileiros sabem, melhor que a maioria de outros países, o que pode acontecer quando o déficit federal sai do controle e os governos tentam criar e proteger “campeões nacionais” em setores-chave. Os Estados Unidos provavelmente não pretendem ter versões locais de Eikes, Joesleys e Wesleys. A economia dos Estados Unidos tem mais espaço para tomar emprestado do que outros países, graças ao fato de que o dólar ainda é, de longe, a moeda de reserva mais popular do mundo (apesar dos esforços de Lula e Xi Jinping para promover alternativas). Até o governo Biden, no entanto, reconhece que, no ritmo atual, a dívida federal pode ultrapassar os 40 trilhões de dólares até 2033 – número exorbitante que servirá de teste para a tolerância mundial com os intermináveis gastos americanos. Em agosto a Fitch, agência de classificação de risco, rebaixou a dívida do governo americano – a segunda vez na história que o país sofre esse rebaixamento – alertando, em linguagem sombria, que a “governança do país […] tem se deteriorado constantemente ao longo das últimas duas décadas”.

Mas, pelo menos por enquanto, não há dúvida: o cerne estatista da agenda de Biden – sua versão americanizada do petismo – é popular. Ainda que Biden esteja patinando nas pesquisas, é certo que essa parte da sua agenda é tão popular que os republicanos estão tentando vencê-lo no seu próprio campo. O que significa que a chave do enigma, o que realmente aflige o governo de Joe Biden, deve estar em outro lugar.

É desnecessário dizer ao público brasileiro, na esteira dos anos Jair Bolsonaro, que as questões sociais, as chamadas “guerras culturais”, são o principal campo de batalha da política atual: uma fonte de conflitos muito maior do que a política econômica. Nas megaigrejas evangélicas, na Fox News, nas reuniões de diretoria nas escolas, nos grupos de WhatsApp das famílias (sim, alguns americanos também usam Whats­App) – é nesses espaços, em torno dessas questões, que se poderá ouvir opiniões de que os Estados Unidos estão condenados ao desastre e Joe Biden é o principal responsável.

Eis o ponto crucial: em muitas questões sociais, Biden parece ter a opinião pública a seu favor. Cerca de 6 em cada 10 americanos desaprovam a reversão do aborto pela Suprema Corte, ocorrida em 2022. Desde então, vários estados, incluindo os conservadores Texas e Virgínia Ocidental, aproveitaram a decisão do tribunal e aprovaram leis mais restritivas sobre o aborto. Cerca de 1 em cada 3 mulheres americanas agora vive em estados onde o procedimento é proibido, e esse número deve aumentar, a depender do resultado da próxima eleição. Muitos ativistas democratas acreditam que o aborto será a questão principal na campanha de 2024, o que poderá levar Biden a repetir a sua vantagem de 57% a 42% entre o voto feminino, que foi tão crucial para a vitória do democrata em 2020. Quando a eleição se aproximar, esses mesmos ativistas democratas apostam que o eleitor vai começar a prestar a atenção na disputa – e Biden vencerá de novo.

Talvez. Mas é impossível apontar o tema que vai galvanizar a atenção do eleitorado no ano que vem. Fui criado em uma área conservadora do Texas e, agora, moro em uma cidade muito progressista próxima de Nova York. Em ambos os lugares, às vezes parece que o único assunto que os americanos estão discutindo neste momento é a questão das pessoas transgênero. Os canais de tevê a cabo e jornais mais influentes do país dedicam um espaço extraordinário para debater se as mulheres transgênero podem competir nos esportes escolares, escolher seus pronomes ou receber terapia de afirmação de gênero antes dos 18 anos de idade. Existem literalmente centenas de projetos de lei nas assembleias estaduais de todo o país visando restringir as ações das pessoas trans, e vários candidatos republicanos, inclusive o governador da Flórida, o presidenciável Ron DeSantis, tornaram as políticas antitrans um tema central de suas campanhas contra a mentalidade woke – a nova palavra do inglês para designar o “politicamente correto”. (DeSantis chegou a criticar Trump por ser muito tolerante nesse ponto.) Cada pessoa nos Estados Unidos pode dar a sua opinião sobre qual banheiro as pessoas transgênero devem usar; mas quase ninguém quer discutir soluções viáveis para a epidemia dos opioides ou os tiroteios nas escolas. Se a questão continuar assim em 2024, provavelmente não será nada bom para Biden.

O problema da inflação nos Estados Unidos tem sido mais danoso a Biden do que parece, por razões que podem soar cômicas para os brasileiros. Antes da pandemia, eu dava aula de jornalismo financeiro numa faculdade em Nova York. E me via na posição de ter que explicar para os alunos o que é a inflação. Eu me apoiava em minha experiência como correspondente no Brasil e na Argentina para dar exemplos práticos. Muitos me olhavam como se eu fosse um alienígena. Eram jovens inteligentes, alunos de pós-graduação, mas, de maneira geral, as pessoas só sabem o que precisam saber – e a geração desses jovens simplesmente nunca tinha vivido esse tipo de coisa. Nos últimos três anos, no entanto, todos os americanos aprenderam a lidar com o assunto de uma maneira brutal, pois não tinham as ferramentas adequadas – como indexação e negociação anual de salário – desenvolvidas em países que viveram o dilema inflacionário.

A inflação pode ter desacelerado ultimamente, mas um estudo recente mostrou que uma família americana média perdeu 7 mil dólares em poder de compra nos últimos dois anos. Muita gente segue sem entender o que aconteceu, ou por que aconteceu. Tenho amigos no Texas que perguntam, irritados, por que os preços não voltaram ao “normal” de antes da pandemia, sem saber que não é assim que funciona a inflação. E muitos, previsivelmente, culpam o presidente.

As piores avaliações de Biden nas pesquisas vêm da sua gestão de um tema que afeta também o Brasil. No tocante à imigração, o presidente manteve boa parte da linha dura de Trump – uma decisão que, aparentemente, não deixou ninguém satisfeito, nem a esquerda nem a direita. Embora a construção do infame muro na fronteira do México tenha sido interrompida, Biden esperou até maio deste ano para encerrar o chamado Título 42, a norma que usava a pandemia como desculpa para deportar migrantes na fronteira do país, incluindo pessoas com direito legítimo de asilo. No governo Biden, mais de 2 milhões de pessoas foram expulsas sob esse quadro regulatório, enfurecendo grupos de direitos humanos e a ala progressista do seu partido no Congresso. No entanto, o fluxo de pessoas não diminuiu, em parte devido às crises contínuas na América Latina e em outras partes do mundo. O fluxo tradicional de migrantes do México e da América Central foi engrossado por haitianos, equatorianos, cubanos, venezuelanos e também um número recorde de brasileiros. Os que conseguem atravessar a fronteira estão se espalhando por cidades de todo o país, dando contribuições valiosas para suas novas comunidades, mas também colocando os orçamentos municipais sob enorme pressão. O prefeito de Nova York, Eric Adams, um democrata, alertou agora em setembro que os gastos com abrigos para migrantes podem “destruir” a cidade, se não houver mais ajuda federal. Desde então, o vídeo do prefeito está em exibição constante na Fox News. É o tipo de desafio que talvez nenhum presidente americano tenha o poder de resolver – mas pode levá-lo a perder o emprego.

O maior obstáculo para a popularidade de Biden, porém, é algo fora do seu controle: a idade. Aos 80 anos, o presidente é apenas três anos e meio mais velho do que Trump, mas as pesquisas mostram que os eleitores estão muito mais preocupados com a saúde e a acuidade mental de Biden do que com a do seu adversário. Não é difícil compreender a razão. Há vídeos onipresentes online nos quais Biden caminha rigidamente para entrar e sair de um pódio, tropeça ao subir e descer escadas e parece perder o fio do raciocínio no meio de uma frase. O assunto é tema de milhões de memes. A Casa Branca insiste que Biden está em boas condições e acusa a mídia conservadora de distorcer certos momentos, mas a questão não é partidária. Os números são devastadores: em uma pesquisa de setembro, 3 em cada 4 americanos disseram estar “gravemente preocupados”, temendo que a idade de Biden já esteja afetando sua competência física e mental. Um número maior teme que a idade o impeça de completar um eventual segundo mandato, ao fim do qual terá 86 anos. “Acho que ele é uma pessoa confiável, honesta”, disse um entrevistado em uma pesquisa recente da CNN. “Mas ele é tão velho, e não está totalmente bem da cabeça.”

A gerontocracia é um problema nos Estados Unidos, e não se limita à Casa Branca. Neste ano, em duas ocasiões em que falava em público, o poderoso líder do Senado, o republicano Mitch McConnell, de 81 anos, simplesmente parou de falar e ficou com o olhar perdido por longos 30 segundos. Médicos especulam que McConnell tenha sido vítima de pequenos derrames. Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia e pioneira das mulheres no Congresso que morreu na última semana de setembro,  tinha 90 anos e  sofria de demência tão aguda que um “cuidador” era designado para votar em seu nome, enquanto ela se recusava a renunciar ao cargo.

Nada disso seria tão problemático se a geração seguinte de políticos americanos estivesse pronta para assumir o posto. Por alguma razão, há uma falta de alternativas com apelo eleitoral. No caso de Biden, o caso é especialmente grave. Sua escolha para vice-presidente, Kamala Harris, rendeu uma triste distinção, rara na história recente do país: um vice cujo índice de aprovação é inferior ao do seu chefe. É legítimo perguntar se tem um grau de preconceito contra a mulher ou contra a cor de sua pele – Harris é filha de mãe indiana e pai jamaicano. Os candidatos republicanos alertam abertamente que ao votar em Biden em 2024 pode-se estar elegendo Harris para presidente. E o alerta não é feito em tom de elogio. Alguns especulam que Biden ainda pode não concorrer, citando sua saúde ou talvez a necessidade de dar atenção à sua família, já que seu filho Hunter Biden enfrenta acusações na Justiça federal, relacionadas a arma de fogo, da época em que usava drogas. Por ora, a Casa Branca insiste que Biden não vai desistir.

Finalmente, há outro fator, ainda que não seja exatamente científico: os americanos estão desanimados, achando que nada presta, e o sentimento não é de agora. Alguns atribuem o pessimismo à recessão de 2007-08 e o mal-­estar que persistiu depois. Outros culpam o surgimento de smartphones e das redes sociais, que apareceram mais ou menos na mesma época. Outros, ainda, citam a pandemia. Mas parece que o mal-estar vem de muito mais longe: a última vez que a maioria dos americanos disse ao instituto de pesquisas Gallup que estava “satisfeita” com os rumos do país de maneira consistente foi no final dos anos 1990.

Hoje, esse número é de apenas 20%. Os Estados Unidos de hoje enfrentam desafios avassaladores de saúde mental, vício, solidão e perda do senso de comunidade. A queda da expectativa de vida para apenas 76,4 anos é o nível mais baixo em quase duas décadas – e uma exceção entre os países desenvolvidos. Os assessores de Biden acreditam que esses problemas resultam, pelo menos em parte, do prolongado declínio da indústria americana e dos empregos dignos, e argumentam que a agenda do presidente se destina, precisamente, a reverter essas tendências. Talvez tenham razão e as políticas de Biden precisem apenas de mais tempo. Mas, para quem vive aqui, o problema parece ser maior. E talvez as dificuldades estejam além da capacidade de qualquer político. Pode-se até perguntar se, no contexto atual dos Estados Unidos, é possível ter uma popularidade melhor do que a de Biden.

Uma ironia marcante é que o petismo de Biden tornou mais difícil para os Estados Unidos atender às demandas de um governo petista de verdade. Em fevereiro, na primeira visita de Lula à Casa Branca depois de assumir seu terceiro mandato, muitos comentaristas notaram como a agenda foi limitada. E pareceu ainda mais limitada à luz da viagem de Lula à China dois meses depois, que rendeu compromissos gigantescos de infraestrutura e financiamento. Acontece que os recursos de Washington para melhorar as relações com o Brasil e outros parceiros são bastante reduzidos, considerando-se a recusa de democratas e republicanos de explorar novos acordos de comércio exterior e os gastos deficitários já próximos do limite máximo. Mesmo nesta era de sua política industrial, Biden não pode simplesmente decretar que as empresas americanas invistam em outros países, como pode fazer Xi Jinping. Muitos no PT e em outros círculos ficaram decepcionados com os 500 milhões de dólares que Biden prometeu para auxílio à Amazônia, e mesmo essa quantia irrisória provavelmente não será aprovada pelo Congresso. Nesta era de Buy American, é difícil mobilizar recursos para outros países, pelo menos os que não estão diretamente em guerra com a Rússia.

Alguns se preocupam com o que o eventual retorno de Trump poderia significar para o Brasil e outras democracias do planeta. Por um lado, é inegável que a derrota do autoritarismo no Brasil resultou, sobretudo, da resistência do Congresso, dos tribunais, dos líderes empresariais e outras instituições, que deixaram claro que uma ruptura com a democracia não seria tolerada. Por outro lado, como demonstraram várias reportagens, o governo Biden deixou bem claro, ao longo de 2022, que não apoiaria uma aventura autoritária. Biden enviou a Brasília seu conselheiro de Segurança Nacional e secretário da Defesa para dizer a Bolsonaro e aos militares brasileiros que qualquer desvio da democracia significaria o fim da colaboração com os Estados Unidos. É óbvio que se Trump fosse presidente, a realidade seria outra. Se for eleito novamente em 2024, Trump não tem feito segredo sobre as suas ambições de “trancar na cadeia” seus opositores, purgar o funcionalismo público dos Estados Unidos de servidores desleais e, de modo geral, buscar vingança contra seus inimigos – no país e no exterior. Não é descabido sugerir que isso poderia incentivar alguns políticos conservadores também no Brasil.

Mas na Washington de Joe Biden, essas preocupações coexistem com outra convicção: de que há lições que os Estados Unidos podem aprender com o Brasil, enquanto vão manobrando em meio aos perigos à frente. Algumas autoridades com quem conversei expressaram uma clara admiração pela rapidez com que a Justiça brasileira puniu os responsáveis pelo motim de 8 de Janeiro em Brasília e baniu os direitos políticos de Bolsonaro por ter espalhado notícias falsas sobre a eleição. Apesar das divergências com Lula em diversas áreas, outros reconhecem que o presidente brasileiro trouxe de volta ao Brasil uma certa governabilidade, algo que continua tão difícil de alcançar nos Estados Unidos. O próprio Biden, em sua conversa telefônica com Lula em agosto, disse, brincando, que qualquer político com uma taxa de aprovação de 60% “talvez consiga resolver também a crise do clima”. Pelo menos por enquanto, é uma estabilidade que Biden e outros americanos só podem observar com inveja.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_205 com o título “O americano petista”.


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É diretor de redação da revista Americas Quarterly. Publicou O Improvável Presidente do Brasil (Civilização Brasileira), em coautoria com Fernando Henrique Cardoso