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Nina Rocha Out 2023 19h35
4 min de leitura
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A sul-mato-grossense Karem Martins, de 32 anos, fez uma longa viagem de ônibus para defender o título de campeã que conquistou no ano passado em um concurso musical inédito. Intérprete e tradutora da Língua Brasileira de Sinais, há quase cinco anos ela descobriu uma nova vocação: combinar Libras com dança e teatro para proporcionar à comunidade surda a possibilidade de sentir a música. Martins passou 27 horas na estrada, percorrendo de ônibus 1,3 mil km, a distância entre Campo Grande e Belo Horizonte, onde em setembro foi realizada a segunda edição do Concurso Intérprete de Libras Musical.
Desde que a Libras passou a ser reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão dos surdos no Brasil, em 2002, as possibilidades de atuação de quem traduz a palavra falada para sinais vêm se ampliando. Shows, peças de teatro, slams e outras apresentações culturais abriram uma nova vertente de trabalho para profissionais como Martins.
Ela teve o primeiro contato com a linguagem de sinais graças à mãe, uma professora que a arrastava para todos os cursos de capacitação que fazia. Um deles foi de Libras – e isso mudou sua vida. “Hoje sou pedagoga com especialização em Libras e tenho uma empresa de acessibilidade.” Em 2022, Martins venceu o primeiro concurso de interpretação de música em Libras em Belo Horizonte.
A competição foi criada por Uziel Ferreira, de 35 anos, produtor cultural e também intérprete. Selecionados por votação no YouTube, os doze finalistas – surdos e ouvintes, estudantes e profissionais experientes –, de quatro estados, apresentaram-se no Espaço Aberto Pierrot Lunar, um centro cultural de Belo Horizonte. O concurso também teve transmissão online.
Ferreira lembra que até pouco tempo atrás o mais próximo que a música chegava da Libras era na interpretação do Hino Nacional. “A música é um trabalho mais complexo para a Língua de Sinais, e as pessoas tinham receio de interpretar porque acreditavam que a gente não conseguia chegar a uma poesia musical. Eu queria provar que sim, que existe uma poética”, diz.
Para o intérprete de Libras evocar o ritmo, a melodia, a letra e as sensações de uma composição, ele deve conhecer classificadores da língua, incorporar expressões faciais e dar movimento às canções, com molejo e gingado. “A Libras tem uma gramática própria, e a estrutura em cima da musicalidade é outra. São outros movimentos, outras necessidades”, explica Ferreira.
A bailarina e educadora social Bruna Pimenta, de 33 anos, compôs o júri técnico da disputa, junto com uma pessoa surda e um intérprete. Foi a primeira vez que ela participou de um evento da comunidade surda. “Nunca tinha visto nada parecido”, diz. Os concorrentes apresentavam-se de dois em dois. Jurados e público elegiam quem executou a melhor performance. O escolhido seguia para a próxima fase. “Eu já tinha sido jurada em outras situações, como em campeonatos de dança e grafite, mas essa foi a primeira vez que fiquei emocionada”, comenta Pimenta.
Diante dos espectadores que lotavam o espaço de 75 lugares, os competidores interpretaram um repertório eclético, que foi do rock à lambada – Menudo e Sidney Magal foram os preferidos. Pelo regulamento, cada apresentação deveria durar no máximo 2 minutos. “Todo mundo conseguiu trazer a sua identidade enquanto intérprete, mostrando a bagagem e o repertório do que já viveram de uma maneira muito natural, fluida, sem ser mecânico ou coreografado”, diz Pimenta.
Apesar de sua apresentação espirituosa de Bois don’t cry, dos Mamonas Assassinas, Karem Martins não conseguiu desbancar o cigano evocado pelo estreante Maximiliano Paula com Sandra Rosa Madalena. A intérprete acabou eliminada na primeira fase.
Quem ganhou o concurso foi Cristiano de Souza, o Crizin, de 30 anos, com uma interpretação do Rap do solitário, de MC Marcinho. Ele é filho de pais surdos e uma cria da cena mineira do hip-hop. Sempre que sua mãe precisava ir ao supermercado ou batia papo na rua, era Souza quem se encarregava da tradução de Libras para o português e vice-versa. “Eu atuava como intérprete sem saber”, diz. “Fui me encontrar como um intérprete profissional mesmo há pouco tempo.”
No Viaduto Santa Tereza, reduto do rap em Belo Horizonte, Souza conheceu profissionais fazendo a tradução simultânea das batalhas de rima. Um deles era Uziel Ferreira, que o incentivou a participar do primeiro concurso, no ano passado. Souza ficou em segundo lugar. A conquista abriu as portas para festivais de música, nos quais já interpretou artistas como Djonga, Baco Exu do Blues e Marcelo D2. “Apareceram muitas oportunidades, isso me forçou a ir atrás de capacitação”, conta.
Quando se sente inseguro com suas interpretações, Souza tenta imaginar se a mãe entenderia o que ele está tentando transmitir. “O intérprete que tem o contato com o surdo consegue sentir se ele está entendendo.” Se percebe que a pessoa surda está se envolvendo com a canção, é porque “a junção toda” – sinais, expressões faciais, dança – funcionou. “Às vezes nem é uma música emocionante, mas ela se emociona porque está sentindo não apenas os sinais.”
O prêmio de 3 mil reais veio em boa hora para Souza. Além da atividade como intérprete de Libras e dos trabalhos como tatuador e integrante de um grupo de rap, ele é apaixonado por carros antigos. Agora, poderá quitar a dívida que contraiu para regularizar a documentação de sua Kombi customizada.