anais da entomologia
Bernardo Esteves Mar 2016 15h00
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Às sete da manhã de uma quarta-feira de fevereiro, uma van aguardava a partida estacionada à frente de um supermercado na periferia de Piracicaba, no interior paulista. Dentro do carro, o espaço onde deveriam ficar os assentos estava quase todo tomado por pequenos potes de plástico vedados com tela. Eram mais de 200 recipientes, cada um contendo em média mil mosquitos da espécie Aedes aegypti. A maioria estava pousada nas paredes ou na tampa; alguns voavam no interior do pote. Havia também vários mosquitos soltos dentro da van. “Mas é tudo macho, graças a Deus”, observou o motorista, enquanto terminava de acoplar um tubo plástico a um orifício numa das janelas.
O Aedes aegypti é o mosquito transmissor dos vírus que causam a dengue, a chikungunya e a zika, entre outras doenças. No passado, foi também o vetor da febre amarela em ambientes urbanos – a doença foi controlada nas cidades e hoje só persiste no Brasil em sua forma rural. O motorista estava aliviado porque só as fêmeas dos mosquitos são capazes de picar – o sangue humano contém os ingredientes necessários para o desenvolvimento dos ovos –; os machos se alimentam principalmente da seiva de vegetais.
As centenas de milhares de mosquitos no interior da van em breve seriam soltas pelas ruas do bairro Cecap/Eldorado, que teve uma das maiores incidências de dengue em Piracicaba no ano passado. Entre abril de 2015 e março deste ano, o ritual se repetiu de três a cinco vezes por semana, com a liberação de cerca de 800 mil insetos por semana – foram mais de 40 milhões ao longo de quase um ano.
Por paradoxal que possa parecer, os Aedes aegypti foram soltos no ambiente justamente para combater as doenças que são capazes de transmitir. Eles nasceram em laboratório e vêm de uma linhagem geneticamente modificada para que os mosquitos se tornem incapazes de gerar uma prole viável – seus filhotes morrem ainda na fase de larva. O objetivo da liberação é que os machos transgênicos cruzem com as fêmeas que já estão no ambiente e criem com isso um beco sem saída genealógico, reduzindo pouco a pouco a população local de Aedes.
Os mosquitos soltos em Piracicaba têm pedigree inglês: foram desenvolvidos em 2002 pelos fundadores da empresa de biotecnologia Oxitec, sediada em Oxford. O Aedes modificado é o primeiro – e por enquanto o único – animal transgênico a ser liberado no ambiente. Antes da experiência no interior paulista, mosquitos modificados já haviam sido soltos no Panamá, nas lhas Cayman e em dois municípios da Bahia – Juazeiro e Jacobina. Os resultados foram satisfatórios: em quase todos os casos, a redução da população selvagem de Aedes aegypti foi superior a 80% (em Jacobina, foi de 79%). O sucesso se repetiu em Piracicaba, de acordo com dados preliminares da Oxitec ainda não publicados na literatura científica.
Quando a van enfim arrancou, quem se ocupou da liberação dos mosquitos foi a entomologista Cecília Kosmann, uma catarinense de 32 anos que desde 2014 trabalha na filial brasileira da Oxitec, em Campinas. A pesquisadora pegou um pote, destampou-o, deu uma batida na base e virou o conteúdo no tubo plástico preso à janela. A maioria saiu voando pela abertura que dava para o lado de fora; alguns insetos permaneceram no interior do tubo; outros estavam mortos.
Soltura dos Aedes aegypti transgênicos nas ruas do bairro Cecap/Eldorado, em Piracicaba (SP)
FOTO: BERNARDO ESTEVES_2016
Quando quis saber se não haveria o risco de o mosquito transgênico sofrer alguma mutação que lhe permitisse contornar o efeito do gene modificado, Kosmann disse que aquela não era uma preocupação – a linhagem é regularmente testada e tem se mostrado muito estável. Até que teve o raciocínio interrompido e começou a tossir, fazendo careta. “Ai, comi um mosquito!”
Visto por fora, o Aedes aegypti transgênico em nada difere daqueles que existem em abundância nas cidades brasileiras. É o mesmo mosquitinho preto de pernas rajadas e pintas brancas que gosta de se esconder debaixo das mesas e atrás dos móveis. Numa visita à fábrica da Oxitec em Campinas, pude atestar que a picada do Aedes transgênico também é igualmente desagradável. (Como vêm de uma linhagem livre de vírus e o acesso ao ambiente de produção é vetado a pessoas com febre e outros sintomas, é improvável que as fêmeas transgênicas transmitam doenças.)
A unidade tem capacidade para gerar 2 milhões de mosquitos por semana. É um empreendimento de porte modesto, suficiente para tratar uma área com 10 mil moradores, o dobro da população do bairro Cecap/Eldorado. A iniciativa é fruto de um acordo entre a prefeitura e a Oxitec, que estão dividindo os custos da operação – o projeto custou 120 mil reais a cada um, segundo Cecília Kosmann. A Oxitec está negociando um contrato para soltar mosquitos em maior escala no Centro de Piracicaba, numa área com 60 mil pessoas, e tem planos de construir uma fábrica maior na cidade.
Aedes aegypti geneticamente modificados cultivados na fábrica da Oxitec em Campinas
FOTO: BERNARDO ESTEVES_2016
Enquanto esvaziava um pote com mosquitos depois do outro, Kosmann contou que a liberação dos insetos requer monitoramento constante, para evitar que a área seja invadida novamente por Aedes aegypti capazes de se reproduzir normalmente, vindos de áreas vizinhas – um processo inevitável. “Não tem como não reinfestar, o mosquito viaja de ônibus, de carro, de avião”, disse ela. “Esses aqui vão para Campinas conosco.”
No dia da liberação, andei pelas ruas do bairro Cecap/Eldorado (na frente de uma borracharia, o pneu que servia de letreiro estava acumulando água de chuva) e conversei com moradores. A maioria estava satisfeita com a liberação dos mosquitos e apoiava o projeto. Com exceção de uma moradora, não se mostraram preocupados com o fato de terem que conviver com um inseto produzido em laboratório. Mas muitos se queixaram da quantidade de Aedes no bairro. “Você abre o carro e eles invadem”, afirmou um aposentado. “Fica entrando no nariz da gente”, disse uma dona de casa. “Só hoje já engoli dois”, contou uma agente de saúde.
A presidente Dilma Rousseff declarou guerra ao Aedes aegypti em cadeia nacional de rádio e tevê no dia 3 de fevereiro. Em tom grave, pediu a mobilização da população na luta contra o inseto, que ela não chamou pelo nome próprio. “Enquanto não desenvolvermos uma vacina contra o vírus zika, precisamos combater o mosquito”, conclamou. A doença que motivara o discurso de Dilma vinha causando um medo crescente na população – não era bem compreendida pelos cientistas e parecia ter consequências devastadoras. Os jornais do Brasil e do mundo estamparam as fotos dos bebês com crânio em forma de pera que estavam nascendo no Nordeste, filhos de mulheres que haviam contraído a zika durante a gravidez. A presidente dirigiu uma palavra de conforto às mulheres brasileiras e deu o mote da campanha: “Se o mosquito não nascer, o vírus zika não tem como viver.”
Agente de saúde mostra larvas de mosquito coletadas durante inspeção na Zona Norte do Rio de Janeiro
FOTO: BERNARDO ESTEVES_2016
A zika encontrou no Brasil um cenário favorável para se instalar: uma fartura de mosquitos que lhe servem de vetor e uma grande população que nunca havia tido contato com o vírus. Uma parcela significativa vive aglomerada em cidades, em condições degradantes para o ser humano, mas ideais para a proliferação do Aedes aegypti. O vírus já está praticamente em todo o território brasileiro: apenas Acre, Amapá, Santa Catarina e Rio Grande do Sul não haviam registrado casos da doença até 19 de março, segundo dados do Ministério da Saúde. E o país virou o ponto zero de uma epidemia continental: 33 países e territórios do continente já haviam notificado casos de transmissão de zika à OMS até ali.
A zika se manifesta geralmente com dores leves, febre baixa, manchas rubras e vermelhidão nos olhos; algumas infecções podem nem ser acompanhadas por qualquer sintoma. O pesadelo das autoridades de saúde são os casos de microcefalia. Há indícios cada vez mais fortes de que o vírus zika seja o responsável por essas malformações, com consequências para as capacidades cognitiva e motora de seus portadores, embora os cientistas ainda não possam estabelecer a relação causal com convicção. Falta esclarecer, por exemplo, se ele age sozinho, e em que circunstâncias pode levar a esse quadro. O vírus também está possivelmente por trás de um aumento da incidência da síndrome de Guillain-Barré, uma doença que ataca os nervos periféricos e pode levar à paralisia, nos casos graves.
Em seu pronunciamento, Dilma Rousseff anunciou a mobilização de 220 mil homens e mulheres das Forças Armadas para um mutirão contra o mosquito em mais de 400 municípios no dia 13 de fevereiro. Os jornais registraram os soldados distribuindo panfletos, inspecionando vasos de plantas e caixas d’água e trazendo tubos com larvas encontradas durante a inspeção. O número de imóveis visitados se conta na casa das dezenas de milhões. Contingentes menores de militares foram destacados para as fases seguintes de mobilização, e tropas continuam à disposição das secretarias estaduais e municipais de saúde caso sua ajuda seja solicitada. “Em muitos locais o Exército abre portas, as pessoas têm mais confiança ou receptividade”, disse-me Cláudio Maierovitch, diretor de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.
As Forças Armadas já haviam participado no passado de outras mobilizações para enfrentar o Aedes aegypti, inimigo ubíquo e diminuto. O enfrentamento do mosquito é tratado em tom belicista pelo menos desde as brigadas antimosquito de Oswaldo Cruz, nos primeiros anos do século XX. A presidente não era a primeira autoridade – e provavelmente não será a última – a lançar campanhas contra o mosquito. O que ela anunciou no início de fevereiro foi apenas mais uma etapa de um longo confronto, com batalhas importantes vencidas pelos dois lados. A guerra, mesmo, já dura mais de um século.
OAedes aegypti faz parte da família dos culicídeos, nome que vem de culex, mosquito em latim. Descende de mosquitos contemporâneos dos dinossauros que possivelmente se alimentavam do sangue dos gigantes pré-históricos. O culicídeo mais antigo de que se tem notícia foi achado preservado em âmbar em Mianmar, no sudeste da Ásia, e tem idade estimada entre 90 milhões e 100 milhões de anos, mas os mosquitos podem existir desde bem antes disso. Não se sabe desde quando existe a espécie Aedes aegypti, mas seu atestado de nascimento foi assinado no século XVIII por Lineu, o naturalista sueco que fundou a taxonomia moderna e descreveu pela primeira vez milhares de plantas e animais. Lineu deu ao mosquito o nome de Culex aegypti. Antes de virar Aedes, a espécie ainda foi chamada de Stegomyia fasciata. Outros nomes propostos no passado para classificar o mesmo mosquito dizem muito do seu temperamento: o aegypti já foi chamado de Culex excitans, Aedes inexorabilis e Aedes insatiabilis.
O nome atual, que a espécie carrega desde os anos 20, não lhe é muito lisonjeiro e quer dizer “o odioso do Egito” (aedes vem do grego, e aegypti, do latim). “É um mosquito velhaco, insistente e aproveitador”, segundo a descrição do pesquisador Ricardo Lourenço, estudioso do Aedes aegypti na Fiocruz, a Fundação Oswaldo Cruz. É natural do norte da África, onde ocupava originalmente florestas. Aos poucos os mosquitos silvestres que picavam primatas na mata se adaptaram para viver nas proximidades das aglomerações de humanos, depositando seus ovos em potes de água e dando início a uma convivência estreita e duradoura com o Homo sapiens.
A intensificação da circulação de pessoas e bens de várias partes do globo que se seguiu às grandes navegações trouxe as condições ideais para que o Aedes aegypti ganhasse o mundo. O mosquito chegou às Américas a bordo de navios negreiros, sugando o sangue de tripulantes e passageiros e se reproduzindo nos tonéis usados para o armazenamento de água potável. Os relatos de surtos de doenças causadas pelo Aedes, não raro de diagnóstico incerto, são as melhores pistas que temos da presença do mosquito. Os primeiros relatos de febre amarela nas Américas remontam ao século XVII.
O Aedes aegypti ainda atendia pelo nome de Culex quando foi identificado pela primeira vez como um potencial inimigo. Em 1881, o médico cubano Carlos Finlay publicou o artigo “El mosquito hipoteticamente considerado como agente de transmisión de la fiebre amarilla”, no qual argumentou que a espécie, abundante em Cuba, transmitia uma das mais temidas doenças das Américas. Finlay não conseguiu, no entanto, fazer experimentos que convencessem os colegas de sua hipótese. Incriminar um pequeno inseto alado pelas epidemias que varriam o continente era uma ideia original e difícil de aceitar para a maioria das pessoas.
A própria prática médica estava passando por transformações importantes. Com microscópios que permitiam observar células e micro-organismos, Louis Pasteur, na França, Robert Koch, na Alemanha, e outros pesquisadores isolaram e caracterizaram seres diminutos e esclareceram seu papel na origem de males como a raiva, a tuberculose e a peste. Com isso, modificaram a forma como os cientistas entendiam as doenças – antes disso, muitas delas eram atribuídas aos miasmas, emanações pútridas provenientes do ambiente insalubre que reinava nas cidades.
No mesmo ano em que Finlay publicou sua hipótese sobre o papel do mosquito na transmissão da febre amarela, empreendedores franceses iniciaram as obras do projeto bilionário de construção de um canal no Panamá que permitisse a passagem de navios entre o Atlântico e o Pacífico. Pagaram caro por não tomar cuidado de controlar as populações de mosquitos nos canteiros de obras. As mortes por malária e febre amarela, registradas desde antes do início dos trabalhos, passaram de 20 mil até o fim da década, quando a construtora faliu e os trabalhos foram interrompidos, deixando um rastro de prejuízos bilionários, disputas judiciais e escândalos na imprensa francesa.
A febre amarela era uma das mais sérias ameaças à saúde pública em todo o continente, e não só nos trópicos. Em 1793, uma epidemia na Filadélfia, então capital dos Estados Unidos, fez pelo menos 5 mil vítimas – cerca de um décimo da população – e levou o presidente George Washington a refugiar-se temporariamente em outra cidade.
As manifestações da doença eram aterradoras para as vítimas e aqueles à sua volta. Febre alta, calafrios, enxaquecas avassaladoras e dores musculares agudas eram o prenúncio sombrio de que um indivíduo tinha sido infectado. O fígado ia aos poucos deixando de funcionar, sua pele se tornava amarela e o sangue saía pela boca e pelo nariz. Nos casos mais graves, o quadro de horrores se completava com golfadas sucessivas – um vômito escuro provocado pelas hemorragias internas, sinal de que os dias da pessoa enferma estavam provavelmente contados. Nas ilustrações dos jornais brasileiros da época, a febre amarela encarnava a própria morte, representada como um esqueleto encapuzado, de foice na mão, a reivindicar vidas impiedosamente.
Carlos Finlay não foi o primeiro a associar um mosquito à transmissão de uma doença comum nos trópicos. Antes dele, o britânico Patrick Manson havia mostrado nos anos 1870 que o pernilongo comum era capaz de transmitir o verme responsável pela filariose. No fim do século, os mosquitos do gênero Anopheles foram apontados como vetores da malária, a mais devastadora das doenças transmitidas por insetos – fez 438 mil vítimas só em 2015 (a atribuição da descoberta é uma bola dividida entre o britânico Ronald Ross, que levou o Nobel pelo feito, e o italiano Giovanni Grassi). A hipótese do cubano foi considerada provada em 1901, vinte anos após sua formulação, por uma equipe americana estabelecida em Cuba e liderada pelo médico Walter Reed.
Uma vez identificado o inimigo, era possível mobilizar tropas para combatê-lo. A nova teoria para a origem da febre amarela embasou uma campanha bem-sucedida de controle do mosquito que o Exército norte-americano promoveu em Cuba, desde aquela época um território estratégico para os interesses de Washington na região. Capitaneada pelo major William Gorgas, a campanha combinou a internação e o isolamento dos enfermos, o combate ao mosquito adulto e – de forma ostensiva, com brigadas organizadas com esse objetivo – aos seus focos de reprodução. O sucesso valeu a Gorgas o convite para chefiar a operação de combate ao mosquito nas obras de construção do Canal de Panamá, retomadas pelos americanos em 1904 e levadas a cabo com êxito.
O entomologista americano Andrew Spielman, morto em 2006, contou que certa vez estava embrenhado na floresta tropical numa montanha em Porto Rico quando sentiu a picada de um mosquito. Embora aquele fosse um trecho de mata cerrada, concluiu que deveria haver uma ocupação humana por perto. Bastou ele afastar as folhas à sua frente para confirmar a suspeita, ao avistar um punhado de casas erguidas numa encosta. “Quando encontramos mosquitos em ambientes selvagens, sua presença sugere que há um assentamento humano por perto”, afirmou no livro Mosquito: The Story of Man’s Deadliest Foe [Mosquito: A História do Mais Letal Inimigo do Homem], que ele escreveu a quatro mãos com o jornalista Michael D’Antonio.
O Aedes aegypti não pode viver sem gente por perto. As casas humanas, especialmente nas regiões tropicais e subtropicais do planeta, fornecem as condições ideais para sua proliferação: calor, água e comida – no caso, sangue humano, abundante nas aglomerações mais populosas. Os ovos do Aedes aegypti são colocados nas proximidades da superfície de um depósito de água parada, de preferência limpa. Eclodem tão logo sejam molhados, dando origem às larvas, que lembram minhocas esbranquiçadas penduradas na superfície da água. As larvas viram pupas – como vírgulas retorcidas boiando – de onde saem os adultos; o ciclo completo leva de sete a dez dias.
Diferentes fases de vida do Aedes aegypti ao longo da metamorfose por que passa até se tornar um mosquito adulto
FOTO: BERNARDO ESTEVES_2016
Quando uma fêmea se alimenta do sangue de uma pessoa com dengue ou zika, contrai o vírus e fica doente ela também. “O mosquito é apresentado como vilão, mas também é uma vítima no processo”, disse Ricardo Lourenço, o especialista em Aedes da Fiocruz. O vírus se propaga quando a fêmea infectada escolhe como novo alvo uma pessoa saudável.
A estratégia de combate ao Aedes aegypti ficou clara tão logo o ciclo de vida do mosquito foi esclarecido: é muito mais fácil derrotar um inimigo imóvel do que uma legião de soldados alados, ariscos e esfomeados. Por isso as campanhas dão atenção especial ao combate aos criadouros onde o mosquito deposita seus ovos. Não é tarefa fácil: as fêmeas de aegypti costumam espalhar seus ovos numa profusão de lugares, maximizando a chance de alguns vingarem. Os ovos são resistentes e podem passar meses sem que se tornem inviáveis.
O médico Emílio Ribas, diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, tinha ouvido falar das experiências que apontaram o papel do Stegomyia fasciata na transmissão da febre amarela e decidiu replicá-las na capital paulista, onde não havia registros recentes da doença, no começo do século XX. Obteve de Rodrigues Alves, então presidente do estado, a autorização para realizar experimentos que hoje soam impensáveis e dificilmente seriam admitidos pelos comitês de ética na pesquisa.
O historiador da ciência Jaime Benchimol, pesquisador da Fiocruz, relata os experimentos no livro Dos Micróbios aos Mosquitos: Febre Amarela e a Revolução Pasteuriana no Brasil, de 1999. Na virada de 1902 para 1903, seis homens adultos foram picados por mosquitos infectados com a doença, inclusive o próprio Ribas e o médico Adolfo Lutz, diretor do Instituto Bacteriológico, que hoje leva seu nome. Ribas, Lutz e um terceiro voluntário acabaram não contraindo a doença, o que não os impediu de concluir com convicção que o mosquito era o agente de transmissão. Mas era preciso provar que a doença não podia ser transmitida de uma pessoa para outra na ausência do mosquito, e para isso fizeram novos experimentos. Benchimol escreve que o teste “envolveu três italianos que foram mantidos em reclusão em quartos protegidos contra mosquitos e repletos de roupas e objetos sujos de urina, vômito e fezes de amarelentos. Submeteram-se por dez dias a esse suplício e ficaram mais dez em observação, sem manifestar sinais da doença.”
O maior teste a que a teoria da transmissão pelo mosquito seria submetida ainda estava pela frente: teria lugar no Rio de Janeiro, palco de sucessivos surtos de febre amarela na segunda metade do século XIX, que fizeram 58 mil vítimas entre 1850 e 1902. Urbanizar a capital e promover seu saneamento eram um pilar do programa de governo de Rodrigues Alves, eleito presidente da República em 1902. Ele nomeou para a prefeitura Francisco Pereira Passos, que traçou um plano de urbanização da região central inspirado na Paris do barão Haussmann, responsável pela grande reforma da capital francesa no século XIX. Como na Europa, avenidas foram abertas e ruas foram alargadas no Rio da Belle Époque, à custa da demolição de centenas de casas e prédios – o “bota-abaixo” – e da remoção forçada de populações de baixa renda.
A reforma sanitária era um ingrediente central da transformação da capital. A cidade que aspirava a ser uma Paris dos trópicos não podia estar sujeita a surtos de peste, varíola, sífilis, tuberculose. Rodrigues Alves – que tinha perdido uma filha para a febre amarela – confiou a tarefa a um sanitarista de 30 anos, pouco conhecido fora do meio médico: Oswaldo Gonçalves Cruz, que havia passado três anos no Instituto Pasteur, em Paris. Cruz foi conduzido à Direção-Geral de Saúde Pública, o equivalente de então do Ministério da Saúde. Para conduzir seu plano de higienização da capital, centrado no combate a três doenças – febre amarela, peste bubônica e varíola –, o sanitarista ganhou carta branca do presidente, com um aparato legal que lhe permitia entrar nas casas e se valer, se necessário, de um tribunal exclusivo para julgar questões de saúde pública.
Oswaldo Cruz dividiu a cidade em distritos cobertos pelas equipes de mata-mosquitos, transportadas em charretes: parte delas percorria as ruas em busca de depósitos de água parada com larvas de mosquito, enchendo reservatórios de areia e esvaziando água armazenada em tonéis. Outra divisão cuidava das fumigações para eliminar os insetos adultos, espalhando gases à base de enxofre e pó da Pérsia, um inseticida de origem vegetal também chamado de píretro. Filmagens de época mostram o procedimento dramático adotado nas casas em que o Stegomyia era encontrado: agentes envolviam a casa inteira com uma tela branca e vedavam portas e janelas antes de fumigar o interior da residência, para evitar que mosquitos escapassem.
As brigadas de mata-mosquitos motivaram protestos de cidadãos que viram sua privacidade invadida, entre eles o senador Barata Ribeiro, que mandou dizer que barraria agentes que fossem até sua casa. “Selam-se todas as caixas d’água nas casas particulares, mas a minha faz exceção”, discursou na tribuna do Senado. “Jamais consentirei que o pedantismo ignorante invada os limites da minha ação de chefe de família.” Apesar da resistência da população, a campanha representou uma batalha vitoriosa contra o Aedes: as mortes por febre amarela, que beiravam 600 em 1903, foram reduzidas a zero seis anos depois. Cruz ganhou estatura de herói nacional. O instituto de pesquisa que o sanitarista dirigiu, sediado num castelo de estilo mourisco que ele fez construir no subúrbio de Manguinhos, foi rebatizado com seu nome e se tornou um dos mais importantes centros de pesquisa biomédica da América Latina.
Castelo em estilo mourisco que Oswaldo Cruz fez construir para abrigar a sede do instituto que hoje leva seu nome
FOTO: BERNARDO ESTEVES_2016
No final dos anos 1910, o combate ao Aedes aegypti no país ganhou escala nacional, e passou a ser feito em parceria com a Fundação Rockefeller, organização filantrópica recém-criada que empenhou recursos de vulto para combater problemas de saúde pública nos países em desenvolvimento. Um de seus primeiros objetivos foi erradicar o mosquito do continente americano. Agindo em vários pontos do Brasil e priorizando o ataque às larvas, em detrimento do uso de inseticidas para eliminar os insetos adultos, os americanos conseguiram conter a transmissão da febre amarela urbana no país. Em 1926 o presidente Artur Bernardes declarou que a doença estava erradicada da costa brasileira, e 61 postos de combate ao Aedes aegypti foram fechados em todo o país, segundo relata o historiador Rodrigo César da Silva Magalhães, que investigou as campanhas de erradicação do Aedes aegypti em sua tese de doutorado.
A punição pelo relaxamento do controle viria dois anos depois, com a volta fulminante da febre amarela à capital federal depois de duas décadas de silêncio epidemiológico. O surto que acometeu o Rio de Janeiro em 1928 atingiu centenas de pessoas e deixou um rastro de 436 cadáveres. A doença, que no passado tinha chegado à cidade de navio, desta vez provavelmente tinha vindo do interior, talvez com alguém que tivesse contraído sua forma rural. A febre amarela também foi registrada em dezenas de cidades do estado do Rio, na Bahia, no Recife e em Belém. Naquela década, surtos no Nordeste foram atribuídos a soldados que haviam se enfurnado no interior do país para combater a Coluna Prestes.
É nesse momento que entra em cena o maior responsável pela segunda vitória que o Brasil registra na história do combate ao Aedes aegypti: o sanitarista americano Frederick Lowe Soper. Trazido ao país para chefiar o escritório local da Fundação Rockefeller, sediado na Lapa, o sanitarista se tornaria um gigante da saúde pública do século XX. Além de combater o Aedes nas Américas, Soper desafiou – e venceu – o Anopheles na Sicília e no Egito. Quando desembarcou no Rio para assumir sua missão em 1927, porém, ele ainda estava construindo sua reputação – vinha trabalhando no combate à ancilostomíase, à malária e à febre amarela no Paraguai e em outros países da América do Sul.
No retrato que ilustra Ventures in World Health [Empreendimentos na Saúde Mundial], livro de memórias de Soper editado por John Duffy após sua morte, o sanitarista aparece de olhar sisudo encarando a câmera por trás de seus óculos redondos e do bigode curto que cobre apenas a porção central dos lábios. O americano tinha a fama de ser uma pessoa distante e escreveu uma autobiografia impessoal que chama a atenção pela economia do pronome “eu” em certos trechos. Ainda assim, Soper registra ali sua proximidade com autoridades brasileiras e os estranhamentos com a cultura local – o americano se impacientava com o atraso do correio, com a visita não anunciada de um colega ou com o trânsito interrompido para a convalescença do presidente Washington Luís num hospital.
Os fundamentos do combate ao mosquito que Soper levou a cabo não haviam mudado desde Oswaldo Cruz. O sanitarista registrou, é verdade, a troca das fumigações pelo emprego de bombas de ar comprimido, e o uso regular de peixes que se alimentam de larvas em caixas d’água e outros reservatórios. Mas a diferença que Soper fez veio talvez da disciplina draconiana que impôs à campanha. Com base em protocolos minuciosos elaborados por ele, as casas e ruas a serem percorridas por suas brigadas recebiam números, e o plano de trabalho individual para cada agente previa uma cronometragem rigorosa das tarefas. O americano não aceitava dos empregados menos que a perfeição. Atrasos eram punidos com descontos no salário, e funcionários que voltassem da rua de camisa seca eram demitidos. Certa vez, em meio à cerrada campanha do americano contra o mosquito, explodiu um depósito de munição em Niterói, conforme conta Malcolm Gladwell no perfil de Soper que escreveu para a revista The New Yorker. Ao constatar que o prédio fora aos ares no momento em que devia estar sendo vistoriado por um de seus homens, Soper mandou um telegrama de condolências para a viúva. No dia seguinte, porém, o agente se apresentou para o trabalho – e foi prontamente demitido.
Os resultados não tardaram a chegar. No final dos anos 30, o Aedes aegypti já havia sido eliminado de seis estados e do Distrito Federal. Ações bem-sucedidas também vinham sendo realizadas, em paralelo, em todo o continente.
Assim como acontecera com Oswaldo Cruz décadas antes, Soper contou com a ajuda de um aparato institucional de exceção que permitiu fazer uma campanha vertical, desta vez em todo o território nacional. Aliado da iniciativa, Getúlio Vargas baixou decretos que garantiam aos agentes a entrada nos domicílios para a inspeção de larvas e busca de mosquitos adultos. “A Fundação Rockefeller tinha uma estrutura de funcionamento muito eficiente e conseguiu, por circunstâncias históricas muito determinadas, fazer com que ela operasse ao largo dos mecanismos normais de funcionamento do Estado”, disse Jaime Benchimol, o historiador da febre amarela na Fiocruz. “Hoje a questão é infinitamente mais complexa.”
No início dos anos 40, Fred Soper ganhou um aliado importante em sua luta contra os vetores de doenças: um composto químico chamado de diclorodifeniltricloroetano, um pó branco mais conhecido pela sigla DDT. O químico suíço Paul Müller testava a eficácia do composto com outra finalidade quando constatou que a substância era capaz de matar insetos com eficácia exemplar. Mais que isso: tratava-se de um inseticida que continuava surtindo efeito mesmo dias depois da aplicação. O DDT passou a ser usado em quantidade maciça na agricultura e não tardou a virar a ponta de lança de campanhas de saúde pública em todo o mundo. Ajudou a conter epidemias de tifo, dengue, malária e febre amarela e passou a ser visto como a panaceia da entomologia médica. Müller ganhou o Nobel em 1948, antes que os efeitos de sua descoberta sobre a saúde e o meio ambiente viessem à tona, no início dos anos 60.
Soper abraçou o DDT como nenhum outro sanitarista. O inseticida foi a coluna vertebral das suas campanhas para conter a malária na Europa e na África. No Brasil, ajudou a jogar a pá de cal que faltava sobre o Aedes aegypti – quando foi incorporado à rotina de combate, o mosquito já era considerado eliminado das regiões Norte, Sul e Centro-Oeste. Extingui-lo de vez era uma questão de tempo. Um criadouro eliminado em 1955 no município de Santa Teresinha, na zona rural da Bahia, foi considerado o último foco do Aedes aegypti no país. A guerra parecia ter chegado ao fim.
Para certificar sua vitória, o Brasil convocou uma comissão internacional para conduzir testes que comprovassem que o país não tinha mais o mosquito. Foram selecionados 102 municípios de Bahia, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, onde a infestação tinha sido mais persistente. Após três anos de inspeções sem que fossem vistos rastros do mosquito, a batalha foi considerada vencida. “Depois de longa e árdua campanha, chegou a ocasião do Brasil declarar-se livre do Aedes aegypti”, informou o relatório que o país apresentou em 1958 na XV Conferência Sanitária Pan-Americana, em Porto Rico. Outros países comunicaram êxito similar na mesma conferência. Ao final, a Organização Pan-Americana da Saúde declarou que estavam livres do Aedes aegypti Belize, Bolívia, Brasil, Equador, Guiana Francesa, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e a Zona do Canal.
“Mas será que erradicaram mesmo?”, provocou Rodrigo Magalhães, o historiador das campanhas de combate ao mosquito. Magalhães é um carioca moreno de barba curta, que usa brincos nas duas orelhas e óculos com hastes rajadas de preto e branco, como as perninhas de um Aedes aegypti. Nada impediria, raciocinou o pesquisador, que populações isoladas tivessem escapado aos brigadistas e estivessem se perpetuando em refúgios isolados.
Não foi o que aconteceu, segundo Magalhães. O historiador se disse convencido de que o mosquito foi mesmo varrido do território brasileiro, àquela altura. Citou as conclusões de um estudo de 2014 que investigou a diversidade genética dos Aedes aegypti que povoam o país. Os resultados sugerem que houve dois episódios distintos de colonização, vindos da Venezuela e do Caribe – duas áreas que não tinham sido declaradas livres do Aedes na campanha de erradicação dos anos 50. O cenário, concluíram os autores, é compatível com a hipótese de extermínio completo. “Se não fosse o caso, haveria outras variedades de mosquito sobreviventes desse período, e não há”, argumentou Magalhães. “O trabalho foi bem feito.”
O Aedes aegypti tinha ido à lona com as campanhas de erradicação, mas não estava derrotado. Os focos remanescentes nos países que não tinham conseguido exterminá-lo serviram de trampolim para que o mosquito reconquistasse o continente. Ironicamente, os Estados Unidos, que haviam liderado o combate ao inseto, tiveram papel importante também no seu ressurgimento nas Américas. O país não aderiu inicialmente à campanha de erradicação do mosquito, pois a febre amarela não era um problema emergencial de saúde pública. Lançaram-se tardiamente num programa nacional para exterminar o aegypti nos anos 60, mas já era tarde demais. As campanhas de combate ao mosquito esbarraram em dificuldades de financiamento, na estrutura federativa do país e na impossibilidade de acesso às casas dos cidadãos pelos agentes de saúde.
A não adesão do país às campanhas de erradicação foi dos maiores desgostos que Fred Soper teve na vida. O sanitarista atribuía ao desleixo de seu país a volta do Aedes aegypti ao continente. Rodrigo Magalhães chamou a atenção para o percurso das notificações de reinfestação no continente: “Primeiro o México comunica em 1965 que o mosquito voltou ao seu território; em 1966, foi a vez de alguns países da América Central; no começo de 1967, a Colômbia; e, no mesmo ano, o Brasil.” O mosquito foi flagrado de volta ao país por um pesquisador de Belém em sua própria casa, nas imediações do porto. Magalhães não tem dúvida quanto ao caminho de reconquista. “É uma linha. Esse mosquito vem dos Estados Unidos.”
O historiador acredita que o Brasil poderia ter impedido a volta do mosquito se não tivesse relaxado a guarda. Desde o final dos anos 30 já se contava com uma vacina eficaz contra a febre amarela, e o Aedes parecia uma ameaça menor. Aos poucos, a estrutura de combate ao mosquito construída desde o início do século começou a ser desmontada. Primeiro, no governo Juscelino Kubitschek, contou Magalhães. Até que Castello Branco, o primeiro general a governar o país na ditadura pós-1964, extinguisse o que restava do serviço nacional de combate à febre amarela.
Em 2 de abril de 1986, foram feitos na Fiocruz exames laboratoriais para determinar a doença que acometia pacientes de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Estavam incapacitados, com febre alta, dores intensas de cabeça e nas articulações. Os testes mostraram que eles estavam com dengue, causada por um vírus de origem asiática até então incomum por essas bandas. Havia relatos de dengue no Brasil desde o século XIX, mas os casos confirmados no estado do Rio de Janeiro foram os primeiros depois de décadas. Não chegou a ser uma surpresa: nos anos anteriores a doença vinha causando estrago na América Central e no Caribe – em Cuba, houve em 1981 uma epidemia com 344 mil casos. A dengue chegou ao Brasil no final de 1981, via Roraima, onde houve um surto com mais de 11 mil casos. No Rio, em 1986, foram notificados 33 500 casos. Na época, houve quem atribuísse o início da epidemia a um circo instalado em Nova Iguaçu vindo da Amazônia.
O vírus e a doença eram novidade para os brasileiros, mas o vetor era o mesmo Aedes aegypti, velho conhecido dos cariocas. O micro-organismo encontrou uma região metropolitana reinfestada pelo Aedes havia pelo menos uma década, e uma população altamente suscetível ao vírus, morando na maior parte em condições favoráveis para a reprodução do mosquito. Não foi por falta de aviso: uma reportagem da Folha de S.Paulo publicada à época mostrou que o Ministério da Saúde tinha engavetado um plano de ação contra o mosquito no Rio de Janeiro elaborado no início da década. No fim de 1985, às vésperas do verão, 27 bairros da capital tinham um índice de infestação predial acima de 5%, considerado alarmante pelos epidemiologistas. O mosquito estava de volta em pelo menos catorze estados do Brasil.
Cidades portuárias como o Rio, Santos e Salvador registravam grandes índices de infestação. O Aedes aegypti tinha voltado possivelmente por via marítima, quem sabe em navios que traziam carregamentos de pneus, que o mosquito adora usar como criadouro. O médico infectologista paulistano Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, gosta de definir a dengue como uma “doença urbana” – esse é o subtítulo de um livro de referência sobre o tema que ele lançou em 2012 com dois colegas. O médico notou que o mosquito se beneficiou da grande mudança demográfica acontecida no Brasil na segunda metade do século passado – em 1950, quase dois terços da população brasileira viviam no meio rural; em 2000, quatro em cinco brasileiros moravam em cidades. “E a gente sabe como foi feita essa urbanização”, continuou Timerman. “As pessoas se aglomeraram em cidades impermeabilizadas e sem a menor infraestrutura de saneamento básico, fornecimento de água e coleta de lixo.”
A relação não é difícil de estabelecer. O lixo espalhado em volta das casas tem uma infinidade de embalagens de plástico e isopor que podem virar criadouros instantâneos em caso de chuva. Se falta água, as pessoas são obrigadas a acumulá-la em casa, em reservatórios que fornecem as condições que o mosquito necessita para procriar. Não é por acaso que o estado de São Paulo, que teve áreas com problemas de abastecimento no primeiro semestre de 2015 por causa da crise hídrica, teve 733 mil casos de dengue no ano passado, quase a metade do que se registrou em todo o país.
Os indicadores de saneamento básico no Brasil dão razão a Timerman. Um diagnóstico divulgado em fevereiro pelo Ministério das Cidades mostrou que 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada, e que apenas 57,6% da população urbana é servida pela rede de esgotos – se for considerada também a população rural, a cobertura não chega a 50%, o que nos deixa atrás de países como Venezuela, Bolívia e Peru.
Além do descalabro urbano, o mosquito se aproveitou também do despreparo das autoridades para lidar com a crise, muito criticado pela imprensa por ocasião da epidemia de 1986. Um filme registrou a manifestação em que habitantes de Nova Iguaçu paralisaram a estrada Rio–Petrópolis reivindicando providências contra a dengue. Num editorial publicado em 1987 nos Cadernos de Saúde Pública do Rio de Janeiro, a infectologista Keyla Marzochi comparou os meios empregados pelas autoridades brasileiras com os empenhados no combate à epidemia cubana de 1981. O efetivo disponibilizado no Rio pelo órgão responsável pelo controle, a Sucam, não chegou a 3 mil agentes, contra 15 mil mobilizados em Cuba; o Rio teve dezesseis máquinas de fumacê acopladas a veículos e outras sessenta carregadas nas costas dos agentes; em Cuba, foram 215 e 3 961, respectivamente, e a epidemia acabou em cinco meses.
A infestação de Aedes aegypti só faz aumentar de 1986 para cá. O gráfico que representa o número anual de ocorrências de dengue mostra que o mosquito voltou para ficar: há picos significativos em 1991, 1998, 2002, 2008, 2010 e 2013. O ano passado viu a maior epidemia da doença na história do país, com mais de 1,6 milhão de ocorrências.
Há dois anos também circula entre nós outra doença transmitida pelo Aedes aegypti: a chikungunya, virose febril de sintomas parecidos com os da dengue, caracterizada por dores mais intensas e que em alguns casos podem se estender por anos (o nome da patologia vem do suaíli e quer dizer “aqueles que se dobram”). No ano passado foram notificados quase 27 mil casos de chikungunya, e houve três mortes. O vírus chegou às Américas em 2013 e no ano seguinte foi registrado no Brasil. O número de casos no continente passa de 1 milhão.
Numa entrevista telefônica com Antônio Nardi, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, perguntei-lhe se o recorde de dengue em 2015 não era um sinal de que o dever de casa estava sendo malfeito. Nardi falou enrolado para admitir a parcela de culpa do governo. “O dever de casa por parte dos poderes públicos muitas vezes não foi suficiente para a evitabilidade do mal maior”, afirmou. Ele acredita que a conta deve ser dividida com os cidadãos. “Podemos usar todas as tecnologias ao nosso alcance, mas se não tivermos a mudança de comportamento efetiva de todos, será extremamente difícil.”
O apelo à ação individual está na base das campanhas de combate ao mosquito e é de fato imprescindível. “Nossas visitas domiciliares comprovaram que 80% ou mais dos criadouros estão dentro das residências”, disse Nardi, um cirurgião-dentista que foi por nove anos secretário de Saúde de Maringá, antes de ir para o Ministério. O efetivo mobilizado contra o Aedes envolve 46,5 mil agentes de controle de endemias e 266,2 mil agentes comunitários de saúde dos estados e municípios. Segundo o secretário, o combate é feito mesmo durante o inverno, quando a população do mosquito diminui, com a orientação da população e a realização de pentes-finos em busca de larvas. “O contingente é permanente”, afirmou.
Em 1962, a bióloga americana Rachel Carson lançou Primavera Silenciosa, um livro que denunciou os impactos do uso de pesticidas sobre a natureza. Carson apresentou provas de que o DDT vinha provocando o declínio da população de pássaros em áreas dos Estados Unidos e levantou suspeitas de que pudesse estar por trás de doenças em operários envolvidos com sua produção. Chamou a atenção também para o perigo do surgimento de insetos resistentes aos pesticidas, algo que já vinha se manifestando devido ao uso sistemático do DDT desde os anos 40.
O livro de Carson é considerado um marco do surgimento do ambientalismo. A autora morreu dois anos depois de publicá-lo e não viu a criação da Agência de Proteção Ambiental de seu país, que baniu o uso do inseticida em 1972. Outros países aos poucos adotaram medidas parecidas. No Brasil, o DDT não é usado na agricultura desde 1985, e em campanhas de saúde pública, desde 1998. Hoje o produto só é fabricado na Índia, para uso exclusivo contra insetos.
A resistência apontada por Carson é a sina de qualquer inseticida. Não é complicado entender por quê: caso haja numa população de mosquitos um ou mais indivíduos com uma mutação que o proteja da ação do inseticida, eles serão os únicos a sobreviver no caso de um ataque químico – e transmitirão para a prole o gene da resistência. Com o tempo, sobrarão apenas os mosquitos que forem imunes ao efeito do pesticida.
Compostos alternativos ao DDT foram desenvolvidos desde a sua proibição em escala global. A maioria deles age sobre o sistema nervoso dos insetos e leva à morte por hiperativação dos neurônios e músculos do animal. Todos, invariavelmente, estão fadados a deixar um dia de surtir efeito. Quando surge a resistência, muda-se o composto e reinicia-se o ciclo.
O Brasil conta desde 1999 com uma rede de monitoramento da resistência do Aedes aegypti aos inseticidas montada pelo Ministério da Saúde. No ano 2000, o grupo constatou que os compostos usados até então já não surtiam mais efeito e recomendou que fosse usada uma nova classe de inseticidas. “Pensamos que ficaríamos uns quinze ou vinte anos sem problema nenhum, mas dois ou três anos depois começamos a ver a resistência”, contou Denise Valle, uma bióloga da Fiocruz especialista em controle de vetores.
Valle – uma pesquisadora falante de cabelos pretos crespos – abriu na mesa de seu gabinete uma obra de referência sobre a dengue organizada por ela e lançada em 2015. Mostrou uma tabela com os inseticidas recomendados pela OMS para matar insetos adultos: dos cinco compostos listados, disse ela, quatro pertencem à mesma classe e já não surtem efeito devido à resistência desenvolvida pelos mosquitos brasileiros, em tempo recorde, no início da década passada. Seu uso foi interrompido em 2009. “Sobrou só o Malathion”, afirmou Valle, referindo-se ao único composto para matar mosquitos usado atualmente. Também o Malathion se tornará imprestável mais cedo ou mais tarde. “Se começarmos a fazer uso intenso, vamos perdê-lo muito rapidamente e aí não tem mais o que fazer”, disse, antes de acrescentar que o desenvolvimento de um novo inseticida costuma levar décadas.
Em 2011, o Jornal Nacional noticiou a campanha em que a prefeitura de Foz do Iguaçu distribuiu 80 mil frascos de inseticida para os moradores – uma “excelente ideia que o Brasil inteiro pode copiar”, na avaliação de William Bonner. Na reportagem, uma dona de casa aparece lançando jatos de spray preventivos pela casa. Denise Valle lembrou o episódio para salientar que o uso indiscriminado de inseticida pela população contribui, na verdade, para estimular o surgimento de mosquitos resistentes. Os inseticidas, continuou a bióloga, inspiram na população uma sensação de falsa segurança, que muitas vezes se reflete no relaxamento das medidas de controle das larvas. Muitos reclamam que o fumacê – o inseticida pulverizado nas ruas por um carro – já não passa como no passado, mas o recurso só é recomendado para controlar epidemias, e não para o combate preventivo. Empresas privadas que promovem aplicações não controladas de inseticida também contribuem para o problema da resistência. No condomínio em que Valle mora, em Jacarepaguá, os moradores não escutaram seus protestos e pagam uma companhia que pulveriza inseticida duas vezes por dia.
O Brasil venceu o mosquito em mais de uma ocasião, apenas para vê-lo reconquistar território – e transmitir novas doenças. A conclusão lógica a que chegaram os pesquisadores foi a de que era necessário recorrer a novas armas. O combate atual contra o Aedes mantém métodos e práticas das campanhas de erradicação promovidas ao longo do século XX, mas conta também com soluções trazidas pela biotecnologia. No passado, o objetivo era impedir que o mosquito nascesse – com a eliminação dos criadouros, dos ovos e larvas – ou transmitisse os vírus – com o uso de inseticidas contra os adultos alados. Hoje é possível também atacar por outro flanco, buscando barrar o avanço do Aedes interferindo diretamente nas suas capacidades reprodutivas.
Os mosquitos transgênicos da Oxitec são um exemplo da tentativa de controlar a capacidade do Aedes de se reproduzir. Outra alternativa é uma técnica desenvolvida há décadas com esse mesmo fim, e que vem sendo resgatada: a exposição de mosquitos à radiação nuclear para que fiquem estéreis e diminuam, com isso, a população selvagem. O método é usado pelo menos desde os anos 50 para esterilizar moscas e pragas agrícolas. Nos últimos anos cresceram na literatura científica relatos bem-sucedidos do uso da técnica para controlar populações de mosquitos.
Nesse irradiador da UFPE, os Aedes aegypti são expostos a uma dose de radiação gama que os deixa estéreis
FOTO: BERNARDO ESTEVES_2016
Desde o fim do ano passado, Borges vem irradiando cerca de 3 mil pupas de Aedes aegypti por semana, para liberação numa praia isolada em Fernando de Noronha. Ela espera obter nos testes de campo uma eficácia parecida com a dos ensaios feitos em condições controladas. A coleta dos ovos recolhidos nas localidades onde os machos estéreis haviam sido soltos mostrou que 70% eram inviáveis. Borges interrompeu a entrevista para matar com uma palma no ar um mosquito que voava próximo à sua cabeça. “Esse é o Culex”, tranquilizou-me enquanto limpava as mãos com um guardanapo, sem se dar ao trabalho de examinar o inseto no chão.
Distante cerca de 2 mil quilômetros do campus da Federal de Pernambuco fica o modesto bairro de Tubiacanga, no Rio de Janeiro. Espremido numa ponta da Ilha do Governador, atrás do aeroporto do Galeão, reúne não mais que 800 casas num punhado de ruas. Há um único acesso para chegar até ali: uma estrada com mato nas duas margens que contorna a cabeceira de uma pista de pouso. Com cachorros circulando à vontade pelas ruas e gente sentada à porta vendo o dia passar, a comunidade não parece estar a dez minutos do trânsito pesado da avenida Brasil.
O isolamento foi um dos atributos que tornaram Tubiacanga a candidata ideal para abrigar um experimento conduzido por pesquisadores da Fiocruz. Entre agosto do ano passado e janeiro deste ano, foram soltos ali 300 mil espécimes de Aedes aegypti cultivados em laboratório. Aquele era o balão de ensaio de uma nova arma biológica para combater as doenças transmitidas pelo mosquito – mais uma estratégia na guerra contra o inseto.
Os Aedes soltos em Tubiacanga atuam como uma tropa de cavalos de Troia. Eles carregam em seu corpo uma bactéria – a Wolbachia pipientis – capaz de impedir a replicação do vírus da dengue e, possivelmente, também da zika. Ao cruzarem com os mosquitos que já ocorrem naturalmente ali, aos poucos eles transmitirão a Wolbachia para a prole, criando uma população de insetos imunes à dengue e à zika, capazes de frear a transmissão da doença naquela localidade – essa é, ao menos, a expectativa dos arquitetos do experimento.
Os Aedes aegypti originalmente contaminados com a Wolbachia e soltos em Tubiacanga já morreram todos. Cabe agora aos pesquisadores avaliar se eles de fato se misturaram com os mosquitos nativos e geraram filhotes que carregam a bactéria. Para isso o grupo espalhou armadilhas em trinta casas e estabelecimentos comerciais de Tubiacanga. Uma vez por semana, uma equipe vai a campo recolher os insetos capturados pelas arapucas.
Na inspeção feita numa quarta-feira de março, a equipe foi recebida calorosamente numa casa modesta de muro alaranjado por uma senhora baixinha de ar amigável. Quatro mosquitos voavam dentro do saquinho de filó que um técnico recolheu na armadilha num canto da sua varanda – restava verificar se eram mesmo Aedes aegypti ou pernilongos comuns, da espécie Culex quinquefasciatus. O butim pode variar muito. Naquela manhã, a equipe recolheu cinco mosquitos mortos – provavelmente de fome – na laje de uma casa e um único espécime ainda vivo na cozinha do restaurante Capitania dos Copos. Os mosquitos foram levados para a Fiocruz e sacrificados por congelamento. De lá, foram remetidos para análise num laboratório no Centro de Pesquisas René Rachou, uma unidade da fundação em Belo Horizonte.
O destinatário dos mosquitos era Luciano Moreira, um engenheiro agrônomo paulista que se especializou no controle de insetos. No início do mês passado, ele apresentou o projeto numa palestra para uma plateia de colegas. “A Wolbachia é uma bactéria naturalmente encontrada em 60% dos insetos do mundo inteiro”, afirmou, enquanto projetava fotos de exemplos. “O Culex é um deles, bem como o Aedes albopictus”, disse Moreira, referindo-se a um primo do aegypti também capaz de transmitir dengue e zika. “Mas, não se sabe por quê, o Aedes aegypti não contém a Wolbachia”, continuou.
O destino de Moreira cruzou com o dessa bactéria em 2008, quando ele foi fazer um pós-doutorado na Austrália. Lá, trabalhou com Scott O’Neil, um entomologista que há anos perseguia a ideia de infectar Aedes aegypti com Wolbachia pipientis, e que finalmente tinha encontrado uma maneira de fazer isso em laboratório. O brasileiro participou do experimento responsável por mostrar que a bactéria impedia a replicação do vírus, um resultado que surpreendeu o grupo – eles esperavam que a bactéria apenas diminuísse o tempo de vida do Aedes, assim como fazia com a mosca-das-frutas. Moreira é o primeiro autor do artigo que relatou a descoberta, em 2009, na revista Cell.
De volta ao Brasil, tornou-se o coordenador local de um projeto internacional que pretende usar mosquitos com Wolbachia para reduzir o impacto da dengue no mundo (a iniciativa conta com um time ilustre de financiadores, encabeçado pela Fundação Bill & Melinda Gates). Os Aedes com a bactéria vêm sendo soltos no Vietnã, na Indonésia e na Colômbia. No Brasil, além do experimento em Tubiacanga, mosquitos foram liberados em Jurujuba, em Niterói. Numa entrevista na Fiocruz, no Rio, Moreira disse que são animadores os resultados preliminares do monitoramento feito semana a semana, ainda não publicados na literatura científica: “80% dos mosquitos que coletamos estão positivos.”
Se a Wolbachia é uma arma biológica contra a transmissão dos vírus carregados pelo Aedes, a guerra química continua uma frente importante de combate. Essa é a linha perseguida no laboratório de Pedro Lagerblad, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro que se define como um gastroenterologista de mosquitos e barbeiros. “Meu foco é o que acontece no intestino desses caras”, ele me disse quando o encontrei diante de sua bancada de trabalho. Lagerblad estuda o processo de digestão dos mosquitos em busca de um calcanhar de aquiles que possa ser atacado. “O que é muito singular e específico na vida de um bicho que chupa sangue?”, perguntou. “As adaptações dele para poder se alimentar assim.” É justamente atrás delas que ele está. Seu grupo mostrou que o mosquito baixa a guarda de seu sistema imunológico para digerir os componentes tóxicos do sangue, e que isso pode favorecer a infecção pelo vírus. A descoberta está na base de um composto tóxico para o mosquito, que ele pretende patentear.
Aedes aegypti cultivados na UFRJ no laboratório de Pedro Lagerblad, que estuda as adaptações dos mosquitos para poder digerir sangue
FOTO: BERNARDO ESTEVES_2016
Para o biólogo, é preciso diversificar o arsenal contra o Aedes aegypti.
“Temos várias ferramentas contra o mosquito, todas meio capengas”, afirmou. A saída é combinar várias delas, caso a caso. “Nenhuma é a bala mágica capaz de resolver o problema.” Essa é também a posição da OMS, que recomendou recentemente que os países reforcem os métodos convencionais de combate ao Aedes e que, em paralelo, promovam testes com as armas recentemente desenvolvidas, como os mosquitos transgênicos, os irradiados e os com Wolbachia.
No caso da epidemia de zika, nenhuma das novas técnicas eliminará o vírus se o Aedes aegypti não for seu único vetor. Os pesquisadores sabem que o Aedes albopictus, primo do aegypti que vive na zona semiurbana, com mais vegetação nas proximidades, também pode transmitir os vírus da dengue e da zika. E se os pernilongos comuns, bem mais numerosos que os Aedes, também tivessem culpa no cartório?
A bióloga Constância Ayres levantou essa possibilidade num evento que reuniu cientistas, médicos e autoridades de saúde pública para discutir a epidemia de zika, no início de março, no Recife. Ayres foi atrás dos estudos que apontavam o Aedes aegypti como vetor da zika e avaliou que nenhum trazia provas muito convincentes. “A incriminação do Aedes como vetor é muito incerta”, ela disse aos colegas.
Ayres – uma geneticista de insetos que trabalha na Fiocruz em Pernambuco –infectou em seu laboratório as duas espécies, Aedes e Culex, com o vírus zika. “A gente conseguiu detectar, em glândulas salivares de Culex, aos sete dias, a presença do vírus zika em alta carga viral”, anunciou aos colegas, ressaltando que aqueles eram resultados “bem preliminares”, ainda não publicados. Lembrou também que a detecção do vírus no laboratório não bastava para incriminar o Culex, e que a competência da espécie para transmitir o vírus precisava ser estudada em campo. Pedi aos colegas que dividiam a mesa com Ayres que reagissem aos resultados apresentados. Os palestrantes concordaram que era preciso aguardar os dados de campo. “Ainda não podemos concluir que o Culex seja um vetor de zika”, disse um deles, o engenheiro agrônomo Luciano Moreira, que mais cedo falara sobre seu trabalho com as bactérias Wolbachia.
Outra linha de ataque é o desenvolvimento de vacinas que tornem a população imune às doenças transmitidas pelos mosquitos. A corrida por uma vacina contra a dengue se arrasta há décadas. A primeira formulação a ser aprovada para uso comercial, produzida pela francesa Sanofi Pasteur, começa a ser usada este ano no Brasil. Mas não confere proteção ideal: nos testes clínicos, ela diminuiu em 60% a chance de um indivíduo adulto imunizado desenvolver a doença caso contraia o vírus; a eficácia é ainda menor em crianças.
Há outras vacinas contra a dengue em etapas variadas de desenvolvimento no mundo, uma delas no Instituto Butantan, em São Paulo, na terceira fase dos ensaios clínicos, a última antes da eventual aprovação. Numa entrevista telefônica, o médico Jorge Kalil, diretor do instituto, estimou o custo de desenvolvimento da vacina em cerca de 600 milhões de reais – dos quais quase 200 milhões de reais bancados pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. O Butantan é também um dos centros de pesquisa que se lançaram na corrida de uma vacina contra a zika. Kalil disse que a abordagem do instituto aproveitará o know-how obtido no desenvolvimento da vacina contra a dengue, já que os dois vírus têm muito em comum. Mas alerta que as boas notícias não são para hoje. “É difícil fazer uma vacina para humanos em menos de três anos”, afirmou.
Vacinas, de toda forma, não combatem epidemias. E tampouco evitam a proliferação de outros vírus que também podem ser transmitidos pelo Aedes aegypti e ainda não representam problemas de saúde pública. A maioria desses micro-organismos tem origem em ambiente silvestre e lá permaneceria se os humanos não estivessem invadindo seus domínios. O rápido espalhamento pelo globo não é improvável num mundo em que os deslocamentos humanos são cada vez mais intensos. “O Aedes é uma avenida aberta”, disse Atila Iamarino, virologista formado pela Universidade de São Paulo, onde se especializou na evolução molecular de vírus. “Cedo ou tarde vai aparecer alguma coisa muito pior do que o zika”, apostou.
Alguns dos vírus que podem infectar o Aedes aegypti – eles se contam às dezenas – são investigados pela equipe do virologista Paolo Zanotto, da USP, da qual Iamarino fazia parte. Perguntei a Zanotto se o grupo dele estava atento a outros vírus transmitidos pelo Aedes que podiam começar a circular no território brasileiro. “Temos prestado atenção ao barkedji, ao kedougou, ao vírus da febre do Vale do Rift, à linhagem 2 do vírus do Oeste do Nilo”, enumerou o estudioso. “É uma lista enorme, a questão é qual desses vai ser o próximo.”
O fato de estudar o vírus zika desde o início da década passada não permitiu a Zanotto antever a epidemia iniciada em 2015, o que lhe inspira certa culpa. “Temos que estar preparados. É importantíssimo que a gente olhe para todos esses outros candidatos e comece a estudá-los para ter testes de diagnóstico prontos”, afirmou.
O americano Edward Osborne Wilson, de 86 anos, especialista em formigas, é o nome mais conhecido da sociobiologia, a disciplina científica que propõe explicar em termos evolutivos o comportamento social dos seres vivos. Destacou-se também pela defesa incondicional da biodiversidade e pelas brigas que comprou com alguns colegas. No livro A Criação: Como Salvar a Vida na Terra, de 2006, Wilson escreveu que “seria um erro grave deixar extinguir-se até mesmo uma única espécie de insetos dos milhões que existem na Terra”. Mas abriu exceções para os piolhos e para um parente do Aedes. “Eu não lamentaria a extinção dos mosquitos africanos do complexo Anopheles gambiae”, continuou, referindo-se ao mosquito que transmite a malária. “Melhor conservar o DNA dessas espécies para pesquisas futuras e deixá-los desaparecer. Não sejamos conservacionistas em termos absolutos quando se trata de criaturas que se alimentam do ser humano.”
Alguns insetos são imprescindíveis para a manutenção da vida na Terra. A polinização de várias espécies de plantas por abelhas, besouros, borboletas, mariposas e muitos outros é um elo central da reprodução das plantas há pelo menos 100 milhões de anos. A eliminação de qualquer uma dessas espécies poderia ter consequências de grande impacto. Mas ninguém lamentaria muito a falta do Aedes aegypti, caso fosse extinto. “O impacto ambiental da retirada do mosquito de uma cidade não existe”, argumentou a bioquímica Margareth Capurro no evento sobre o zika no Recife. “Ele não faz parte única e exclusivamente de nenhuma cadeia alimentar. Nenhuma lagartixa vai morrer porque você matou o Aedes aegypti”, disse Capurro, que desenvolve linhagens de Aedes aegypti transgênicos em seu laboratório da USP.
Erradicar o mosquito – cortá-lo pela raiz, no sentido original do termo – é um objetivo que, embora já tenha sido atingido no passado, parece agora inalcançável. Quando Oswaldo Cruz e Fred Soper comandaram campanhas bem-sucedidas de combate ao Aedes, as cidades eram menores, menos densas e tinham o solo mais permeável; as pessoas não se locomoviam tanto quanto hoje; e o lixo era principalmente orgânico (a produção mundial de plástico passou de 15 milhões de toneladas, em 1964, para 311 milhões em 2014).
Claudio Maierovitch, diretor de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, disse-me que a naturalização da dengue, presente há décadas no Brasil, também contribuiu para que a sociedade baixasse a guarda. “Minha impressão é que a população passou a considerar a dengue uma coisa normal. Em trinta anos ela ficou conhecida, e passou a fazer parte da vida das pessoas.”
Perguntei a Jaime Benchimol, da Fiocruz, o que podíamos aprender com as campanhas bem-sucedidas comandadas por Oswaldo Cruz e Fred Soper – as únicas batalhas expressivas que o Brasil ganhou em sua luta contra o Aedes aegypti. O historiador acredita que as campanhas de combate ao mosquito deveriam resgatar o profissionalismo e a eficiência organizacional da tradição campanhista. “Por mais que se tenha uma visão crítica e legítima em relação à arrogância implícita nas campanhas verticais, o contexto exige medidas de certo centralismo”, afirmou. “O mosquito é um inimigo tenaz. Numa situação dessas, é inevitável que o bem comum se sobreponha a certos interesses privados.” Mas Benchimol não vê condições para uma investida vitoriosa contra o Aedes num cenário de desaparelhamento do sistema de saúde pública, de crescimento da violência urbana e, sobretudo, de crise institucional generalizada. “Acho muito difícil que uma campanha nesses moldes possa ser reencenada com uma estrutura política como a que temos hoje, totalmente dominada pelos interesses locais imediatos, pelas barganhas, pelos critérios clientelistas mais rasteiros.”
Em 1995, a maioria dos 120 especialistas em saúde pública reunidos num seminário para discutir o avanço do Aedes aegypti reconheceu os desafios da nova realidade urbana brasileira, mas recomendou que o país se lançasse, de toda forma, num novo programa de eliminação do mosquito. Hoje a visão predominante não é a mesma. Nenhum dos especialistas consultados para esta reportagem pareceu considerar a erradicação um objetivo factível. O governo tampouco trabalha com essa meta. “Quem falar em erradicar hoje uma doença transmitida por um vetor tão versátil quanto o Aedes aegypti estaria falando sem nenhuma consistência”, disse-me Antônio Nardi, do Ministério da Saúde. “Temos que falar em controle.”
Indiferente à mobilização das tropas inimigas, o Aedes aegypti segue ganhando terreno. O número de casos de dengue comunicados até o início de fevereiro deste ano no Brasil chegava a 170 mil – um aumento de 46% em relação ao mesmo período de 2015, quando já se havia registrado o recorde de notificações da doença no país.