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A ÁGUA E A URNA

Como Alckmin e Dilma atuaram na crise de abastecimento em São Paulo em ano eleitoral
Imagem A água e a urna

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Izabella Teixeira, ministra do Meio Ambiente, ligou seu iPad na manhã do último dia de janeiro de 2014 e quatro análises de centros de pesquisa do governo federal saltaram na tela. A obsessão da presidente Dilma Rousseff por gráficos e relatórios contaminara seus auxiliares, e era rotineira a divulgação de informações digitais entre ministros na Esplanada. A ministra não se conteve. Pegou o telefone e pediu uma audiência urgente com a presidente. Bateu à porta de Dilma com um dado alarmante, sobretudo em ano eleitoral: o chamado Sistema Cantareira, principal fornecedor de água para 9 milhões de pessoas no estado de São Paulo, estava secando a passos largos.

Os diagnósticos apontavam para o agravamento da estiagem no Sudeste em 2014, depois de um dezembro de 2013 atipicamente seco. Os dados sobre as condições pluviométricas, os baixos níveis dos reservatórios, a queda da umidade do solo e previsões meteorológicas pessimistas antecipavam um cenário de risco para a economia e a política. O colapso do principal centro produtivo do país agravaria ainda mais o quadro de crescimento pífio projetado pelos economistas. A quem o eleitor paulista, sem água na torneira, acabaria responsabilizando por uma eventual crise de abastecimento? E o pior: os reservatórios esvaziados afetariam a produção de eletricidade, trazendo risco de racionamento de energia.

O maior sistema de abastecimento de água da América Latina, o Cantareira, que ao longo de 2014 passaria a frequentar manchetes de jornais e conversas de bar, é obra de engenharia complexa. Com capacidade para armazenar 982 bilhões de litros de água – meio milhão de piscinas olímpicas enfileiradas –, no final de janeiro de 2014 contava com apenas 22,4% desse volume em seus reservatórios.

A água que sai da torneira de quase metade dos habitantes da região metropolitana de São Paulo percorre cinco represas (ou reservatórios) e sete túneis, ao longo de 48 quilômetros. Quando ela chega ao pé da Serra da Cantareira, precisa ser impulsionada por bombas, fazendo um “salto” de 120 metros – é a Elevatória de Santa Inês. O ponto final do sistema é a Estação de Tratamento de Água do Guaraú, de onde a água é liberada para o consumo. As obras foram realizadas no regime militar, entre 1967 e 1974, quando o crescimento da indústria paulista e a explosão demográfica na capital aumentaram a demanda por água – a cidade tinha então 5,7 milhões de habitantes; hoje são 11,9 milhões.

É curiosa a origem do nome “Cantareira”, que se tornou conhecido nacionalmente só agora, na mais grave seca no Sudeste em 84 anos. Nos séculos XVI e XVII, os tropeiros que faziam o comércio com o interior cruzavam a serra repleta de nascentes e córregos e, diante da abundância, aproveitavam para armazenar água em cântaros. O hábito batizou a serra: “Cantareira.”

O diagnóstico sobre o Sistema Cantareira recebido por Izabella Teixeira não era nada alvissareiro. A oito meses da eleição presidencial, os documentos colocavam na agenda da presidente um embate antecipado com o principal nicho de poder do PSDB. Dilma despachou a ministra para São Paulo, para uma conversa com o governador Geraldo Alckmin. Pediu discrição e ação rápida.

A seca já estava no radar do tucano, também candidato à reeleição. Alckmin andava encucado. Dezembro é mês que tem a letra R no meio, e, segundo a sabedoria dos agricultores do interior paulista, chove em todos os meses em que a letra R aparece. No final de dezembro de 2013, o tucano levou sua inquietação a Mauro Arce, presidente da Cesp, a Companhia Energética de São Paulo: “É mês com R e não choveu.” Arce retrucou que os boletins climáticos a sua disposição ainda não apontavam a  continuidade da estiagem severa, mas a queda dos reservatórios era um fato.

A seca persistiu em janeiro. Alckmin convocou uma reunião de governo. Falou-se da crise de 2004, quando o Sistema Cantareira também chegou a níveis muito baixos. O governador pediu à Sabesp, a empresa responsável pelo fornecimento de água no estado, que estudasse um programa de oferta de bônus a quem reduzisse o consumo. O assunto passou a ser discutido em reuniões semanais.

Em 27 de janeiro de 2014, a Sabesp divulgou um “comunicado importante”, de trinta segundos, nas tevês abertas. “O Sistema Cantareira está com o nível mais baixo dos últimos dez anos” – o governo estadual pedia economia de água. O slogan tranquilizava: “Água: sabendo usar, não vai faltar.” Foi veiculado por dois dias. Um novo comercial, também de meio minuto, foi ao ar nos dias 3 e 4 de fevereiro, ressaltando que o volume do Cantareira havia atingido 22%; recomendava-se banho rápido e não lavar carros nem calçadas. O governo considerava o bônus de 30%, implantado em 1º de fevereiro, suficiente para reduzir o consumo e afastar o risco de um colapso no Cantareira. E naquele momento ainda contava com as chuvas de fevereiro e março.

Logo depois da conversa com a presidente em 31 de janeiro, uma sexta-feira, a ministra Izabella Teixeira telefonou para Alckmin. Dispunha-se a pegar imediatamente um voo para se reunir com o governador no dia seguinte, sem alarde, como mandara a chefe. Alckmin estava no interior do estado e pediu que o encontro fosse marcado para a semana seguinte. Acabou ocorrendo numa quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014, no Palácio dos Bandeirantes.

Izabella Teixeira levou Vicente Andreu Guillo, presidente da ANA, a Agência Nacional de Águas, além de assessores do ministério. Fez-se acompanhar também por Joaquim Gondim, superintendente de Operações e Eventos Críticos da ANA, um engenheiro com experiência de gestão das secas no Nordeste que já havia trabalhado com o tucano Tasso Jereissati no Ceará. Como convinha aos dois lados, detalhes da reunião não chegaram à imprensa.

Naquele dia, o item “viagem a São Paulo” era a única anotação da agenda da ministra. “Tive uma recomendação explícita da presidente, ordem explícita, para que em nenhum momento o ministério conduzisse a questão na esfera político-partidária, e sim na esfera político-institucional”, me disse Izabella Teixeira em seu gabinete em Brasília, numa tarde nublada de março deste ano, catorze meses depois do episódio. Enfatizava a palavra “explícita” com alguns decibéis acima do usual.

A ministra evitou ser fatalista na conversa com Alckmin, até porque “modelos matemáticos têm boa previsão de curto prazo, mas não de longo prazo”. Era preciso esperar o fim do período chuvoso de 2014, mas, “conforme o andar da carruagem”, seria prudente traçar com antecedência medidas estratégicas.

Alckmin ouviu atentamente os alertas da ministra e de seus auxiliares, sem imiscuir rivalidades políticas na conversa. “Ele foi muito receptivo”, disse a ministra. O tucano chamou para a reunião no Palácio Dilma Pena, então presidente da Sabesp; Edson Giriboni, secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos; Alceu Segamarchi, superintendente do Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo, o DAEE, que atua como órgão regulador; e João Meirelles, assessor especial de Assuntos Estratégicos e hoje titular da pasta de Energia paulista. No governo, Meirelles era quem fazia as previsões mais pessimistas sobre a seca.

“A reunião foi cordial, de trabalho. O governador numa boa, a ministra também”, lembrou Giriboni, do Partido Verde, hoje deputado estadual reeleito. Segundo ele, na reunião procurou-se dividir as responsabilidades. “Foi assim: o problema não é só do estado, é de todos nós. O que podemos fazer de forma conjunta para otimizar nossas ações?”, disse.

A conversa partiu da exposição dos diagnósticos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais – o Cemaden, subordinado ao Ministério da Ciência e Tecnologia –, aqueles que haviam pipocado no tablet da ministra. Naquele dia aconselharam o governador a se servir do “volume morto” do Cantareira, caso a seca se agravasse, como havia sido feito no Ceará – daí a presença do técnico da ANA na comitiva.

Dilma Pena, que o governo tucano rifaria meses depois, sugeriu que a ANA integrasse o grupo técnico que, criado naquela reunião, passaria a monitorar diariamente o Sistema Cantareira, o GTAG-Cantareira – Grupo Técnico de Assessoramento para a Gestão do Sistema Cantareira.

“O governador nunca tinha ouvido falar em volume morto”, disse, debochado, um assessor do Ministério do Meio Ambiente, que não presenciou o encontro, mas é afeito a intrigas políticas. Já Giriboni afirmou que obviamente isso já era de conhecimento da Sabesp. “Todo mundo sempre soube que essa reserva existia. Só que a ANA precisaria autorizar o uso.” Ele admitiu que, naquela data, o governo paulista não pensava usar o volume morto e ainda contava com as chuvas. Quem havia introduzido o debate sobre o uso dessa “água extra”, segundo os tucanos, fora Mauro Arce, um mês antes de a ministra tocar no assunto com Alckmin. Em 2004, quando também se recorreu ao volume morto do Cantareira, Arce era secretário de Energia e Recursos Hídricos.

O volume morto é uma quantidade de água significativa – 287,5 bilhões de litros – que fica abaixo das tubulações do Cantareira e que em condições normais não é usada. “Não existe nenhuma relação entre esse termo técnico e coisa morta, podre ou de má qualidade”, explicou o especialista em engenharia hidráulica Rubem La Laina Porto, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

No dia seguinte à conversa no Palácio dos Bandeirantes, o Sistema Cantareira armazenava apenas 20% de sua capacidade, sem considerar o volume morto. Na segunda quinzena de fevereiro, o governador anunciou que a Sabesp cogitava usar parte do volume morto. O GTAG-Cantareira divulgou seu primeiro comunicado: nos cinco meses anteriores, saíra muito mais água do sistema do que entrara.

O grupo, com representantes dos governos estadual e federal, simulou três cenários para definir o volume de água que poderia ser retirado do Cantareira a partir de março. Quem tem poder para arbitrar sobre essa vazão são os órgãos reguladores e, num comunicado conjunto dias depois, o DAEE, estadual, e a ANA, da União, definiram que a de março seria de 27,9 metros cúbicos por segundo – a retirada normal era de 33 metros cúbicos por segundo.

A exaustão do Sistema Cantareira expôs a anatomia complexa da gestão de recursos hídricos no Brasil e sua implementação ainda frágil.

A Constituição de 1988 definiu quem são os “donos” das águas. Rios, lagos e quaisquer reservas que atravessem mais de um estado são domínio da União; caso fiquem num único estado, a responsabilidade é estadual. No Sistema Cantareira há reservatórios federais e estaduais.

Por esse motivo é que União e estado devem trabalhar juntos na gestão do Cantareira. Do mesmo modo, a outorga para a exploração do sistema depende de autorização da ANA. Em 2004, a agência federal autorizou o DAEE a renovar por dez anos a concessão da Sabesp – que a obtivera em 1974, por um prazo de trinta anos. A Sabesp é uma empresa de capital misto, com ações na Bolsa brasileira e em Nova York. O governo de São Paulo é o sócio majoritário. Essa segunda outorga do Cantareira venceu no auge da crise, em agosto de 2014. Os dois lados concordaram em postergar para o final deste ano o debate sobre a concessão.

Em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso, aprovou-se a Lei das Águas (lei 9433), que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos. A legislação determina que a água é um bem de domínio público, limitado, dotado de valor econômico. Se escassear, deve-se dar prioridade ao consumo humano e à mitigação da sede dos animais. Inspirada no modelo francês, a lógica da lei é a descentralização da gestão e a participação dos cidadãos. Ela estabeleceu que seriam criados os comitês de bacias hidrográficas, encarregados de monitorar aplicação e consumo da água, zelar pelos mananciais e propor estudos técnicos, entre outras atribuições.

Quando a Lei das Águas entrou em vigor, o Brasil tinha dezenove comitês de bacias. Em 2013, havia cerca de 200 em funcionamento. No entanto, a maioria desses comitês tem pouca ou nenhuma efetividade. Numa crise como a de 2014, há conflito entre os diferentes usuários – indústria, produtores agrícolas, piscicultores, organizações ambientais e usuários comuns.

Além das regras da Constituição e da Lei das Águas, uma lei mais recente sobre saneamento básico, a Lei 11.445, aprovada em 2007, no governo Lula, amplia a complexidade da gestão hídrica. O saneamento passou a ser responsabilidade dos municípios. Engenheiros sanitaristas consideraram um avanço que o poder público assumisse esse investimento; nos anos 90, preponderava o debate favorável à privatização do setor – o que seria um obstáculo à universalização do saneamento básico no país.

Toda essa legislação exige uma articulação entre União, estados e municípios que raramente acontece a contento. Resultado: o planejamento fica prejudicado. “O que nós estamos vendo nesta crise é que os planejamentos, se existiram, não consideraram de forma adequada as variações climáticas, as possibilidades de estiagens prolongadas, e nem que alternativas poderiam ser adotadas para fazer face a essas situações”, disse Leo Heller, relator especial da Organização das Nações Unidas sobre o direito humano ao saneamento e à água potável. Mineiro, integrante do Centro de Pesquisas René Rachou, da Fiocruz, Heller foi escolhido para ocupar o posto da ONU. Eram 26 candidatos, do mundo todo. Assumiu em novembro de 2014.

O fim do período chuvoso de 2014 se aproximava e a seca não dava trégua. O Cantareira esvaziava e chegaria, no final de março, a apenas 13,4% da sua capacidade. O glossário hídrico da população de São Paulo se ampliava: depois do “volume morto”, veio a “redução de pressão”.

Em março, a Sabesp colocou em prática essa técnica, utilizada pela primeira vez em 1997 e muito comum nas empresas de saneamento: diminui-se a pressão da água que passa pelo sistema. Num primeiro momento, a pressão foi reduzida apenas à noite. Com a crise aguda, a prática passou a ser adotada ao longo do dia. Além de o consumo ser menor, a companhia conseguiria diminuir também a água desperdiçada com vazamentos. Para alguns especialistas, reduzir pressão é uma forma de racionamento. Não se deve confundir com rodízio, quando há de fato o corte de abastecimento.

O governo estadual negava haver racionamento, mas moradores de algumas regiões começaram a ficar sem água em casa. “Água passando com menos pressão reduz vazamentos. Algumas pessoas, infelizmente, vão ficar sem água, ou porque estão em áreas altas, que a pressão não atinge, ou estão muito no fim da rede de abastecimento, onde a água não chega. Felizmente é pontual”, me disse o professor Rubem Porto, da Politécnica da USP.

Ainda em março, Alckmin foi a Brasília. Telefonou para a ministra Izabella Teixeira e pediu que ela intermediasse uma audiência com Dilma sobre a crise hídrica. Segundo relataram assessores do tucano, no início de 2014 o governador e a presidente firmaram um pacto secreto. Num evento institucional, Dilma puxou Alckmin pelo braço. A sós, disse que os dois estariam ferrados se a crise fosse aguda. Ambos asseguraram que não fariam uso político da escassez hídrica. Na visita ao Palácio do Planalto, o governador levou uma lista de obras emergenciais de médio e longo prazos que garantiriam o aumento de oferta de água em São Paulo. Queria apoio financeiro. O custo estimado era de 3,5 bilhões de reais.

O ponto central da conversa girou em torno da obra na bacia do Paraíba do Sul. São Paulo considerava prioritário fazer a interligação de duas bacias, tirando água do Paraíba do Sul para jogá-la em outra, denominada PCJ (Piracicaba–Capivari–Jundiaí), para fortalecer o Sistema Cantareira.

A situação era delicada porque é o Paraíba do Sul que garante a segurança hídrica do Rio de Janeiro. Na década de 40, para a geração de energia foram construídas barragens ao longo do rio, hoje a única reserva de água que o estado possui. Graças a essa obra, o Rio tem um volume morto equivalente a duas Cantareiras (2 trilhões de litros de água).

Tecnicamente, a transposição de bacias não oferece riscos ao abastecimento do estado – São Paulo propôs o desvio de um volume baixo do Paraíba do Sul, uma vazão de 5 metros cúbicos por segundo (quantidade de água suficiente para abastecer 1,5 milhão de pessoas, em média). Dilma aconselhou Alckmin a procurar o governador Sérgio Cabral, do PMDB, e iniciar um diálogo amistoso.

Em uma das primeiras conversas entre os dois, Cabral se opôs à obra e foi sarcástico: “Se eu apoiar essa obra posso me candidatar a senador, só que por São Paulo.” Estava também em jogo a eleição de seu sucessor, o vice-governador Luiz Fernando Pezão.

Em seguida, Cabral renunciou ao governo fluminense, desistiu da candidatura ao Senado, e coube a Pezão negociar com Alckmin. A disputa se arrastaria até depois das eleições. No final de novembro, numa audiência de conciliação promovida pelo Supremo Tribunal Federal, os governos de São Paulo, Rio e Minas se comprometeriam a resolver o problema sem recorrer à Justiça. O desenho final da transposição seria feito em conjunto, estabelecendo-se vazões mínimas e máximas que São Paulo retiraria do Paraíba do Sul.

Uma das maiores críticas do governo paulista à ANA, além da politização da crise pelo presidente da agência, é o fato de só depois das eleições o órgão regulador nacional ter apoiado a obra da transposição.  Já a União critica o fato de o governo estadual ter mencionado a importância da obra em estudos internos desde 2010 e só ter dado prioridade a ela na crise.

A partir de meados de abril de 2014, as reuniões no Palácio dos Bandeirantes se tornaram intermináveis. Era preciso estar preparado para discutir a crise da água num quadro político de incertezas – ninguém sabia ao certo para onde seriam canalizadas as insatisfações que tomaram as ruas em 2013, e além disso o PSDB precisava levar em conta a fadiga de vinte anos consecutivos no comando do estado.

Na residência oficial, discussões entre estrategistas e marqueteiros se estendiam pela madrugada e fins de semana. Com base em pesquisas qualitativas, decidiu-se que o próprio governador daria as respostas sobre a falta d’água, mas sem mencionar a palavra crise. “Ele tomou a frente do debate para mostrar ação e que resolveria o problema”, analisou um colaborador de Alckmin, que pediu anonimato.

A lógica recomendada pelo marketing político era a seguinte: Alckmin era o candidato que mais conhecia a realidade de São Paulo e, portanto, o mais preparado para enfrentar uma escassez hídrica tão severa. E, claro, o governo se ancoraria sempre na “maldade” de são Pedro, o que era um fato insofismável: o volume de chuvas era o pior do último século. No meio da confusão, Alckmin mudou o comando da Secretaria de Recursos Hídricos e colocou Mauro Arce, de perfil técnico e alinhado a governos tucanos desde a época de Mário Covas, para administrar o abacaxi.

Havia dois modelos para lidar com a seca, me disse o subsecretário de Comunicação de Alckmin, Marcio Aith, ao fazer uma retrospectiva da crise durante um almoço, em março deste ano, no Palácio dos Bandeirantes. Ou o governo decretava rodízio, com um revezamento das áreas que teriam a água cortada, ou reduzia a pressão. “Por que a gente iria para uma situação absolutamente radical se podíamos deixar todo mundo recebendo água, mas com menos volume? Por que cortar?”

O que provocou uma grande irritação no PT, continuou Aith, é o fato de São Paulo não ter decretado racionamento. “Rodízio não é estratégia, é colapso. Não se adota método de colapso como estratégia.” O principal defensor da opção por reduzir a pressão foi Paulo Massato, diretor metropolitano da Sabesp. “O samurai nos salvou”, brincou um outro tucano no início deste ano, ao avaliar o saldo político da crise hídrica. Massato tem ascendência nipônica.

Em maio, quando o período de estiagem já havia começado e o Sistema Cantareira contava com apenas 8,2% de sua capacidade, o governo de São Paulo começou a usar a primeira cota do volume morto. Simplesmente não choveu. “É como se tivéssemos tido sobre todo o Sudeste uma bolha de ar, um centro de alta pressão. Essa área não permitia a entrada de nuvens, de frentes frias”, explicou Jose Antonio Marengo, pesquisador titular do Cemaden e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU.

Marengo, que além de meteorologista é físico, afirmou que a previsão do fenômeno foi feita em dezembro de 2013. “O que não se previu foi a intensidade.” O bloqueio atmosférico teve início no fim de dezembro, agravou-se em janeiro e permaneceu até os primeiros dias de fevereiro de 2014. A bolha ficou no céu por 45 dias. As temperaturas eram altas, não havia chuva, os rios estavam baixos, e os reservatórios em queda.

Foi uma “bola de neve” que se arrastou por 2014, avaliou Marengo. Os hidrologistas afirmam que a crise persistirá ao longo de 2015, apesar das chuvas de fevereiro e março deste ano. “Entramos no cheque especial já bastante negativo”, ele disse. O fenômeno que castigou o Sudeste foi agudo no território paulista, segundo Marengo, porque a maior parte das bacias está na divisa de São Paulo e Minas. “A chuva foi menor onde estão as cabeceiras dos rios que abastecem os sistemas de água e energia.”

Ainda não há elementos científicos para uma associação direta entre a seca do Sudeste e as mudanças climáticas. “Mudança climática é um processo de longo prazo”, ensina o especialista. Se a seca se estender por longos períodos consecutivos, a possibilidade pode vir a se confirmar. Marengo afirmou que na Califórnia, onde a estiagem se arrasta por cinco anos, já há estudos “que associam a seca a ações humanas, tanto na emissão de gases do efeito estufa como em mudanças do uso da terra”.

No início de agosto de 2014, o então presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, preparava-se para viajar ao Tajiquistão. O país da Ásia Central vive às turras com o Uzbequistão por causa da água do rio Amudare, e a comunidade científica tentava evitar um conflito armado. Um dia antes do embarque, Braga me recebeu em sua sala na USP. Já contando com o volume morto, o nível do Cantareira era de 14,7% naquela tarde. Assim como seus colegas da Politécnica da USP, Braga virou consultor de jornalistas no auge da crise hídrica. “Dei umas 500 entrevistas. Sempre dizia: parem de ficar procurando culpados e transmitam para as pessoas que a situação é muito grave.”

Engenheiro hidráulico e especialista em recursos hídricos pela Universidade Stanford, ele foi o primeiro brasileiro a comandar o Conselho Mundial da Água. Foi diretor da ANA desde 2001, ano em que se criou a agência reguladora, até 2009, passando pelos governos Fernando Henrique e Lula. No cargo, cuidou diretamente da outorga do Sistema Cantareira, em 2004.

Bem-humorado e elegante, de terno e gravata, fez questão de me explicar as funções da entidade que comandava desde 2012. “O conselho existe para conscientizar a classe política. Água tem que estar na agenda política assim como saúde, educação e energia.” Perguntei se ele havia sido procurado pelos governos estadual e federal para discutir saídas para a crise. Sim, tinha havido sondagens dos dois lados, mas ele optara por se manter distante, sobretudo por ser ano eleitoral. “O conselho pode falar de forma mais livre, conceitual.”

Quatro meses mais tarde, em dezembro de 2014, Braga seria convidado por Alckmin para ser secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do estado.

Naquela tarde de agosto, porém, traçou seu diagnóstico com independência. Em outubro de 2013, disse, “a coisa já não estava boa”. Mas poderia chover em novembro, dezembro e janeiro. Não choveu. “Opa. Então, meu amigo, agora eu não vou esperar mais fevereiro e março. Eu vou logo impor uma regra, pois de março a outubro não tem chuva, e a gente já sabe disso.”

Braga fez questão de enfatizar que essa era sua “visão pessoal”, que não estava dizendo “que Alckmin pisou na bola”. Se fosse ele o gestor, prosseguiu, tomaria um caminho diferente do adotado pelo governo paulista, de dar bônus para quem economizasse água. Considerava as campanhas de esclarecimento sobre a crise insuficientes e pouco transparentes. Defendeu que as pessoas que excedessem o consumo fossem sobretaxadas, o que o governador evitou fazer no ano eleitoral. O bônus estava funcionando, mas havia limites. O governo de fato foi surpreendido pela situação anômala do clima, disse, para acrescentar: “Mas você é surpreendido até um certo ponto.”

Gesticulando muito e curvando-se sobre a mesa, Braga elogiou a decisão da Sabesp de reduzir a pressão da água. Abominava a ideia de rodízio. “Fechar o sistema não é solução, tecnicamente não é uma proposta razoável porque há risco de contaminação da água.” Parte da população ficaria permanentemente sem água, além de haver também seriíssimo risco de as tubulações estourarem. “Ou seja, não tem vantagem nenhuma.”

Braga estimou que o Cantareira demoraria pelo menos três anos para se recuperar. E esperava que no fim de 2014 a seca não fosse tão severa quanto foi no fim de 2013. “Se uma situação como essa se repetir, será praticamente o apocalipse.” Quase foi.

Perguntei a Benedito Braga o que era mais fácil: obter um acordo no Tajiquistão ou entre Alckmin e Pezão? Ele deu uma longa risada. Enfatizou que o tucano não precisaria ter consultado a ANA ou o governador do Rio porque a obra do Paraíba do Sul será feita em um rio exclusivamente estadual. “Não há corte no mundo que impeça São Paulo de fazer essa transposição.”

Listou também obras mais baratas e mais rápidas que poderiam ter sido consideradas pelo governo paulista antes da transposição do Paraíba do Sul, e disse que a solução hídrica definitiva para o estado seria a obra do baixo rio Juquiá, que poderia prover 83 metros cúbicos por segundo ao estado – “20% a mais do que se consome hoje”, somando-se todos os sistemas (Cantareira, Guarapiranga e Alto Tietê). O problema é o custo, de aproximadamente 5 bilhões de dólares, mais do que os 8 bilhões de reais que a transposição do São Francisco, obra federal ainda inconclusa, consumiu até agora. “Ninguém mais fala dessa alternativa. Por quê? É cara. Uma região que tem 30% do Produto Interno Bruto do país vai resolver seus problemas com obras baratas? Não vai. Para fazer uma obra dessa tem que ter coragem política, coisa de estadista, o que está em falta.”

Se no começo da crise a presidente Dilma havia dado ordem “explícita” para que ninguém no governo fizesse uso político da seca, foi ela própria quem jogou água no discurso. Segundo um tucano, os golpes “abaixo da linha da cintura” começaram no primeiro semestre. No dia 8 de maio, quando recebeu jornalistas para jantar no Palácio da Alvorada, a petista introduziu a nova linha. Disse que energia era um assunto federal e a água, estadual. São Paulo, enfatizou, não havia feito os investimentos necessários para garantir o abastecimento hídrico.

Em junho, quando o PT lançou o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha candidato ao governo paulista, Dilma gravou uma mensagem em vídeo: “São Paulo não pode mais confiar em volume morto. Você é o volume vivo que São Paulo precisa.”

No segundo turno da eleição presidencial, com o PT em desespero e temendo perder para Aécio Neves, a presidente levou a crise hídrica ao programa eleitoral. O partido tentava minar a vantagem tucana em São Paulo, maior colégio eleitoral do país. “É preocupante e também muito triste saber que os brasileiros que vivem em São Paulo, estado mais rico do país, estão passando por uma crise de falta d’água sem precedentes na sua história”, disse no programa de 19 de outubro. A presidente justificou a preocupação: “O que afeta São Paulo afeta, claro, todo o país.” Em seguida, deu a explicação para sua tristeza: o povo paulista “não precisava estar passando” por esse sofrimento, pois o governo estadual havia sido alertado para a situação dez anos antes.

De fato, em 2003 estudos técnicos bancados pelo Banco Mundial deixavam clara a sobrecarga no Sistema Cantareira e a necessidade de controlar a demanda e aumentar a oferta. Dilma usou diagnósticos passados para atacar o “modelo de gestão do PSDB”. Dias antes do segundo turno da eleição presidencial, eleitores paulistas receberam torpedos sobre a crise hídrica, acusando Alckmin e os tucanos de serem péssimos gestores.

“O PT torcia por uma crise mais grave para ver se isso maculava o governador Alckmin”, disse Duarte Nogueira, presidente estadual do PSDB e secretário Estadual de Logística e Transportes. Uma das maiores críticas que os tucanos paulistas fazem ao governo federal é a insistência do PT, na eleição, em afirmar que a seca se restringia ao estado, e não abrangia todo o Sudeste. Segundo eles, a ANA teve comportamento “assimétrico” com São Paulo. Vicente Andreu Guillo, o presidente da agência federal, mostrou-se emocional e tendencioso, acusou Nogueira. “Ele foi muito mais um dirigente partidário do que o representante de uma agência reguladora.”

Na reta final da eleição, Alckmin equilibrava o copo ora meio cheio, ora meio vazio. Sua frase no último debate da Rede Globo, no dia 30 de setembro, virou meme na internet: “Não falta água em São Paulo, não vai faltar água.” Mais da metade da população já tinha passado por falta de água em suas casas e 75% dos paulistas acreditavam que a crise poderia ter sido evitada com medidas preventivas, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em 20 de outubro. Os dois meses anteriores ao pleito foram de extrema tensão para os tucanos. Em agosto, também segundo o Datafolha, 64% dos eleitores já consideravam que o governo paulista filtrava informações sobre a crise e só divulgava o que era de seu interesse. Quase 30% declararam que o fornecimento doméstico de água já havia sido interrompido pelo menos uma vez nos trinta dias anteriores.

Um colaborador do tucano admitiu que o clima dentro do governo havia se acirrado. Numa reunião no Palácio dos Bandeirantes, Alckmin quis detalhes de todas as obras da Sabesp – cronogramas, andamento, valores dos investimentos. Espinafrou a presidente da empresa, Dilma Pena, ao tomar conhecimento de que algumas obras anunciadas havia uma década, com financiamento aprovado, não tinham saído do papel.

Em outubro, a presidente da Sabesp já sabia que não permaneceria no cargo se o tucano fosse reeleito. Mauro Arce e Dilma Pena não se entendiam mais. O secretário de Recursos Hídricos chegou a defender o rodízio e multas para o excesso de consumo. A Sabesp resistia à primeira sugestão; o governador, à segunda. A situação de Dilma Pena ficou insustentável quando vazou um áudio de uma reunião da Sabesp em que ela admitia que a empresa, por “orientação superior”, não atuava na mídia para dar informações à população sobre a crise. “É um erro”, disse ela.

piauí pediu uma entrevista a Dilma Pena em novembro do ano passado. A assessoria da Sabesp informou que ninguém da empresa falaria sobre a crise. Os tucanos admitem reservadamente, hoje, que a empresa pecou no planejamento estratégico. Mas são enfáticos em negar que houve irresponsabilidade do governador por razões políticas.

Marcio Aith, subsecretário de Comunicação do estado, disse que a declaração de Alckmin no debate, cinco dias antes da eleição, foi prudente do ponto de vista da gestão, e essencial como “elemento de estabilidade” na seara política, num momento em que os adversários do PSDB tentavam propagar a lógica do caos para forçar um racionamento. “São Paulo enfrentaria a crise com organização, não na base do pânico difundido por Andreu e pelo PT– Andreu, aliás, autor de previsões catastróficas nunca confirmadas e de expressões jocosas incompatíveis com o cargo que ocupa e com a gravidade do problema da água”, disse Aith.

Um interlocutor de Alckmin refutou a ideia de que o governador tenha sido excessivamente otimista. “Mesmo os pessimistas, com base nas informações técnicas disponíveis, não achavam que a crise seria tão grave. Os dados apontavam que seria possível chegar a dezembro de 2014 ainda com água nos reservatórios.”

No mês que antecedeu a eleição, o governo de São Paulo comprou briga até com a ONU. A portuguesa Catarina de Albuquerque, então relatora especial de direito humano à água potável e ao saneamento, deu uma entrevista em visita ao Brasil. Disse que parte da crise era imprevisível, mas ressaltou que havia ineficiências e problemas de gestão. O título da reportagem da Folha de S.Paulo foi além: “Falta de água é culpa do governo de SP, afirma relatora da ONU.” O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, recebeu uma carta de Alckmin, acusando a relatora de fazer uso político de suas funções.

O sucessor de Catarina tem convicção de que a colega não agiu política ou partidariamente. Em março deste ano, quando me recebeu no escritório da Fiocruz em Belo Horizonte, Leo Heller afirmou que as palavras da antecessora foram usadas indevidamente. “Mas o que ela disse eu venho repetindo: faltou planejamento e o planejamento foi inadequado.” Enfatizou que a gestão da crise hídrica foi contaminada pelo processo eleitoral. “Não precisa ser especialista para afirmar isso.”

Em 5 de outubro de 2014, dia da eleição, a água que restava no Cantareira equivalia a 6% da capacidade do reservatório (incluindo aí o volume morto, cuja primeira cota já se esgotava). O tucano venceu no primeiro turno, com 57% dos votos válidos. No fim do mês, o Cantareira agonizava: seu nível chegou a 3%. No dia 24, o governo de São Paulo começou a usar o segundo volume morto. A seca estava escancarada.

Embora reeleito, Alckmin sofria um desgaste político devido à escassez de água. Num sobrevoo do Cantareira no fim de outubro, acompanhado de Paulo Massato – o “samurai” da Sabesp que propusera e executara com minúcia a estratégia de reduzir a pressão da água –, Marcio Aith ficou chocado com o retrato seco que via abaixo. “Paulo, seja sincero com o amigo aqui: e se também não chover em 2015?”, perguntou Aith. Engenheiro, Massato sempre respondia citando modelos estatísticos e probabilidades fundadas em fatos conhecidos, na experiência passada. A chance de 2015 repetir a tragédia de 2014 seria ínfima, assegurou. O subsecretário de Comunicação ficou em silêncio. “Eu sei que você está me enrolando, mas hoje estou cansado demais para descobrir como”, disse, minutos depois.

O helicóptero pousou e os dois não falaram mais no assunto. No dia seguinte, numa reunião com a presença do governador, Aith voltou a cutucar Massato. “Paulo, descobri a falha no seu truque estatístico. Qual é a chance de uma cigana húngara descer em Cumbica, pegar um táxi, entrar na Sabesp, abrir a porta da sua sala e cuspir na sua cara? Mas não é qualquer cigana”, insistiu Aith, “tem que ser húngara.” Diante da colocação inusitada alguns riram, outros ficaram estupefatos. Sem jeito, o engenheiro foi lacônico: “Raro, né?” “Tão raro quanto a falta de chuvas em 2014?”, insistiu Aith. “Mais raro até”, respondeu Massato, assustado com o rumo do diálogo. “Pois é. Mas vamos supor que a cigana húngara já tenha aparecido uma vez, já tenha entrado na sua sala e já tenha cuspido na sua cara. Qual seria a chance de uma segunda cusparada?” Mesmo achando tudo aquilo muito pouco lógico, Massato concluiu: “Aí é maior, né” “Então, Paulo, não é verdade que as chances de chover em 2015 são maiores”, disse Aith. “A cigana húngara já entrou na sua sala e já nos cuspiu”, finalizou, arrancando gargalhadas do próprio Paulo e dos técnicos que acompanhavam a conversa.

A imagem virou um mantra no Bandeirantes. E passou a servir de alerta político aos técnicos: as previsões de 2014 às quais o governo teve acesso jamais revelaram com clareza um cenário tão trágico como o que de fato ocorreu. “Os meteorologistas”, disse Aith, “são todos uns profetas do acontecido. O que minimamente deveriam reconhecer é a crescente inutilidade de suas previsões, principalmente à luz dos fenômenos climáticos atuais, todos malucos”.

O PT não conseguiu capitalizar a crise hídrica eleitoralmente. Alexandre Padilha, o candidato do partido ao governo de São Paulo, fez uma campanha sofrível e terminou em terceiro lugar, com 18% dos votos válidos – desempenho medíocre se comparado a disputas anteriores, em que o partido superou a marca de 30% do eleitorado no estado.

Na campanha, quem mais explorou a crise foi Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e candidato do PMDB. Ficou em segundo, com 21,5%. Boa parte dos dirigentes do PT paulista exigia que o prefeito paulistano, o petista Fernando Haddad, usasse a crise hídrica para romper publicamente com Alckmin. Haddad sempre manteve uma relação amistosa com o governador, e parte da direção nacional do partido concordava com sua posição cautelosa. Se a água acabasse, a população também poderia culpar o prefeito e a presidente Dilma.

Em janeiro de 2014, no aniversário de São Paulo, Haddad publicou um artigo na Folha em que, depois de celebrar avanços de sua gestão, disse que “todo o esforço da administração municipal” poderia “ser sombreado pela falta de água”. Segundo ele,  uma caça às bruxas não traria soluções. “Da nossa parte, estaremos solidários com as autoridades do governo do estado responsáveis”, concluiu. Em reuniões internas do PT, Haddad dizia que a crise hídrica era desastrosa e culpava a gestão tucana, mas que não achava prudente ser ele o porta-voz dessa crítica.

No início de fevereiro deste ano, o prefeito foi chamado pelo governador ao Palácio dos Bandeirantes. O secretário municipal de Educação, Gabriel Chalita, foi o articulador do encontro.  O tucano mostrou ao petista slides que dias depois seriam vistos na reunião do Comitê de Crise Hídrica, que reúne trinta prefeitos da região metropolitana. Haddad até deu opiniões a Alckmin sobre quais informações enfatizar.

O debate sobre a seca no Sudeste esteve pouco presente na agenda eleitoral em Minas Gerais. O petista Fernando Pimentel, ex-ministro de Dilma, venceu a eleição no primeiro turno com 52,9% dos votos válidos. Na campanha, deu declarações acusando o PSDB – que governou o estado por doze anos – de gestão ineficiente e de fazer um “racionamento camuflado” de água. Mas o tema não foi prioridade em sua campanha.

A seca do semiárido mineiro sempre esteve no radar dos candidatos, mas não um eventual colapso do abastecimento de água na região metropolitana. Só depois de desbancar o PSDB no reduto de Aécio Neves, o petista colocou a água no topo de suas preocupações. “É a questão central. Essa é a agenda principal do nosso governo”, afirmou Helvécio Magalhães, secretário de Planejamento e Gestão de Minas e coordenador da força-tarefa da crise hídrica, criada em janeiro último.

Ao contrário de Alckmin, que não podia invocar o passado para justificar a crise, Pimentel encontrou nesse caminho um vasto recurso político. Numa conversa em fevereiro, perguntei ao secretário por que a escassez de água não havia ocupado lugar de destaque na campanha. O governo anterior, justificou Magalhães, não forneceu informações claras sobre os níveis dos reservatórios de água, nem durante o governo de transição. “Minas via as notícias da crise de São Paulo como algo distante do estado”, disse. A afirmação destoa de declarações dadas por Pimentel dias antes da eleição, quando ele já falava em um plano de emergência para a seca, caso fosse eleito.

No final de janeiro, já no governo, Pimentel admitiu a possibilidade de “racionamento severo”. Elaborou um plano emergencial de obras e, como Alckmin, foi bater à porta do governo federal, reivindicando 800 milhões de reais. O petista trocou toda a equipe da Copasa, empresa de saneamento mineira, e preparou o terreno para fazer o que Alckmin também só resolveu implantar depois de eleito: multar quem consome água em excesso. Em março, Minas já tinha 167 municípios em situação de emergência por causa da seca. Se o consumo não cair 30%, haverá racionamento em breve.

“A crise não é só de São Paulo, de Minas e do Rio. É também do Espírito Santo”, disse o gaúcho Paulo Renato Paim, convidado pelo governador Paulo Hartung, do PMDB, para presidir a Agência Estadual de Recursos Hídricos. O governo capixaba, segundo ele, agiu preventivamente para evitar efeitos mais drásticos da seca. Suspendeu a geração de energia em uma usina, poupando a pouca água do reservatório para abastecer a população. “O Espírito Santo não tem quase nenhum reservatório. Ou tem água nos mananciais ou não tem.” Um programa de redução do uso trouxe resultados imediatos: o capixaba consumia, em média, 200 litros de água por dia; passou a usar 170 litros. A média ainda é alta segundo o padrão da ONU, que recomenda 110 litros de água por indivíduo por dia.

Numa manhã de fevereiro deste ano, Vicente Andreu, o presidente da ANA odiado pelo PSDB paulista, chegou à sede da agência em Brasília com uma mochila nas costas, vestindo camisa e calça jeans. Estatístico, ex-sindicalista e filiado ao PT, Andreu presidiu a Sanasa – a empresa de saneamento de Campinas –, trabalhou na Companhia Paulista de Força e Luz e foi secretário de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente na gestão de Carlos Minc. Comanda a ANA desde 2010 e tem mandato até 2018. Sem modéstia, diz que conhece o Sistema Cantareira como poucos.

No auge da crise hídrica, ele afirmou que Alckmin nunca assumiu o racionamento e que só um dilúvio salvaria o Cantareira. E mais: a Sabesp teria que tirar água do lodo se fosse usar o terceiro volume morto. E acusou o governo paulista de não adotar medidas de gestão razoáveis quando ainda havia água nos reservatórios. Isso enfureceu os tucanos.

No hall de entrada da ANA há um painel com os gráficos e os diagnósticos do Atlas Brasil: Abastecimento Urbano de Água. O estudo de 2009 fazia projeções para 2015. Para evitar problemas de abastecimento, a agência federal alertava que seria necessário investir 7,4 bilhões de reais no Sudeste, dos quais 5,4 bilhões em São Paulo. Em 2025, segundo o Atlas, a população do estado vai consumir 159 mil litros por segundo, o dobro do que a Sabesp é capaz de oferecer atualmente. A Sabesp afirma que, de 1995 a 2013, investiu 9,3 bilhões de reais no abastecimento da região metropolitana. Informou genericamente que fez “várias ampliações” no sistema e reduziu o desperdício de água de 32,4% em 2009 para 30% em 2014.

Vicente Andreu segurava uma cumbuca com leite e cereais quando entrei em seu gabinete. “Me atrasei, não tomei café.” Antes de finalizar a refeição, ele reclamou do uso que a imprensa fez de suas declarações para alimentar as rivalidades entre PT e PSDB. No processo eleitoral, frisou, nenhum candidato abordou de fato a gestão da água: a urbanização desordenada, a destruição dos mananciais, como lidar com os usos múltiplos dos recursos hídricos. “Foi zero de discussão, exceto por uma ou duas questões de denuncismo.”

O presidente da ANA enumerou o que chamou de “fatos” sobre a crise: foi a seca mais severa das últimas oito décadas; foi uma seca durante uma eleição; foram adotadas muitas medidas corretas em São Paulo durante a crise, mas o estado não havia feito nenhuma obra preventiva. “A ausência de planejamento, de medidas anteriores, é um fato.”

O principal embate entre a ANA e o governo paulista, segundo ele, disse respeito ao controle da vazão do Cantareira. Em abril de 2014, Andreu sugeriu ao então secretário de Recursos Hídricos, Mauro Arce, que se criasse uma metodologia conjunta e inédita para estipular quanto de água sairia dos reservatórios. A proposta da agência era restringir ao máximo a vazão: o volume de água ainda disponível seria dividido pelos meses restantes do ano, até o próximo período chuvoso; a partir do que entrasse no sistema nos quinze dias anteriores a cada mês, seria feito um cálculo de quanto se poderia tirar. “É a visão de segurança hídrica, e não a visão de demanda, que sempre foi a da Sabesp.”

O governo de São Paulo nunca se disse contra o controle de vazão, mas também nunca consentiu que uma regra fixa fosse adotada. Andreu diz ter acertado com Arce, numa conversa por telefone em agosto de 2014, que a nova norma seria implantada entre setembro e outubro. Arce circulou dentro de sua pasta, com cópia para dirigentes da ANA e do DAEE, um e-mail que falava sobre a negociação. Andreu recebeu esse e-mail no dia 21 de agosto. Com isso, anunciou publicamente a nova regra, mas o secretário de Alckmin negou que houvesse um acordo formal; disse que se tratava de conversas preliminares. Em represália, o presidente da ANA deixou o Grupo Técnico de Assessoramento da Gestão do Cantareira, aquele criado na reunião de fevereiro entre Alckmin e Izabella Teixeira.

Em setembro, outubro e novembro, durante e logo após a campanha eleitoral, a vazão de retirada do sistema não foi definida pelos órgãos reguladores estadual e federal. A Sabesp se pautou pela última decisão desses órgãos, de julho, que determinara a retirada de 19,7 metros cúbicos por segundo. Na época, a empresa alegava que o limite mínimo de vazão para atender a demanda era de 24 a 22 metros cúbicos por segundo.

Em fevereiro deste ano, quando conversei com Andreu, a retirada foi de 10 metros cúbicos por segundo. “Isso revela que essas medidas poderiam ter sido tomadas muito antes. Não foram também por causa da leitura eleitoral”, disse o dirigente da ANA.

Mauro Arce, que em janeiro deste ano deixou a secretaria e voltou para a Companhia Energética de São Paulo, não quis falar com a piauí. O entrevero entre ele e Andreu ajudou a azedar as relações políticas, mas não institucionais. O próprio Alckmin muitas vezes telefonou para o presidente da ANA ao longo da crise, segundo relatou um aliado do tucano. Quando a disputa com Arce atingiu o máximo de tensão, Alckmin chamou o presidente da ANA para uma reunião no Palácio. Andreu fez elogios ao governador: ele o considera “afável, bom contador de casos” e um político que entende os problemas cotidianos do estado.

“Do ponto de vista técnico”, o relacionamento com São Paulo é excelente, me disse Andreu. Salientou, porém, que a União e o estado nunca chegaram a um acordo sobre as medidas a serem adotadas e sobre como expor à população a “real dimensão do problema”. “Eu ia a alguns lugares e diziam assim: vem aqui o Vicente Andreu, da ANA, que ninguém sabe se é loira, morena ou ruiva. E eu digo que tem uma crise. Do outro lado vem o governador de São Paulo, reeleito em primeiro turno, com altíssima credibilidade. Ele diz que não tem crise, que a água não vai faltar. Em quem você vai acreditar?” Só quando faltou água na torneira os paulistas entenderam o tamanho da crise, afirmou.

De toda a tensão dos meses anteriores, as acusações de omissão e inação da agência reguladora foram as que mais tiraram Andreu do sério. Para ele, a crise no Sudeste evidenciou a inexistência de um marco regulatório aplicável a situações extremas, e a ANA tem limites de atuação. Essas regras – definições claras de vazão em caso de seca severa, por exemplo – precisariam ser construídas por acordo e com clareza, para que no futuro processos eleitorais não venham a afetar decisões de gestão.

Sob o ponto de vista técnico, enfatizou, São Paulo não descumpriu normas. Ao contrário, a Sabesp cumpriu todas as determinações da ANA e do DAEE, o órgão regulador estadual. “Mas a ausência de regras permitiu que você tomasse medidas discricionárias durante o processo eleitoral. Esse é um dos grandes aprendizados.”

Já Marcio Aith, o subsecretário de Comunicação de Alckmin, disse que a ANA se omitiu do debate sobre a prioridade de uso da água, se a geração de energia ou o abastecimento da população. “Houve uma omissão monumental nessa questão do uso da água para gerar energia em São Paulo”, afirmou. Segundo ele, Vicente Andreu tinha a obrigação de ter levantado a voz para impedir que o Operador Nacional do Sistema Elétrico tirasse água dos reservatórios do estado num momento tão crítico. “Mas ele ficou lá quietinho, não falou nada.”

A Lei de Águas e a lógica mandam dar prioridade ao abastecimento humano quando há escassez de água. Andreu, entretanto, disse que essa regra é insuficiente em situações extremas. Segundo ele, não se pode cortar a irrigação das lavouras e interromper a produção de uma hidrelétrica se, ao mesmo tempo, as pessoas continuam a encher piscinas, lavar carros e calçadas, e as empresas de saneamento têm desperdício por causa de vazamentos. Não tem sentido, exemplificou, um trabalhador ser demitido por causa da falta de água “e ir tomar banho em casa”.

Em nosso encontro de março deste ano, a ministra Izabella Teixeira sustentou que o governo federal sempre agiu de forma republicana. Se houve uso político da crise hídrica, foi na campanha eleitoral, não na ação do Ministério, disse. A isenção da ministra é reconhecida pelo PSDB. No início do ano, ela recebeu um telefonema de Mauro Arce, que lhe agradeceu a condução da crise num ano de embates políticos.

O próprio Alckmin ligou para a ministra depois que Marcio Aith publicou um artigo na Folha de S.Paulo no final de janeiro. Intitulado “O apagão dos fatos”, o subsecretário listava ações da Sabesp e do governo estadual, criticando a cobertura jornalística da crise. Ele acusava “ministros e agentes reguladores federais” de adotarem um “discurso hostil a São Paulo”. E questionava por que só depois de um ano do início da crise, só após as eleições e diante de um apagão que atingiu onze estados e o Distrito Federal, o governo federal admitiu tratar-se da maior crise hídrica já registrada na história.

Quando leu o artigo, a ministra estrilou, levou a Dilma sua contrariedade. Naquele mesmo mês, o governo federal havia incluído a obra de um novo sistema hídrico proposto pelos paulistas, o São Lourenço, no Plano de Aceleração do Crescimento, dando agilidade com a dispensa de licitação. Empreiteiras que farão a obra, uma Parceria Público-Privada, foram buscar na União o financiamento de 2,2 bilhões de reais.

No telefonema trocado com Izabella Teixeira, o governador teria colocado panos quentes no episódio. A ministra não deixou passar em branco. Segundo um assessor seu, ela foi direto ao ponto: “Isso é inaceitável. Como é que o senhor diz que não estamos trabalhando junto com São Paulo?” O Palácio dos Bandeirantes diz que essa versão do diálogo é descabida, já que a posição do subsecretário contou com apoio de toda a equipe de governo. “O artigo procurou trazer fatos e repor a verdade. Não se pede desculpas por isso”, disse Aith.

As críticas dos tucanos também fizeram a ministra chamar à razão o presidente da ANA. “É inadmissível fazer política com água”, reiterou ela, nadando contra a corrente dentro do governo.

Questionei a ministra se o governo federal não foi omisso em relação à seca no Sudeste, já que historicamente a preocupação nacional tem se voltado para o Nordeste. Ela disse que o ministério agiu na primeira hora no caso de São Paulo, quando a crise ainda não estava tão grave. O caso do estado, alegou, era o mais agudo. No Rio, segundo ela, não há crise hídrica. “São Paulo só sobrevive por causa do volume morto. O paciente não morreu, mas está na UTI e todo mundo rezando pra ele sair”, disse, enquanto mirava o enorme pôster do Cristo Redentor em seu gabinete.

O Rio, enfatizou a ministra, ainda não estava usando seu volume morto. “As minhas conversas com o Rio não são por causa de 2015, eu tenho que ter água lá em 2016. Terei uma Olimpíada lá, e no inverno, tá?”

Há falta de água e ineficiências técnicas gravíssimas no estado, que a companhia de saneamento estadual, a Cedae, está tentando sanar, disse Izabella. O Rio precisa de apenas 50 metros cúbicos por segundo para seu consumo. Mas entram no sistema 110 metros cúbicos. O estado desperdiça uma quantidade enorme de água para diluir o esgoto e amenizar o efeito da chamada intrusão salina – entrada da água do mar que afeta a produção de água potável.

Sobre Minas e o Espírito Santo, disse que o governo federal estava em contato com os dois governadores. “Nós não sabíamos da magnitude da crise em Minas. O governo federal está dando o apoio que pode aos estados quando o domínio da água não é da União.”

Num domingo de dezembro de 2014, depois de passar um fim de semana em Brasília com amigos da ANA, Benedito Braga, o professor da Politécnica da USP e presidente do Conselho Mundial da Água, aterrissou na capital paulista. No aeroporto, viu que havia três ligações perdidas e uma mensagem no celular. “Era um camarada chamado Marcio Aith.” Braga retornou a ligação do subsecretário de Comunicação de Alckmin. O governador queria vê-lo ainda naquele domingo, no Palácio dos Bandeirantes.

Benedito Braga chegara às quatro da tarde na capital e embarcaria às sete da noite para o Cairo. De lá, iria para Marselha. Aith insistiu. Disse que seria uma conversa rápida. “Me pegaram, botei minha malinha no porta-malas e fui.” Braga não conhecia Alckmin. Mas a empatia foi grande. “Conversa vai, conversa vem, o governador disse: ‘Queria convidar o senhor para ser meu secretário.’” Braga não deu resposta de imediato. Disse que precisaria dar um telefonema para a mulher, consultando-a. Dona Sandra assentiu, mas ele pediu a Alckmin tempo para concluir seus compromissos internacionais.

Braga embarcou, participou do Fórum Árabe das Águas. Na manhã seguinte, desistiu de voar para a França. Retornou a São Paulo e, do aeroporto, telefonou para Alckmin. Era 11 de dezembro. “Ah, que bom que já está em São Paulo. Então vou anunciá-lo hoje mesmo”, avisou o governador.

As águas de março deste ano entusiasmaram o agora secretário de Recursos Hídricos de São Paulo. O volume do Cantareira estava em 12,9% quando voltamos a conversar no dia 9 daquele mês. Ele entrou apressado na sala de reuniões do seu gabinete. Para quem ia para o Tajiquistão e não queria se envolver com os governos locais, muita água tinha rolado, brinquei. “Continuo não querendo me meter em questões políticas”, disse, jocoso.

Benedito Braga diz ter absoluta autonomia para agir. Foi ele quem convidou Jerson Kelman, ex-presidente da ANA, para presidir a Sabesp. E também definiu que o engenheiro Ricardo Borsari assumiria o DAEE, o órgão regulador do estado. “Somos uma equipe.”

Falei com Kelman por e-mail e por telefone antes que ele fosse indicado para comandar a Sabesp. Também o encontrei em novembro do ano passado, em São Paulo, num evento da Academia Brasileira de Ciências em que se criticou a falta de transparência do governo paulista na condução da crise hídrica. Kelman é signatário do documento. No primeiro semestre de 2014, o ex-presidente da ANA tinha dúvidas sobre a obra da transposição do Paraíba do Sul. Em novembro, ele já havia mudado de ideia. Considerava a transposição importante e viável. Empossado em janeiro deste ano, não atendeu aos pedidos de entrevista da piauí.

Depois que anunciou o novo secretário, Alckmin também avisou que São Paulo passaria a multar os “gastões”. Foi criada a sobretaxa, como Braga queria. O governo começou a falar abertamente que sim, havia racionamento de água, já que as vazões do Cantareira eram reduzidas progressivamente por determinação da ANA. Também se ouviu pela primeira vez que, se a situação ficasse ainda mais crítica, o governo poderia adotar um rodízio.

Braga não considera que tenha sido escolhido porque Alckmin precisava de uma reviravolta em seu discurso político. “Minha nomeação não foi para mudar, mas para dar enfoque mais técnico ao problema.” Ele elogiou as ações que haviam sido adotadas pela Sabesp. O mais complicado para o novo secretário foi explicar o meme do chefe – “Não vai faltar água em São Paulo”. Braga gaguejou, falou dos cenários de 2013, de 2014, da expectativa de estiagem mais branda em janeiro de 2015. “Não veio a chuva. Veio agora em fevereiro. Todos os cientistas estão atônitos com as complexidades do clima.”

“Rodízio não é uma palavra que está no meu léxico neste momento”, disse o secretário. Três integrantes do governo Alckmin me asseguraram que não haverá rodízio em 2015, mas há um temor de admitir isso publicamente e entusiasmar a população, que relaxaria na economia de água. Oitenta por cento dos paulistas reduziram significativamente o consumo. A demanda caiu de 73 metros cúbicos por segundo ao mês para 50 metros cúbicos por segundo. O esforço da maior parte da população e a redução da pressão salvaram São Paulo, pelo menos por enquanto.

Para evitar o rodízio e um colapso de abastecimento, a Sabesp implantou obras emergenciais, espremendo água de todos os lugares possíveis. O desespero da empresa rendeu um apelido a Jerson Kelman: “Caçador da Água Perdida.” O objetivo é que sejam fornecidos 10,4 metros cúbicos a mais por segundo até o fim de 2015. Nas duas últimas décadas, as obras da Sabesp elevaram a oferta de água em apenas 15,6 metros cúbicos por segundo, de acordo com os dados da Secretaria de Recursos Hídricos. A Sabesp divulga que o aumento da oferta foi um pouco maior no período, de 18 metros cúbicos por segundo.

Em médio prazo, o governo vai fazer a transposição do Paraíba do Sul e o Sistema São Lourenço, que vai gerar 4,7 metros cúbicos por segundo a mais para o abastecimento da região metropolitana. A obra só fica pronta em 2017. Vai ainda investir em duas estações de reúso de água e analisa explorações de água subterrânea. Até 2018 a Sabesp desembolsará 12,8 bilhões de reais para expandir sistemas de água e esgoto, informou a assessoria da empresa.

Braga afirmou que o governo “não vai deixar a Sabesp quebrar”. Um balanço divulgado no final de março escancarou a vulnerabilidade financeira da empresa, com queda de 53% nos lucros e de quase 7% de sua receita bruta. Os gestores paulistas argumentam que, se a presidente Dilma tivesse cumprido a promessa eleitoral de 2010, de extinguir a cobrança de impostos sobre o faturamento do setor de saneamento, as empresas estaduais teriam, em valores atualizados, 12 bilhões para investir.

O aumento da tarifa de água está no horizonte do governo paulista. O grande debate, agora, é saber quando e como anunciar a novidade depois de um ano em que a população não recebeu um serviço adequado. Uma das saídas para fazer o paulista aceitar a medida é incorporar o bônus à tarifa.

Quando encerrávamos a conversa, perguntei a Benedito Braga se a crise tinha mudado a visão dos paulistas sobre governança hídrica. “A gente vive de hoje para a frente. A gente não vive de hoje para trás. A água hoje está na agenda política. A crise serviu de alerta para o futuro. Estamos correndo atrás.” Animado, na despedida disse estar em curso uma mudança de paradigma.

No elevador da Secretaria de Recursos Hídricos de São Paulo liam-se comunicados da Sabesp com explicações sobre a redução da pressão e folhetos da campanha “Se economizar, não vai faltar”. No prédio em frente ao da secretaria, um funcionário lavava a calçada com uma máquina de alta pressão. Um dia antes, a Câmara Municipal havia aprovado uma lei para multar em 250 reais quem usasse água potável para limpar a rua.


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Malu Delgado é jornalista. Foi repórter de piauí entre 2013 e 2015