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AO GOSTO DO FREGUÊS

Como fazer filmes para as multidões
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Em meados de agosto do ano passado, Roberto Santucci Filho chegou esbaforido ao Cine Joia, uma pequena sala em Copacabana, no Rio de Janeiro. Seguia rápido, sem cumprimentar vivalma. Atrasado, o cineasta carioca trazia no laptop a primeira versão do filme que terminara de montar havia poucas horas. Os cerca de cinquenta espectadores reunidos naquela noite avançada de sábado – passava das 23 horas – assistiriam a um filme semipronto, estrelado por Rodrigo Sant’Anna, ator muito conhecido de programas de humor na tevê. A película que em minutos surgiria na tela só iria estrear no ano seguinte, em fevereiro de 2016.

O convite para a exibição de O Suburbano Sortudo fora feito dias antes, no encerramento de uma peça de teatro protagonizada por Sant’Anna. Para participar da sessão gratuita do filme, bastava dar nome, idade e endereço. Fácil. Havia gente que viera de longe – de Quintino, Vila Valqueire, Bento Ribeiro, Rocinha, morro do Caju e Duque de Caxias. Tratados a pão de ló (noves fora o atraso), os espectadores eram servidos por um garçom que lhes oferecia pipoca, refrigerante, balas e doces.

Dos fundos da sala, a assistente de produção varreu os olhos pela plateia e fez as contas: 26 homens e 23 mulheres, entre 16 e 80 anos, nenhum deles da indústria de cinema. Perfeito.

Santucci se pôs diante da tela e deu início à função: “Meu nome é Roberto e vou falar da missão que nós temos aqui hoje à noite”, disse. “Vocês vão assistir a um filme em processo de montagem. Não é um desastre completo, mas a cor não está certa, os efeitos especiais ainda não foram colocados, o som também está ruim.” Um muxoxo percorreu as poltronas. Imperturbável, o diretor levantou a voz e seguiu em frente: “Preciso da avaliação de vocês pra saber da história e dos personagens: se acharam chato, se a história faz sentido”, explicou.

Enquanto ele falava, a produção distribuía um questionário com treze perguntas, algumas de caráter objetivo (“Dê uma nota de 1 a 10 ao filme”, “Você indicaria esse filme?”), outras mais discursivas (“De qual cena mais gostou? Por quê?”, “Alguma coisa o desagrada?”). “Peço que desliguem o celular e sejam o mais verdadeiros possível nas opiniões”, concluiu. “E muito obrigado pela ajuda.”

As luzes só se acenderiam noventa minutos depois, quando então começaria o trabalho ao qual Santucci atribui importância capital em sua obra – que é, ao menos pela régua de ingressos vendidos, a mais bem-sucedida do cinema brasileiro contemporâneo.

No início da década de 80, o filho único do empresário Roberto Santucci foi a primeira criança na vila de casas na Lagoa, bairro da Zona Sul carioca, a ganhar uma câmera VHS, lançada poucos anos antes nos Estados Unidos. O garoto era um aluno mediano: sem gostar de ler ou escrever, sofria nas mãos de uma professora de português empenhada em detonar sua ortografia. Costumava quebrar a cara nas redações, além de pular miudinho para passar em matemática. Mas adorava a câmera, que o fazia líder da diversão da rua.

Nas tardes livres depois da escola, o jovem recriava com massinha as cenas dos filmes que via no cinema. “Super-Homem, Guerra nas Estrelas, eu curtia tudo isso”, lembrou numa tarde de maio passado, em sua casa. Concluído – a duras penas – o ensino médio, foi cursar comunicação social na Pontifícia Universidade Católica do Rio, certo de que seus talentos com a câmera finalmente lhe renderiam dividendos acadêmicos. Mal sabia ele. “Cheguei na faculdade e nada fazia sentido pra mim”, contou, com um espasmo facial. Sobrava a vida fora do campus, que Santucci levava vestindo o figurino dos rapazes bem-nascidos: camisa polo, jeans e cabelo curto. Com seus amigos igualmente finos, frequentava as boates da Zona Sul. “Eu era um playboyzinho”, riu.

Playboyzinhos eram o oposto da turma de cabelos compridos e roupas largadas que zanzava pelos corredores da PUC. Lá, Santucci se sentia um peixe fora d’água. Não encarava as noites de barzinho porque detestava o bate-papo teórico – além de interminável, lhe parecia pretensioso e incompreensível. O descompasso se acentuava ainda mais porque, herege, ele não apreciava os filmes de Truffaut e Godard.

O rapaz era uma mediocridade acadêmica. Fazia as provas com indiferença, à base da decoreba dos pontos. Depois de empurrar o curso por dois anos, sua mãe chegou com uma solução: que ele abandonasse a faculdade e fosse estudar cinema em Los Angeles. Não foi preciso falar duas vezes. Em 1989, aos 22 anos, Santucci desembarcou em Hollywood, epicentro do cinema comercial americano, para frequentar um curso de extensão na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Foi como se o céu se abrisse e os anjos cantassem. Pouco antes de viajar, Santucci havia estagiado na TV Manchete, uma rede nova focada no público de maior poder aquisitivo. A emissora havia trazido dos Estados Unidos duas ilhas de edição, um equipamento caro a que só poucos tinham acesso. Estagiários nem passavam perto. Santucci nunca se esqueceria daquilo que lhe pareceu um regime de cotas ao contrário, criado para favorecer os privilegiados. “Em Hollywood não tinha nada disso, eu era estimulado a sentar nas melhores ilhas de edição e aprender tudo”, lembrou-se. Fazia aulas de montagem, direção e fotografia. Incentivado pelo ambiente, cumpriu os créditos de dois anos em doze meses. Recebeu o diploma mas não tinha a menor vontade de retornar ao Brasil.

Não demorou para conseguir os primeiros empregos na indústria. Embora a responsabilidade não fosse das maiores – carregava rolos de filmes e distribuía documentos –, olhava ao redor e se via entre os grandes do entretenimento. Permaneceu seis anos nos Estados Unidos, tendo trabalhado como assistente de edição nos dramas Lendas da Paixão, com Anthony Hopkins e Brad Pitt, e Código de Honra, estrelado por Brendan Fraser e Matt Damon. Talvez o aprendizado mais precioso daqueles tempos tenha sido o da metodologia das pesquisas de audiência, empregado à larga pelos grandes estúdios.

O aprendiz de cineasta voltou ao Rio acreditando que sua experiência americana seria de alguma valia. “Pelo contrário, daí pra frente só levei bomba”, contou, às gargalhadas. O ex-estudante desenturmado na PUC se sentia um outsider no mercado de cinema carioca. Não conhecia os distribuidores brasileiros e, sobretudo, não contava com a simpatia dos outros cineastas – da “patota”, como diz. O “americaninho”, como era chamado pelos colegas de profissão, era mestre em ser jubilado nos editais de financiamento de filmes do Ministério da Cultura.

O apelido de Roberto Santucci surgiu há dois anos. “O rei Midas dos blockbusters brasileiros”, disse John Hopewell na Variety, revista americana que cobre a indústria cinematográfica. Hoje, aos 48 anos, o diretor conta no currículo com dez produções nacionais entre 2010 e 2015, comédias que arrebataram 22 milhões de espectadores, perfazendo uma bilheteria de 300 milhões de reais. De Pernas pro Ar, de 2010, que inaugurou o rosário de sucessos, atingiu a marca surpreendente de 3,5 milhões de espectadores. Até que a Sorte nos Separe e De Pernas pro Ar 2, de 2012, fizeram um público superior a 8 milhões de pessoas e bateram todos os recordes de filmes brasileiros daquele ano. Em 2013, foram vendidos quase 4 milhões de ingressos de Até que a Sorte nos Separe 2. Em 2014, Santucci voltou a ser responsável pelo filme nacional de maior sucesso do ano, O Candidato Honesto, com 2,2 milhões de espectadores. Idem em 2015, com Loucas pra Casar, que teve perto de 4 milhões de ingressos vendidos. Ainda em 2015, dirigiu Até que a Sorte nos Separe 3, lançado no final do ano, e O Suburbano Sortudo, inédito. Nenhum brasileiro levou mais espectadores às poltronas de cinema.

Roberto Santucci trabalha de shorts, camiseta e chinelo de dedo. Mora num condomínio na Barra da Tijuca, com a mulher Elizabeth, que ele chama de Betinha, arquiteta de uma família tradicional do Rio de Janeiro, e três filhos, todos com nomes que começam com a letra R. Sua produtora está instalada no sótão da casa de três andares, onde também fica a ilha de edição. Santucci monta seus filmes sozinho – algo bastante incomum no meio.

A casa poderia pertencer a um subúrbio americano. É a única no condomínio sem um muro a separar o quintal da rua – o diretor detesta mecanismos de segurança, câmeras, grades; as portas da garagem vivem abertas, deixando à vista os quatro carros da família, três veículos de passeio e um Porsche 911. As crianças passam o dia numa escola bilíngue próxima ao condomínio. Numa tarde de maio, voltavam do colégio conversando com os pais, ora em português, ora em inglês. “That’s so cool, dad!”, exclamou o filho caçula, ao chegar em casa e se deparar com presentes que o pai acabara de trazer de uma viagem ao exterior.

A vida de Santucci não se enquadra no retrato glamoroso de um diretor de cinema. Ele não circula pelos festivais, não frequenta estreias e não tem mais do que cinco ou seis amigos no meio. Socializar com os “diretores intelectuais, esses que ostentam inteligência”, lhe causa desânimo. Trabalha quieto e sua rotina é simples e disciplinada. Acorda, toma café e, por volta das oito, sobe para o 3º andar. Fica lá até a hora do almoço, quando então se senta sozinho à mesa da sala para comer apressado, olhando o relógio, um homem sem tempo a perder. Volta para a ilha de edição, de onde só costuma sair quando a luz do dia já baixou. “Minha vida se resume a filmar, ou a esperar para filmar”, disse.

O diretor gosta de explicar o sucesso de suas comédias com três dedos da mão direita. Dedo número 1: dois roteiristas da televisão aberta, Paulo Cursino e Marcelo Saback, com os quais diz ter aprendido a identificar o que o público brasileiro gosta de assistir. Dedo número 2: a sociedade com a Downtown, uma distribuidora que se dedica a investir exclusivamente no cinema nacional. E dedo número 3: a metodologia das pesquisas de audiência que conheceu em Hollywood.

Foi por acaso que se tornou diretor de comédias. Assim como não é cinéfilo nem apreciador de cinema de arte, também lhe falta paciência para filmes clássicos do gênero. Refere-se às comédias que dirigiu nos últimos cinco anos como sua “moeda de troca”, o cacife que amealhou para alavancar seus projetos. Por ele, seria um Steven Spielberg ou um Oliver Stone, cineastas de seu panteão. “Gosto mesmo é de filmes policiais e de ação. Eu seria fácil, fácil um pupilo do George Lucas”, devaneou. Num mundo ideal, teria dirigido apenas thrillers, gênero a que se dedicou no início da carreira e que quase encerrou prematuramente sua vida de cineasta. Todos os filmes fracassaram.

Passava da meia-noite e meia quando as luzes do Cine Joia se acenderam sob palmas e assobios. Santucci tomou o microfone, agradeceu e disparou: “Gente, falando sério, alguém achou pesado demais?” Preocupava-o a atuação do ator Rodrigo Sant’Anna, famoso por personagens suburbanos no humorístico Zorra Total. Por ser um comediante de veia popular, muitas vezes é tido por chulo e até agressivo. No filme, Sant’Anna interpreta um ambulante que fica milionário ao receber uma herança – um argumento que agrada desde que o mundo é mundo, a transfiguração do herói.

Da plateia, uma estudante ergueu a mão. “Na cena de abertura passa uma mulher pelo Sant’Anna e ele encara a bunda dela. Nessa hora, a câmera dá um close demorado no corpo da mulher. Achei exagerado”, disse. Um comerciante da Rocinha discordou: não havia exagero, pelo contrário – o problema, isso sim, é que faltava malandragem ao personagem de Sant’Anna, um tipo ingênuo demais. Algumas fileiras adiante, uma senhora fez questão de dizer que adorara o filme e que só um aspecto a incomodara: o microfone ficara à vista numa das cenas. Santucci ouvia com atenção, assentindo com a cabeça.

O test screening, o teste de audiência, é aplicado regularmente em Hollywood a filmes de toda sorte de orçamento, gênero e faixa etária. Durante a década de 20, costumava ser apresentado de surpresa – o copião era exibido ao cabo de uma sessão regular. Martin Scorsese faz, Billy Wilder fazia, Francis Ford Coppola conta que sempre adorou fazer.

Santucci não filmaria nem um mero curta-metragem sem recorrer à ferramenta, embora seus testes sejam bem mais precários do que viu na matriz. Para cada filme que dirige, organiza por conta própria no mínimo três sessões-teste e, a depender do resultado, volta à ilha de edição para incorporar as recomendações. É cinema ao gosto do cliente.

Boa parte das vezes o diretor prefere projetar o filme inacabado na parede da própria casa. Prepara uns lanchinhos – quiche, sanduíche, esse tipo de coisa –, retira da sala os objetos mais preciosos e sai pela rua chamando aleatoriamente desconhecidos para a sessão. Reúne umas trinta pessoas e sem nenhum conhecimento de cinema. Registra os silêncios, os momentos em que a atenção se dispersa, as explosões de riso. “Você aprende coisas espetaculares com o olhar fresco dos participantes”, entusiasma-se.

Embora sua fé na metodologia seja infinita, as pesquisas não foram suficientes para salvar do desastre os três filmes que dirigiu entre 1996 e 2008. Olé – Um Movie Cabra da Peste, uma película de baixo orçamento falada em inglês, conta a história de um brasileiro que vai a Los Angeles em busca da irmã desaparecida e acaba por se envolver com a máfia mexicana. O diretor preparou um trailer “bacaninha”, “estilo Pulp Fiction”, e bateu na porta da Conspiração Filmes, pedindo ajuda para o lançamento. Segundo diz, ouviu de Pedro Buarque de Hollanda, um dos sócios da produtora, que primeiro ele deveria ficar famoso e só então voltar. Pedro Buarque duvida um pouco dessa versão. “Não me lembro do episódio” – já se passaram vinte anos –, “mas acredito que não tenha sido assim”, disse. Se assistiu ao filme e decidiu não distribuir é porque provavelmente não gostou: a desculpa de ficar famoso não cola, pois a Conspiração tem um histórico de investir em cineastas estreantes. De fato, de cada três filmes produzidos pela empresa nos últimos 25 anos, um era de neófito. Exemplo disso são Breno Silveira (2 Filhos de Francisco), José Henrique Fonseca (O Homem do Ano), Toni Vanzolini (Eu e Meu Guarda-Chuva) e Carolina Jabor (Boa Sorte). “Até porque quando o cara fica famoso ele não volta mais”, explicou. Santucci, que até hoje não lançou Olé, desconversou quando pedi para ver o filme.

O segundo longa do diretor, o policial Bellini e a Esfinge, de 2002 (adaptado de um livro de Tony Bellotto), foi ainda mais traumático. No thriller, um detetive particular se vê às voltas com uma série de crimes no submundo da prostituição. Santucci entregou o filme à Copacabana Filmes, distribuidora de Carla Camurati, conhecida por ter dirigido, e distribuído, de sala em sala, o seu Carlota Joaquina, um fenômeno que fez mais de 1 milhão de espectadores numa época de crise no setor. Santucci lamenta ter procurado a diretora, que teria delegado a operação a uma assistente. Dos vários desacertos, nenhum superaria a data escolhida para a estreia: Bellini debutou no início do ano, período de férias escolares nos Estados Unidos e, consequentemente, época em que Hollywood despeja seus lançamentos mais populares.

Assim como Pedro Buarque, Carla Camurati discorda da versão de Santucci. “Ele dá a entender que a gente prejudicou o filme. Isso é infantil. O fracasso de um filme se dá por outros motivos”, rebateu. Um deles, imagina-se, é não ser muito bom. Apesar de ter vencido o Festival Rio BR 2001, Bellini conseguiu desagradar quase toda a crítica. Na Folha de S.Paulo, Mario Sergio Conti escreveu: “Bellini e a Esfinge é um amontoado de clichês do gênero policial que não gera nenhum suspense. E não apenas porque sua trama ziguezagueia entre o artificialismo e a confusão. Falta-lhe o requisito, esse sim essencial, da verossimilhança.”

Depois de Bellini, Santucci decidiu que, se era para lançar títulos que ninguém via – o thriller vendera 60 mil ingressos, pouco para um filme de viés comercial –, então ele os faria a sua maneira. Pediu dinheiro à mulher e à sogra, juntou 100 mil reais de sua herança – o pai morrera pouco antes – e investiu tudo em Alucinados, um filme de ação com Tarcísio Filho e Mônica Martelli sobre um sequestro que desanda e termina na violência mais brutal.

“Investi loucamente em câmera e equipamentos”, lembrou o diretor. Queria escalar um time de bons profissionais, mas só ouvia negativas. Conseguiu filmar depois de compor a equipe com gente contratada pela internet e voluntários convocados entre os amigos mais chegados. Montou o filme com trilha sonora não autorizada para ter algo a apresentar aos distribuidores. Tudo em vão, ninguém topava lançar.

Em 2008, já no fim do percurso, Santucci procurou Bruno Wainer, que dois anos antes havia fundado a distribuidora Downtown. Na cadeia produtiva do cinema, o distribuidor desempenha o papel de estrategista: é ele quem define o lançamento do filme, o número e a escolha de salas, a estratégia de marketing e os custos (que ele próprio bancará). Um bom distribuidor intui o potencial do filme e investe de acordo com seu feeling.

Filho caçula dos jornalistas Samuel Wainer e Danuza Leão, Bruno Wainer trabalha com cinema há trinta anos e fumaça. Colaborou com diretores como Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Salles e Arnaldo Jabor. A Downtown era uma sacada recente dele, uma aposta numa distribuidora voltada exclusivamente para os filmes nacionais.

Afora exercer a função tradicional de comercializar as cópias, a Downtown também põe dinheiro na produção de filmes. Em fins de 2008, Wainer tinha em mãos cerca de 15 milhões de reais para apoiar projetos audiovisuais brasileiros, recursos oriundos da lei de incentivo fiscal ao cinema. Foi numa noite de desespero que Santucci lhe apresentou Alucinados. O diretor chegava aos 41 anos amargando mais de uma década de insucessos, vivendo à custa da bondade alheia: o patrimônio da mulher e a ajuda de parentes. “Não aguento mais ser o diretor que nunca dirige”, queixou-se ao distribuidor.

Wainer assistiu a Alucinados e, no final, foi direto: “Cara, esse filme não dá pé, não tem potencial de venda!” “Olha só”, devolveu Santucci de bate-pronto, tirando da manga o seu último ás, “tenho outra ideia, um filme comercial e esse você vai topar.” Foi uma súbita inspiração: fazia seis meses que a tal ideia jazia intocada entre seus neurônios. Era a história de uma jovem vendedora de produtos eróticos a domicílio. Santucci lera uma nota na coluna Gente Boa, do jornal O Globo, e já tinha tudo na cabeça: Alice, a protagonista, é uma workaholic que, além de perder o emprego, é abandonada pelo marido, que a considera ruim de cama. Entra em cena a amiga proprietária da sex shop, que a ensina a vender produtos eróticos e a redescobrir sua sexualidade. Gloria Pires faria Alice (a atriz recusaria o papel e seria substituída por Ingrid Guimarães) e Maria Paula, a amiga.

Foi como se um raio vaticinador atingisse Wainer. “Ele soltou uns palavrões entusiasmados e aprovou o filme na hora”, lembrou Santucci. O distribuidor prometeu um set de gente grande, com orçamento parrudo, produtora forte e lançamento com centenas de cópias. Passou a mão no telefone e convidou Mariza Leão, dona da Morena Filmes, para tocar a produção. Embora jamais tivesse trabalhado com comédias, Leão gostou da ideia e embarcou. Santucci decidiu deixar de lado Alucinados e suspender, ao menos por uns tempos, os filmes de ação que o levaram a ser cineasta. “Queria ganhar moral com as comédias para mais tarde fazer outro tipo de filme”, explicou.

“Amor, o que é isso?!”, exclama o marido perplexo. Encabulada, Alice se vira lentamente para a câmera. Acaba de ser surpreendida no banheiro vestindo um strap-on, o brinquedo erótico que, amarrado ao corpo, simula um pênis. Plantado sob a camisola, a geringonça se projeta para frente numa gloriosa ereção. Na cena seguinte, Alice assiste a uma partida de futebol do filho pré-adolescente vestindo uma calcinha que vibra com os ruídos ao redor. A cada grito da torcida, ela se retorce de prazer na arquibancada. E por aí vai.

A história da vendedora de produtos eróticos, recheada de humor físico e vulgaridades fesceninas, precisou ser reescrita pelo menos nove vezes. Ninguém se entendia: diretor, produtora e distribuidor não chegavam a um consenso quanto ao teor ideal de bandalheira do filme. “Eu achava o tema muito sexual, delicado. Para mim era primordial que tivesse uma elegância, nada de escatologia, tudo lúdico”, disse a produtora. Sua relação com o roteiro era cheia de ruídos, “infernal”.

Mariza Leão é conhecida pelo rigor e a capacidade invulgar de trabalho. Beneficiaram-se de sua disciplina filmes como Guerra de Canudos e Lamarca, ambos dirigidos por Sergio Rezende, com temática grave e embocadura séria. Nada mais distante do projeto de Santucci. Escrita por Paulo Cursino e Marcelo Saback – os dois roteiristas que Santucci evocou aos enumerar sua receita de sucesso –, a história deixava a produtora de cabelo em pé. Julgava grosseiro – e dizia abertamente – aquele humor, as infindáveis piadas com vibradores, bonecas infláveis e que tais.

Santucci tinha inteira confiança em seus colaboradores e defendia o humor mais escrachado. “Eu simpatizei logo de cara com os dois, eles eram engraçados e divertidos. O Cursino, eu logo vi que era um sujeito extremamente estudado, que entendia tudo do que faz as pessoas rirem e não tinha essa coisa da Mariza de que ‘humor bonito é o inteligente’”, contou.

Paulo Cursino é filho de pai metalúrgico e mãe costureira. Fala com um sotaque carregado de Taubaté, sua cidade natal, no interior de São Paulo. Entrou na televisão em 1996, e com dois anos de Rede Globo tornou-se redator final, escrevendo para o Programa do Didi, de Renato Aragão. Nos vinte anos seguintes, seria redator de vários outros humorísticos da emissora, como Sai de Baixo, Sob Nova Direção e Zorra Total.

Cursino se diz um roteirista nerd, obcecado em coletar as falas do cotidiano brasileiro. Não perde a oportunidade de esticar o ouvido toda vez que se depara com office-boys ou taxistas batendo papo. Demora-se perto das bilheterias dos cinemas para escutar o que as pessoas dizem do filme que viram ou o que perguntam sobre o filme que vão ver – “Esse filme faz rir mesmo?”, “Criança pode ver?” As visitas a Taubaté se transformaram em expedições a campo: várias cenas têm inspiração nos amigos e na família do interior, o “povão”, como diz. Paulinho e João, filho e marido da personagem Alice, foram construídos à imagem de Paulo, e à semelhança de seu pai João, respectivamente.

Segundo dados do site Filme B, que faz pesquisas sobre o audiovisual nacional, a ascensão econômica da classe C, na qual Cursino se criou, modificou o cinema brasileiro. A chegada ao mercado do novo contingente consumidor trouxe novos espectadores, sobretudo para as comédias, cuja curva de crescimento corresponde precisamente a esta ascensão. “Esse novo público é formado por um espectador família”, explicou Pedro Butcher, crítico de cinema e pesquisador do Filme B. Um filme hoje faz sucesso quando agrada os espectadores do Sudeste e do Nordeste, “mas só vira blockbuster, ou seja, bate a casa dos milhões, quando cai no gosto do público do interior de São Paulo, onde está a maior parte das salas de cinema”. Esse espectador se interessa por temas de ascensão social – pobres que ficam ricos graças à astúcia e ao engenho – e aprecia um humor mais popular, como as piadas de Cursino para o Zorra Total.

Nada disso estava claro, quando roteiristas e produtora se engalfinhavam no set de Santucci. Havia componentes de classe nas desavenças com Leão, obrigada a ouvir: “A gente não está fazendo filme para o seu amigo do clube de vinhos gostar. É para o seu porteiro, para o garçom. Eu vou fazer piada de pum e o público vai rir”, nas palavras de Cursino.

Tão importante quanto não descuidar do tipo de humor era ficar atento à veia conservadora do público, sobretudo em questões de família e amor. As cenas com brinquedos eróticos estariam a serviço de uma história de recomposição do núcleo familiar – a moça rejeitada daria a volta por cima e recuperaria o marido, numa celebração da instituição do casamento. Cursino diz ter aprendido na televisão que nada funciona melhor do que um desfecho feliz para a mocinha. É o feel good movie, como chama, que permite ao público voltar contente para casa. “Aí vinha a Mariza Leão reclamar que a vida real não é assim. Isso aqui não é cinema de autor, é filme comercial!”, exclamou, quase pontuando a frase com um palavrão.

Entre tapas e beijos – Santucci chegou a se retirar de uma reunião dizendo que jogava a toalha –, o filme foi, por fim, rodado. As desavenças, contudo, continuaram. Esgotado, o diretor tentava abreviar a agonia sussurrando no ouvido de Wainer que as pesquisas que realizava informalmente eram animadoras “Pode ficar relax, Bruno, meu filme é bom, o pessoal tá rindo nas pesquisas que eu faço lá em casa”, dizia. Wainer concordava, ma non troppo. Gostava da história e das piadas, mas só daria crédito a uma pesquisa de audiência financiada por ele mesmo. Lembrando que ouvira falar de uma empresa de São Paulo que se profissionalizara no ramo, Wainer a contatou. Pediram o cartaz, o trailer e uma cópia do filme e dias depois mandaram um calhamaço de quase cinquenta páginas cheio de gráficos e números. O resultado era surpreendente.

Eric Belhassen se alimenta de duas paixões: pesquisas estatísticas e cinema. Nascido em Paris, durante muitos anos foi geneticista e pesquisador. Trabalhava com genética molecular no Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica, a Embrapa francesa, usando informações de DNA para determinar padrões de descendência em plantas resistentes à seca. Ia regularmente a campo coletar espécimes e, a partir de uma pequena amostragem, definia as características de toda uma população. Fez isso por doze anos até que se cansou da rotina. Decidiu deixar a França e mirou em direção aos trópicos. Veio dar no Brasil: no início da década passada, diziam que o país estava entre aqueles que mais cresceriam nos anos seguintes.

Em São Paulo ficou amigo de um empresário da distribuidora americana Fox, que lhe soprou uma oportunidade comercial. Por aqui as pesquisas de mercado para cinema eram um território desocupado – Belhassen poderia ser o primeiro a colonizá-lo. O francês gostou da ideia e chispou para Los Angeles com o objetivo de compreender como amalgamar estatística e cinema. “Eu fiquei quinze dias lá, estudei a metodologia das maiores empresas americanas da área”, contou.

Duas semanas foram o bastante. O geneticista tinha pressa e rapidamente adaptou as lições americanas ao mercado brasileiro, tropicalizando o que vira em LA. Em 2005 abriu sua empresa, o Instituto de Pesquisa Boca a Boca, que, embora não fosse a primeira a oferecer pesquisa para a indústria, era a única a atender apenas o mundo do cinema. Até hoje reina sozinha.

As técnicas por trás da pesquisa de audiência – quantitativa e qualitativa – guardam alguma semelhança com o que Belhassen fazia na França: toma-se um grupo de amostra para determinar o comportamento de uma população. “Em dez anos a gente reduziu nossa margem de erro a 5%. Isso significa que em 95% das vezes nossos resultados estão corretos, ou seja, a reação do público pesquisado refletirá a receptividade do público no cinema”, explicou.

De olhos pequenos e cabelo desgrenhado, Belhassen fala português com forte sotaque. Sua empresa reúne de 100 a 200 pessoas – em salas de verdade, pois ele acredita que o ambiente influi na avaliação – e distribui questionários com perguntas relativas não só ao filme mas também ao espectador: idade, gênero, bairro, escolaridade, renda, se possui tablet ou smartphone, se já viajou para o exterior. Investiga hábitos culturais, frequência mensal ao cinema, escolha das salas, gênero de filme preferido (“nacional, de arte, documentário ou americano”).

O Boca a Boca já coletou mais de 18 mil dados comportamentais do público brasileiro e conta hoje com uma rede de 15 mil voluntários cadastrados. Todo mês a equipe de Belhassen dispara convites de sessões-teste, sem revelar o nome do filme. Num determinado dia da semana, geralmente tarde da noite, os espectadores assistem a um filme, respondem ao questionário e, em troca, ganham um vale-ingresso para uma sessão normal de cinema. Se forem selecionados para a pesquisa qualitativa – em média dez pessoas por sessão –, receberão um cachê de cerca de 100 reais para conversar sobre o filme. Julgarão o enredo, indicarão as passagens que acharam confusas e apontarão os personagens de que gostam e desgostam.

O custo das pesquisas oscila de 3 mil reais, quando se avalia só o cartaz do projeto, a 60 mil reais, nos casos em que trailer, cartaz e filme são testados. O valor pesa no orçamento, evidentemente, mas segundo Belhassen cada vez mais produtores e distribuidores não dispensam a ferramenta. “A pessoa dispõe de 20 reais para ir ao cinema, não de 100. Ela vai escolher um só filme, aquele que tiver acertado no marketing”, disse. O trailer merece atenção especial, pois garantirá público no lançamento. Outro ponto crucial são os minutos finais do filme. “O cara pode ter adorado o filme inteiro, mas se o final for batido o pessoal vai dizer que ele é médio. Por causa do boca a boca, um bom final garante um aumento de 10% a 15% de espectadores, e essa é uma renda da qual não se pode abrir mão”, disse o pesquisador.

Bruno Wainer nunca havia recorrido a pesquisas profissionais, mas confiou no relatório de Belhassen. De Pernas pro Ar foi muito bem avaliado: quase 80% de “excelente” e “muito bom”, 18% de “bom” e apenas 6% de “regular” ou “ruim”.

Um só aspecto parecia desastroso: o título, Sexy Delícia, nome da loja de produtos eróticos. Os pesquisados não só o consideraram vulgar como diziam se tratar de um equívoco de marketing, uma vez que andava na contramão da história, interpretada como uma lição de amor e afirmação dos valores da família. Wainer seguiu criteriosamente as recomendações. “Eles mudaram o título para De Pernas pro Ar e trouxeram mais a questão da família no marketing. Aí pronto: sucesso”, lembrou o francês.

A primeira comédia de Santucci seria exibida em 345 salas, um salto notável desde Bellini e a Esfinge – lançado com pouco mais de vinte cópias – e multiplicaria quase por sessenta a bilheteria do thriller.

A pesquisa de audiência de De Pernas pro Ar é hoje considerada um marco do cinema brasileiro comercial. Distribuidores e produtores lembram como a metodologia alterou o produto e foi essencial para traçar a estratégia de lançamento. “Quando comecei, em 2005, fazia três trabalhos por ano. Em 2010, eram no máximo oito. Depois do sucesso de De Pernas pro Ar, qualquer filme de grande lançamento” – aqueles com mais de 350 cópias – “se vê obrigado a encomendar ao menos uma rodada de pesquisa. Hoje faço mais de vinte pesquisas por ano”, comemorou Belhassen.

De Pernas pro Ar também alterou o cenário das distribuidoras nacionais. A Downtown de Wainer, fortalecida pela bilheteria da comédia, firmou uma parceria com a Paris Filmes, a terceira maior distribuidora do país, responsável pelas sagas adolescentes americanas Crepúsculo, Jogos Vorazes e Divergente. Todos os filmes brasileiros comerciais da Downtown são hoje lançados junto com a Paris. A estratégia de ambas é ocupar as duas grandes datas do cinema – as férias de janeiro e de julho – com títulos fortes, quase sempre para rir. O ano de 2015 encerrou com dezesseis filmes lançados em conjunto. Em 2014, a dobradinha abocanhou 60% do público do cinema nacional, num ano em que cerca de 80% dos espectadores de filmes brasileiros optaram por comédias.

A tendência favorece as duas distribuidoras e incomoda diretores e produtores. Em entrevista à Trip em junho passado, o diretor José Padilha vituperou contra os colegas. “Cinema no Brasil não está num momento muito bom. Os recursos financeiros vão para essas comédias televisivas. São televisivas mesmo, vamos falar a verdade. É televisiva e é ruim, é baixa qualidade, péssimo roteiro, é ruim”, disse o diretor à revista.

Tudo isso alimenta a mágoa de Santucci com o establishment do cinema nacional, que desde sempre o rejeitou. Embora não dê corda aos detratores e evite o bate-boca na imprensa, mostra-se ressentido com os críticos, que considera “preconceituosos e elitistas”. “Pra esses caras, o meu cinema de entretenimento é um negócio do demônio.” No início do ano passado, pela primeira vez o bonequinho do Globo bateu palmas (sentado) para um filme seu, o Loucas pra Casar. O diretor fez questão de não comemorar.

O Suburbano Sortudo, testado no Cine Joia, pode ser visto como a desforra do diretor bem-sucedido contra os diretores-cabeça, “intelectuais que gostam de ostentar inteligência”. O personagem Olavinho Salles, interpretado pelo ator Fábio Rabin, é um diretor de cinema que decide documentar a transição do protagonista, que migra da classe C para a A. No roteiro de Paulo Cursino, Olavinho Salles fez sucesso com o filme Urubus ao Redor, pelo qual foi premiado num festival europeu de cinema – ele filma com uma câmera super-8 e diz coisas como “Quero retratar a beleza da pobreza”.

O cineasta cabeção não tem vida fácil no filme de Santucci e Cursino. Às tantas, quase se afoga na tentativa de filmar o povo no Piscinão de Ramos e ainda tem de ouvir do suburbano sortudo: “Você acha que em Madureira o povo compra filme de Olavinho Salles? O que vende lá é comédia.” O auteur que busca a beleza na pobreza é um dos personagens que mais diverte Santucci e Cursino. Para tristeza de ambos, contudo, o público se mostrou desinteressado dessas querelas cinematográficas. Nas pesquisas, pouca gente riu das cenas de Olavinho. “Olavinho Salles vai ter que diminuir na edição”, lamentou Santucci. É o preço que se paga por fazer cinema comercial. Vinganças eruditas não passam recibo.

Da cozinha veio o grito: “O almoço tá pronto!” Santucci desceu para a sala num breve intervalo da edição de O Suburbano Sortudo. Após o teste no cinema de Copacabana, o diretor voltara a mexer no filme para acomodar as sugestões da plateia.

Santucci se serviu de purê de inhame, arroz integral e legumes. Vegetariano desde 2014, ele anda interessado nos aspectos políticos das questões alimentares, dos danos ao meio ambiente à qualidade de vida dos animais. “Eu adoraria fazer um filme sobre isso”, falou. Outra ambição sua é tratar da política brasileira. O diretor vem estudando a obra de Frank Capra, cujos filmes dão corpo a uma visão higienizada da democracia americana em que a virtude, representada por homens (sempre homens) de boa-fé, triunfa sempre. Sonha elaborar uma versão nacional de A Mulher Faz o Homem [Mr. Smith Goes to Washington], em que um rapaz idealista e interiorano se torna senador e é confrontado com a corrupção de Washington. “Depois de todas essas comédias, minha ideia é chegar e dizer ‘Agora já tenho moral para voltar aos thrillers e quero filmar isso aqui’”, disse Santucci.

Os interlocutores imaginários da frase seriam os distribuidores e produtores que tanto lucraram com suas comédias e que, por isso mesmo, presume o diretor, resistirão a sua saída do gênero. “Isso aqui” é um projeto que o diretor acalenta desde 2011, quando recebeu os primeiros sinais do sucesso estrondoso de De Pernas pro Ar, e sobre o qual prefere guardar segredo. “É um thriller político, desses que chamam de filme de autor.” E mais não diz.

“Meu sonho é filmar umas coisas tão barra-pesada que o pessoal de cinema vai voltar a correr de mim”, disse, meio a título de galhofa. Preparando a retirada, Santucci treinou seu diretor-assistente Marcelo Antunez para substituí-lo nos projetos que lhe caem no colo semana sim e outra também. Antunez, um lutador de jiu-jítsu formado em publicidade, acompanha o amigo desde Alucinados e já dirigiu Qualquer Gato Vira-Lata 2 e Até que a Sorte nos Separe 3. Os dois vão trabalhar em parceria: Santucci na supervisão, Antunez dirigindo.

À pergunta se colaboraria com o diretor nos filmes de ação e política, Wainer responde com cortesia, dizendo acreditar no talento de Santucci, independentemente do gênero. Já o roteirista Paulo Cursino é menos diplomático. “Falei pra ele que esses filmes não vão acontecer. Entendo que, ao contrário de mim, ele não tem a comédia na veia e precisa se lançar em outros gêneros, mas meu conselho foi que fosse adiante sem qualquer esperança”, disse.

Quando se ouve Santucci lamentar que as comédias que o consagraram não lhe alimentam o espírito, é difícil não pensar em Pestana, o personagem do conto “O homem célebre”, de Machado de Assis. Pestana compõe as mais populares polcas dos saraus da cidade, e a cada novo sucesso, desses que derramam pela cidade “uma alegria nova”, ele afunda numa depressão ainda mais cava. Não quer compor polcas, quer criar sonatas e réquiens, “alguma coisa ao sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann”. Santucci-Pestana diz: “Não é que não goste das minhas comédias. Acontece que não é o que eu realmente gosto de fazer. Faço para conseguir que alguém pague meu próximo policial.” O projeto de thriller político está nos ajustes finais e o autor não demorará a migrar de gênero. A perspectiva o deixa feliz como uma debutante: “Vou estrear como cineasta mesmo.”

Passava das oito da noite de uma quinta-feira quando Santucci chegou ao 3º andar do New York City Center, shopping na Barra da Tijuca, onde a rede UCI administra dezoito salas de exibição. Ele reservara aquela noite para assistir a Vai que Cola, novo filme do comediante Paulo Gustavo, produzido pela Conspiração e dirigido por César Rodrigues. A trama envolve um empresário que empobrece do dia para a noite e é forçado a trocar o Leblon pelo Méier, Zona Norte do Rio, onde passa a viver da entrega de quentinhas. A transfiguração do herói, agora para pior.

Santucci estava ali a serviço, pois enquanto não retoma os filmes-sonata ele segue dedicado às comédias-polca. Uma de suas rotinas é ir a salas frequentadas pelo público mais popular para aferir o pulso dos espectadores. “Esses filmes que estão dando certo seguem uma fórmula semelhante. É minha obrigação ir e entender como as piadas estão sendo recebidas, até para repetir o que está dando certo”, explicou.

A ideia para O Suburbano Sortudo lhe ocorrera numa dessas sessões. No início de 2015, foi incógnito assistir a seu recém-lançado Loucas pra Casar. Numa cena em que aparecia a atriz carioca Tatá Werneck, ouviu de um espectador: “Olha só, mais um filme com uma branquinha.” “Na hora percebi que devia dar muito mais atenção aos subúrbios”, contou Santucci, que logo se lembrou de Rodrigo Sant’Anna, o comediante de Zorra Total, nascido e criado entre o morro do Macaco e Quintino, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A fila estava longa, sinal tanto do vigor do gênero como do desconto em dias de semana, razão pela qual Santucci não faz suas incursões etnocinematográficas em fins de semana ou feriados. A dois passos de distância, um casal de adolescentes, avançando lentamente em direção à bilheteria, ainda decidia qual filme ver. Namorado: “Tem O Último Caçador de Bruxas, Perdido em Marte e Vai que Cola. Qual você prefere, amor?” Namorada: “O que não for em inglês nem legendado, né amor.” Compraram duas meias para Vai que Cola.

Santucci pagou o ingresso e seguiu direto para a sala sem se preocupar com pipoca ou refrigerante. Interrompera uma reunião de produção e chegara em cima da hora. Quando entrou, os trailers já haviam começado. Havia escolhido um assento perto do maior aglomerado de espectadores, posição estratégica para pescar eventuais comentários. Passou os olhos pela plateia: a maioria jovens, principalmente casais.

Encerrada a sessão, o diretor se mostrava apreensivo. A história do vendedor de quentinhas do Méier guardava muitas semelhanças com a de O Suburbano Sortudo, que só estrearia em fevereiro de 2016. “Meu medo é que o público esteja totalmente saturado com o tema quando meu filme entrar em cartaz”, explicou. Mas logo se tranquilizou: piadas sobre enchentes e deslizamentos, catástrofes típicas da periferia, contadas com gíria carregada e humor “popular pra burro”, agradam sempre. O público havia rido à beça.


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Luiza Miguez é redatora do programa Greg News. Foi repórter e checadora de apuração da piauí entre 2011 e 2019.​