esquina
Daniela Pinheiro Dez 2015 15h51
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Emoldurada por árvores centenárias de variada paleta outonal, a Sand Hill Road é uma artéria que sai da Universidade Stanford e corta três áreas residenciais até dar na concentração de escritórios dos maiores investidores de empresas de tecnologia do Vale do Silício, na Califórnia. O trajeto pode ser feito em menos de meia hora por uma estrada tranquila, onde se cruza com poucos carros e se avistam centros comerciais irrelevantes.
No meio do caminho, batendo a fome – ou a urgência em investir 1 bilhão de dólares numa ideia inovadora –, os magnatas da internet viram à direita, entram na Woodside Road e dirigem até um estacionamento que abriga uma estranha baleia esculpida em madeira, em tamanho natural – além de um sem-número de Teslas, Jaguares e Porsches.
Inaugurado em 1991, o Buck’s de Woodside é o restaurante mais frequentado pelos bilionários do Vale do Silício. Ali também é feita boa parte de suas negociações de somas estratosféricas, entre goles de suco de maçã, potes de granola e sanduíches de caranguejo. É assim desde que a última novidade do mercado era o fac-símile. A comida é pobre, o serviço lento, a carta de vinhos duvidosa e a decoração, um deboche.
Já na entrada, veem-se réplicas da Estátua da Liberdade e da Torre Eiffel, um manequim com uniforme da Nasa, bonecos, fotos, quadros, um sem-fim de quinquilharias espalhadas do teto ao chão. No cardápio – como reza a etiqueta californiana – tudo é orgânico, e há muitas versões de pratos com homus, quinoa e abacate. O forte da casa são burritos, sanduíches e wraps de legumes. A carta de vinhos é local e traz uma oferta rara: um Mouton Rothschild, safra 1945, oferecido a 3 mil dólares. É a mesma garrafa há quase uma década.
“O Hotmail nasceu aqui”, disse Jamis MacNiven, o proprietário do restaurante – um homem grisalho, magro, alto e de tom de voz épico –, apontando uma mesa de tampo redondo com quatro cadeiras de madeira clara. “Naquela ali, ocorreram as primeiras reuniões sobre o Netscape. Naquela outra, traçaram o modelo de negócios do PayPal.” Foi lá também que a dupla Martin Eberhard e Marc Tarpenning apareceu no estacionamento com o protótipo do primeiro carro elétrico da Tesla – fabricado na cor amarelo-canário. MacNiven emendou: “E aqui foi o primeiro lugar na América a ter wi-fi gratuito!”
Aos 67 anos, ex-hippie, Jamis MacNiven é a alma do negócio. Conhece todo mundo, apresenta um cliente a outro, frequenta celebridades da internet e da política. Quando era governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger o convidava para suas festas de aniversário. Shimon Peres, ex-presidente de Israel, e Nicolas Sarkozy, da França, fizeram questão de comer no Buck’s quando visitaram a região. Não saem de lá o criador do Atari, Nolan Bushnell, a cantora Joan Baez e o compositor Neil Young, que tem uma casa a poucos quilômetros dali.
Filho de missionários presbiterianos, MacNiven nasceu no Japão e rodou o mundo com a família até se fixar na Califórnia. Frequentou a Universidade de Berkeley e se tornou empresário da construção civil. Em 1979, conheceu um nerd que o contratou para reformar seu apartamento. Ele era tão obsessivo e metódico que os dois acabaram brigando. Seu nome: Steve Jobs – o fundador da Apple e o único entre as celebridades locais a nunca ter pisado no restaurante. “Ele virou uma pessoa muito esquisita”, comentou MacNiven. Ao longo dos anos, o proprietário continuou a erguer restaurantes, entre eles o Hard Rock Cafe, em São Francisco. Tornou-se um bem-sucedido investidor. “Na verdade, não ligo para dinheiro”, disse, replicando a máxima local.
Costuma se vestir de maneira extravagante, com camisas estampadas, calças largas e sandálias de duas tiras. “Aqui é como o Facebook ao vivo. É gente conhecendo gente o tempo todo e produzindo alguma coisa. Temos comida, e o dinheiro está aqui. O que mais é preciso?”, brincou.
Naquele começo de tarde, o salão estava cheio e a fila de espera corroborava a fama do lugar. A maioria das mesas era ocupada por duplas de homens magros usando camisa social com pulôver, jeans e sapato de bico fino. Entre eles, quase sempre havia um laptop aberto. Ninguém vestia terno.
Encostado num canto junto à parede, Kevin Hartz – que fez fortuna investindo no Airbnb, Pinterest, Uber, Palantir, entre outras empresas, e hoje é CEO do Eventbrite, um aplicativo de venda de ingressos para todo tipo de eventos – segurava um copo d’água com muito gelo. Ele conversava em voz baixa com um amigo enquanto um burrito molengo jazia a sua frente.
Perguntei a Hartz sobre a qualidade da comida. Discreto, ele desconversou. “Aqui tem um clima descontraído e acaba que todo mundo se conhece”, disse. “No começo, era mesmo um lugar para se fazer networking, mas hoje é mais folclórico”, afirmou. “Mas pode ter certeza: todo mundo vem aqui.”
Pelo menos uma vez por mês, Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, chega sozinho, pede uma Sprite gelada, abre o computador e passa horas vidrado na tela sem ser incomodado. O CEO da Tesla, Elon Musk, prefere tomar chá.
Magnatas da tecnologia são bons em dar gorjetas? “Excelentes”, respondeu MacNiven. E citou a vez em que Larry Ellison, da Oracle, pediu dois chás e pagou com uma nota de 100 dólares. Em outra ocasião, a filha de uma funcionária bateu o carro e, como estava sem seguro, recorreu à clientela. Em duas horas, levantou 48 mil dólares. “Uma das minhas garçonetes dirige um Bentley. Então dá para ter uma ideia do que estou falando.”
Para ele, a salvação do mundo está nas mãos de Elon Musk, da Tesla. Musk seria um gênio especial: não tão midiático como Zuckerberg nem tão descompromissado como Larry Page, do Google. “Ele é um visionário do futuro. Quer construir colônias em Marte, fazer o carro movido a energia solar”, disse. “E eu espero que ele feche esse negócio naquela mesa bem ali”, disse, com o dedo apontado para o lado direito.