esquina
Juliana Deodoro Fev 2016 16h47
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Munido de um facão e vestido de branco como um açougueiro, Agostinho Dias Pedroso limpava um porco sobre uma mesa grande. Ainda era hora do almoço, mas o dono do restaurante mais famoso da pacata Bom Jardim, em Mato Grosso, cidade a 150 quilômetros de Cuiabá, já aceitava reservas para o jantar. “Hoje vai ter peixe”, anunciou, confundindo os clientes recém-chegados.
À noite lá estava ele de novo, só que dessa vez vestindo macacão vermelho e short amarelo, com um par de antenas preso à cabeça e um coração com as iniciais CH estampadas no peito. Fantasiado de Chapolin Colorado, o personagem criado pelo ator mexicano Roberto Bolaños, o moreno baixinho, de 53 anos, zanzava de um lado para o outro empurrando um carrinho de madeira onde jaziam três pacus assados, generosamente recheados com farofa de banana. “Isso, isso, isso”, repetia, em resposta às mais variadas perguntas e comentários. Os comensais, entre uma garfada e outra, tiravam fotos do anfitrião. E pareciam não se dar conta de que o bordão não pertencia ao Chapolin, mas ao Chaves, outro personagem de Bolaños.
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016
Inaugurado há um ano, o restaurante Comida Caseira do Chapolin já é a primeira e inevitável indicação que os viajantes recebem dos moradores de Bom Jardim – um lugar de atrações turísticas naturais, rios e cachoeiras, não muito distante da Chapada dos Guimarães. “Vou te falar de boca cheia: sinto que estou ficando famoso”, gabou-se o cozinheiro, depois de encerrado o serviço da noite. E de onde viria essa fama toda? “Da internet, uai. Estou no TripAdvisor.” Uma rápida busca confirma: o seu restaurante é o mais bem avaliado entre 46 estabelecimentos do município de Nobres, do qual Bom Jardim é distrito.
Resultado do estrelato: mesas lotadas e carros de alto padrão estacionados na frente da biboca. No vilarejo de apenas duas ruas, comer pode ser um desafio. Como se fizessem parte do Guia Michelin, as casas que servem repasto por ali exigem reserva antecipada. Quando as pousadas estão cheias, há mesmo o risco de a comida acabar já no início da tarde. Para Chapolin, porém, não existe tempo ruim. Em frente ao restaurante, uma placa anuncia: Funcionamento 24 horas. “Aqui não tem porta, né? Então está sempre aberto.” Não contavam com essa astúcia.
Ex-garimpeiro, trabalhador rural, dono de bar e pedreiro, Agostinho Dias Pedroso ganhou seu apelido pela suposta semelhança com o herói mexicano. Quando questionado, dá muitas voltas antes de contar como foi parar ali, antenas em riste, cozinhando galinha com pequi. Há vinte anos saiu de Bom Jardim, onde nasceu, e foi morar com a mulher e os três filhos em São Brás do Suaçuí, no interior de Minas Gerais. Queria ganhar a vida no garimpo, mas não deu certo. Trabalhou em fazendas da região até conseguir o impossível: comprou fiado não apenas cerveja, mas um bar inteiro do vilarejo de pouco mais de 3 700 habitantes.
“Fiquei devendo 600 reais para o dono, mas todo domingo eu vendia 60 litros de pinga. Fui subindo aos poucos, fazendo fama e ganhando dinheiro. Quando eu já estava lá em cima, resolvi ajudar o povo.”
Fantasiado de Papai Noel ou de bruxa, Pedroso distribuía doces para as crianças. Aos adultos, oferecia petisco de churrasquinho no seu bar. Com a popularidade nas alturas, em 2008 resolveu se candidatar a vereador, pelo Democratas. “Me agarrei com Deus pra ganhar. E foi estourado. Tive mais votos que o prefeito. Deixei história dentro de Minas.” Uma consulta ao site do Tribunal Superior Eleitoral revela que na verdade ele foi o segundo vereador mais votado. Matou dois bois, oferecidos aos eleitores em agradecimento.
Ocorre que nem tudo foi festa depois disso. No auge, quando já tinha conquistado fama e acumulado algum dinheiro, Chapolin foi nocauteado. Um dia chegou em casa e encontrou a mulher, Neusa, com quem se casara aos 15 anos, emburrada na cama. Os dois brigaram e o marido nunca mais voltou para casa. “Eu sempre dizia para ela: a gente só separa se eu bater em você – ou você bater em mim. Logo ela arrumou um namorado.”
O fim do casamento foi o empurrão que faltava para que ele voltasse à terra natal. Os dois filhos mais novos foram com ele, e até hoje vivem perto. “Podiam ter ficado por lá, mas preferiram vir com o pai”, disse, disfarçando as lágrimas. Foi para juntar dinheiro e terminar de construir o novo lar, explicou Chapolin, que ele resolveu montar o restaurante.
Desde então, acorda todo dia às quatro da manhã e toma guaraná da Amazônia – não bebe café, nem fuma. Cozinha sozinho, mas conta com ajuda para lavar a louça. A fantasia de Chapolin é usada apenas quando serve aos clientes. Pedroso se orgulha das conquistas dessa nova fase, mas desconversa quando o assunto é dinheiro. “O homem tem que ter esteio. Sabe o que é o esteio do homem? A mulher. Se eu tivesse uma mulher, eu saberia quanto ganho.”
Acaba deixando escapar que já conseguiu fazer alguma poupança. Tem projetos para o futuro. Diz que pretende comprar um trailer ou um motorhome e, quem sabe, viajar até Fortaleza. Quer ver o mar. “Ouço falar que é muito bonito.”