esquina
Luiza Miguez Fev 2016 16h17
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Passavam quase trinta minutos do horário combinado quando os integrantes do bloco começaram a chegar. Pouco a pouco crescia o som das vozes e dos risos no amplo salão onde, num canto, músicos já afinavam seus instrumentos. Daqui a pouco começaria o segundo ensaio em 2016 do Cara de Leão, agremiação com mais de 3 mil componentes que há duas décadas desfila em Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro, todo sábado de Carnaval. Com um microfone na mão, o mestre de bateria pediu a atenção dos percussionistas: “Amém, amigos, amém! Vamos focar aqui na frente, em nome do Senhor!”, disse, sobrepondo-se ao falatório.
De camisa preta e calça jeans, cavaquinho pendurado nas costas, um homem de cavanhaque circulava animado pela bateria. O evangelista Raphael Perdigão, 31 anos, é o diretor do Cara de Leão, bloco da igreja evangélica Projeto Vida Nova, que prega o louvor a Deus e o fim do pecado durante os dias de folia. “O pessoal está na rua, bebendo, afundando o pé na jaca; aí o nosso bloco aparece para dizer: ‘Jesus não quer essa vida para você’”, explicou o evangelista – posição logo abaixo à de pastor, na hierarquia da igreja – enquanto aguardava o início do ensaio. “A gente ensina que Jesus não tem quatro dias de alegria, mas uma vida inteira; dá para ser um cristão feliz”, acrescentou, empolgado.
Aplicados, os quase 500 percussionistas jejuam quando é dia de ensaio – e repetem o ritual na manhã do desfile. Naquela segunda-feira de janeiro, abraçados, ouviam atentos o mestre da bateria, que profetizava sobre o desfile que fariam dali a três semanas. “Carnaval é sinônimo de tristeza, choro e depressão!” Ao fundo, o som de um violão. “Já os nossos golpes nos instrumentos quebram correntes, neutralizam as macumbas, as obras de feitiçaria. Eu quero ouvir um ‘glória a Deus!’”, bradou o mestre no microfone. Sozinho num canto, um rapaz enxugava as lágrimas, emocionado com o sermão. Erguendo as mãos para o alto, toda a bateria respondeu: “Glória a Deus. Aleluia.”
A igreja do bloco, a Projeto Vida Nova, existe desde 1989 e tem como figura máxima o pastor Ezequiel Teixeira, também deputado federal pelo Partido da Mulher Brasileira e secretário de Assistência Social e Direitos Humanos do estado do Rio. No site oficial da igreja, consta como objetivo a propagação do evangelho “a toda criatura”, “a tempo e fora de tempo”. Os pastores chamam de “evangelismo estratégico” ocupar datas de celebrações com origens pagãs, como a festa junina (Festa Genuína, no calendário evangélico), ou de festas afro-brasileiras, como a celebração de São Cosme e Damião (no Projeto, dia de “Jesus mais doce que mel, o único protetor das crianças”). E o Carnaval.
“A igreja tem ainda um grupo de pagode, o Pra God, que toca o ano inteiro. E não é ruim não!”, lembrou Perdigão, o evangelista.
É o pastor Ezequiel Teixeira quem conduz a liturgia no dia do desfile. De cima de um trio elétrico, brada no microfone palavras do evangelho e também algumas considerações sobre os excessos nos dias de Carnaval; ele associa o uso da camisinha, o consumo de álcool e de drogas, bem como as “carícias homossexuais” aos planos do Anticristo contra a família e a igreja.
Foi durante uma das pregações carnavalescas do pastor, há três anos, que Raphael Perdigão disse ter vivido a experiência mais sagrada de sua vida. “Eu vi com meus próprios olhos, isso ninguém me contou”, ele sussurrou, lançando um olhar sério. Perdigão tocava cavaquinho em cima do trio, enquanto o pastor Ezequiel pregava para o público. Numa cadeira de rodas, um jovem paralítico acompanhava o desfile do Cara de Leão, atento ao sermão. Ezequiel Teixeira falava que o maior milagre é Deus transformar a vida de uma pessoa, quando o improvável aconteceu. “Na mesma hora, o paralítico se levantou da cadeira e começou a pular com a gente!” O evangelista contou que não aguentou tanta emoção. Interrompeu a música e abraçou, chorando, seus amigos do bloco.
Há ao menos um milagre indubitável operado recorrentemente pelo Cara de Leão: o da multiplicação de percussionistas. A cada ano o bloco recebe novos voluntários para a bateria, a maioria sem formação musical. “Nossa metodologia é colocar todo mundo para orar antes de tocar. O pessoal acaba tocando bem pra caramba. A bateria funciona em cima da oração”, explicou o mestre Aerton dos Santos. Antes de entrar na igreja, quando ainda vivia “no mundão”, ele era percussionista no Salgueiro e na Vila Isabel, escolas de samba cariocas. “Quando o som está ruim, eu dobro meu joelho e faço uma oração. Aí tudo flui. Quem conduz a bateria é Deus”, contou.
O Cara de Leão não permite roupas justas, purpurina, confetes, serpentina. Em comum com os demais blocos de Carnaval, há a bateria tocando samba, o “mestre-salvo” e a “porta-louvor”, que carregam o estandarte do grupo. São sete alas de fiéis, divididos por idade, que acompanham com coreografias a música e a pregação do pastor. A Ala da Ilusão, composta por adolescentes, é a única com permissão para usar adereços. Os jovens desfilam com máscaras, garrafas de cerveja e cigarros falsos na mão. Andam cambaleando, simulando foliões de Carnaval, e entre eles circula uma figura demoníaca, que vez ou outra se escora nos ombros dos mascarados. “A Ala da Ilusão simula a batalha espiritual que ocorre nos dias de folia”, explicou Perdigão.
O ensaio na segunda-feira atraiu uma pequena multidão de curiosos, que acompanhavam, com os pés, o samba do bloco. Perguntei ao evangelista se a igreja não via prejuízo em pregar o evangelho utilizando instrumentos de origem africana, como o tambor e o agogô, associados a religiões afro-brasileiras. Perdigão sacou uma Bíblia e citou um salmo que, segundo ele, esclarecia aquela dúvida, antes de arrematar o raciocínio com suas próprias palavras. “Acima de tudo, minha filha, a música é uma coisa de Deus”, declarou, encerrando a questão.