ficção

UM CAFÉ NA LANCHONETE

A história de Saeed, dos pais de Saeed – e o segredo de Nadia
Imagem Um café na lanchonete

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Numa cidade abarrotada de refugiados, mas ainda predominantemente em paz, ou pelo menos ainda não em guerra aberta, um garoto conheceu uma garota numa sala de aula e não lhe dirigiu a palavra. Por muitos dias. O nome dele era Saeed e o dela era Nadia, e ele usava barba, não uma barba cheia, e sim uma barbinha rala podada cuidadosamente, e ela estava sempre coberta dos dedos dos pés à base da jugular por um manto negro ondulante. Naquela época as pessoas ainda se davam ao luxo de vestir mais ou menos o que quisessem, no que diz respeito a roupas e cabelos, dentro de certos limites, claro, de modo que as escolhas significavam algo.

Pode parecer estranho que em cidades se equilibrando à beira do abismo jovens ainda frequentem aulas – nesse caso uma aula noturna sobre identidade empresarial e marcas de produtos –, mas é assim que as coisas são, seja quanto às cidades, seja quanto à vida, pois por um momento estamos entretidos com nossos afazeres habituais e no momento seguinte estamos morrendo, e nosso fim para sempre iminente não interrompe nossos começos e meios transitórios até o instante em que o fim chega de fato.

Saeed notou que Nadia tinha um sinal de nascença no pescoço, castanho e ovalado, que às vezes, poucas vezes, mas não nunca, se mexia com a pulsação dela.

Não muito tempo depois de notar isso, Saeed falou com Nadia pela primeira vez. A cidade deles ainda não havia sofrido nenhum grande conflito, apenas alguns tiroteios e a estranha explosão do carro, sentida na cavidade torácica das pessoas como uma vibração subsônica semelhante às emitidas por enormes alto-falantes em concertos de música, e Saeed e Nadia tinham recolhido seus livros e estavam saindo da sala.

Na escada, ele se virou para ela e disse: “Olha só, você gostaria de tomar um café?”, e depois de uma breve pausa acrescentou, para soar menos atrevido, tendo em vista os trajes conservadores dela, “na lanchonete?”

Nadia olhou-o nos olhos. “Você não faz as suas orações noturnas?”, perguntou.

Saeed lançou mão de seu sorriso mais afetuoso. “Nem sempre. Infelizmente.”

A expressão dela não mudou.

Então ele persistiu, aferrando-se ao seu sorriso com o crescente desespero de um alpinista desafortunado: “Penso que é uma coisa pessoal. Cada um… ou cada uma… de nós tem seu próprio jeito. Ninguém é perfeito. E, em todo caso…”

Ela o interrompeu. “Eu não rezo”, disse.

Continuou a encará-lo fixamente.

Depois disse: “Talvez outro dia.”

Ele ficou olhando enquanto ela caminhava para a área de estacionamento dos estudantes e ali, em vez de cobrir a cabeça com um lenço preto como ele esperava, ela botou um capacete preto de motoqueiro que estivera preso a uma surrada moto trail de 100 cilindradas, baixou o visor e deu a partida, desaparecendo no lusco-fusco com um ronco moderado.

No dia seguinte, ele não conseguia parar de pensar em Nadia. Saeed trabalhava numa agência especializada na colocação de propaganda de rua. Eles possuíam outdoors por toda a cidade, alugavam outros e negociavam espaços adicionais com empresas de ônibus, estádios de futebol e proprietários de edifícios altos.

A agência ocupava os dois andares de um casarão reformado e tinha mais de uma dúzia de empregados. Saeed era um dos mais novatos, mas seu chefe gostava dele e o incumbira de elaborar uma proposta de campanha para uma empresa local de sabão que precisava ser enviada por e-mail antes das cinco da tarde. Normalmente Saeed tentava fazer um minucioso trabalho de pesquisa online e customizava suas apresentações tanto quanto possível. “Não é uma história se não tiver uma plateia”, o chefe gostava de dizer, e para Saeed isso significava mostrar ao cliente que a agência entendia realmente do negócio dele, que podia se colocar na sua pele e enxergar as coisas do seu ponto de vista.

Mas hoje, embora a campanha fosse importante – toda campanha era importante: a economia estava desaquecida devido à inquietação crescente, e parecia que uma das primeiras despesas que os clientes queriam cortar era a propaganda de rua –, Saeed não conseguia se concentrar. Uma árvore grande, crescida desordenadamente e sem poda, erguia-se no terreno dos fundos do casarão da empresa, bloqueando a luz do sol de tal maneira que o que tinha sido um gramado agora era terra com uns poucos tufos de grama, entremeados por uma porção matinal de bitucas de cigarro, pois o chefe proibira as pessoas de fumar dentro da agência, e no alto dessa árvore Saeed avistara um falcão construindo seu ninho. O pássaro trabalhava sem descanso. Às vezes pairava na altura dos olhos, quase imóvel ao vento, e então, com um minúsculo movimento de uma asa, ou mesmo das penas voltadas para cima na ponta de uma asa, dava uma guinada.

Saeed pensava em Nadia e observava o falcão.

Quando finalmente seu tempo estava acabando, ele fez um esforço para preparar a proposta de campanha, copiando e colando de outras que tinha feito antes. Só algumas poucas imagens, entre as que selecionou, tinham alguma coisa a ver com sabão. Levou um esboço ao chefe e teve que reprimir um tremor ao estender o braço para entregá-lo.

Mas o chefe parecia preocupado com outra coisa e nem notou. Limitou-se a rabiscar algumas pequenas correções na cópia impressa, devolveu-a a Saeed com um sorriso tristonho e disse: “Mande logo.”

Alguma coisa em sua expressão fez Saeed sentir pena dele. Lamentou não ter feito um trabalho melhor.

No momento em que o e-mail enviado por Saeed estava sendo baixado de um servidor e lido por seu cliente, na distante Austrália uma mulher pálida dormia sozinha no bairro de Surry Hills, em Sydney. Seu marido estava em Perth, a trabalho. A mulher usava uma camiseta longa, dele, e uma aliança de casamento. Seu torso e sua perna esquerda estavam cobertos por um lençol ainda mais branco que sua pele; a perna direita estava exposta até o quadril. No tornozelo direito, empoleirada sobre a cavidade do tendão de Aquiles, ficava a tatuagem azul de um pequeno pássaro mitológico.

A casa tinha alarme, mas estava desativado. Havia sido instalado pelos antigos moradores, outros que um dia tinham chamado aquela casa de lar, antes que o fenômeno que chamam de gentrificação do bairro tivesse chegado ao ponto atual. A mulher adormecida ligava o alarme apenas esporadicamente, em geral quando o marido não estava, mas naquela noite ela tinha esquecido. A janela do quarto, a 4 metros do chão, estava aberta, só uma fresta.

Na gaveta do criado-mudo havia uma cartela pela metade de pílulas anticoncepcionais – consumidas pela última vez três meses antes, quando ela e o marido ainda tentavam evitar a gravidez –, passaportes, talões de cheques, recibos, moedas, chaves, um par de algemas e alguns chicletes, ainda na embalagem.

A porta para o closet estava aberta. O quarto era banhado pela luminosidade da fonte do computador e do roteador da internet sem fio, mas a abertura para o closet estava escura, mais escura que a noite, um retângulo de completa escuridão – o coração das trevas. E daquelas trevas um homem emergia.

Ele também era escuro, de pele escura e cabelo crespo escuro. Passava pela porta com grande esforço, com as mãos agarrando os batentes como se avançasse contra a força da gravidade, ou contra o ímpeto de uma onda monstruosa. Logo depois da cabeça surgiu o pescoço, com os tendões tensos, e em seguida o peito, numa camisa marrom e cinza, suada e meio desabotoada. De repente ele parou, fazendo uma pausa no seu esforço. Olhou em volta, observando o quarto. Olhou para a mulher adormecida, para a porta fechada do quarto, para a janela aberta. Recuperou o ânimo, lutando com todas as forças para entrar, mas em desesperado silêncio, o silêncio de um homem que se debate no chão de um beco, tarde da noite, para se libertar de mãos que pressionam sua garganta. Mas não havia mão alguma em torno da garganta daquele homem. Ele só não queria ser ouvido.

Com um impulso final ele estava dentro do quarto, tremendo e deslizando para o chão como um potro recém-nascido. Estendeu-se imóvel, exausto. Tentou não arfar. Levantou.

Seus olhos giravam terrivelmente. Sim: terrivelmente. Ou talvez nem tão terrivelmente assim. Talvez eles só estivessem olhando ao redor, para a mulher, para a cama, para o quarto. Tendo sido criado nas circunstâncias não raro perigosas nas quais crescera, ele estava ciente da fragilidade do próprio corpo. Sabia quão pouco bastava para transformar um homem numa massa de carne: o golpe errado, o tiro errado, o movimento errado de uma lâmina, a guinada de um carro, a presença de um micro-organismo num aperto de mão, uma tosse. Estava ciente de que, sozinha, uma pessoa é quase nada.

A mulher que dormia, dormia sozinha. Ele, em pé diante dela, também estava sozinho. A porta do quarto estava fechada. A janela estava aberta. Escolheu a janela. Atravessou-a num instante, aterrizando suavemente na rua abaixo.

Enquanto esse incidente ocorria na Austrália, Saeed comprava pão fresco para o jantar e se dirigia para casa. Era um homem adulto, de espírito independente, solteiro, com um emprego decente e uma boa formação, e como acontecia naqueles dias, naquela cidade, com a maioria dos homens adultos, de espírito independente, solteiros, com empregos decentes e boa formação, morava com os pais.

A mãe de Saeed tinha o ar dominador de uma professora de colégio, o que ela de fato havia sido, e o pai, o jeito perdido de um professor universitário, o que ele continuava sendo – embora com salário reduzido, pois superara a idade para a aposentadoria oficial e fora forçado a buscar ocupação como professor visitante. Os pais de Saeed, muito tempo atrás, tinham escolhido profissões respeitáveis num país que acabaria sendo muito ruim para seus profissionais respeitáveis. Segurança e status só seriam encontrados em outras ocupações, bem diferentes. Saeed tinha nascido tardiamente, tão tardiamente que sua mãe tinha achado que era provocação do médico quando ele lhe perguntou se ela pensava estar grávida.

O pequeno apartamento deles ficava num prédio outrora bonito, com uma fachada ornamentada, agora caindo aos pedaços, que datava da era colonial, numa parte da cidade que havia sido nobre, hoje apinhada de gente e de comércio. Tinha sido desmembrado de um apartamento muito maior e compreendia três cômodos: dois modestos quartos de dormir e um terceiro aposento que eles usavam como sala de estar, de jantar, de entretenimento e de televisão. Esse terceiro aposento também era de tamanho modesto, mas tinha janelas altas e uma sacada utilizável, ainda que estreita, com vista para um beco e, bulevar acima, para uma fonte seca que em outros tempos jorrava e cintilava à luz do sol. Era o tipo de vista que poderia justificar uma ligeira elevação de preço em tempos mais brandos e prósperos, mas bastante indesejável em tempos de conflito, quando ficava bem no meio do fogo pesado de metralhadoras e mísseis, à medida que os combatentes avançavam para aquela parte da cidade: uma vista que era como olhar para dentro do cano de um fuzil. Localização, localização, localização, dizem os corretores de imóveis. Geografia é destino, respondem os historiadores.

A guerra logo iria corroer a fachada do prédio deles como se tivesse acelerado o próprio tempo, o desgaste de um dia ultrapassando o de uma década.

Quando se conheceram, os pais de Saeed tinham a mesma idade que Saeed e Nadia quando se conheceram. O casal mais velho teve um casamento por amor, um casamento entre estranhos não arranjado pelas famílias, o que, em seu círculo, se não era sem precedentes, ainda era pouco comum.

Conheceram-se no cinema, durante o intervalo de um filme sobre uma princesa muito esperta. A mãe de Saeed espiou o pai dele fumando um cigarro e se espantou com a semelhança entre ele e o galã do filme. Essa semelhança não era inteiramente acidental: embora um pouco tímido e bastante estudioso, o pai de Saeed se espelhava no estilo dos astros populares do cinema e da música de seu tempo, como a maioria de seus amigos. Mas a miopia do pai de Saeed, combinada com sua personalidade, lhe conferia uma expressão genuinamente sonhadora, e por isso, o que era compreensível, a mãe de Saeed passou a acreditar que ele não apenas se parecia com o personagem como também o encarnava. Ela decidiu abordá-lo, à sua maneira.

Em pé, diante do pai de Saeed, começou uma conversa entusiasmada com uma amiga, simulando ignorar o objeto do seu desejo. Ele a notou. Ouviu o que ela dizia. Juntou coragem para lhe dirigir a palavra. E assim foi, como ambos gostavam de dizer nos anos subsequentes, ao contar a história do primeiro encontro.

Tanto a mãe como o pai de Saeed eram bons leitores e, cada um a seu modo, críticos, e nos primeiros dias do namoro eram vistos com frequência se esbarrando furtivamente em livrarias. Mais tarde, depois do casamento, quando estavam na rua costumavam ler juntos à tarde em cafés e restaurantes, ou, se o clima permitisse, na sacada de casa. Ele fumava e ela dizia não fumar, mas muitas vezes, quando as cinzas do cigarro aparentemente esquecido por ele se estendiam até o limite, ela o tomava dos dedos dele, batia suavemente o excesso num cinzeiro e dava uma tragada longa e um tanto lasciva antes de devolvê-lo com um gesto elegante.

O cinema em que os pais de Saeed se conheceram já tinha desaparecido havia muito tempo quando o filho deles conheceu Nadia, assim como suas livrarias favoritas e seus amados restaurantes e cafés. Não que os cinemas, livrarias, restaurantes e cafés tivessem desaparecido da cidade, mas é que muitos dos que antes existiam tinham deixado de existir. O cinema que eles recordavam com tanto carinho tinha sido substituído por uma galeria de lojas de computadores e periféricos eletrônicos. O prédio adotara o mesmo nome do cinema que o precedera: ambos haviam sido do mesmo proprietário, e o cinema fora tão famoso que se tornara sinônimo do local. Ao andar pela galeria e ver o velho nome no novo letreiro em néon, às vezes o pai de Saeed, às vezes a mãe de Saeed, rememoravam e sorriam. Ou rememoravam e faziam uma pausa.

Os pais de Saeed não fizeram sexo até a noite de núpcias. Dos dois, foi a mãe de Saeed quem se sentiu mais desconfortável, mas foi também quem mais gostou, e por isso insistiu para que repetissem o ato duas vezes antes do amanhecer. Durante muitos anos o equilíbrio dos dois permaneceu assim. Falando em termos gerais, ela era voraz na cama. Falando em termos gerais, ele era gentil. Talvez por não ter engravidado até a concepção de Saeed, duas décadas depois, e por isso ter concluído que não podia ter filhos, ela era capaz de transar com desembaraço, isto é, sem pensar nas consequências nem nos transtornos de ter uma criança para criar. Enquanto isso, ao longo da primeira metade da vida conjugal, a atitude típica dele diante dos ardentes ímpetos dela era a de um homem agradavelmente surpreso. Ela considerava erótico o bigode dele e ser pega por trás. Ele a achava sensual e provocante.

Depois que Saeed nasceu, a regularidade com que seus pais faziam sexo caiu consideravelmente, e continuou em declínio com o passar do tempo. O útero dela começou a sofrer prolapso, e para ele era cada vez mais difícil manter uma ereção. Durante essa fase, o pai de Saeed passou a ser escalado, ou a escalar a si próprio, cada vez com mais frequência, como aquele que tentava dar início ao sexo. A mãe de Saeed às vezes se perguntava se ele fazia isso por um desejo genuíno ou simplesmente por sentir falta de intimidade. Ela tentava ao máximo corresponder. Ele acabava sendo rejeitado pelo próprio corpo tanto ou mais do que pelo dela.

No último ano da vida que compartilhavam, o ano que já estava bem avançado quando Saeed conheceu Nadia, eles fizeram sexo apenas três vezes. Num ano, o mesmo número de vezes da noite de núpcias. Mas o pai dele manteve sempre o bigode, por insistência da mulher. E eles nunca trocaram de cama: as barras da cabeceira, como balaústres de um parapeito, quase pediam para ser agarradas.

Naquilo que a família de Saeed chamava de sala de estar havia um telescópio, preto e lustroso. Tinha sido dado ao pai de Saeed pelo pai deste, e o pai de Saeed, por sua vez, presen-teara-o a Saeed, mas como Saeed ainda morava na casa, isso significava que o telescópio seguia instalado em seu tripé, onde sempre estivera, num canto, embaixo de um intrincado barco à vela que velejava dentro de uma garrafa de vidro no mar de uma estante triangular.

O céu sobre a cidade deles ficara poluído demais para a atividade de observar estrelas. Mas em noites sem nuvens depois de um dia de chuva, o pai de Saeed às vezes levava para fora o telescópio e a família bebericava chá verde na sacada, desfrutando uma brisa, e revezava-se para espiar no céu objetos que com frequência tinham emitido sua luz antes que qualquer um dos três observadores tivesse nascido – luz de outros séculos, só agora chegando à Terra. O pai de Saeed chamava isso de viagem no tempo.

Numa noite específica, porém, na verdade na noite depois de ele ter tido dificuldade para preparar a proposta de campanha para a empresa de sabão, Saeed esquadrinhava distraidamente uma trajetória abaixo da linha do horizonte. Em seu visor estavam janelas e muros e telhados, às vezes imóveis, às vezes movendo-se a uma velocidade incrível.

“Acho que ele está espiando garotas”, o pai de Saeed disse à esposa.

“Comporte-se, Saeed”, disse sua mãe.

“Bom, ele é seu filho.”

“Nunca precisei de um telescópio.”

“Sim, você preferia atuar a curta distância.”

Saeed abanou a cabeça e virou o telescópio para cima.

“Estou vendo Marte”, ele disse. E de fato estava. O segundo planeta mais próximo, com suas feições indistintas, da cor de um crepúsculo depois de uma tempestade de areia.

Saeed aprumou o corpo e ergueu o celular, dirigindo a câmera para o céu, consultando um aplicativo que indicava o nome dos corpos celestes que ele não conhecia. O Marte que ele mostrava era mais detalhado, embora fosse evidentemente um Marte de outro momento, um Marte pretérito, fixado na memória pelo criador do aplicativo.

A distância, a família de Saeed ouviu o som de tiros de metralhadora, estalos repetitivos que não eram altos e no entanto chegavam a eles nitidamente. Ficaram ali sentados por mais um tempo. Então a mãe de Saeed propôs que entrassem.

Quando Saeed e Nadia finalmente tomaram café na lanchonete, o que aconteceu na semana seguinte, logo depois da aula que tinham em comum, Saeed perguntou-lhe sobre aquele manto negro conservador que escondia tudo.

“Se você não reza”, ele disse, baixando a voz, “por que vestir isso?”

Estavam sentados numa mesa para dois, junto de uma janela com vista para o tráfego congestionado na rua abaixo. Seus celulares repousavam entre eles com as telas voltadas para baixo, como as armas de criminosos durante uma discussão.

Ela sorriu. Deu um gole. E falou, com a metade inferior do rosto coberta por sua xícara.

“Para os homens não acharem que podem transar comigo”, disse.


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Mohsin Hamid, escritor paquistanês, colabora com diversas publicações estrangeiras, como The New York Times e Granta