anais da imigração
Mori Ponsowy Jun 2018 08h00
54 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Eu estava sozinha. Ele também estava sozinho. Nas mesas do bar havia casais e grupos de amigos que conversavam com aquela alegria extrovertida dos romanos. Ele e eu éramos os únicos desacompanhados. Assim que o vi, torci para que não estivesse esperando alguém; para que ninguém viesse se sentar nos bancos que nos separavam no balcão. Não sei bem o que me atraiu nele. Talvez tenha sentido algo parecido com uma premonição. Eu estava sozinha em Roma e aquele bar no Trastevere tinha virado minha segunda casa. Cada vez que eu entrava lá, a garçonete me recebia com um “Ciao, cara”. “Oi, querida.”
Não importa se fui eu que falei primeiro ou se foi ele quem tomou a iniciativa: assim que nos vimos, logo soubemos que juntos beberíamos muito mais do que uma taça de vinho. O que ainda não podíamos suspeitar era que aquela conversa seria não apenas a primeira de uma longa série, mas também o começo do que estou escrevendo agora, meses depois. Do que ainda hoje tem um final incerto, e que, embora traga apenas a minha assinatura, a rigor deveria trazer também a dele.
Emilio Vercillo é psiquiatra especialista em transtorno de estresse pós-traumático, ou tept no jargão médico. Esse distúrbio ganhou notoriedade depois da guerra do Vietnã, quando os soldados norte-americanos não conseguiam superar o que lá viveram nem retomar algo que aparentemente deveria ser muito simples: sua vida cotidiana. Mas Vercillo não trabalha com soldados. Seus pacientes chegaram à Itália vindos da China, de Gana, da Síria, de Camarões. São homens e mulheres que para salvar a própria vida viram-se obrigados a abandonar a terra onde nasceram e partir sem nada: sem documentos, sem pertences, sem certezas. Seus pacientes são refugiados: pessoas que deixaram para trás ou já perderam amigos, irmãos, pais, filhos. Às vezes são adolescentes, quase crianças, que fugiram depois de perder os pais ou atravessaram o mar num barco até a Itália, enviados sozinhos por suas famílias, confiantes de que lá eles estariam a salvo, mesmo sem ter qualquer conhecido para cuidar deles.
“Como eles chegam até você? Quem os envia? Eles sabem o que faz um psiquiatra?”, perguntei. Ele respondia sem pressa, com detalhes. Se eu fosse listar as perguntas que fiz a Vercillo – todas que me vinham à mente, todas que ainda tenho para fazer –, não acabaria nunca. “O que essas pessoas dizem? O que você faz para ajudá-las? Como se faz para resgatar alguém que está afundando, não mais no Mediterrâneo, e sim na maré de um passado que não passa e de um futuro que parece nunca chegar?”
Naquela noite, Vercillo me falou de Ouria,[1] uma mulher que, depois de um ano na Itália, não conseguia parar de ouvir a voz do homem branco que a arrancou dos pais, quando ela tinha 12 anos, para transformá-la em escrava sexual.
Naquela noite, Vercillo me falou de Huang, uma jovem chinesa que trabalhava numa loja da família e teria levado uma vida normal, se não pertencesse a uma seita cristã proibida em seu país. Uma tarde, a polícia foi até à loja para levar Huang, mas ela tinha acabado de sair. Sua família não teve como avisá-la de que estava sendo procurada. Horas depois, quando Huang entrava na casa onde se reunia com seu grupo, escutou gritos que vinham lá de dentro. Escondida atrás de uma quina do edifício escutou o que também estaria acontecendo com ela se tivesse chegado minutos antes. Cada golpe de cassetete que a polícia dava em seus companheiros de certo modo também golpeava seu corpo. Huang viu como arrastavam para fora os corpos cobertos de sangue, de pés e mãos amarrados. Mais tarde, quando teve certeza de que a polícia estava longe, entrou na casa e se escondeu num porão úmido, minúsculo, onde nem sequer podia se esticar totalmente. Permaneceu ali por cinco meses. Quando Vercillo a conheceu no consultório dele em Roma, Huang não conseguia falar. Apenas movia os lábios de leve, como se rezasse uma prece. Uma prece muda.
Naquela noite, Vercillo também me falou de Boubacar.
Boubacar era um menino de 9 anos que vivia numa aldeia da Mauritânia, até que um dia quatro árabes irromperam em sua casa armados de facões. Boubacar se escondeu embaixo da cama. Sua irmã estava na escola. Ele ouviu gritos. Ouviu golpes. Ouviu súplicas. Nada adiantou: os homens primeiro mataram seu pai, depois, sua mãe. Em seguida, um deles puxou Boubacar de baixo da cama. Estava a ponto de cravar-lhe um facão no pescoço, quando outro árabe o deteve.
– Esse aí é melhor a gente vender – disse.
Nesse dia, o menino foi feito escravo. E assim permaneceu até os 34 anos, quando conseguiu fugir. Na primeira tentativa de fuga, foi apanhado e o espancaram com porretes, quebraram-lhe os dois braços e o jogaram num buraco, o mesmo onde punham os animais para castrar. Ele também seria castrado no dia seguinte: esse era o castigo para os escravos que tentavam fugir. Mas Boubacar teve sorte: naquela noite, outro escravo o desamarrou e o ajudou a sair do buraco. Seus braços pendiam disformes, inertes, como se não lhe pertencessem. “Vá embora”, disse o companheiro. “Se te pegarem, não diz que fui eu que te ajudei.” Boubacar atravessou o deserto a pé. Em seguida, ficou dois anos escondido num navio, sem ver a luz do sol. Depois, muito depois, chegou à Itália, esse país aonde tantos outros chegam com histórias tecidas pela matéria mais escura de que somos feitos, mas também pela tenacidade e pela esperança de uma vida melhor.
Enquanto terminávamos uma garrafa de Sagrantino di Montefalco, Vercillo me contou que, da primeira vez que viu Boubacar, o rapaz parecia um morto-vivo. Alucinava. Sofria de flashbacks contínuos. Sentia-se ligado à vida, mas ao mesmo tempo estava convencido de que tinha morrido no deserto. Eu não podia acreditar no que escutava. Ou, melhor dizendo, não podia acreditar no que estava sentindo. Era amor? Nesse caso, amor por quem? Quando a gente se apaixona, chora? Por quem eu chorava? Eu estava em Roma de passagem, a caminho da Feira do Livro de Sofia, onde lançaria um romance. Chegara a um país desenvolvido, vinda da minha Argentina sempre em vias de desenvolvimento, e lá estava eu, diante de uma garrafa de vinho já vazia, falando com um homem que me falava de outro homem que tinha sido escravo por 25 anos, na mesma época em que a Voyager I alcançava as fronteiras do sistema solar.
Acho que por um instante estivemos a ponto de nos beijar. Mas não pude deixar de fazer uma pergunta.
– Como está Boubacar agora?
– Está melhor – disse Vercillo. – Muito melhor.
O instante em que podíamos ter nos beijado tinha ficado para trás.
– Posso conhecê-lo? – perguntei. – Gostaria de escrever sua história.
PROCURANDO BOUBACAR
Eu sabia que há países onde ainda existe a escravidão. Imagino que devo ter lido isso em algum lugar ou visto na televisão, num noticiário qualquer, antes ou depois de um comercial de xampu ou de iogurte zero calorias. Sabia, sim, que há países em que homens e mulheres são comprados e vendidos como se fossem potes de iogurte. Sabia. Mas o quê, exatamente? A única coisa que eu sabia era a fieira de palavras que formam uma oração: “Há países onde ainda existe a escravidão.” Uma oração vazia, uma sequência de sons e fonemas que meu cérebro podia entender, mas que provocava, no melhor dos casos, apenas uma leve e genérica indignação moral, politicamente correta.
E de que serve um conhecimento que não se traduz em atos, que não desperta emoção, não comove, não deixa rastros?
Assim como o iogurte zero calorias, de que serve um saber que não se converte em ato?
– Há países onde parece que o tempo parou – disse Vercillo, na noite em que o conheci. – Há países onde continuam a existir formas de escravidão antiga, quase bíblica: países onde a escravidão existe como norma e não como metáfora, onde não há mobilidade social e dos quais é praticamente impossível fugir, muito mais difícil do que na antiga sociedade romana.
Eu o escutava e tentava memorizar suas palavras. Boubacar, o escravo da Mauritânia que foi comprado e vendido, que conseguiu fugir depois de 25 anos, que atravessou o deserto descalço e com os braços quebrados, que foi seu paciente ao chegar à Itália, interrompeu o tratamento e que, por mais que eu quisesse conhecer e escrever sua história, Vercillo agora não sabia como encontrar. Na última vez que o viu, Boubacar lhe contou que tinha acabado de arranjar um emprego como pastor nos arredores de Roma. Vercillo não sabia onde exatamente ele se encontrava, mas estava contente com a reviravolta que ocorrera na vida de seu paciente. Na primeira vez que o viu, Boubacar quase não falava. Era um mauritano negro como o carvão mais retinto; um homem enorme, de 2 metros de altura, sem nenhum documento que o identificasse; um africano recém-chegado à Itália que, como tantos outros milhares de imigrantes, iniciava o complexo processo de pedido de asilo político. Agora, dois anos depois, Boubacar tinha todos os documentos em ordem, conseguira um emprego e vivia em algum lugar da campina romana.
– Se eu voltar a vê-lo, te aviso – prometeu Vercillo.
Voltei a Buenos Aires em meados de dezembro, sem saber que Boubacar se tornaria minha obsessão. Com o passar dos dias, em vez de se dissipar na minha memória, a história dele me chamava com uma força desconhecida. Comecei a procurá-lo sem saber exatamente o que estava fazendo. Quanto maior a dificuldade de encontrá-lo, mais eu insistia. Procurei por ele no Facebook. Pedi a Vercillo que perguntasse ao intérprete que o auxiliava nas consultas se sabia algo sobre seu paradeiro. Pedi que fosse à mesquita que Boubacar frequentava toda sexta-feira, antes de deixar Roma.
– Sou o psiquiatra dele – disse. – Como é que eu vou à mesquita perguntar por ele?
No Google escrevi “Boubacar” mil e uma vezes. Escrevi “Boubacar Roma”. Escrevi “Boubacar escravo”. Escrevi “Boubacar Mauritânia”. Escrevi “Boubacar pastor de ovelhas”. Um dia entregava os pontos, e no dia seguinte recomeçava. Vercillo começou a demorar a responder às minhas mensagens. “Uma hora ele aparece”, ele dizia. “É preciso ter paciência.” Mas eu precisava encontrar Boubacar. Pesquisei sobre a Mauritânia. Falei com jornalistas que estiveram lá. Assisti a documentários. Voltei ao Google não sei quantas vezes, e mais uma.
Em 21 de dezembro, encontrei no site de uma pequena escola de italiano para imigrantes – administrada por voluntários – um texto muito curto e informal, no qual uma professora mencionava um aluno mauritano que, depois de um longo percurso, finalmente conseguira um emprego como pastor. A foto que acompanhava o texto mostrava um homem negro, muito alto, de costas, rodeado de ovelhas em meio à campina nos arredores de Tivoli. “É Boubacar!”, pensei. “Só pode ser Boubacar.” Escrevi a Vercillo: “Emilio, Boubacar está em Tivoli!” O ceticismo de sua resposta me fez tremer. “Como você sabe que é ele? Boubacar é um nome muito comum na Mauritânia.”
Procurei a professora no Facebook. Havia cinco mulheres com o mesmo nome e sobrenome. Perguntei a cada uma delas se trabalhava na Scuola d’Italiano per Migranti. Uma disse que não. As outras quatro nem responderam. Na sexta-feira, 22 de dezembro, telefonei para a escola, mas ninguém atendeu. A mesma coisa no sábado, no domingo e na segunda-feira, em pleno Natal. Os feriados me pareciam um tempo morto. Na terça-feira, 26, atendeu um homem a quem expliquei que precisava falar com a professora Bruna Fioramonti. O homem disse que não tinha o telefone dela e que, mesmo que tivesse, não poderia informá-lo. Na quarta-feira, 27, pedi a uma amiga romana que fosse até a escola. “Agora as escolas estão todas em férias”, ela disse. “Depois de 8 de janeiro, vou até lá.” Faltavam duas semanas. Eu não podia esperar tanto tempo, e, além disso, a página na internet dizia que a escola funcionava o ano inteiro. Na quinta-feira, 28, escrevi a um amigo de Facebook que mora em Roma e lhe contei a história de Boubacar. “Preciso encontrá-lo”, disparei, “e não posso esperar até 8 de janeiro.” Na noite da sexta-feira, 29, meu amigo me mandou uma mensagem: “Estive na escola. Aqui está o telefone da professora.”
Na manhã de 30 de dezembro, mandei um WhatsApp para Bruna Fioramonti: “Olá, Bruna! Meu nome é Mori Ponsowy. Sou uma escritora e jornalista argentina. Estive em Roma há duas semanas, e um amigo psiquiatra me falou de Boubacar. A história dele me comoveu tanto que não consegui parar de pensar nele. Li o texto em que você menciona um aluno mauritano que encontrou trabalho como pastor. Gostaria de saber se esse aluno é Boubacar.”
A resposta de Fioramonti chegou em cinco minutos: “Olá, Mori. Sim, é Boubacar.”
Ao meio-dia, conversei com Fioramonti pelo Skype. Ela estava contente, mas também surpresa de que seus textos tivessem chegado a uma leitora argentina. Falou da escola de italiano com muito entusiasmo, disse que todos lá trabalham como voluntários, explicou como era importante os imigrantes aprenderem italiano para poderem arranjar emprego, contou que na escola também trabalham advogados para assessorar os refugiados no pedido de asilo. Tudo o que ela dizia só me interessava de maneira vaga, como se fosse um intervalo comercial que interrompesse um programa. No fundo, eu não queria escutar a professora: estava impaciente para falar com Boubacar e só esperava o momento certo para pedir o telefone dele. Fioramonti me falava sobre o cas [em italiano, Centro de Acolhimento Extraordinário], sobre o sprar [Sistema de Proteção aos Requerentes de Asilo e Refugiados], sobre a diferença entre asilo político e humanitário. Só depois de vários meses eu começaria a entender um pouco o labiríntico sistema italiano de accoglienza (acolhimento) e sua importância na vida dos refugiados. Naquele momento, porém, meu interesse estava em outro lugar. Finalmente, consegui interrompê-la.
– Eu gostaria de falar com Boubacar – disse.
Ela fez uma pausa.
– Boubacar está fora de Roma. Conseguiu esse trabalho como pastor e está muito contente. Deram a ele uma pequena casinha no meio do campo. Quando ele me escrever, vou falar de você.
“Quando ele me escrever, vou falar de você.” Como fazer com que Fioramonti entendesse minha urgência sem que isso parecesse um capricho? E mais: a que se devia minha urgência? Eu por acaso sabia? O que estava procurando? E acima de tudo: como podia ter certeza de que estava procurando Boubacar por um bom motivo e não por simples curiosidade ou, pior ainda, porque imaginava que o livro que eu iria escrever contando a história dele poderia ser um bom livro, muito melhor que os romances que escrevi até agora, pois desta vez não seria uma ficção, mas uma história real e irresistível?
Com sua sabedoria de psiquiatra experiente, Vercillo tinha dito, mais de uma vez, que eu devia ter paciência. Até então, não tivera: insistira, procurara, perturbara meus amigos. Agora, eu não tinha outro remédio senão esperar. Estava nas mãos de Fioramonti. O tempo dela seria o meu. Agradeci e lhe desejei feliz Ano Novo.
A mensagem seguinte chegou muito antes do esperado. No domingo, 31 de dezembro, ela me enviou um WhatsApp: “Notícia de fim de ano. Ontem à noite, Boubacar me ligou. Na terça-feira ele vai deixar o trabalho, porque o patrão fez um acordo com outro pastor para juntar dois rebanhos. Depois de amanhã, Boubacar estará na rua. Estou triste e preocupada. É muito difícil conseguir um lugar para dormir.”
Meu primeiro pensamento foi que, dadas as novas circunstâncias, Fioramonti não falaria de mim a Boubacar. Eu o encontrara, mas, por ora, também o perdera. Só depois me dei conta de que tudo isso não era muito perto do que estava acontecendo com ele. Boubacar também tinha encontrado algo que estivera procurando e acabava de perdê-lo. A partir de 2 de janeiro, ele não teria mais onde dormir.
Entre 2 e 18 de janeiro, aconteceu tudo isto: Boubacar arranjou um emprego, por dois meses, como lavador de pratos numa pizzaria de Roma; Fioramonti me disse que não poderia me dar o telefone dele sem antes consultá-lo e só poderia fazer isso quando o encontrasse pessoalmente, pois achava muito complicado explicar toda a história por telefone; Fioramonti disse que tinha ficado de se encontrar com ele numa quarta-feira; a quarta-feira passou, chegou a quinta, e Fioramonti não me escreveu; na sexta, fiquei sabendo que tinham cancelado o encontro porque o marido dela estava hospitalizado e passaria por uma cirurgia.
Na sexta-feira, 19 de janeiro, Fioramonti disse que acabara de falar com Boubacar e os dois tinham combinado de se encontrar no sábado, 27, às dez da manhã.
– Eu já lhe adiantei que tenho uma coisa importante para contar – acrescentou Fioramonti.
Nesse momento me dei conta de que não queria deixar minha primeira comunicação com Boubacar nas mãos de Fioramonti e dependente das palavras dela.
– Gostaria de escrever uma carta para ele – eu disse. – Se eu te mandar essa carta, você não se incomodaria em entregá-la?
SOBERBA
Três meses depois, releio aquela carta e ela me envergonha. A carta se deleita com as palavras. É presunçosa. Tenta causar certa impressão, mas o que ela não consegue é pensar – eu mesma não consegui, nem me preocupei com isso naquele momento – na pessoa a quem se dirigia. Ignorei meu destinatário. Escrevi pensando no livro que eu planejava fazer. Deixei-me embalar pela música das palavras e não pensei em Boubacar. Não me perguntei quem era ele. Não me coloquei no seu lugar. Cometi o pecado da omissão. Pior ainda: fui soberba.
No sábado, 27, Fioramonti me mandou uma selfie dela com Boubacar e um WhatsApp que dizia: “Boubacar e eu mandamos um abraço. O encontro foi muito bonito. Ele leu a carta e disse que era um pouco longa. Estava surpreso, mas aceitou contar sua história.” A foto mostrava o rosto de uma mulher de uns 60 anos, branca, de olhos azuis e cabelos grisalhos bem curtos, e de um homem negro, sério, de uns 40 anos. No meu celular, o rosto de Boubacar aparecia à esquerda e ocupava todo o quarto superior da tela. O de Fioramonti, abaixo e à direita, mal chegava a preencher o quarto inferior da imagem. Fioramonti tem um lenço florido de tons pastel em volta do pescoço e está sorrindo. Boubacar, de camisa azul-escura com bolas brancas, olha para a câmera com uma expressão que não consigo decifrar e me provoca certo temor. Estou contente, mas, por alguma razão, não é a alegria que eu esperava sentir.
Eu tinha dito a Fioramonti que não queria entrevistar Boubacar por uma ou duas horas: se viajasse até Roma, seria para escutá-lo, para vê-lo durante vários dias. Pedi a ela que lhe explicasse isso. Vercillo me preveniu: “Talvez seja melhor eu falar com ele antes. Receio que a carta de uma desconhecida possa assustá-lo. Não há nenhum problema com a carta, mas não sei até onde ele vai conseguir entendê-la. É um homem muito simples. Não é fácil falar com essas pessoas.” Mas naquela altura eu já não escutava o que Vercillo me dizia. Tinha a impressão de que ele não queria me ajudar e de que, embora não o dissesse explicitamente, de certo modo se opunha ao meu projeto. Não me importava. Eu tinha passado o último mês e meio empenhada em encontrar Boubacar e, no fim, não apenas conseguira o que tanto queria como ele acabava de concordar em me ver. Nem sequer escrevi a Vercillo para contar.
Na segunda-feira, 29 de janeiro, no exato instante em que eu comprava a passagem para Roma, recebi um breve WhatsApp de Fioramonti. Dizia: “Olá, Mori. Pare com tudo. Boubacar me escreveu. Diz que mudou de ideia. Escrevo assim que tiver notícias mais precisas.”
ESCUTAR SUA HISTÓRIA
Boubacar tinha uma irmã. No dia em que os árabes irromperam em sua casa e mataram seus pais, ela estava na escola. Os quatro viviam numa pequena aldeia com ruas de terra e areia do deserto. As poucas casas, esparramadas aqui e ali, eram construções térreas de tijolo cru. Tudo era alaranjado: as ruas, as paredes de barro das casas, as dunas do deserto em meio às quais emergia a aldeia. Boubacar também não estava em casa naquela manhã. Acabara de cruzar com três amigos de seu pai que estavam indo para o rio, quando viu, ao longe, uma caminhonete se aproximar. Ao chegar à aldeia, o veículo parou e dele desceram vários homens de tez mais clara. Sem qualquer aviso, eles começaram a atirar. Boubacar viu os amigos de seu pai tombarem na areia. Dois cachorros fugiram na direção oposta aos disparos. Boubacar também saiu correndo. No caminho viu uma mulher cair. Seu corpo convulsionava sobre uma poça de sangue, quando Boubacar passou ao lado dela. A mulher usava um vestido longo estampado com flores de cores vivas. O sangue se espalhava sobre as flores amarelas, azuis, vermelhas. Os cachorros corriam com as orelhas baixas e o rabo entre as pernas. Boubacar corria descalço, o mais rápido que podia, mas os cachorros corriam mais. Outro disparo. Um cachorro deu um ganido e rolou pelo chão com a boca escancarada. Boubacar continuou correndo: se chegasse logo em casa, talvez ainda desse tempo de avisar seus pais sobre o que estava acontecendo. Talvez eles ainda tivessem tempo de se esconder.
Vercillo calcula que isso deve ter acontecido em 1989, quando estava começando a guerra entre a Mauritânia e o Senegal pelos direitos sobre o rio na fronteira entre os dois países. A família de Boubacar vivia perto dali e pertencia à etnia dos uolofes, mas na região também viviam mauritanos brancos de origem árabe e berbere que consideravam – e consideram até hoje – as etnias negras inferiores. A guerra entre os dois países durou menos de dois anos, facilitou a aquisição de novos escravos, obrigou 250 mil pessoas a abandonarem suas casas e causou milhares de mortes. Estes são os grandes números da história. Os números que não provocam nenhuma emoção. Dois desses mortos eram os pais de Boubacar.
Os árabes levaram Boubacar sobre um camelo. Mais tarde o jogaram num caminhão com outras crianças. Só lhes deram de comer alguns dias depois, quando chegaram aos arredores de uma aldeia. Ali as crianças foram leiloadas. Abdoulaye, de 14 anos. Alioune, de 15. Khadim, de 13. Tidiane, de 12. Ninguém queria comprar Boubacar. Com 9 anos, ainda não tinha grande utilidade e alimentá-lo custaria mais do que ele poderia produzir. Mas já era alto e forte para a idade, e por fim um mauritano branco, do grupo dos beidanes, resolveu comprá-lo. O menino não tinha como saber, mas a partir desse dia viveria como escravo com a família de seu patrão pelos próximos 25 anos, trabalhando o dia inteiro, limpando a casa e arando as roças, sem receber pagamento, sem ter liberdade de movimento, sem poder ir à escola nem aprender a ler e a escrever, sempre ciente de que seria castigado se fizesse algo errado e que a qualquer momento podiam dá-lo de presente ou vendê-lo, sem levar em conta sua vontade nem seus afetos.
Isso era tudo o que eu sabia sobre a infância do homem cuja vida eu queria contar, mas que já não poderia mais fazê-lo. Em 29 de janeiro, poucas horas depois de Fioramonti me dizer que Boubacar tinha mudado de ideia em relação ao nosso encontro, telefonei para dizer a ela que não insistisse, que não precisava perguntar a ele por que havia mudado de ideia, e agradecer por tudo o que ela havia feito para me ajudar. Mas, nesse ínterim, Fioramonti já havia falado com ele novamente. Boubacar confirmou que, depois de pensar muito durante o fim de semana, tinha resolvido que não queria contar sua história. “É minha vida”, disse.
No dia seguinte, escrevi a um amigo romano e contei que não viajaria mais à Itália conforme o planejado. “Fiquei sem história”, expliquei. “Só me restou a paixão de escrever esse livro. Mas perdi o protagonista.” Meu amigo respondeu: “Minha ex trabalha numa organização de voluntários que cuida de refugiados. Receberam mais de 50 mil pessoas nos últimos anos. Também tenho uma amiga antropóloga que trabalha com imigrantes em hospitais. Se você quiser, pergunto a elas se podem te ajudar.”
Em 31 de janeiro, decidi que viajaria mesmo que Boubacar não quisesse falar comigo. Em vez de ir à Itália para escutar uma história, iria procurar várias histórias. Falaria com quem quisesse falar comigo.
Parti em 15 de fevereiro, sem saber exatamente para que eu estava indo a Roma nem o que faria quando chegasse lá. Só sabia que precisava fazer aquilo. Necessitava escutar. E, se nenhuma daquelas pessoas que tinham oferecido ajuda conseguisse me pôr em contato com refugiados, eu os abordaria na rua, procuraria por eles, sentaria numa praça perto de qualquer centro di accoglienza com um cartaz dizendo: Vorrei sentire la tua storia. Quero ouvir a sua história. Por via das dúvidas, na mala, embaixo de tudo, bem esticada para não amassar, levei uma cartolina branca e um pincel atômico verde. Acho que, no fundo, não tinha perdido totalmente a esperança de falar com Boubacar. Talvez a história que eu queria escutar ainda fosse a dele.
AGUIBOU, 22 ANOS
Aguibou chega à praça de alimentação da Stazione Tiburtina, em Roma, na hora exata que combinamos. Está de jeans, camiseta, tênis e jaqueta. Tem a pele muito escura, mas não de um negro tão absoluto como a de Boubacar. Fala italiano com um sotaque estrangeiro que não reconheço, mas fala muito rápido, sem pausa entre uma palavra e outra, sem vírgula, quase sem parar no final de cada frase. As palavras não lhe faltam, e ele não tem dificuldade para se expressar. Tudo nele transpira segurança: a maneira como se move, como responde às perguntas, como me olha direto nos olhos quando não entendo algo e torno a perguntar. Essa segurança, esse seu aprumo, me deixarão muitas vezes atônita, não só enquanto conversamos, mas também semanas mais tarde, quando eu escutar a gravação e tentar transmitir à escrita o surpreendente contraste entre os fatos que ele narra e seu tom, aparentemente indiferente. Tampouco consigo decifrar emoções no rosto dele, exceto quando sorri. E o riso é algo que Aguibou não controla: nos momentos mais inesperados, ele ri de um modo alegre e espontâneo. A risada, quase infantil, e seus dentes pequenos, branquíssimos, iluminam seu rosto e o transformam no adolescente que, em muitos sentidos, ele ainda é. No adolescente que poderia ter sido se, por obra desse acaso que governa nossas vidas, não tivesse nascido no lugar e no tempo em que nasceu: a aldeia de Kouroubala, na Guiné, na última década do século xx.
– Quantos anos você tinha quando saiu do seu país? – pergunto.
Aguibou encolhe os ombros.
– Não sei – diz.
Fica calado e me olha fixo.
– Como assim, não sabe? – digo.
Ele sorri.
– Não sei quando nasci. Nunca tive documento. Aqui, na Itália, quando cheguei, me disseram que eu devia ter mais ou menos 17 anos. Quem falou foi o doutor que me examinou. Mas, na verdade, não sei.
– E quanto tempo faz que você está aqui?
– Cinco anos.
– Quer dizer que agora deve ter mais ou menos 22 – eu disse. – Você sabe em que ano deixou seu país?
Aguibou faz contas antes de responder.
– Acho que em 2009 – diz.
– Então você tinha mais ou menos 14 anos quando saiu – digo. – Como é que, sendo tão novo, você decidiu ir embora do seu país, Aguibou?
Ele diz tudo o que se segue, sem interrupção, sem parar para pensar, sem que eu lhe faça mais perguntas:
– Na Guiné os militares saem com fuzis e atiram nas pessoas como se elas fossem animais. Isso me incomodava muito. Não deveria ser assim entre seres humanos. Meus pais foram mortos no mercado. Cultivavam suas roças na aldeia e vendiam seus produtos na cidade. E lá todos foram mortos. Eu era muito pequeno e carreguei a dor comigo por muito tempo. Sonhava em ir para outro país, mas não podia passar porque havia rebeldes por toda parte. Pegavam os meninos, colocavam um fuzil na mão deles e ensinavam a atirar. Também me pegaram. E me diziam: “Fique com a gente, você terá um futuro melhor se trabalhar conosco.” Mas eu sabia o que eles faziam. E odeio essas coisas. Então eu dizia: “Não vou atirar.” E eles me batiam. Então, uma noite saí para fazer xixi e fugi. Não havia ruas. Não sabia para onde ir. Sabe o que teriam feito se me pegassem? Teriam me matado, porque, para eles, quem foge é um traidor. Mas não me encontraram. Um senhor que vinha passando a cavalo me perguntou: “Para onde você está indo?” “Não sei”, respondi. “Suba”, ele falou. E me levou para a capital. Mas lá também atiravam nas pessoas. É um país cheio de guerra. Todos têm fuzis: os rebeldes e os militares. Entram nas aldeias e roubam e atiram nas pessoas. Um dia, 100 pessoas mortas, no outro dia, 200, 300, 400 pessoas mortas. Cada um faz o que acha melhor. Eu nunca atirei. Odiava a África. Se pudesse apagar minha origem para não dizer que sou africano, eu apagava. Eu era pequeno, mas me veio à cabeça que não queria continuar no meio daquilo. E fugi. Enquanto fugia, vi centenas de pessoas mortas. Não é justo. Esta é a única vida que temos e é muito breve. Um dia morremos. Eu queria que me deixassem viver a minha vida. Não queria morrer antes da hora.
Aguibou sorri. De repente, já não é o adulto que fala de maneira impassível sobre seu passado, mas um menino que acaba de fazer uma travessura.
– Para onde você foi quando resolveu deixar a Guiné? – pergunto.
– Primeiro, para Serra Leoa. Na fronteira tive que voltar porque não podia passar. A mesma coisa na fronteira com a Libéria. Eu estava sozinho. Durante todos esses anos estive sozinho. Sempre sozinho – frisa. – Depois, estive no Mali, na Argélia, na Líbia, em Malta, na Espanha, na França. Até que cheguei na Itália.
Aguibou afasta as mãos, com as palmas para cima, como se esse fosse o final da história. Como se tudo já tivesse sido dito e não houvesse mais nada a contar.
– Como você foi de um país para o outro?
– A pé. Todo o trecho do deserto, na África, eu fiz a pé, com outras pessoas que não conhecia. No Mali, levei um tiro na perna. Você não imagina o que é atravessar o deserto. Mamma mia. Nos últimos dias, dava um passo, dois passos, e caía na terra. Enquanto você caminha, pensa que está caminhando para a morte. Eu chorava todos os dias. Não sabia em que país estava. Você cruza com cadáveres. Cruza com tuaregues que vivem no deserto. Pergunta a eles para onde ir, e eles apontam com a mão, e você segue naquela direção e chega a um país, a Argélia, depois chega a outro país, a Líbia… E assim por diante. Quem se importa se você errar o caminho? Odiei estar na África. Não queria ver africanos. Não queria nem ouvir falar da África. Depois ficamos três dias no mar, até que o barco quebrou. Era um barco muito pequeno. Encheu de água. Eu fiquei só com a cabeça para fora. Faltava pouco para morrermos. Se os malteses não tivessem chegado, teríamos morrido. Vinha uma onda atrás da outra. Afundávamos e tornávamos a subir. Na última hora, um senhor me puxou pela mão. Se não fosse ele, eu não estaria aqui.
Aguibou explode numa risada alegre.
– Você conta tudo isso e ri? – digo.
– Bom – responde, encolhendo os ombros. – Já passou!
– Você só tinha 14 anos! – afirmo.
– Não! – ele diz. É um “não” terminante. – Eu estava com 14 anos e meio. Já era um pouco mais velho.
Pergunto:
– Como você fez para pegar esse barco?
– Na Líbia, eu trabalhava com um senhor. Ajudava a tirar o mato da horta. Dormia com outros meninos numa tapera. Quando saía para ir à horta, sempre me batiam.
– Por que batiam em você? – interrompo.
– Porque não queriam que eu estivesse lá. Quando passava, me atiravam pedras ou cuspiam em mim. Vinham quatro ou cinco pessoas e me batiam, até na frente dos policiais. Os líbios não gostam dos negros. Até que esse senhor que me dava pão e me comprava o que comer me falou assim: “Aguibou, eu nasci neste país, mas este país não é para você. Vou encontrar um jeito de você fugir.” Então, ele falou com os mafiosos que trazem as pessoas para a Europa sem documentos. Os mafiosos juntam as pessoas e as enfiam num barco, mas ninguém sabe quanto o outro pagou: eu não sei quanto você pagou, você não sabe quanto ela pagou, ela não sabe quanto eu paguei. E jogam você dentro do barco. Eu tinha 300 dólares que meu patrão tinha me dado e devolvi para ele pagar os mafiosos, mas ele ainda teve que completar com mais. Era todo o dinheiro que eu tinha. O barco quebrou no terceiro dia no mar. Encheu de água. Tiramos água até ficar exaustos e sentamos para esperar a morte. Estávamos afundando lentamente. Lentamente. Aí apareceu um helicóptero lá no alto e avisou que estávamos no meio do mar. E dali a pouco vieram de Malta com um navio pequeno e resgataram todo mundo com uma corda.
– E de lá você veio para a Itália?
– Não. De lá nos levaram para Malta mesmo. Quando chegamos, nos trancaram por dois anos. Nunca estive do lado de fora.
– Numa prisão?
– Sim, era como uma prisão. Eram muitas tendas com um muro alto em volta com arame farpado por cima. Os militares se revezam para vigiar. Quando eles resgatam alguém no mar e levam para seu país, essa é a regra. Mantêm as pessoas presas por dois anos e depois as deixam sair, mas sem dar nenhum documento.
Aguibou volta a rir.
– Mas qual o sentido disso tudo? – pergunto.
– Ninguém sabe! Quando te soltam, falam que você pode ir para onde quiser, mas sem sair de Malta. Dizem assim: “Se pegarmos você tentando sair, mandamos de volta para seu país.” Malta é uma ilha. Você não tem para onde ir. Se conseguir um emprego, pode trabalhar. Eu trabalhei um pouco e ganhei algum dinheiro, e quando juntei um tanto falei com umas pessoas que me deram o documento de outra pessoa. E aí consegui sair de Malta. Olharam para a foto do passaporte e depois para minha cara, mas não perceberam que não era eu. Eu estava com tanto medo que fiz xixi nas calças. Fui a Barcelona de avião e lá tive que devolver o documento. Eu não falava espanhol. Sabe quanto dinheiro tinha no bolso? 105 euros. Não conhecia ninguém. Chorava todos os dias. Não comia. Dormia na rua. Aí resolvi ir para a França e cheguei no guichê da rodoviária e falei para uma mulher que queria uma passagem para a França. Ela me pediu um documento. Eu respondi que não tinha, e ela falou assim: “Como é que eu vou te vender uma passagem se você não tem documentos? Se eu vender a passagem, vai ser barrado na fronteira.” E caí no choro de novo. Entende?
Antes que eu possa responder, Aguibou dá uma risada.
– Você ri! – volto a dizer, rindo também. – É incrível você rir!
– Agora estou sentado aqui – diz, e aponta para a mesa onde estamos. – Aí, na rodoviária em Barcelona, vi um senhor que falava francês e lhe expliquei o que estava acontecendo, e ele comprou a passagem para mim. “Às quatro da tarde chega um ônibus branco que vai para Marselha. Pegue esse ônibus”, ele falou. Então, às quatro horas, peguei o ônibus. Todos os passageiros usavam chapéu. No posto de fronteira espanhol, tivemos que descer, mas não pediram documentos. Tinham umas armas enormes. No posto francês, tivemos que descer de novo, mas ninguém me pediu o documento. Finalmente cheguei a Marselha e lá me senti como em Barcelona. Não sabia aonde ir. Um senhor italiano que falava árabe, francês, espanhol e inglês começou a puxar conversa e a me fazer um monte de perguntas. No início eu não queria falar, porque estava com medo. Mas ele ficou sentado do meu lado, perguntando: “Qual o seu nome? Por que veio para cá?” “Não sei”, eu dizia. “Em todo lugar aonde eu vou, só encontro dificuldades. Queria encontrar um lugar onde as coisas fossem mais fáceis. Sou muito novo para viver assim. Como vou crescer desse jeito?”, perguntei. “Não é justo eu me sentir tão sozinho sendo tão novo.” Aí conversamos um bocado. E ele me falou: “Eu sou italiano e daqui a pouco vou para a Itália. Sou de Gênova. Venha comigo.” “Por que eu iria com você?”, perguntei. Aí ele levantou e foi comprar pão, água e um pouco de suco de fruta, e trouxe para mim. Falou: “Eu vou para Gênova, mas você tem que ir para Roma. Lá você vai encontrar muitas possibilidades de ajuda para pessoas que fugiram do seu país. Vamos pegar esse ônibus, juntos. Quando você chegar em Roma, os carabinieri vão ajudá-lo.” E sabe em que parte de Roma eu cheguei?
Aguibou apontou para um terminal próximo.
– Você nunca mais viu esse senhor?
– Não. Ele não me deu o telefone, e eu também não pedi. Sabe quanto dinheiro eu tinha quando cheguei aqui? 50 centavos. Queria ir à Stazione Termini, porque ele tinha dito que lá havia muita gente da minha cor, mas com 50 centavos não dava, e aí fui falar com um homem negro, só que ele não falava a minha língua. Mesmo assim, ele me deu 5 euros e comprou para mim um bilhete de metrô. Finalmente cheguei à Termini. Dormi sentado na estação. No dia seguinte, vi umas pessoas fazendo fila para receber comida. Fui me encostando devagarinho. Era a fila da Caritas, e me deram de comer. No terceiro dia, um rapaz me perguntou se eu tinha documentos e me explicou onde ficava a escola da Via Giolitti. Fui lá e dormi na frente do portão. Quando acordei, vi dois guardas. Tentei fugir. “Não, não, não. Não precisa mais fugir. Nós estamos aqui para ajudar”, falaram. Eles me levaram ao médico e depois me levaram a um centro de menores e me deram um lugar para dormir. Depois de tantos anos, de tantas viagens, eu me sentia estranho. Pensava que estava sonhando. Pensava que já estava morto. Mas agora estou aqui. Essa é minha história.
Aguibou conseguiu um documento provisório como refugiado. Ficou no centro de menores até completar 18 anos. Conforme a lei italiana, ao atingir a maioridade, devia deixar esse centro e passar a viver numa instituição de proteção aos requerentes de asilo e refugiados. Mas o percurso de Aguibou foi diferente. Num sábado, uma das assistentes sociais do centro o levou para conhecer uns parentes dela nos arredores de Roma, e eles passaram a buscá-lo todos os finais de semana. No dia em que fez 18 anos, disseram para ele recolher suas coisas. Desde então, Aguibou vive com eles.
Com esse casal e suas três crianças pequenas, ele viajou para a Alemanha, Áustria, Dinamarca e Finlândia. Em seu país nunca tinha ido à escola, e agora está cursando, à tarde, os últimos anos do ensino médio. De manhã, trabalha num escritório fazendo manutenção de equipamentos.
– Você tem amigos? – pergunto.
– Não muitos. Mas agora tenho uma amiga – diz, apontando para mim. – A vida é assim. Tem a morte. Tem a vida. É triste. É alegre.
– Você é muito corajoso – digo.
Aguibou ri.
– Não sei – responde, muito sério.
– O que você gostaria de dizer às pessoas do meu país? – pergunto.
Ele pensa um pouco antes de responder.
– Gostaria de dizer que, se tantas pessoas saem do próprio país, não é porque elas queiram. Não saem por vontade própria. Saem por medo de morrer. As pessoas que saem não pedem ajuda material. Só pedem ajuda para acordar tranquilas a cada dia. Pedem ajuda para escapar do medo.
– Como você imagina sua vida no futuro? – pergunto.
– Às vezes tenho medo – diz Aguibou. – Às vezes, não. Tudo o que deixei para trás… Tudo o que tenho pela frente…
BRYAN, 24 ANOS
Acho que, antes mesmo de nos encontrarmos pela primeira vez, nós dois já sabíamos que não seria um encontro qualquer. Dois dias antes, tínhamos conversado pelo Facebook. Eu lhe escrevi tarde da noite dizendo que Emilio Vercillo tinha me falado a respeito dele e perguntando se aceitava conversar comigo. “Sim, obrigado”, respondeu, quase imediatamente. E antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, escreveu: “Tenho 24 anos. Estava cursando o primeiro ano de economia, numa cidade chamada Bamenda. Venho de uma família de quatro pessoas: meu pai, minha mãe e um irmão mais novo. Nos Camarões, vivi o inferno.”
Eu estava contente. Naqueles primeiros dias em Roma, a única coisa que me interessava era encontrar refugiados dispostos a conversar comigo, e agora Bryan, que era paciente de Vercillo, tinha aceitado o encontro. Estava prestes a perguntar quando podia ser, e ele me mandou uma foto: sob um céu azul, sobre o chão de terra, jazia morto um adolescente negro. No primeiro plano, o corpo ensanguentado do rapaz. Um pouco mais longe, quatro soldados armados de fuzis. O cadáver estava de barriga para cima. Apenas uma das pernas estava vestida com a calça; a outra estava nua. Camiseta branca. Cueca vermelha. E um grande buraco na coxa esquerda. Os braços abertos. As pernas afastadas em “V”. Eu não sabia o que dizer, mas não precisei dizer nada, porque logo em seguida Bryan me mandou mais uma foto. E depois mais uma, até completar cinco.
“Eu estaria assim se não tivesse fugido dos Camarões”, disse, depois de mandar a última. “Todos esses estudantes eram da minha escola.”
A segunda foto mostrava seis cadáveres. As seguintes eram piores.
Um minuto antes, eu não conhecia aquele rapaz, e agora era testemunha das mortes que ele tinha presenciado: os cadáveres de seus amigos estavam no meu celular, na palma da minha mão. Do outro lado do telefone, em algum lugar de Roma, o garoto que acabava de me enviar aquilo esperava que eu dissesse alguma coisa. Eu não sabia nada dele, exceto que Vercillo perguntara se ele queria falar comigo.
“Obrigada por responder, Bryan”, escrevi. “Lamento muito que tenha acontecido tudo isso.” Os pontinhos do Messenger se moviam enquanto ele digitava a resposta.
“De nada. Tudo isso faz parte da minha vida. Feliz por conhecer você.”
Bryan me perguntou se eu gostava de Roma e em seguida disse que gostava dessa cidade porque as pessoas de lá o fizeram sentir que podia viver uma segunda vida. Perguntou a minha idade. Quando eu disse 50, respondeu: “wow!” Perguntou quanto tempo eu ia ficar na Itália. Perguntou se eu era casada. Perguntou se eu tinha filhos. Contei que tenho um filho de 22 anos que vive no Japão e fazia um ano eu não via. “wow!”, voltou a dizer. Perguntou se eu sentia saudades dele. E em seguida: “Vai visitá-lo no dia do seu aniversário?” Eu queria conversar com Bryan para escutar sua história, mas fazia quinze minutos que era ele quem formulava uma pergunta atrás da outra. Quis saber desde quando eu escrevia. Se eu já tinha entrevistado muita gente. “Vai ficar morando aqui?”, perguntou. Respondi que ficaria apenas algumas semanas, a trabalho. “Eu agora só vou à escola”, ele disse. “É a única coisa que posso fazer enquanto não receber meu documento. Sem isso, não posso fazer nada.” “O que você gostaria de fazer quando receber o documento?”, perguntei. “Queria arranjar um empreguinho para ter onde morar e continuar estudando e tirar um diploma para fazer meu pai feliz. Era o sonho dele.” Usou o verbo no passado, e tive medo do que intuí. “Você tem amigos aqui?”, perguntei. “Por enquanto, não”, respondeu. “Deve ser difícil, não?”, devolvi. “É, sim. Muito difícil.”
Quando marcamos nosso encontro para o sábado, agradeci, e ele respondeu: “Eu é que agradeço.” “Talvez os dois tenhamos que agradecer”, afirmei. “Haha. Você é engraçada”, ele disse. E acrescentou: “Agora é melhor você dormir porque é tarde e amanhã tem que trabalhar.”
Nós nos encontramos na saída da Stazione Termini e caminhamos juntos até um restaurante popular onde todos eram imigrantes africanos.
“Vim porque não tinha alternativa. Quando cheguei, chorava sem parar. Não era eu. Estava perdido. Levei quatro meses para me dar conta de que estava aqui.”
É assim que Bryan começa a falar comigo. Assim, sem que eu lhe pergunte nada. Não começa dizendo como deixou seu país, nem quando, nem por quê. Não me fala de ônibus, de traficantes nem de esconderijos. Bryan começa sua história de outro lugar. De um lugar que não tem a ver com as datas nem com os dias que levou para atravessar o deserto, mas com a ferida. Ele me olha como se quisesse encontrar nos meus olhos a resposta para uma pergunta que desconheço. Que pergunta é essa, Bryan?, gostaria de ter dito a ele. O que posso fazer para te ajudar?
“Nunca tinha pensado em sair dos Camarões. Vivia com meu pai, minha mãe e meu irmão. Era feliz. Estudava economia e, de repente, um dia, tive que fugir para salvar minha vida. O que posso fazer agora?”
Bryan mora num centro de acolhimento. “Não tenho ninguém.” Olha para mim como se estivesse se afogando no deserto. E eu queria poder jogar uma corda para salvá-lo, mas não tenho. Como se nada na areia? Como se vem à tona de um passado impossível de mudar?
É um garoto negro. É um garoto que usa um boné de beisebol vermelho e uma jaqueta vermelha e uma camiseta branca e jeans rasgado. É um garoto de tênis. “Preciso aceitar. Não tenho alternativa.” É um garoto.
É um garoto que pediu uma reunião com o governador, em Camarões.
Um garoto cujo nome ficou marcado numa lista.
Um garoto procurado em sua casa pela polícia.
Um garoto órfão: como Bryan não estava em casa, a polícia atirou em seu pai.
Como Bryan não estava, prenderam sua mãe.
Como podem acontecer coisas assim neste mundo?
“Não consigo acreditar que eles não estejam mais aqui”, diz.
Como se nada na areia?
A mãe morreu na prisão, poucos meses depois.
Camarões foi uma colônia alemã até o fim da Primeira Guerra Mundial, quando a Inglaterra e a França dividiram o controle sobre o território. Quando, nos anos 60, ambas as potências abandonaram a região, foi feito um plebiscito na área inglesa. Os habitantes da área inglesa no norte votaram a favor de fundir a região à Nigéria, onde também se fala inglês, e os habitantes da área inglesa do sul foram a favor da união com a área francesa. A atual República dos Camarões formou-se desta última fusão. Bryan me fala um pouco sobre isso nessa noite. Do resto fico sabendo depois, nas minhas pesquisas para entender sua história. Ele me diz que, embora o inglês também seja uma das línguas oficiais dos Camarões, junto com o francês, a população anglófona a que Bryan pertence é minoritária e não tem acesso aos cargos públicos. “Estamos sendo apagados dos Camarões”, diz. Lá, obrigam as pessoas a falar em francês no trabalho. O francês é a língua usada nos tribunais. Nas regiões onde se fala inglês, só contratam professores que falam francês. “Nosso presidente é um ditador.” Paul Biya tem 85 anos e está no cargo há 35.
Bryan era presidente da associação de estudantes de fala inglesa da faculdade de economia de Bamenda. Os alunos eram obrigados a estudar em francês. Alguns deles pediram uma reunião com o governador da região noroeste, Adolphe Lele Lafrique. Na primeira vez, o governador os recebeu. Na segunda, os estudantes foram levados pela polícia antes de entrarem em seu gabinete. Foram mantidos presos por uma semana, mas a pressão popular foi tamanha que tiveram que soltá-los. “Quando saímos da delegacia, havia mortos pelas ruas, havia protestos, e os militares atiravam nas pessoas desarmadas.”
Da delegacia, Bryan foi direto para uma reunião com estudantes francófonos. Queriam fazer um comunicado conjunto. Quando estava lá, ficou sabendo que tinham procurado por ele em sua casa, que tinham levado sua mãe presa e matado seu pai, seu amado pai, o pai que falava com ele como um amigo e era professor primário, professor em inglês, claro, porque as pessoas de sua família nasceram falando inglês. Que culpa cada um tem? Que mérito cada um tem? Que acaso decide que cada um nasça onde nasceu?
“Você tem que ir embora, Bryan”, um colega o aconselhou. “Você tem que ir embora, Bryan, tem que ir”, lhe disseram outros, e mais outros. Alguns estudantes de famílias mais ricas deixaram o país de avião e hoje estão na Alemanha, na França e na Inglaterra. Que ironia. Bryan levou dois meses para chegar à Líbia. Viajou com um caminhoneiro muçulmano que transportava gado. “Ele me levou só para me ajudar. Eu sou católico. Ele é muçulmano. Não me cobrou nada.”
E chegou à Líbia.
De novo a Líbia. Assim como ocorreu com Aguibou. Assim como ocorreu com tantos outros que encontrarei nos dias seguintes.
Líbia. O inferno na Terra. É como muitos chamam o país.
Bryan ficou num campo de trabalhos forçados, em Sábrata. Nunca tinha trabalhado na vida, porque seu pai, o mestre-escola, queria que o filho se dedicasse a estudar. Nunca tinha trabalhado e foi obrigado a trabalhar na construção civil. Das seis às seis. “Você recebia algum pagamento?”, pergunto. Ele me encara e esboça um sorriso. “Não”, responde. “Quando muito, água. Estávamos numa prisão. Alguns negros são vendidos. Ou você trabalha, ou te matam. Às sextas-feiras nos davam arroz.”
Um dia, um homem lhe disse que conseguia colocá-lo num barco onde ele poderia sobreviver e chegar à Itália ou morrer no Mediterrâneo. “Que escolha eu tinha? Não tinha escolha.”
“Na noite em que pegamos o barco… Não consigo explicar o que me aconteceu no Mediterrâneo. Não consigo dizer porque essa parte de mim está morta. Sei que cheguei por água, mas não sou capaz de contar nenhum detalhe. Três pessoas morreram… Uma mulher deu à luz do meu lado. Vi alguém como eu…”
Bryan estaca nessa pausa e não volta a falar.
“Bryan”, digo por fim. “Você está aqui.”
Quero jogar uma corda, mas não sei onde encontrá-la.
Como se nada na areia? Como se vem à tona de um passado impossível de mudar?
Pego na mão dele.
Seu olhar transmite uma bondade que me corta o coração.
“Quando cheguei, era como se estivesse louco. Estava perdido. Graças aos remédios que o doutor me deu, agora estou melhor.”
O doutor é Vercillo.
“Sei que alguma coisa está errada em mim. Dependo dessas drogas para viver”, diz. “Este aqui não sou eu.”
Suspira. Está desconfortável consigo mesmo. Na sua cidade, as pessoas tomam remédios naturais. Feitos com plantas. Bryan também sabe prepará-los, porque lhe ensinaram na escola.
Fecha os olhos, segura a cabeça com as duas mãos e fica assim, como num ato de contrição.
Onde está a corda?
“Durante muitos anos, eu também tomei esses remédios”, digo.
Bryan abre os olhos.
“Mais de vinte”, completo.
Não sei se essa é a corda que eu estava procurando. Também não sei o que diria Vercillo, se soubesse que estou falando assim e que começo a contar parte da minha vida a um garoto dos Camarões que ficou sem nada no mundo. Quem sou eu para saber o que ele sente? Quem sou eu para tentar estender uma ponte entre sua desgraça e as pequenas desgraças da minha vida? Mas, nesse momento, Bryan está olhando para mim e a resposta a essas perguntas já não me importa. Eu falo, e ele me escuta com atenção, e seus olhos estão vivos, e eu continuo falando, e ele responde e me pergunta, e depois sou eu quem pergunta ou volta a falar, e ele ri, e eu digo “você está rindo”, e, embora esteja a ponto de chorar, eu também rio e percebo, só então percebo – como não percebi antes? – que estamos tecendo algo que talvez não seja a corda que eu procurava, mas que, seja o que for, parece do mesmo material de que são feitos os milagres.
ADIJE, 24 ANOS
Chove sem parar. Hoje vou com Rita del Gaudio a Torre Gaia, um bairro nos subúrbios de Roma. Levamos mais de meia hora de metrô, de Termini até Anagnina, passando por Cinecittà, e lá pegamos um ônibus para ir ainda mais longe. Quando descemos, temos que andar uns vinte minutos na chuva, antes de chegar. Torre Gaia é uma zona arborizada com prédios elegantes de três ou quatro andares. Cada prédio é rodeado por um jardim. Chama minha atenção que a jovem refugiada que vamos encontrar more numa área assim, e Del Gaudio me explica que o governo desapropriou da máfia alguns desses apartamentos, que agora são casa famiglia. “Casa de família” é a expressão usada para designar esses locais geridos pela iniciativa privada com subsídios do governo onde moram mulheres em situação de risco ou menores de idade que, por alguma razão, não podem viver com os pais. Embora nessas casas também haja mulheres e menores italianos, a maioria das pessoas é imigrante.
Chegamos ensopadas. Del Gaudio toca o interfone. Enquanto esperamos que alguém atenda, uma jovem negra belíssima passa por nós sem olhar, abre o portão e volta a fechá-lo na nossa cara. Está muito maquiada, com jeans justo e uma camiseta que marca seus grandes seios. Apesar do frio, usa pouca roupa. E tênis plataforma, embora seja bem alta. Não passaria despercebida em lugar nenhum. Durante o tempo que aguardamos o portão ser aberto, ela se afasta a passo rápido, atravessa o jardim e sobe por uma escada.
A desordem e a anarquia dentro do apartamento contrastam com a arquitetura e o paisagismo bem-cuidados das ruas. Algumas mulheres e um homem estão sentados no chão brincando com três crianças pequenas numa língua que não consigo reconhecer. Na cozinha, um grupo de mulheres conversa em volta da mesa, enquanto outras duas cozinham. Quem nos recebe é Ivana Cammarota, a operatrice da casa famiglia. Operatrice é o feminino de operatore, o nome que se dá a quem trabalha nos centros de refugiados. São pessoas cujo salário é pago pelo Estado ou por entidades privadas que, por sua vez, recebem uma verba do governo italiano. Cammarota é uma mulher tamanho gg, masculina, severa, de voz grossa. É amiga de Del Gaudio. Ambas trabalharam em prisões femininas.
Cammarota nos leva até um cômodo onde há uma escrivaninha e várias cadeiras e vai procurar a pessoa que entrevistarei. Não me surpreende que volte acompanhada daquela mesma garota que entrou no prédio antes de nós. Del Gaudio não me falou nada a respeito dela. A garota traz no colo um bebê de poucos meses, de cor branca, e se dirige a mim olhando nos meus olhos com firmeza, como se me desafiasse.
– Por que você quer falar comigo? – pergunta. – O que quer saber?
Percebo que a operatrice não a consultou antes de nos dizer que podíamos ir até lá entrevistá-la.
– Você não precisa me contar nada. Não precisa falar, se não quiser – respondo. – Vou explicar o que estou fazendo e depois você decide se quer conversar. Está bem assim?
Ela não responde. Digo que sou argentina e que vim conversar com refugiados para escrever suas histórias. Digo que no meu país se sabe muito pouco sobre o assunto e que, além disso, o que se sabe são apenas os grandes números. Digo que, às vezes, e só às vezes, ficamos sabendo que um barco afundou; que sabemos que as pessoas fogem da Síria por causa da guerra e da África por causa da fome e das perseguições, mas que não sabemos nada das vidas individuais por trás dessas notícias. Explico que estou convencida de que o mundo só poderá compreender a dimensão das dificuldades dos refugiados se conhecer suas histórias.
Sua expressão séria não se alterou, mas vejo que ela me escuta com atenção.
– Você sabe onde fica a Argentina? – pergunto.
Não, não sabe, e eu explico, ou pelo menos tento explicar. Não tenho como saber quanto ela sabe de geografia. Talvez seu desconhecimento da América seja parecido ao meu desconhecimento da África, mas também é provável que não saiba onde fica ou o que é a América.
– Meu nome é Mori – digo. – E o seu?
– Adije.
– Olá, Adije – digo, e ela sorri pela primeira vez. – Eu entendo que você não queira falar da sua vida. Desde que cheguei a Roma, conversei com refugiados dos Camarões, de Gana, da Mauritânia. Eles me falaram do deserto. Do que é cruzar o mar. E também me falaram da Líbia. Se eu tivesse sido obrigada a fugir do meu país e passar por tudo isso, acho que não iria querer contar nada.
Adije acaricia seu bebê, olha para ele e depois para mim e, sem que eu faça nenhuma pergunta, começa a falar.
O que se segue é a sua história.
“Minha experiência foi dura e cruel. É difícil falar. Difícil e muito doloroso. Eu não quis vir para a Itália: não foi uma coisa que decidi fazer. Meu sonho nunca foi esse. Nós somos três irmãs. Minha mãe morreu quando eu tinha 10 anos, e meu pai se casou com outra mulher. Uma mulher cruel que me tratava muito mal. Eu ia à escola, mas um dia ela disse que eu não podia continuar estudando, porque não tinha dinheiro para pagar o colégio. Eu brigava muito com ela, porque sou teimosa, e tive que aguentá-la durante anos, até que ela me vendeu para um homem, Mohamed. Fiquei sabendo disso depois. Naquele dia, vieram e me jogaram no porta-malas de um carro. Me deixaram lá por dois dias. Acho que foram dois, não sei, não tenho como saber. Eu tinha 18 anos. Depois, me levaram a uma casa cheia de mulheres. Eram mais de cem. Todas sentadas. Retinhas. Eu não sabia nem sequer em que país estava. Depois fiquei sabendo que era a Líbia. Falei para o homem que queria voltar para minha casa, mas ele disse que agora eu era sua propriedade porque ele tinha dado um monte de dinheiro para minha madrasta e eu tinha que fazer tudo o que ele mandasse. ‘A vida é minha. Você não pode me dizer o que devo fazer’, respondi. Mas ele falou que eu tinha que trabalhar. Aí eu disse que não tinha recebido educação, que não sabia fazer nada. ‘Que tipo de trabalho posso fazer?’, perguntei. Ele falou que eu só precisava esperar um homem no meu quarto. ‘Não posso fazer esse tipo de trabalho!’, respondi. Eu nunca tinha estado com um homem. Não queria fazer aquilo. Aí cuspiram em mim e me arrastaram para fora da casa e me amarraram deitada na terra de cara para o sol. Chorei até não poder mais. Não me davam comida nem água. O sol era tão forte! Achei que ia morrer. E tive que aceitar. Me jogaram num quartinho. Vinham soldados, vinham homens de Gana, da Nigéria, da Líbia. Os soldados tinham pistolas e, se você não fizesse o que eles mandavam, batiam até matar. Os homens vinham sem proteção, me usavam de todos os jeitos. Batiam em mim, me cuspiam. Mas eu tinha que manter a calma para que não me amarrassem no sol. Tive que ir com homens até quando estava menstruada. Se eu engravidasse, vendiam o bebê. Uma vez por dia me davam um pouquinho de comida na palma da mão. Para ganhar um pouco de água, tinha que me deitar com um homem. Ou, então, era obrigada a matar a sede com minha própria urina.”
“Um dia, uma mulher que ia naquela casa disse que podia me ajudar a fugir. Disse que a gente tinha que sair de noite e que eu tinha que querer mesmo fazer isso, porque senão podiam nos matar. Como é que não ia querer? Eu estava morrendo naquele lugar. Recebia até cinquenta homens por dia. Seis mulheres fugiram com ela, correndo no meio da noite. Ela prometeu que ia me levar de volta para a Nigéria. Em sua casa nos deu uma comida muito gostosa e tomamos banho. Falou para eu descansar antes de ir para a Nigéria, mas dali a uns dias veio dizer que eu devia para ela 300 mil dinares. De onde eu ia tirar esse dinheiro, se não tinha nada? E ela me falou que, se antes eu tinha ido para a cama sem ganhar nada, qual o problema de agora fazer isso em troca de dinheiro para voltar? ‘Tudo bem. Não tem problema’, falei. Mas, quando juntei o dinheiro que a mulher pedia, ela falou que eu tinha que pagar mais 600 mil. ‘Não posso continuar assim para sempre’, falei. ‘Por quantos anos vou ter que fazer isso? Por favor, devolva minha vida.’ Aí o namorado dessa mulher, sem que ela soubesse, falou que podia me levar para a Itália, se eu trabalhasse para ele. Falou que eu teria que atravessar o mar. ‘O que é o mar?’ perguntei. Ele me disse que era como um grande rio e me levou até a beira do mar. Então voltei a fazer o mesmo trabalho.”
“Muita gente me dizia que na Itália não gostam dos negros, mas outros me diziam que aqui, se alguém te ameaça ou te faz algum mal, você pode procurar a polícia. Ficamos três dias no mar até que um helicóptero nos achou. Eu estava apavorada. Chegamos a Lampedusa, passamos pela polícia e ficamos sete dias lá. Depois nos levaram a um centro de acolhimento em Nápoles. Nesse lugar às vezes aparecia uma mulher que levava roupas para a gente e dizia que íamos ficar presas pelo resto da vida. Dizia que precisávamos escapar do centro e ganhar dinheiro, porque lá fora não faltava trabalho. Então eu fugi do centro e fui trabalhar como prostituta nas ruas de Nápoles, até que conheci uma nigeriana que falou que me daria dinheiro para eu voltar ao meu país, caso eu trabalhasse para ela. Mas dali a um mês comecei a me sentir muito mal. Vomitava e dormia o tempo todo. No hospital, falaram que eu estava grávida. Chorei muito. Eu tinha um bebê dentro de mim. Que é que ia fazer? A mulher falou para eu tirar, mas perdi minha mãe quando era pequena e agora estava grávida. Queria dar vida a esse bebê. ‘Mesmo que eu não saiba quem é o pai, vou dar à luz, porque é a única coisa boa que me aconteceu na vida. Vou dar a ele todo o amor que tenho para dar.’ Foi isso que falei para a mulher, e aí ela me expulsou da casa dela, dizendo que ninguém gostaria de ir para a cama comigo.”
“Dormi na rua por alguns dias, pedindo esmola para comer. Na estação, vi um trem que ia para Milão. Outro para Gênova. Até que vi um que ia para Roma e pensei: Roma está na Bíblia. Aí perguntei se aquela Roma para onde os trens iam era a mesma Roma da Bíblia, e falaram que era, sim, e então decidi vir para essa Roma. Nos primeiros dias, eu mendigava para comer. Estava passando muito mal. Sabia que algo de muito ruim estava acontecendo comigo, por isso fui à polícia e falei que não tinha onde ficar e que estava grávida e passando muito mal. Aí me levaram a um hospital. ‘Eu nem sei o que tenho dentro do corpo. Não sei se é humano’, disse. Fiquei duas semanas internada: o resultado de todos os exames foi péssimo. Falaram que eu estava no sexto mês de gravidez. No fim, um médico veio me dizer que eu tinha o HIV. ‘Como posso ter essa doença? Não posso ter essa doença!’, falei. E aí o médico me explicou que o vírus é transmitido pelo sexo. ‘Eu devo ter feito algo de muito errado. Como é que eu vou trazer ao mundo uma criança com o HIV?’, falei. Foi terrível. Mas o médico explicou que talvez a criança não tivesse o HIV. Aí me trouxeram para esta casa. E depois meu bebê nasceu. E meu bebê está com saúde. Mesmo eu lhe dando meu sangue, ele está com saúde.”
“Duas vezes por semana, vou com meu bebê à scuola di italiano. Também o levo comigo no psicólogo, às segundas. Enquanto eu não aprender italiano, não tenho como arrumar um emprego. Nesta casa são bons comigo, mas já falaram que eu preciso começar a procurar um lugar onde morar. Quando saio, faço tranças no cabelo para algumas pessoas. Elas me pagam 10 ou 15 euros. Preciso arranjar um quartinho. Posso fazer faxina, posso fazer qualquer coisa. Uma amiga nigeriana me convidou para trabalhar num clube de striptease. Pagam 200 euros por noite. Mas o que meu bebê vai pensar se eu fizer um trabalho desses?”
“Ao povo do seu país, quero dizer que qualquer pessoa que tenha uma mãe tem algo de valor incalculável. Minha mãe costumava me dizer que a gente só sabe o valor das coisas quando as perde. Eu queria poder dar um abraço nela. Queria poder pedir perdão por não ter sido boa com ela e ser tão teimosa. Mas não tenho como fazer isso. Estou completamente sozinha. Meu bebê é minha mãe, é meu pai, é meu irmão. As pessoas que não viveram o que eu vivi não sabem a sorte que têm. Na Europa, as pessoas vivem uma vida livre. Eu nasci com dor, cresci com dor e ainda sinto dor. Não desejo a ninguém a vida que eu levei. Nem mesmo a quem me quer mal eu desejaria metade das coisas que eu passei. Contei tudo isso, mas não quero me lembrar de tudo. Já não penso em nada.”
Já fazia alguns minutos que o bebê estava inquieto. Adije o balançava para acalmá-lo, repetindo: “Basta, amore.”
O nome do bebê é Ndulue.
Ndulue significa: “Espero que ele consiga.”
O DIA EM QUE CONHECI BOUBACAR
Lá estava Boubacar lavando pratos e panelas no alto dos seus 2 metros. Fioramonti o cumprimentou do lado de cá da vidraça. Ele sorriu assim que a viu e enxugou as mãos negras num pano de prato branco que pendia do seu avental, também branco. Fechou a torneira e veio até nós.
– Sono contento di conoscerti – disse sorrindo, quando Fioramonti nos apresentou, e apertou a minha mão. – Ho sentito parlare tanto di te.
Antes desse dia, eu tinha visto duas fotos de Boubacar, enviadas por Fioramonti. A primeira, aquela selfie que eles tiraram quando se encontraram para ela entregar a minha carta; a segunda, de uma peça de teatro encenada na Scuola di Italiano, onde ele aparecia vestido de Netuno. Em ambas, Boubacar estava sério. Agora, ao contrário, não parava de sorrir, e seu sorriso era enorme, e amplo, e sincero, e de uma bondade que eu nunca tinha visto.
Sem parar de sorrir, Boubacar me olhava das alturas e me perguntava como estava sendo minha estada em Roma, e eu não consegui dizer nada além daquelas banalidades que a gente costuma dizer nessas situações.
Quantas das coisas mais importantes que nos acontecem na vida só ocorrem num lugar dentro de nós? Um lugar impreciso e sem nome exato, um lugar que treme em face da recordação de algo que já aconteceu ou da possibilidade de algo que ainda não é? Boubacar tinha uma irmãzinha. No dia em que os árabes entraram em sua casa e mataram seus pais, a menina estava na escola. Boubacar foi levado num camelo, foi vendido, e nunca mais a viu. Às vezes, ainda hoje, ele se pergunta se ela estará viva. Quem sabe aquela menina hoje seja uma mulher e tenha uma família, em algum lugar do mundo. Quem sabe ela também tenha sido vendida como escrava. Ou, quem sabe, não sobreviveu aos facões dos árabes. Boubacar não sabe, e há noites em que ainda sonha com ela.
Eu também tive uma irmãzinha que viveu apenas algumas horas e cuja morte deve ter marcado minha mãe para sempre. Mas minha mãe nunca me falou dessa dor. Ficou lá, naquele lugar sem nome. No lugar que treme.
Durante os primeiros meses de Boubacar em Roma, quando ele ia ao consultório de Vercillo, chegava muito adiantado e passava horas fitando o vazio, movendo os lábios como se falasse, mas sem dizer nada. Quando Mamadou, o intérprete, o chamava para entrar no consultório, Vercillo lhe perguntava com quem ele estava falando, e Boubacar dizia que conversava com seu amigo. O amigo era um mauritano que também tinha sido escravo. Boubacar o conhecera no Marrocos, quando ambos trabalhavam na construção civil e tentavam juntar dinheiro para ir à Europa. Trabalharam durante um ano carregando sacos de areia, assentando tijolos, levando enormes baldes cheios de cimento sob o sol abrasador. Quando, no final daquele ano, os patrões não lhes pagaram, os dois foram juntos procurar outro emprego. Juntos foram contando os meses que faltavam para empreender a viagem pelo mar. Era a primeira vez, desde os 9 anos, que Boubacar voltava a ter alguém de quem gostar. A primeira vez que tinha alguém com quem conversar. Os dois se entendiam sem necessidade de muitas palavras. Seu amigo. Seu querido amigo. E finalmente juntaram o dinheiro para pagar o barco. E finalmente tomaram o barco que os levaria à Espanha, mas, horas depois de partir, no meio de uma noite em que a escuridão do mar e do céu eram uma coisa só, a polícia costeira marroquina interceptou o barco e o fez voltar.
Chegando à costa do Marrocos, puseram todos em um caminhão e, depois de um dia de viagem, os abandonaram no deserto, perto da fronteira com a Argélia. Foram abandonados com vida, mas foram abandonados para morrer. E se Boubacar movia os lábios, no consultório de Vercillo, não era só porque sentia saudade do seu amigo. Era porque não queria deixá-lo ir. Porque falava com ele. Porque lhe dizia, em voz muito baixa, desta vez nós vamos conseguir. Movia os lábios porque o amigo estava doente. Adoecera no deserto. Ardia em febre, e os outros lhe diziam que o deixasse, diziam que não sobreviveria, tentavam convencer Boubacar de que era preciso seguir em frente, se não quisessem morrer eles também. Mas Boubacar não podia abandonar o amigo: era o único amigo que tivera em toda a vida, e agora seu amigo estava morrendo. Dali onde estavam podiam avistar as luzes de um povoado. Não ficava muito longe. Podiam ter pedido ajuda. Podiam ter procurado um médico. Mas eles estavam fugindo e, se entrassem num povoado, certamente seriam entregues à polícia. “Vamos, Boubacar”, os outros diziam. “Vamos, que precisamos seguir.” Mas Boubacar parecia surdo: estava ajoelhado ao lado do corpo do amigo que já não respirava, como podia abandoná-lo assim, no meio do deserto? Como podia deixar sem enterrar o corpo de quem tinha sido seu verdadeiro amigo?
“Poderia ter sido eu.” Era o que ele dizia a Vercillo. E Vercillo, por sua vez, me dizia: “A morte do amigo foi para ele tão traumática como o que lhe aconteceu na infância. Ambas as mortes, a dos pais e do amigo, se sobrepunham em sua memória.” A cor do sangue. Os gritos. Os facões. A voz que diz: “Não! Esse não!” E o amigo que morre no deserto e Boubacar quer enterrar antes de seguir em frente, o amigo que ele não quer deixar porque seria como voltar a perder os pais e, também, como voltar a se salvar. A morte, de novo, passara perto sem tocá-lo, mas sim as pessoas que mais amava. As únicas que ele tinha.
“Poderia ter sido eu.”
Todos poderíamos ter sido outros.
E lá estava Boubacar. E lá estava Fioramonti. E lá estava eu. E Boubacar não sabia que eu conhecia Vercillo, e eu só sabia dele aquilo que já contei, e Boubacar me perguntava se estava contente em Roma e quanto tempo ficaria, e eu dizia que dali a alguns dias iria à Sicília e depois a Lampedusa, e ele me desejava boa viagem sem suspeitar que, se não fosse por ele, se não fosse por uma série de acasos tão improváveis como qualquer acaso, eu também não estaria lá. Se não fosse por uma série de acasos, Boubacar também não estaria aqui. Poderia ter morrido no lugar do seu amigo. Poderia ter morrido no mesmo dia em que mataram seus pais.
Percebo que escrevo para encontrar palavras capazes de assinalar aquele lugar que treme. Um peixe dourado que por um momento rebrilha no mar quando atingido por um raio de sol. Não escrevo para contar histórias. Escrevo para buscar um nome para esse lugar ou, quem sabe, nem sequer para encontrar um nome, mas apenas para, às vezes, por um breve instante, fazer tremer esse lugar, esse peixe, em outras pessoas, em outro mar.
Boubacar está vivo.
“Poderia ter sido eu.”
Qualquer um de nós poderia ter sido outro. Poderíamos não estar vivos. Estamos, por acaso. A salvo da escravidão, da guerra, da fome, por acaso. A salvo de atravessar desertos e mares, por acaso. A salvo de ser comprados e vendidos. Nascemos neste tempo, nesta geografia, sendo quem somos, sem ter feito nada para ganhar este lugar. Poderíamos ser outros. E também poderíamos não ser.
[1] Todos os refugiados citados nesta reportagem têm nomes fictícios. Os nomes verdadeiros não foram usados para proteger sua privacidade.