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A EX-PRESIDENTA DEIXOU SAUDADES

Imagem A ex-presidenta deixou saudades

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O GRANDE ENIGMA
Acabei de ler a reportagem de Mônica Manir sobre o suicídio de jovens, que saiu na edição de fevereiro (“Em nome do nada”, piauí_149). Sou psiquiatra, trabalho com a prevenção do suicídio na rede pública do Distrito Federal e fui uma das autoras das cartilhas citadas.

Gostaria de parabenizar a jornalista pela excelente matéria, com informações detalhadas e precisas. Foi claramente um trabalho bastante minucioso, como ainda não tinha visto fora da área técnica especializada.

É muito bom perceber que a divulgação dessas informações de maneira responsável tem aumentado na mídia, o que pode colaborar para a prevenção do suicídio.
FERNANDA BENQUERER_BRASÍLIA/DF

Certas inquietações suscitadas pela reportagem “Em nome do nada” me fizeram escrever esta carta. Era 2008, tinha 15 anos e numa briga-brincadeira com meu irmão cortei o braço, perto dos pulsos, em uma porta de vidro. Uma explosão de sangue. No hospital, os profissionais, embora eficientes, me tratavam com certa frieza – dava para notar –, antes de se convencerem do ocorrido, mais cômico que trágico. Se eu, psicologicamente bem (naquela época), já me senti mal… Enfim, essa experiência sempre me fez estudar o assunto e, pela primeira vez, tenho que fazer algumas advertências em uma reportagem da revista, geralmente impecável. O tema, claro, é espinhoso. Mas, talvez, a questão (o nó) é que o suicídio, ao mesmo tempo, é totalmente subjetivo e um problema social, histórico e, por que não?, metafísico. Esse degrau, ou buraco, entre o micro e o macro, entre o que há de mais particular no sujeito e os movimentos gerais da sociedade, é difícil de ser apreendido com metodologias comuns. O próprio Andrew Solomon tem que usar como lastro para seu livro, aliás brilhante, a experiência pessoal.

A impressão é que a reportagem só ficou na margem das questões. Por exemplo, ao fazer o recorte sobre os jovens, não cita os problemas que Solomon e outros citam: não dá para saber a margem do aumento real de suicídios, pois os métodos estatísticos sobre o tema só se aperfeiçoaram agora – fora que as autoridades não eram muito estimuladas a registrar o fenômeno. A reportagem tampouco pergunta quantos acidentes de carro e overdoses de drogas podem ser considerados suicídio. Em suma, talvez exista algo mais universal e duradouro em toda a questão do que  o recorte de superfície, como “geração x, y, z”. Dizer “a internet mexeu nas interações humanas” é apenas um clichê e uma falácia, como culpar os videogames violentos pela existência da violência. É até contraditório, já que as próprias mães de suicidas buscam apoio em grupos de Facebook e WhatsApp.

Outra: sendo um problema subjetivo, senti a falta de referências nas artes. Goethe foi citado apenas como o efeito concreto. Entre milhares de exemplos, Albert Camus e David Foster Wallace deixaram preciosidades de reflexões, talvez tão esclarecedoras e profundas quanto a literatura científica – mais acalentadoras, com certeza. Outro caso célebre, só para não passar em branco, é o de Yasunari Kawabata que, na cerimônia do seu Nobel de Literatura, fez um discurso brilhante contra o suicídio e acabou realizando o ato anos depois. Também, claro, é um problema da história espiritual humana. Quase todas as religiões se pronunciaram sobre o assunto e proibiram o suicídio, mesmo que idolatrem mártires.

Em termos formais, a citação da ministra Damares Alves ficou totalmente deslocada. Se os agentes públicos e de saúde estão de fato preparados para lidar com a questão, isso também não foi aprofundado (na minha pouca experiência, acho necessário um olhar mais crítico sobre esse quesito).

E a carta psicografada – por que publicá-la, meu deus? Infelizmente, foi de total mau gosto.

Sei que esse texto já está grande e impublicável, cheio de “talvez” e parágrafos. Mas espero que a revista, geralmente meu remanso no mês, aprofunde esse tema maldito e muito necessário. Se fosse outro veículo até deixava passar, mas sei que vocês entendem.

RAUL DUARTE_SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP

A relevância da reportagem de Mônica Manir acerca dos suicídios de jovens evidencia a necessidade de ações abrangentes e articuladas de diversos atores da sociedade. No que concerne ao suicídio entre os indígenas, ressalto que, além das causas apresentadas na reportagem – discriminação racial, violência física e maus-tratos –, é relevante a relação dos indígenas com sua terra original. Em Mato Grosso do Sul, zona de conflito entre ruralistas e indíos guaranis-kaiowás, foram notificados 506 casos de suicídio entre 2003 e 2013, com a faixa etária de maior incidência entre 15 e 19 anos entre os rapazes, e de 10 a 14 anos no sexo feminino, segundo Bruno Martins Morais, autor de Crônicas da Territorialidade Kaiowá e Guarani nas Adjacências da Morte. As causas atribuídas ao suicídio entre os índios ali vão além daquelas relatadas na reportagem. O chamado “cerco” a que esses grupos estão submetidos devido às pressões territoriais de base econômica do setor agrícola e as restrições dos seus territórios de vida produzem a quebra da territorialização do corpo com o seu lugar. Para esses povos, a relevância do seu território como extensão do próprio corpo justifica índices alarmantes de suicídios, em especial entre jovens, e são entendidos como a tentativa final de responder, a partir de referências culturais próprias, à retomada do corpo com seu lugar de origem. Os suicídios acontecem em lugares sagrados e são compreendidos como única alternativa de restabelecimento de vínculo do corpo com o lugar. Vale uma futura matéria.
PAULO ABATI_CAMPINAS/SP​

A GENEALOGIA DO MAL
Enfim, um texto transparente, em que prevalece a lógica e se analisa o importante período de nossa política desde a promulgação da Constituição de 1988 até os dias atuais. No ensaio “O ponto a que chegamos” (piauí_149, fevereiro), o autor, o cientista político Sergio Fausto, superintendente da Fundação Fernando Henrique Cardoso, portanto tucano de alta plumagem, não poupa seu partido, o PSDB, de uma crítica rigorosa, assim como as demais legendas que participaram ativamente do referido período.

Da mesma maneira que Lula, equivocadamente, julgava-se o inaugurador da questão social, tentando anular tudo o que foi feito nessa área pelo seu antecessor FHC, Paulo Guedes, o liberal, tenta encarnar o modernizador do Estado e da economia. Para isso, ignora os progressos obtidos pelas gestões passadas, colocando no mesmo saco da social-democracia os governos conduzidos pelo PSDB e pelo PT, sem estabelecer diferenças, que não foram sutis.

O autor faz uma crítica contundente das vacilações tucanas, principalmente pelo fato de seus correligionários não defenderem com a desenvoltura necessária o legado dos oito anos dos governos FHC. Talvez a consolidação do processo democrático seja um dos mais evidentes, pois a passagem para o governo Lula foi uma prova eloquente do fortalecimento de uma cultura política democrática, que se deteriorou nas gestões petistas. Essas jamais admitiram a alternância de poder e, por isso, fizeram o diabo, inspiradas no padrão bolivariano que então prevalecia em vários países do nosso continente.

Há muitas dúvidas no ar com relação ao atual governo e choques poderão ocorrer em função das diferenças entre um liberalismo radical pregado pelo seu ministro da Economia e o comportamento até agora corporativista do próprio presidente. Há, felizmente, um poder moderador representado pelos militares, que poderá mediar as crises que irão espoucar devido à fraqueza da base política e a um Congresso totalmente desprovido de grandes lideranças, que no passado, bem ou mal, sabiam contorná-las.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

O texto de Sergio Fausto acerta nas críticas que faz ao período PT, embora ignore os êxitos estatisticamente comprovados dessas gestões. Do mesmo modo, acerta nos elogios que faz ao período PSDB, embora ignore as muitas falhas, também estatisticamente verificadas. Mas o autor deixa de analisar uma cena deveras simbólica que ele mesmo conta. Ao chegar a uma das manifestações pelo impeachment de Dilma, Fausto se deparou com um raivoso parlamentar da família Bolsonaro (faz diferença dizer qual?) sobre o carro de som e optou por sair do protesto e entrar nele novamente, mas por outro lado. É curioso que o texto não problematize a fundo o fato de boa parte das classes média e alta brasileiras terem aceitado entrar – por outro lado, se preciso – na mesma maré em que nadavam os mais torpes, obscurantistas e violentos quadros da política nacional.

P.S.: A edição de janeiro foi precisa ao abordar intensamente a questão indígena brasileira neste grave momento.
THIAGO CASTANHO DE CARVALHO_PETRÓPOLIS/RJ

Sempre ouvi meus professores dizerem que em história não existe “se”, mas o texto de Sergio Fausto nos garante uma boa dimensão do tamanho da encrenca em que nos metemos. Espero que a piauí continue a nos brindar com análises percucientes como essa. Afinal, se não podemos resolver o problema, que ao menos tenhamos o consolo de entendê-lo um pouco melhor.

ELIANA PANTOJA_RIO CLARO/SP

O EXTERMÍNIO
Foi com lágrimas nos olhos que terminei de ler a matéria “Genocídio”, de Norman Lewis (piauí_148, janeiro). Apesar de ter sido publicada originalmente em 1969, não poderia ser mais oportuna. As declarações do atual presidente da República contra as demarcações de terras indígenas, seguindo os interesses da bancada ruralista e da ganância extrativista, servem de incentivo a agressões semelhantes a que ocorreu na própria madrugada em que o mesmo foi eleito, em que indígenas guaranis-kaiowás foram atacados a tiros em seu acampamento, em Dourados (MS). Como escreveu tão bem João Moreira Salles no artigo “El Salvador” (piauí_147, dezembro) a respeito da força e da fragilidade, é nosso dever – e responsabilidade do Estado – defender e proteger os mais frágeis. Se a crueldade nos ataques aos índios ocorre de forma cíclica, como defende Lewis, percebo que viveremos agora a fase de maior agressão. Quando a consciência pelos direitos humanos e o interesse de proteger os mais frágeis forem restaurados, será, mais uma vez, tarde demais. Perdem os indígenas, perde a natureza – já tão sofrida num país de desastres ecológicos como os de Mariana e Brumadinho –, perdemos todos.
MARIANA DOTTORI_RIO DE JANEIRO/RJ

ZAP
Não sei se os leitores em geral apreciam a seção de humor da piauí, mas eu a julgo muitos degraus abaixo da linha editorial da revista (que, por sinal, vem decaindo). Não consigo ver graça nos quadrinhos, tirinhas e cartuns e considero esse BolsozApp pueril, de mau gosto, ofensivo e chato de ler. O Diário da Dilma deixou saudades.

ALDO DÓREA MATTOS_ SALVADOR/BA

NOTA INDIGNADA DA EX-PRESIDENTA: Meu querido, não podia estar mais de acordo. A decadência desta revista reflete à perfeição a trajetória do país. Quando o mundo – Cuba, Venezuela, Nicarágua – nos tomava como exemplo, os editores da piauí vinham de joelhos ao Alvorada colher com mãos trêmulas meus apontamentos mensais. O livro que publicaram a partir destes escritos vendeu mais do que Cinquenta Tons de Cinza. Hoje, a linha editorial da revista é o que se sabe. Pueril, ofensiva, de mau gosto e chata de ler. (PS: Outro dia me disseram que o Varoufakis leu o Diário na boa tradução grega, comoveu-se sobremaneira e, moto contínuo, tentou contatar-me por esta seção. Não só deixaram de publicar a carta como me escamotearam a informação. Agora estou eu aqui, digitando essas linhas antes de embarcar para Atenas, sem sequer um endereço de remetente para me situar quando eu chegar lá.)

O BolsozApp Herald é grotesco, uma desconsideração ao leitor.
RICARDO V. C. COSTA_RIO DE JANEIRO/RJ

Nunca escrevi para uma redação antes, mas gostaria de agradecer pelos cartuns de fevereiro com a temática de livros. Dá vontade de enquadrar todos.

Eles são um respiro no pesadelo interminável que temos vivido na gestão Bolsonaro. Não tenho, por exemplo, nenhum interesse de ler o BolsozApp Herald. É claro que é importante saber o que acontece atualmente até para pensar no futuro que queremos, mas estou farta de discutir o óbvio e ser violentada todos os dias com as novidades desse governo medíocre.

Nesse sentido, prefiro mesmo que falemos de outros assuntos. Vamos avançar em coisas realmente relevantes em vez de dar atenção a essas atrocidades das quais temos sido testemunhas diariamente.

Sei do risco de deixarmos essas pessoas falando sozinhas, ainda mais com tanto poder nas mãos, mas tem uma hora que chega. Chega de se ocupar desses boçais.
MARINA M. CARRILHO_SÃO PAULO/SP

FALHA NOSSA
Acho que já deve ter passado da hora. Acabei me atrasando na leitura, caso contrário poderia ter avisado mais cedo (se é que já não avisaram).

Na reportagem “Juventude bolsonarista” (piauí_148, janeiro), trocaram o nome do goleiro Muralha por Alan, quando na verdade é Alex.

Na mesma edição, na matéria “Genocídio”, o nome da cidade no Tocantins é Pedro Afonso, e não Pedro Alfonso.

Como bom tocantinense e infeliz rubro-negro, não haveria como deixar de notar. No mais, muito obrigado pelo excelente material. Melhor revista do mundo.
LUCAS ALVES DOS SANTOS_PORTO ALEGRE/RS

NOTA ENVERGONHADA DA REDAÇÃO: Comentaristas de tênis chamariam isso de dupla falta. Ou de erros não forçados. Que constrangimento.  Resta torcer para que o departamento de checagem não tenha uma vez mais trocado os pés pelas mãos, e você não se chame Mateus Alves, de Porto Seguro.


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