cartas
Ago 2020 17h13
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ESCRAVIZADOS
Os textos de Ligia Lima e Keila Grinberg (“Letras sensatas”, piauí_166, julho) são verdadeiras aulas de como e por que ser antirracista é imprescindível para a continuidade da vida em sociedade. Ligia Lima foi marcante quando disse “aprendi desde cedo a força do perdão”, e Keila Grinberg foi muito feliz em dizer que “nossa linguagem revela o cerne do nosso escravismo”. Ser antirracista passa, também, por essas duas passagens das brilhantes cartas, ao reconhecer que os pretos e pardos, negros, não eram escravos (condição humana), mas sim escravizados (condição histórico-social).
MICHAEL DOS SANTOS GOMES_CAMPINAS/SP
STF
Excelente o artigo do Fábio Tofic Simantob (“O ovo da serpente”, piauí_166, julho) ao realizar uma digressão muito sóbria sobre a legitimidade das cortes constitucionais na interpretação constitucional. A metáfora construída em relação ao uso da cor rosa cumpriu seu papel argumentativo muito bem.
No entanto, é imprescindível apontar que, no Estado contemporâneo, a função contramajoritária do stf em muitos momentos se lança em situações em que há equivalência das partes em determinadas controvérsias. Ao salientar a característica de notório saber jurídico, o articulista ignora a moralidade dos ministros que advém de suas experiências pregressas.
A blindagem crítica que parte do campo progressista faz ao stf atualmente não se sustenta, porque a crise da legitimidade vem de muito antes. A nomeação ao stf do até então Ministro da Justiça Alexandre de Moraes surge em contradição com a própria doutrina do nomeado, cuja biografia é marcada por uma passagem no mínimo truculenta pela Secretaria de Segurança Pública de sp.
Ao reafirmar o “notório saber jurídico” como grifo de escolha para os ministros e a legitimidade através da técnica, o autor ignora a nomeação política do cargo. O stf está colhendo os frutos já plantados muito antes do ovo da serpente ser botado.
GABRIEL DA SILVA PRADO_SÃO PAULO/SP
PIKETTY
A piauí_166 trouxe um trecho do novo livro de Thomas Piketty (“O paradoxo do pt”): questões classistas, desigualdade econômica e os governos petistas. Estou ciente de que aclarar os problemas sociais do mundo atual com rigor empírico, consistência argumentativa e lucidez crítica não é apenas difícil, mas muito bem-vindo numa era de ascensão do anti-iluminismo e louvor da barbárie. Contudo, a leitura me deixou decepcionado. Fiquei perplexo com o ar economicista que sobe das linhas do economista francês: um ar velho, bolorento, rarefeito, incapaz de revitalizar o pensamento progressista e a ação transformadora hoje. Ele projeta uma separação forte demais entre o econômico e o identitário, uma separação que cheira a certa ortodoxia marxista que, porém, já foi extensamente superada por outras correntes marxistas, principalmente por teorias feministas e antirracistas. Já há muito tempo, as questões de classe, raça e gênero foram repensadas como entreleçadas e indissociáveis. Como retroceder nesse debate crucial? Quererá ele defender, a esta altura, a primazia da justiça econômica sobre a justiça de gênero e a justiça racial?
IVAN RODRIGUES_FLORIANÓPOLIS/SC
PIAUÍ NA QUARENTENA
É inevitável elogiar as edições mais recentes da piauí, que tem se fincado como uma grande companhia neste período de isolamento. Num momento cada vez mais difícil de entendermos o que se passa, o fio que vocês oferecem virou uma corda a se agarrar. No entanto, os textos que mensalmente vemos analisando o momento de abandono e desgoverno, sendo a excelente escrita de João Moreira Salles (“A morte e a morte”, piauí_166, julho) o mais recente, me ajudaram a entender algo que me pegou de surpresa: há alguns meses não consigo ver graça no BolsozApp Herald. As piadas estão lá e não foram elas que deixaram de ser boas, mas a realidade que se mostrou ainda mais vulgar, com áudios e reuniões vazadas… A caricatura se mostrou mais formal e elaborada que suas musas, em paralelo a números aterradores de mortes nos últimos meses. Sei que o humor é uma ferramenta essencial para denúncias. Mas, quando todas as denúncias já foram feitas, o que resta? Enfim, talvez seja só cansaço e desesperança do momento…
Por outro lado, gostaria de elogiar algo que passou a ser frequente desde a edição de março: os diários de pessoas comuns, vivendo as inúmeras realidades possíveis nesse momento de pandemia. Higor Carvalho, Chris Novaes, Sandro Aurélio, Pamela Santana e Marcos Antonio da Silva Santos foram leituras afetivas. Senti-me próximo de pessoas e realidades distantes. Isso lembra a doçura e a persistência da vida, fazendo temer ainda mais o aumento das estatísticas sombrias que nos rodeiam. Torço para que os diários se mantenham, independentemente da pandemia. Torço para que todos sigam bem.
TIAGO MARIN_SÃO PAULO/SP
ELEFANTE NA SALA
Muito boa a matéria de Flavia Lima (“É só o começo”, piauí_166, julho) sobre racismo nas redações. Talvez por falta de espaço ou por escolha, faltou abordar um dos atos mais simbólicos do racismo no jornalismo: o livro do Ali Kamel, Não Somos Racistas. Que sociedade pode reconhecer suas mazelas aceitando que a maior emissora do país tenha um diretor de jornalismo com essa visão? Não só “não tivemos nossa Ferguson” como ainda não tivemos abolição verdadeira.
TAIS GALVÃO_CAMPINAS/SP
PIAUÍ 165
Sei que virou rotina o ato de escrever para vocês com o intuito de elogiar. Lamento, a culpa não é minha. A piauí é que nos proporciona, mensalmente, a leitura de textos saborosos, críticos e profundos. Por exemplo, na piauí_165, junho, não posso deixar passar em branco a matéria do João Gabriel de Lima (“Regina no país dos olavistas”), sobre a nossa tresloucada ex–secretária de Cultura, Regina Duarte.
Para variar, a Malu Gaspar (“No parquinho das potências”) nos brinda com uma análise correta do dia em que a diplomacia brasileira, sob a ótica lulista, viajou na maionese e acreditou nas “barbas do profeta”, para a resolução do imbróglio entre Irã e Estados Unidos. Sinceramente, observarmos o Lula dando conselhos ao Obama, como se esse fosse um cara qualquer, é risível.
Para finalizar, sempre é prazeroso lermos análises feitas pelo embaixador Marcos de Azambuja (“A geopolítica do ‘vírus chinês’”), que possui um texto brilhante, irônico e eivado de conhecimento. E, ainda, temos que ressaltar o Reinaldo Moraes (“Domingo medonho”), que sabe expor, como ninguém, as frustrações, desejos, taras e limitações da classe média.
ANTONIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA
VARIEGADOS
É com indisfarçável satisfação que li e até hoje guardo todas as suas 165 edições, nos primeiros anos comprando na banca do Ivan – O Amável, em contraponto a seu homônimo russo – e posteriormente, por mudança de cidade, como assinante. Pelas minhas grosseiras contas de cidadão de humanas, algo entre 10 mil e 14 mil páginas, contabilizados também anúncios, sumários e edições especiais (dá-lhe Artur Avila!).
Todavia, ainda guardo e vivencio a frustração de nunca ter tido acesso à mítica edição número zero, ao que me parece, apenas de circulação interna. Após algumas perturbações de minha parte com e-mails para o Departamento Comercial, resolvi escrever a vocês da redação, para ver se a misericórdia jornalística se compadece de meu apelo: preciso tê-la na estante, no mínimo dos mínimos ler em pdf!
O pedido é endossado por minha esposa, que trabalha como psiquiatra e psicoterapeuta, cada noite mais temerosa de meu ranger de dentes durante o sono.
GUSTAVO FATTORI_SÃO PAULO/SP
NOTA SINCERA (E TEMEROSA) DA REDAÇÃO: Aqui vai um segredo da profissão: número zero leva esse nome não por vir antes do número 1, mas por não valer o papel em que foi impresso. Número zero é como aquela festa à fantasia em que você foi de Pequena Sereia, ficou bêbado e achou que sabia dançar. Tem que esquecer. E negar. Nós incineramos todos os exemplares. Mas (e aqui vem a parte temerosa), caso encontremos um pdf, nós lho (ixe) enviaremos sob a condição de que não o use contra nós em ação civil por danos intelectuais.
ALELUIA!
Percebi que a revista está com mais conteúdo, mais textos, porém menores.
Gostei muito!
MARCOS VINICIUS_JARAGUÁ DO SUL/SC
NOTA BREVE DA REDAÇÃO: É isso.
TÁ RUIM, MAS TÁ BOM
A seção Quarentena, antes Esquina, na edição 166 virou piauizinha: uma livraria, um restaurante, uma escola, um shopping e um resort, todos com direito a divagações turístico/literário/gastronômicas, detalhes de ambientação e, claro, recados aos descolados. Tudo embalado nas inevitáveis e mais que manjadas medidas antipandemia, porque a seção (ainda) se chama “quarentena”, ora pois.
A Chegada não está chegando! Tudo o que apareceu na edição de julho chegou faz tempo (Wassef, Queiroz, intervenção no Rio), ou muuuito tempo (Temer, Bolsonaro). Se Fernando de Barros e Silva vai ter um espaço todo mês para divulgar sua arenga apocalíptico-petista, melhor achar um lugar no meio da revista e com um título mais apropriado.
Por último, e muito mais sério: a piauí está muito em cima dos fatos recentes, como nunca foi: política, pandemia, racismo, desigualdade. Tudo isso é importante, mas já somos bombardeados todo dia com notícias da atualidade. Sempre li a revista procurando boas histórias ou coisas que eu não conhecia, ou aprendendo a ver assuntos conhecidos de um jeito novo (ótimo exemplo são os diários, que a revista trouxe de volta com a pandemia). Esse tipo de abordagem foi quase marginal na última edição. Noto que a minha preocupação também aparece nas cartas dos outros leitores.
WANDERLEY RODRIGUES_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA ESPERANÇOSA DA REDAÇÃO: Também estamos cansados dos fatos correntes, mas, para-fra-seando a única fala memorável de um filme ruim, “quando a gente acha que vai mudar de assunto, a realidade nos puxa de volta”. (Antes que comecem a jogar pedras: os dois filmes anteriores da trilogia são obras-primas.) Nos próximos meses prometemos incluir raiozinhos de sol nas nossas páginas. Nem que seja necessário ministrar aos repórteres alguma substância que Osmar Terra reprovaria. (p.s.: As esquinas saíram da quarentena!)
WILSON WITZEL
A Secretaria de Estado da Polícia Militar do Rio de Janeiro repudia as injustas e irresponsáveis acusações contidas na reportagem da revista piauí, intitulada “A solidão de Rambo” (piauí_166, julho). Sem prova documental, mas apenas baseado em informações anônimas ou declarações de um criminoso envolvido em quase dez processos criminais, o autor da reportagem demonstra desprezo pela verdade. Ataca a imagem de uma corporação que, há mais de duzentos anos, trabalha diuturnamente para servir e proteger a sociedade, e ofende a biografia de seu comandante, o coronel Rogério Figueredo de Lacerda, que completou trinta anos como oficial da pm, ostentando uma carreira vitoriosa e sem máculas. A Polícia Militar, como tem sido demonstrado, não faz distinção a grupos criminosos, sejam facções de traficantes, sejam integrantes de milícias. Todos serão sistematicamente combatidos.
CORONEL MAURO FLIESS, COORDENADOR DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA POLÍCIA MILITAR_RIO DE JANEIRO/RJ
O Governo do Estado do Rio de Janeiro repudia fortemente a reportagem “A solidão de Rambo”, publicada pela revista piauí, feita sem provas jurídicas e baseada em depoimentos de um dos maiores criminosos do estado, que se encontra preso e é apontado por envolvimento em mais de dez homicídios investigados pela Delegacia de Homicídios. O combate à milícia e aos narcotraficantes é uma das prioridades da gestão de Wilson Witzel. Em 2019, primeiro ano da gestão, foi criado o Departamento de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro, com objetivo de investigar, refazer o caminho e recuperar o dinheiro arrecadado ilegalmente pelas organizações criminosas. Mais de 84 milhões de reais dos criminosos foram bloqueados e mais de 550 milicianos foram presos só em 2019. Foram ainda apreendidos 550 fuzis, o maior número recolhido no período nos últimos doze anos.
LEONARDO ZANELLI, COORDENADOR DO NÚCLEO DE IMPRENSA DO GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO/RJ
BILHETE DE REPÚDIO
Desde os tempos de Adam Sun e Xico Vargas, tenho observado que o respondedor da seção de cartas da piauí se comporta como um verdadeiro alpondra no caminho do árduo trabalho do eficiente Departamento de Revisão da revista. Na edição 132, não nos apoiou quando aprovamos o uso de “via de regra” (dicionários Houaiss Digital 3.0, Aurélio e Michaelis). Até Machado de Assis usou. Na edição 166, ameaçou de morte os heroicos revisores com sua “Nota Fúnebre”, por aceitarmos “vítima fatal” (Aulete Digital). Como poderíamos desdizer os continuadores do professor Francisco Júlio de Caldas Aulete? Ainda que Aulete tenha morrido no tempo da minha tataravó (1878), quando ainda estava na letra A, Valente e outros lexicólogos valentes continuaram seu trabalho, chegando agora a mais de 880 mil verbetes.
Vejamos sua qualificação analisando a seção Cartas: o indivíduo é fã de Os Marimbondos de Fogo e poemas de Michel Temer (piauí_19, abril 2008; piauí_88, janeiro 2014), curte cd de Roberto Justus (piauí_23, agosto 2008), se acha o dono da revista e diz que “só adotará a reforma ortográfica se Kelvin puder ser escrito com K” (piauí_30, março 2009). Para não dizer que ele não possui nenhuma qualidade, reconheço que é um ótimo contador de piadas politicamente corretas (piauí_113, fevereiro 2016), mas chegou a ponto de chamar os missivistas da revista de gente desocupada (piauí_118, julho 2016).
Esse viúvo do trema comeu manga com febre, como ensina o dicionário piauiense (pirou de vez). Por esse motivo, venho aqui propugnar que tal elemento pernicioso à nossa dinâmica da língua seja demovido do posto que ora ocupa e relegado à obscuridade. Ou seja, cortem-lhe a cabeça.
MEE LOPES, REVISORA ESTAGIÁRIA TEMPORÁRIA_SÃO PAULO/SP
NOTA ENTEDIADA DO ALPONDRA: A rigor, não merece resposta quem é insensível à lírica de Temer, aos trinados canoros de Justus e à força evocativa dos versos entomológicos de Sarney, nosso Píndaro. Mas estamos aqui para iluminar os que carecem de luz, então aqui vai: Houaiss não aceita a expressão “vítima fatal” (dicionário eletrônico 2009); Luft sequer sabe do que estamos falando (dicionário eletrônico 1999); Aurélio praticamente se ofende quando consultado sobre a questão (5ª edição, 2010). Resta Caldas Aulete, testemunha-chave da acusação. Como num bom filme de tribunal, preparem–se para o golpe de misericórdia: a versão digital aceita, mas o verbete original não. Aulete, traído por seus seguidores! Na piauí zelamos pelo idioma e consideramos que de 1878 para cá a Flor do Lácio só se degenerou por obra de anarquistas com os quais a (ex!) estagiária Mee Lopes evidentemente cerra fileiras. Labéu! Desaire! Gemônias! Ippon!