cartas
Out 2020 14h27
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DEMOCRACIA E CANCELAMENTO
O texto de Miguel Lago (Derrubem as estátuas, piauí_168, setembro) trouxe muitos ângulos e nuances sobre o tema da cultura do cancelamento e sobre a mitologização de figuras históricas que fizeram muito sentido pra mim, pontos sobre os quais eu nunca tinha parado para pensar e que são muito pertinentes. Mas o autor não mostra o mínimo de espírito crítico ao senso comum do Twitter, que ele considera uma opinião genuinamente popular. Primeiro, essa “opinião popular” é fabricada, existe de acordo com o status quo. Segundo, nem de longe o Twitter é uma amostra fidedigna da população. Penso que ele avançou um passo no debate, mas ainda é preciso discutir de onde vem a ideologia dos canceladores. E, na verdade, existe, sim, o registro de ameaças à integridade física como consequência da cultura do cancelamento.
LORIEN MAITÊ MOISYN_BELO HORIZONTE/MG
Em Derrubem as estátuas, Miguel Lago exime muito facilmente as redes sociais e suas práticas de qualquer culpa pela regressão democrática pela qual estamos passando. Diz que o cancelamento é “fruto da dinâmica das redes” sem problematizar esse funcionamento. Celebra a substituição do broadcast pelo multicast como se estivesse tudo indo bem no novo espaço público brasileiro ampliado pela internet. Nessa mesma linha, ele associa a cena absurda do jovem negro preso ao poste à ascensão da extrema direita, mas não associa as redes a esse mesmo acontecimento. Mais grave é que, embora o autor diga que a derrubada de estátuas não deva ser colocada sob o “guarda-chuva” da cultura do cancelamento, os editores mencionam o fenômeno logo no título, o que pode ser oportuno para fazer crer que criticar o cancelamento equivalha a louvar colonizadores.
Um contraponto a isso pode ser encontrado no texto Pureza e poder, de Antonio Engelke (na piauí_132, setembro 2017). Nele, o autor cita o filósofo Ernesto Laclau ao imaginar que se o particularismo de bolhas canceladoras vier a ser o único princípio válido, excluindo princípios mais gerais, então estariam aceitos também os particularismos violentos, excludentes e opressores. É uma interpretação possível para o cenário do Brasil de hoje. Enfim, um bom debate.
THIAGO CASTANHO DE CARVALHO_RIO DE JANEIRO/RJ
A revista vem se superando mês a mês após o início da pandemia, o que é ótimo, pois no ano passado achei que alguns altos e baixos comprometeram a credibilidade. Mas nada que me fizesse desistir, pelo contrário. Já leio há mais de dez anos e confio em vocês.
A piauí_168, setembro, está muito boa, exceto pelo artigo de Miguel Lago (Derrubem as estátuas). O assunto é palpitante, polêmico e supermoderno, e achei que o autor traria considerações que desafiariam minhas críticas acerca da cultura do cancelamento… doce ilusão. O texto é confuso, errático, parece um emaranhado de frases feitas numa mesa de bar depois de umas biritas… misturar Fritz Lang e M – O Vampiro de Dusseldorf foi o ápice, parecia que o autor queria revestir seus argumentos frouxos de alguma sofisticação estilística que também não ornou.
LEONARDO ANDRÉ GANDARA_BELO HORIZONTE/MG
Acredito que a “cultura do cancelamento” citada no texto tomou proporções maiores do que devia. Esse julgamento intensivo pode afetar muito a pessoa “cancelada”, assim ela pode, por exemplo, não se sentir suficiente e isso acabar afetando o seu estado psicológico, pois as críticas feitas, muitas vezes, são impulsivas e não pensadas.
Eu apoio críticas, mas apenas aquelas que são construtivas. Por exemplo, se você crê que uma pessoa está errada, tente ajudá-la a melhorar e não cancelá-la. Todos podem mudar e merecem uma segunda chance.
A população tem, sim, ideias diferentes, e nós temos que aprender a respeitá-las, tendo a mente aberta para receber e dar opiniões. Assim, todos poderão ter liberdade de expressão sem serem criticados toda hora.
A matéria estava incrível. Adoraria ler mais postagens com esse tipo de assunto.
ISABELLA M. FAVORETTO,12 ANOS_SANTO ANDRÉ/SP
NOTA MODERNÍSSIMA DA REDAÇÃO: Além de nos mostrar que temos leitores de 12 anos, o que deixou a redação numa felicidade que nem conto, com apenas nove toques Isabella conseguiu nos chispar do remoto século XX para o avançadíssimo século XXI. Nós, que nos sentíamos tão em casa naquela época estranha em que revistas físicas publicavam reportagens intermináveis, acabamos de descobrir que nossas matérias são… postagens! Da hora! Espalha aí, pessoal!
PETRÓLEO
Sou assinante da revista e diretor de Comunicação do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Petróleo no Pará, Amazonas, Maranhão e Amapá. Venho manifestar minha profunda decepção com o texto de Consuelo Dieguez (O dia seguinte, piauí_168, setembro).
Me impressiona que tenha sido feita apenas uma breve menção à posição dos trabalhadores da Petrobras por meio de seus sindicatos. A reportagem deixou a desejar em relação ao espaço dado à versão oficial da direção da empresa e o que de fato ocorreu nas instalações industriais durante o período da pandemia.
No caso de nossa base territorial, vivemos um surto generalizado na Província Petrolífera de Urucu (AM), com dezenas de trabalhadores infectados, levando a uma morte e internação em UTI. Esse quadro se repetiu em diversas outras unidades da Petrobras. Uma simples busca no Google traria bastante material. A própria Justiça reconheceu por meio de diversas decisões a justeza dos pleitos das entidades sindicais por mais condições de proteção à categoria.
Acreditamos que ainda há tempo de corrigir essa falha, para tanto estamos à disposição para eventual nova matéria contando de fato o fracasso completo da política da Petrobras frente à pandemia do novo coronavírus.
BRUNO TERRIBAS_BELÉM/PA
O Brasil arde em cinzas, mas minha piauí segue firme e ininflamável, se é que tal vocábulo existe. Consuelo Dieguez ilumina os meandros da economia do petróleo e o que pode ou não ser o porvir nessa área (O dia seguinte). Além disso, estima-se que para cada emprego fóssil, são dez renováveis que podem ser gerados, pois a cadeia produtiva envolve boa parte dos materiais que utilizamos. A conversão total para a economia de baixo carbono levaria até à inimaginável falta de mão de obra necessária. A reportagem resgata também o princípio do valor não ser baseado no conteúdo energético, um dado objetivo e exato, mas numa nefasta construção humana que pode até ser negativa. O Brasil já teve o protagonismo mundial em ambos os cenários, culminando nos recordes de produção do pré-sal com o de etanol de cana. Quando a termodinâmica determinar as transações econômicas, não estaremos mais queimando nosso patrimônio ambiental em diferentes biomas, como representado pelos cartuns de Allan Sieber. Em consonância com a reportagem está a capa muito bem elaborada por Vito Quintans, mostrando o posto degradado, símbolo, em parte, do combustível fóssil e, total, da destruição da confiança econômica que ainda possa haver no desgoverno.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
QUESTÕES CRIMINAIS
É horrível ver como há pessoas no mundo que não se importam nem um pouco com a vida humana (A construção de um serial killer, piauí_168, setembro). Laércio Soares de Melo – que, de acordo com a reportagem, é um suposto serial killer – vivia como se não existissem consequências para o que ele fazia. Agora que ele foi preso, já sabe o que pode ocorrer-lhe na próxima vez que tentar matar alguém.
Às vezes eu penso: como é que esse homem lida com a informação de que ele matou 21 pessoas? Ele colocou o fim em 21 vidas, será que ele se sente culpado? Bom, se não se arrepende disso, ele possui um caráter muito frio.
GABRIELA DE S. OLDANI, 12 ANOS_SANTO ANDRÉ/SP
NOTA EXUBERANTE DA REDAÇÃO: Duas leitoras de 12 anos! São Bernardo, São Caetano: onde estão vocês que não seguem o bom exemplo?!
SARA WINTER
Gostaria de parabenizar o jornalista Renato Alves pelo brilhante e elucidativo artigo sobre Sara Winter (No forrobodó do balacobaco, piauí_167, agosto). Sempre quis saber um pouco mais de onde vinham tantas “ideias” para esse nosso Brasil varonil… e não me espantou seu passado e peripécias. Entendi melhor como o egoísmo, quando encontra terreno fértil para se sustentar, consegue preencher as cabeças ocas que nosso país produz. O que me espanta é saber que ao mesmo tempo em que ela se beneficia de nossa democracia, tenta derrubá–la sem ter nada a oferecer, e, mesmo assim, há quem a siga, alguns com seus próprios egoísmos e outros por cegueira mesmo.
ELD LOUREIRO_BRASÍLIA/DF
É impressionante como os escroques e mequetrefes se reuniram em torno desse governo do fim dos tempos. Essa criatura manipuladora, abominável e hipócrita chamada Sara Giromini é o exemplo desses tempos surreais, de “líderes” que pretendem guiar um exército de zumbis que saíram das tumbas. E tendo como mentor um sujeito recalcado, que nunca teve notoriedade entre os acadêmicos brasileiros, Olavo de Carvalho, um ressentido que posa de guru dos bolsonaristas. Estamos deixando que essa gente tosca domine a cena. É uma minoria que está conseguindo monopolizar o país, trazendo a sensação de caos generalizado, com o poder de manipulação das redes sociais, sendo que não passa de uma gangue sedenta por dinheiro e poder.
VALÉRIA APARECIDA VIEIRA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
QUESTÕES DA ULTRADIREITA
No primeiro texto da piauí_167, agosto, temos um Bolsonaro misericordioso que perdoa os devaneios de Sara Winter (No forrobodó do balacobaco), em seguida nosso presidente é o senhor humilde que aceita as recomendações de seus subordinados (Vou intervir!), depois o presidente passa por cima de preconceitos ao se cercar de militares (Adeus ao retrocesso) e, por fim, o capitão é a inspiração para a ótima literatura reflexiva de Martim Vasques da Cunha (Tragédia ideológica). Será que finalmente teremos o primeiro brasileiro Prêmio Nobel da Paz? Logo você, piauí!
MARCOS VINICIUS_JARAGUÁ DO SUL/SC
NOTA TEMOROSA DA REDAÇÃO: E dizer que você ainda nem sabe da nossa campanha para que Ricardo Salles ganhe o International Greta Thunberg Environmental Award…
É louvável a clareza na conjugação de ideias e sobriedade ao expô-las, verificada no texto de Francisco Mamede de Brito Filho (Adeus ao retrocesso, piauí_167, agosto). Afora o eufemismo do salvacionismo para camuflar o puro golpismo mesmo – tradição de nossas Forças Armadas –, não é fácil apontar defeitos teóricos no texto. Todavia, na prática a teoria é outra.
O autor é uma exceção em relação aos quadros militares do Brasil, pois como regra desconhecemos tal qualidade na gestão – vide Pazuello –, educação e infraestrutura do meio militar. É um erro comum da nossa imprensa tratar nossos militares como técnicos – supostamente não ideológicos, pois. Ou alguém quer me fazer crer ser o infame Heleno um sujeito técnico? Ou que os cargos para a filha do Pazuello e a do Villas Bôas foram preenchidos com base técnica? Isso sem lembrar do “quase” da filha do Braga Netto.
Com todo respeito ao Francisco Mamede, certamente um ótimo quadro dentre os militares brasileiros, mas, se nossa visão é es tereotipada, a dele me parece muito otimista. A impressão que tenho dos nossos militares como um “centrão de farda” me faz mesmo é sentir inveja da Costa Rica.
UMBERTO ABREU NOCE_BELO HORIZONTE/MG
Na reportagem Tragédia ideológica, piauí_167, agosto, Martim Vasques da Cunha desfia uma série de razões, referências e argumentos para definir a divisão irreal entre direita e esquerda – que além de engessar a diversidade das pessoas, só reforça a polarização.
A uma pessoa preocupada com sua sobrevivência é admissível que tenha apoiado um candidato que se aposentou aos 33 anos e que durante 28 anos como parlamentar jamais teve uma atuação a favor da sociedade, do país ou mesmo da segurança pública; mas para pessoas com acesso à informação, isso é inadmissível.
Esses são os pensadores que nos conduziram à situação atual, os paladinos da honestidade que tiveram dezenas de páginas falsas fechadas, os defensores da liberdade que financiam movimentos a favor da ditadura. E depois candidamente confessa que não votou. Uma pessoa esclarecida precisa ser convencida da importância do voto?
No fundo, é covardia.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP