cartas
Dez 2020 17h07
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ASSÉDIO
O caso do comediante Marcius Melhem (O que mais você quer, filha, para calar a boca?, piauí_171, dezembro 2020) é apenas mais um dos que acontecem em diversos segmentos. Infelizmente, a maioria dos casos ou não são denunciados ou terminam sem que o culpado seja penalizado judicialmente.
Esperamos que a denúncia da Dani Calabresa sirva de inspiração para outras mulheres indicarem assediadores, sejam sexuais ou morais. Enquanto algumas mídias trataram o caso como fofoca para ganhar audiência, a piauí foi atrás de cada detalhe.
SÉRGIO LO IACONO GALVANI_BAGÉ/RS
De repente, a piauí ficou muito interessada em relatar assédios sexuais (O que mais você quer, filha, para calar a boca?). Mea-culpa pelo faro jornalístico ter falhado na reportagem anterior, (Humoristicamente correto, piauí_151, abril de 2019), ao terem pintado o Melhem de ouro?
IURI BAPTISTA_CAMPINAS/SP
ARRABALDE
Na piauí_170, novembro 2020, é impossível não comparar a história de ficção publicada (O intervalo) com a Parte I da série Arrabalde (A floresta difícil), sobre a ocupação caótica da floresta no Sul do Pará. Os estrangeiros armados da ficção, que, à procura de riquezas minerais, levaram caos, destruição e violência a um povo anteriormente harmônico e pacífico, não diferem em nada do que aconteceu, e continua acontecendo, em nossas florestas e com nossas populações indígenas. Triste quando nem mesmo um texto de ficção consegue nos afastar da crueldade do mundo real. Li a piauí com tristeza. Não é culpa da revista, mas destes tempos sombrios. Quantas décadas serão necessárias para reverter os estragos causados por quatro anos deste governo que só deixa cinzas?
MARIANA DOTTORI_RIO DE JANEIRO/RJ
Em certa altura de A floresta difícil, João Moreira Salles afirma que os naturalistas oitocentistas “foram para a floresta antes de tudo com o propósito de observar (as teorias viriam depois)”. Há nessa passagem certo grau de anacronismo porque supõe que o ato de observar (e de narrar) desses homens e mulheres pudesse ser neutro e transparente em relação à realidade observada.
Penso no livro de Jonathan Crary sobre a importância das “técnicas do observador” na constituição do sujeito moderno no século XIX. Seria importante retomar também a ideia de “olhos do império” de Mary Louise Pratt. Assim como a extensa historiografia da arte sobre os artistas viajantes (mais próximos da prática dos naturalistas do que parece de início).
Um último comentário recai não diretamente sobre o texto, mas sobre três dos anúncios que o entremearam na revista. Seria importante esclarecer se essas três empresas, cujos anúncios usam diretamente a defesa da Amazônia como chamariz, financiam o projeto da série Arrabalde. Se o projeto seria uma espécie de “publi” dessas marcas. Ou se os três anúncios caíram ali fortuitamente.
Para não dizer que não falei das flores, o texto é excelente e mal posso esperar para ler a segunda parte.
NATHAN GOMES_ SÃO PAULO/SP
Da densa e esclarecedora série Arrabalde, de João Moreira Salles, comento apenas que durante a leitura sinto um aperto no estômago, só de pensar no Brasil das próximas décadas.
FRANCISCO CARLOS SOUZA BASTOS_ SÃO PAULO/SP
Gostaria de parabenizar a revista e, mais especificamente, João Moreira Salles, pela excelente série Arrabalde, sobre a Amazônia. Estranhei o fato de o artigo O elefante negro (piauí_169, outubro 2020) não constar na série, pois mesmo que seja sobre pandemias e a relação homem–natureza em geral, aborda os milhares (ou milhões) de espécies de vírus desconhecidos que podem habitar a selva. Aguardo discussões, nesta série, sobre a história e a dinâmica biológica do local e sua possível ligação com o Homo sapiens, em diálogo direto com o artigo de 2016 do arquiteto e pesquisador Paulo Tavares, In the Forest Ruins.
Aliás, o fato de um artigo assinado por um brasileiro sobre uma porção significativa do território nacional ter sido escrito diretamente em inglês é sintomático da falta de interesse nesse assunto tanto da população quanto de autoridades. Se a abordagem da série não tocar no tema, creio que vale a pena traduzir e publicar o artigo de Paulo Tavares na revista.
RODRIGO BARCELLOS MENDES_SÃO PAULO/SP
NOTA DOS BASTIDORES DA REDAÇÃO: Elefante negro foi apurado em 2019 como parte de Arrabalde. Seria a quinta ou sexta reportagem da série. Ocorre que sobreveio a pandemia e a urgência do tema se impôs. Como o texto não tinha as propriedades de um abre-alas para o conjunto, foi publicado como matéria avulsa.
RENDA BÁSICA
Admiro como a piauí traz coisas sérias para o noticiário nacional, a exemplo da série Arrabalde (a partir da piauí_170, novembro 2020), da matéria sobre assédio sexual na Globo (O que mais você quer, filha, para calar a boca?, piauí_171, dezembro 2020) e do rolo internacional envolvendo a Vale e Benjamin Steinmetz (O bilionário do barulho, piauí_171) – que recentemente apresentou denúncias contra a empresa no Brasil. Aliás, como a Consuelo Dieguez consegue extrair tanta informação?
Mas o que realmente me chamou a atenção foi o estudo econômico das relações trabalhistas e desigualdade na matéria Trabalhadores, uni-vos (piauí_171). E falar em desigualdade me remeteu ao elefante na sala: quando haverá mais matérias sobre o auxílio emergencial, como O levante (piauí_164, maio 2020), de Alessandra Orofino? Não vejo novidades desse calibre desde outubro, quando publicaram A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites (no site da piauí).
Anunciou-se que dezembro seria o último mês do pagamento emergencial do governo, pois se pretende “passar um sinal” aos investidores a respeito da austeridade fiscal – apesar do amplo reconhecimento (no BC, no FMI, no Banco Mundial…) dos efeitos macroeconômicos positivos do auxílio (que impediu uma recessão ainda pior, principalmente para os mais pobres) e do prognóstico otimista de experimentos com renda básica. Mas as eleições acabaram, certo? Em vez de cortar outros gastos ou de assumir maior endividamento (ao menos até a conclusão da vacinação), o governo escolheu cortar o apoio aos mais pobres, apesar da perspectiva de contração em janeiro. Mesmo assim, não vejo hoje, contra essa atitude, nenhuma movimentação social ou política semelhante à narrada por Orofino.
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
RESPOSTA ESCLARECEDORA DA REDAÇÃO: Demanda registrada, Ramiro. Sobre Consuelo Dieguez: como explicado inúmeras vezes nesta seção, nossa repórter é uma borboleta social do circuito Elizabeth Arden. Entre mojitos em Ibiza, daiquiris em Portofino e cosmopolitans em Acapulco, ela inquire, escuta e registra, chegando mesmo a tomar nota naqueles guarda-chuvinhas de papel que enfeitam os coquetéis dos elegantes desse mundo.
DIPLOMACIA DE ARAQUE
É com alegria que leio sobre a existência de Ereto da Brocha (O cronista misterioso do Itamaraty, piauí_171, dezembro 2020). Folgo em saber que o Itamaraty tem sua própria Elena Ferrante! E tivesse eu de arriscar um palpite sobre a identidade do misterioso cronista, cravaria as apostas no Chantecler (que, de resto, é o apelido que uso para me referir ao chanceler Ernesto Araújo, aqui em casa), saudoso colunista desta piauí.
Obrigada por nos manter sempre a par dos novíssimos escritores.
LUCIENE COSTA DE CASTRO_NITERÓI/RJ
RESPOSTA HERÉTICA DA REDAÇÃO: Como sentenciou o mestre Mika Waltari (Horóscopo, piauí_07, abril de 2007), “Chantecler é uno e múltiplo”. Quem sabe Ereto da Brocha não seja mesmo Chantecler? Ou Chantecler, Ernesto Araújo? Ou Ernesto, Araújo? Ou Araújo, Ernesto? Certeza mesmo, só uma: Ernesto Araújo não é diplomata.
A figura de Ernesto Araújo, mensalmente ridicularizada no BolsozApp Herald por sua enorme capacidade bajuladora e necessidade de demonstrar toda sua cultura inútil, encontrou um cronista apropriado, para a catarse da grande maioria dos diplomatas, conforme revela a seção Esquina, em O cronista misterioso do Itamaraty. Sob o jocoso pseudônimo Ereto da Brocha, nosso cronista justiceiro vinga-se do coisa-ruim, que ocupa o posto maior da nossa diplomacia, motivo de chacota internacional, comprometendo nossa imagem no mundo, já que o Itamaraty sempre se destacou no cenário internacional pela qualidade e competência de seus membros, que sempre defenderam nossos legítimos interesses, jamais se curvando, como atualmente acontece, com o alinhamento automático à política externa norte-americana.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
MARADONA
Após aquela triste quarta-feira marcada pela morte de Maradona, fiquei vidrado em tudo sobre o assunto, e me afundei em relatos sobre a vida dele. Acredito que a melhor definição foi a de Andrés Di Tella (A la mierda! Se murió!, piauí_171, dezembro 2020). Em meio a polêmicas, falas preconceituosas, atitudes históricas e heroicas, o argentino é complexo demais para se explicar: “O destino de Diego Maradona é como o símbolo de algo que estou prestes a entender.”
EDUARDO STATUTI_PORTO FERREIRA/SP
O BRASILEIRO NADA CORDIAL
Não pude conter meu desapontamento com a escolha do título após ler O brasileiro cordial (piauí_171, dezembro 2020), artigo de Paulo Lyra. É que, inevitavelmente, quem lê “brasileiro cordial” alimenta a expectativa de ser apresentado a mais um exemplo da figura mítica brasileira, o “homem cordial”, cunhada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Ao traçar o tipo social brasileiro, Holanda descreve uma criatura tomada de arroubo pelas emoções, desleixado, pouco racional e nada impessoal, que mistura relações familiares com questões de Estado sem pudor, uma “cordialidade” que não se materializa apenas em afagar os amigos com tapinhas nas costas, mas também em uma obstinada perseguição aos inimigos.
Paulo Lyra nos apresenta um gentleman, Marcolino Candau, tão consciente da postura impessoal que deveria ostentar como diretor-geral da OMS que “numa visita a um projeto de saneamento num vilarejo na Índia, aparece com o colete e o paletó totalmente abotoados”, e que mesmo após dois infartos que não comunicou sequer à própria família, prontamente retomou o trabalho na OMS, contrariando recomendações médicas. Homem polido, que por obra de suas relações profissionais conseguiu uma bolsa para estudar saúde pública na Universidade Johns Hopkins nos Estados Unidos, e que por força de suas habilidades diplomáticas, já morando na Suíça, garantiu à OMS “um curso independente das correntes políticas”, “um espaço de aproximação de diferentes grupos”. Isso é o absoluto oposto do que se convencionou chamar “brasileiro cordial”.
Posso estar enganado, mas se quisermos compreender com perfeição “o brasileiro cordial”, basta olharmos para o homem que hoje ocupa a Presidência de nossa República, recebendo seus ministros trajando paletó e chinelo ao lado de Zero Um, Zero Dois e Zero Três. E não consigo, apesar de todo esforço racional que eu empreenda, vê-lo, tal qual Candau com Ena, observando admirado a primeira-dama dedilhar um piano.
DIEGO VINÍCIUS VIEIRA_PATROCÍNIO/MG
NOTA ELEGANTE DA REDAÇÃO: No caso, o que menos ofende é o paletó com chinelo.
LENHA NA FOGUEIRA
Como um(a) adolescente pego(a) no contrapé argumentativo, a redação da piauí parte pra cima e diz que rigor conceitual é questão bizantina, em resposta ao leitor Tiago Marin. Que tem plena razão: dizer que quem se opõe é cego leva, certamente, a uma grande armadilha textual. E tem razão também o leitor Luiz Antonio Valente, ao registrar que cabe tematizar didaticamente o que considerarmos erros do passado (nosso “Águia de Haia” quis destruir os documentos da escravidão, lembram?). Quanto à importância de distinções conceituais: colocá-las em Bizâncio ou na Idade Média é cancelar também a “terapia conceitual” do Wittgenstein tardio, um dos maiores legados filosóficos do século XX. Saudações bizantinas, um tanto quanto ou perplexas com a virada quântico-terraplanista da revista.
PAULO OLIVEIRA_CAMPINAS/SP
NOTA INDIGNADA DA REDAÇÃO: Por que esse preconceito com Bizâncio? Pelos padrões de seu tempo, a sociedade bizantina foi eximiamente letrada, com um sistema universal de educação aberto a ambos os sexos. Se não, vejamos: pelas ruas de Bizâncio nunca se ouviu uma só menção a cloroquina, kit gay, climatismo, Ernesto Araújo, Olavo de Carvalho, Ricardo Salles, Zero Um, Dois ou Três. Wittgenstein aplaudiria (“O que não pode ser dito deve ser calado”).
MÉDICOS DIVIDIDOS
Sou médico intensivista em Belo Horizonte, onde trabalho há 25 anos, e compro a piauí nas bancas. Causa espanto não haver indignação com a omissão citada na reportagem Jalecos em guerra (piauí_169, outubro 2020), tanto da Associação Médica Brasileira quanto do Conselho Federal de Medicina em relação ao uso da cloroquina e outros procedimentos. A primeira entidade reúne as associações de especialidades no país com suas ditas câmaras científicas e a segunda é responsável pelo exercício ético da medicina, ou seja, do respeito às pessoas e à sociedade.
ANDRÉ RESENDE_BELO HORIZONTE/MG
SEGURANÇA PÚBLICA
Excelente o texto Democracia despedaçada (piauí_168, setembro 2020), de Luiz Eduardo Soares.
A redemocratização e a Constituinte 1988 nunca foram completas pelo fato de o serviço de segurança de viés militar carregar os vícios da ditadura, como os privilégios previdenciários. Sempre achei que as polícias – militar, federal, civil – não atendem às exigências republicanas para a segurança pública.
A dor é grande, principalmente pelo assassinato de inocentes, pobres e pretos, como é o caso recente das meninas Emilly e Rebeca, em Duque de Caxias (RJ). E a dor é maior ainda porque, na condição de cidadão privilegiado, não vislumbro como poderia contribuir para mudar essa realidade.
Em 1992 ou 1995, não lembro bem qual ano, me causou indignação saber da escolha do general Médici como patrono na formatura dos cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras, o que mostra que esse ambiente, sustentado por recursos públicos, forma oficiais que enxergam o povo brasileiro como o real inimigo e consideram necessária a tutela das Forças Armadas. Resultado: a eleição de um milico defenestrado do Exército, desclassificado, genocida, que compartilha dos mesmos valores de generais que historicamente vêm causando grande mal ao Brasil.
JOÃO CARMO VENDRAMIM_CAMPINAS/SP