máximas & mínimas

PAÍS ESTROPIADO

Aforismos da deformação brasileira
Imagem País estropiado

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Se o Brasil não existisse, talvez existissem os brasileiros.

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O ministro Guedes distribuiu 150 reais para que os pobres tenham alguma coisa na hora da morte. Mesmo que seja raiva.

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Ninguém larga a mão de ninguém até chegar a vacina por 500 reais na clínica particular.

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Quatro filhos zero à esquerda.

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Há sempre um inteligente para garantir que o verdadeiro liberalismo é bem bom. Claro que é preciso pagar pra ver.

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A pandemia revelou o segredo mais bem guardado da indústria cultural: não é preciso nem sequer reciclar o lixo.

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O Brasil perdeu o censo e o senso.

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Educação é prioridade, professores jamais.

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O William Bonner já havia queimado todo o seu estoque de expressões de dor e indignação quando a pandemia começou.

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Você ainda acredita na humanidade, em Deus e no valor de uso.

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Torcendo pelo dia em que acabem as lives do presidente.

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É preciso conversar com os filhos de 6 anos sobre a existência da Fada do Dente e o assassinato da Marielle Franco.

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A Família de Bem estava desconsolada durante o velório do CNPJ.

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Deu na mídia: “Hospital Albert Einstein atinge taxa de ocupação de 104%.”

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(para o Caetano Veloso)
Home office, delivery, take away, call, meet, live.
Baby

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O fim do futuro deixou de ser conversa de filósofo.

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Não pense nos vícios do homem, nem tampouco nas virtudes. Isso é papo para gregos e romanos.

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Falta moradia, emprego, renda e oxigênio.

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Banqueiros e economistas dão ultimato a Bolsonaro.
Capital, rogai por nós!

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Discute-se com ardor o paredão do BBB enquanto passa a autonomia do BC.

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O corpo da criança negra de 8 anos estraçalhado por um tiro de fuzil disparado por um PM não dura mais que um dia na mídia.

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As aulas de ioga insistem no conceito de impermanência. A pobreza também. E de graça.

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Você ainda quer que alguém faça a revolução por você. Na falta do proletariado, está valendo o movimento negro, feminista, LGBTQI+… Não importa. Você apoia todos do alto do seu apartamento de marfim.

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Tá mais pra Chernobil do que pra Segunda Guerra.

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Manifesto Comunista, Marx e Engels
R$ 0,0 – Kindle Unlimited

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O Zuenir Ventura errou de ano, o que nunca terminou foi 1964.

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Pior emprego do mundo: ombudsman do PT.

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Existe o ódio cego e o ódio refletido. O primeiro apoia Bolsonaro, o segundo é contra.

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(para o Paulo Arantes)
A nova e derradeira brasilianização do mundo será viral.

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O presidente Joe Biden liberou 1 trilhão de dólares para que os americanos não percam a fé no consumo.

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O Brasil tem commodity até no nome.

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Empresários brasileiros exigem poder comprar suas próprias vacinas. #RichLivesMatter

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A publicidade faz tudo ficar ultrapassado rápido demais. Ontem mesmo a gente achava o Temer a pior mercadoria, e o Bush é que era a vergonha dos norte-americanos.

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O ideal dos brasileiros superiores e bem-informados: bolsonarismo sem Bolsonaro.

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Um homem fez uma gambiarra com um cilindro de mergulho para continuar respirando enquanto aguardava um leito de UTI em Belém. O Roberto DaMatta vai elogiar a criatividade do brasileiro.

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Silvio Santos, com seu sorriso sádico, já anunciava o fascismo na década de 1980 lançando aviõezinhos de cédulas de dinheiro ao auditório fanatizado.

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A fila por um leito de UTI é o ato mais democrático na história da República brasileira.

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O Ailton Krenak falou que o Homo sapiens não deu certo. Afirmar que o Homo sapiens deu certo não muda em nada a situação.

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Elaborar o luto no Brasil é privilégio tanto quanto o saneamento básico e três refeições diárias.

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Marxistas uspianos conhecem melhor a Rive Gauche do que a Zona Leste.

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Na fila da padaria discute-se a alta da Bolsa, o novo indicado ao STF e a pulsão de morte.

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Intelectual que não mete o bedelho onde não é chamado é apenas um técnico tentando apertar os parafusos soltos da engenhoca capitalista.

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Não há nada mais parado que o movimento operário.

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Pode largar a Dialética do Esclarecimento. A Xuxa provou de uma vez por todas a relação entre indústria cultural e fascismo.

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(para a Vera Iaconelli)
Loki & Down.

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Foi-se o tempo em que a crítica da ciência, das grandes fortunas e do Jornal da Globo era coisa da esquerda.

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O novo coronavírus conseguiu a proeza de matar mais negros que a PM.

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O Millôr dizia que o Brasil tinha um grande passado pela frente. Até isso perdemos.

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A classe média descobriu o verdadeiro luxo brasileiro: no fim do dia estar vivo e com a pança cheia.

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Lula é um verdadeiro homem bíblico: já foi Jesus, Judas, Jó e Lázaro!

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O realismo literário insiste em contar uma história bem amarradinha para ninguém tropeçar no caos quando sair de casa.

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(para o Tales Ab’Sáber)
Enquanto os inteligentes do Brasil discutiam a proibição da burca em escolas francesas, o fascismo comum fermentava nas redes sociais e na Avenida Paulista.

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Trótski abriu a lata de lixo da história. Quem irá fechá-la?

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Tem gente ainda negociando aqui, agradando ali, por um lugar ao Sol. Enquanto isso, Jeff Bezos planeja morar na Lua.

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Quem nasceu em qualquer dia do século XX assistiu a umas poucas e boas atrocidades. Ao que tudo indica, a mesma regra vale pro XXI.

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A pulsão de morte explica o governo Bolsonaro, ou o governo Bolsonaro ilustra a pulsão de morte? O que importa é que no fim não entendemos o governo e muito menos o Freud.

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Mao Tsé-tung disse que ninguém trai a própria classe. Basta ler a opinião dos progressistas defendendo a volta às aulas presenciais em plena pandemia para lhe dar razão.

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“E daí?”

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O problema não é mais dinamitar sozinho a ilha de Manhattan. Mas, sim, a troco de que você faria isso.

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“Imigrantes bolivianos ilegais marcham contra o lockdown em São Paulo.”
A América Latina inventou o realismo fantástico e o capitalismo surreal.

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“Kopenhagen em Ipanema.”

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É tanto empresário defendendo a sobrevivência de seus empregados que o papa Francisco não vai ter agenda para canonizar toda a classe empresarial brasileira.

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Quando a brasilianização do mundo estava quase realizada, eis que demos novo salto atrás.

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Curso sobre a Escola de Frankfurt via Zoom. Cinco encontros de duas horas cada, 280 reais em três vezes. Bio do professor com link para o Lattes.

Ou: a uberização do intelectual.

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Nome de um genocida: B _ _ _ _ _ _ _ _
Forca!

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(para o Chico Alambert)
Uma anedota conta que Stálin costumava dizer que conhecia o povo melhor que Trótski, pois vinha de um canto pobre da Rússia, havia feito trabalho braçal etc., ao passo que o amigo era judeu, burguês e intelectual. Trótski teria concordado que nesse aspecto eles eram de fato muito diferentes, mas em outro eram idênticos: ambos haviam traído a própria classe.

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A vacinação contra a Covid vai também curar esse surto de apoio ao SUS entre a classe média.

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A sociedade moderna, que insiste em brotar aqui e ali no Brasil, é apenas erva daninha nascendo no meio da soja.

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(ao estilo de Brecht)
Que país é este onde jamais paramos de defender o óbvio?

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Putsch do Leite Condensado.”

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Um poeta concreto vai fazer um poema visual jogando com o significado do substantivo e do verbo luto.

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Chicago Boys: Arnold Harberger, Milton Friedman, Al Capone.

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– Por que ler Adorno hoje?
– Por que não?

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Enquanto o Thomas Piketty gasta mais de mil páginas para provar que o grande risco para a sobrevivência das sociedades ocidentais desenvolvidas é a desigualdade, no Brasil a gente se sente como se alguém tentasse nos vender a fórmula de Bhāskara.

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“Quem não está doente é doente.” Frase ouvida lá em 2018.

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(para o Roberto Schwarz)
“Relojoaria – Passa-se o ponto.”

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As crianças têm mais medo de uma nova cepa do que do bicho-papão.

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Megainvestidor estrangeiro afirma que os rendimentos no Brasil estão saudáveis.

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“Família vende tudo.”

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Polarização garantida para 2022: Oswald de Andrade versus Mário de Andrade.

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(para o pai do Chico)
O último milagre da procissão falhou: o pré-sal.

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Sinal dos tempos: intelectual crítico deseja que os Estados Unidos coloquem nosso governo de joelhos. E, se cortarem a cabeça, ainda melhor.

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Três coisas que o ministro Guedes não tolera: empresa estatal, empregada na Disney e pobre velho.

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O luto é o oxigênio dos brasileiros.

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(ao estilo de Kafka)
Brasil bate novo recorde de mortes por Covid em um único dia.
Empanar o bife à milanesa duas vezes.

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O que você mais deseja é não ter que voltar nunca mais para o mundo pré-pandemia. Não conte isso a ninguém. Eles não entenderiam.

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Viralizou?


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Escritor, crítico e editor, é autor dos romances O pai da menina morta e O seu terrível abraço, ambos da Todavia