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O PIOR CEGO É AQUELE QUE ACREDITA VER

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O SONHO INCONSTANTE

Correr a desabalada alegria das estradas
o vento à frente, nos ares do mundo
ao largo das valas profundas
armado dos cinco sentidos
no recorte arbitrário da paisagem
no embolado da arte
ao saber da razão destratada
e na certeza súbita e vã
de esbarrar em um acaso
que fique.

NÃO TEM DE SER

Ainsi périt le duc Richard de Portland,
le dernier lépreux du monde[1]
Auguste de Villiers de L’Isle-Adam

Eu era um vaso que chora
Sem medo da morte
Com medo de tudo
Vazio de lágrimas
Eu era um vaso

E ela insiste
Sempre
E agora

Você é um vaso que chora
Vazio de lágrimas
Com medo da morte

Existe gente assim
São os que inventam a vida

Ela é a graça que salva
Sempre

EU NÃO ME QUERO SENÃO COM DISSIMULADOS[2]

Nem a pena do ser
Apenas
nem tampouco o parecer
sensato
a dor de estar
descansa
como a dor
de amor
nos cotovelos

FEITO UM CEGO

Lontano lontano come un cieco m’hanno
portato per mano
.[3]
Giuseppe Ungaretti

O pior cego é aquele que acredita ver.
Tem a superstição do real
e se crê idealista.

TRISTES TRÓPICOS

Chuvas quentes, chuvas recifenses.
Na tepidez dessas chuvas estivais
molhada até os ossos
em doce anonimato
e à mercê do assombro

La eterna miseria que es el acto de recordar.[4]

NÃO PASSA

O passado é
não jaz com os mortos
não deixa rastros.

É súbito como um raio
ou como a morte súbita
intruso fincado na ausência.

E deixa-se esquecer.


[1] “Assim pereceu o duque Richard de Portland, o último leproso do mundo.” No conto Le Duc de Portland em Contes Cruels.

[2] Machado de Assis, em Quincas Borba.

[3] “Longe longe como um cego me levaram pela mão.” No poema Lontano.

[4] Virgilio Piñera, no poema La Isla en Peso.


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É sociólogo e poeta. Publicou A Estrela Fria (Companhia das Letras) e Encouraçado e Cosido Dentro da Pele (Confraria do Vento)