cartas
Out 2021 14h45
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CAPA
Sou grande fã de vocês e acompanho toda sexta o Foro de Teresina, meu podcast predileto.
Andando pela Avenida Paulista, dei de cara com piauí_180, setembro. Eu produzo charges para o boletim do Instituto Update, uma organização que atua com a pesquisa de prática de política na América Latina, e em 2019 fiz uma charge que renovei no dia 11 de agosto deste ano. Não pude deixar de notar a semelhança na imagem. Acredito que coincidências existem, e inspirações também. Se for nesse sentido, acho que seria de bom grado ter uma citação. Enfim, estou abrindo o espaço para um diálogo saudável.
VÍTOR MASSAO_SÃO PAULO/SP
NOTA SINCERA E ERUDITA DA REDAÇÃO: Lavoisier dizia que nada se cria, tudo se copia (ou algo assim). Pode ser, mas não é o caso aqui. O pensador a ser citado é Jung, aquele que falava em sincronicidades. Vocês sabem como é: mentes excepcionais captam no ar o espírito do tempo e chegam a conclusões semelhantes (ou algo assim). Temos orgulho em estar sincronizados contigo, Vítor.
PIAUÍ 180
A edição que anteviu a quase setembrada começou com a capa do despresidente maluquinho e seus brinquedos favoritos (piauí_180, setembro). Se proposital ou não, na arte de Caio Borges, fico instigado com os elementos à extrema direita (um carro de polícia) e à extrema esquerda (uma granada) serem os únicos que têm sombras de uma fonte luminosa distinta da dos demais objetos. Assim, nem vou me ater às análises do (mais um) golpe em curso de Fernando de Barros e Silva (O golpista encalacrado) e Sergio Fausto (Perigo à vista), mas tentar trazer à luz da literatura as idiossincrasias de relatos memoráveis da edição. Descubro com Michel Laub (Saudades do quê?) que há quem leia os comentários de postagens nas redes sociais, especialmente os que distorcem a revolução das músicas de minha juventude. E parece ser importante essa análise, mas me resguardo o direito de ler a conclusão pronta, na forma de um livro, talvez. Fico também à espera do livro sobre as filmagens de Iracema – Uma Transa Amazônica, pois acho que Orlando Senna e equipe deveriam explorar as incursões pelo Araguaia da guerrilha e buscar vossos nomes nos arquivos públicos, agora parcialmente colocados para consulta (Cinema e guerrilha). Milico adora guardar detalhes de seus feitos, mesmo que seja uma batida frustrada à busca de drogas, encontro com cineastas ou denúncias de comunistas comendo criancinhas. Por fim, a angústia das palavras de Adriana Negreiros (Aconteceu uma coisa ruim) fez-me torcer para que fosse ficção aquela crua, triste e criminosa realidade. Outra obra memorável que certamente terá existência além da reportagem, e para a qual, antes de ler, devo adquirir parte da coragem que a autora teve para relatar.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
Às vezes, me pergunto se há alguma espécie de escolha do leitmotiv de cada edição. Não levo isso muito a sério; provavelmente são só coincidências, e mais algum viés da minha parte. No caso da piauí_180, setembro, chamou minha atenção a frase de Orlando Senna (no artigo Cinema e guerrilha, referindo-se à Guerrilha do Araguaia) que encerra o relato sobre a filmagem de Iracema – Uma Transa Amazônica: “Foi à sombra dessa guerra e desse horror que, sem saber deles, fizemos o filme.” Ou Paulo Vicente Cruz, que quando pensa “em escrever um conto, um corpo cai” (Ficção). Isso me fez pensar em como a vida segue, enquanto tragédias que não ganham capa de jornal ocorrem por todo lado – à luz do dia, mas invisíveis: bolsões de miséria no interior do país, que, como destaca Rodrigo Soares de Cerqueira, se revelam na literatura regionalista (Entre a tradição e a ruptura); estupros que raramente são relatados, como o de Adriana Negreiros (Aconteceu uma coisa ruim); ou o drama das meninas de Cabul (Tudo já é passado); os teatros fechados em tempos de peste (Gaivota interrompida); ou como o transporte público brasileiro se tornou um importante, mas negligenciado, foco de transmissão de Covid-19 (O medo é constante, chefe). Num contraste direto com o relato do aristocrático Sergio Bermudes (“Eu não existi”), orgulhoso de seus amigos notáveis, de seus volumes do Corpus Juris Secundum e dos 117 discos de Ella Fitzgerald (que outras pessoas acessam pela internet), lembrando como o mundo prosseguiu enquanto ele não existia.
É claro que estou sendo seletivo em relação a evidências, ignorando a matéria sobre Renato Russo (Saudades do quê?) ou a investigação simplesmente genial de Allan de Abreu sobre o caso da Venerável Ordem Terceira e a kafkiana burocracia cartorial brasileira (Venerável desordem).
Mas o ponto central desta carta é que, às vezes, até a piauí negligencia alguém. Brian Winter se refere à destituição de “José Maurício Bustani de um órgão de controle de armas em Haia” (O parceiro silencioso). Não sei se o eufemismo foi proposital; mas, para mim, a frase soou como dizer que o cordial Candau presidiu “uma organização de saúde sediada em Genebra” ou que “em 2014, a Alemanha venceu o Brasil no Rio”. Bustani foi o presidente fundador da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq, na sigla em inglês), entidade que veio a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2013 pelo combate a esse tipo de arma de destruição em massa. Depois de ter sido unanimemente reeleito em 2000, Bustani foi demitido em 2002 por pressão explícita dos Estados Unidos – em razão de o trabalho da Opaq atrapalhar o casus belli para a invasão do Iraque. De fato, isso pouco tem a ver com a relação bilateral Estados Unidos x Brasil; é antes um exemplo de como posturas hawk unilaterais da América, como a saída da OMS em 2018 e do Afeganistão neste ano, podem ter consequências trágicas – inclusive para eles.
Tento ver o lado bom dessa história – que há heróis ignotos. Parafraseando José Almino (Poesia), Existe gente assim/São os que inventam a vida, e que frequentemente brilham nas Esquinas; graças a essa seção, agora assino o feed da Vovó Neuza, e minha namorada virou fã do podcast Estrada Sobrenatural.
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
NOTA CONFESSIONAL DA REDAÇÃO: Quem dera tivéssemos o engenho e a disciplina para organizar edições sutilíssimas em torno de assuntos que só os mais astutos seriam capazes de identificar. A verdade, Ramiro, é que tudo acontece meio por acaso. Quando leitores como você dão sentido à nossa desordem, sorrimos com certo ar de desprendimento, como se isso fosse natural, e espalhamos a notícia pelos coquetéis elegantes da cidade.
P.S.: Salvo engano, em 2014 a Alemanha venceu o Brasil em Belo Horizonte, não no Rio. A Cidade Maravilhosa já carrega culpas demais (vide: Primeira Família) para que se inclua mais essa tragédia no seu currículo.
NÃO ME REPRESENTA
Extraio da excelente análise do cientista político Sergio Fausto, Perigo à vista (piauí_180, setembro), o seguinte conceito: “O Centrão expressa, de forma condensada, a deterioração da representação parlamentar no Brasil ao longo do século XX.”
A gênese de tal fato deve-se à intervenção militar no país, que promoveu a modernização conservadora, aparelhando o Estado com a tecnocracia disponível e praticamente alijando a classe política desse processo ao impor uma democracia de fachada e criar um bipartidarismo, representado por um partido do governo (Arena) e outro de oposição emasculada (MDB).
Após a democratização, com o fim do Estado Novo, foram criados os partidos que representavam, então, nossa sociedade. As três maiores legendas com projeção nacional eram o PTB, a UDN e o PSD, representando respectivamente a esquerda populista, derivada do trabalhismo varguista, a direita e o centro. Havia também o PCB, tornado ilegal em 1947, mas que atuava clandestinamente, infiltrado no movimento sindical. A extrema direita era representada pelo PRP dos integralistas, liderados por Plínio Salgado. Existiam outras legendas com forte influência estadual, como o PSP, em São Paulo, do líder populista Ademar de Barros, e o PR em Minas Gerais. Outras legendas menores, mas expressivas, como o PSB, o PDC, o PTN, o PST e o PL do gaúcho Raul Pilla.
Havia, então, um Legislativo expressando bem a sociedade nas suas diversas tendências, assim como elevada qualidade dos debates parlamentares. A maioria dos seus representantes honrava o voto popular e demonstrava grande vocação pública.
O vazio criado pelos vinte anos de intervenção militar abortou a trajetória virtuosa do nosso Congresso, resultando na mediocridade atual apontada por Sergio Fausto, com a predominância do fisiologismo e a total submissão ao Poder Executivo. O perigo à vista seria outra desastrada intervenção militar e o mergulho nas trevas de uma ditadura.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
RENATO RUSSO
Em mesas de bar, sempre há quem puxe o assunto sobre qual seria o posicionamento político deste ou daquele cantor, vivo fosse. O consenso é que Gonzaguinha e Luiz Gonzaga estariam em campos opostos. O debate fica menos consensual quando alguém traz à mesa os nomes de Renato Russo e Raul Seixas. O artigo de Michel Laub (Saudades do quê?, piauí_180, setembro) é rico em argumentos a serem utilizados para quem vê um Renato anti-Bozo, mas não é o meu caso. Russo sempre tomou o cantor e compositor Morrissey como referencial, e apenas por isso suspeito que ele também seria “reaça” como o ex-vocalista da banda The Smiths, cuja homossexualidade não o impede de estar ao lado dos homofóbicos. Além do mais, há vários episódios de agressividade no histórico de Renato Russo, outra característica marcante da extrema direita.
ERASMO C. FIRMINO_GOVERNADOR DIX-SEPT ROSADO/RN
BERMUDES
O que justifica a destinação de três páginas de uma revista mensal a um texto como o do advogado Sergio Bermudes?
Não passou de autojactância, muito embora não assumida, sobre suas relações pessoais, memória, cultura e, por que não, grosseria com seus funcionários? Tentando disfarçar o juridiquês, o artigo não tem absolutamente nada de interessante, nenhum conteúdo além de autopromoção de um membro da nossa elite supostamente intelectualizada, mas que não tergiversa ao equiparar Lula com o miliciano do Planalto; o que, confesso, diminuiu até minha solidariedade com a parte triste do relato. Enfim, a publicação desse artigo em um espaço tão concorrido mostra que Bermudes deve ser realmente muito bem relacionado.
UMBERTO NOCE_BELO HORIZONTE/MG
D. R.
Quando nos conhecemos, você era só aquela grandona da banca que me lembrava a Caros Amigos. Fiquei te observando, meio tímido. Você sempre usava capas bonitas, coloridas e manchetes tentadoras, até que… Te peguei. Abri. Experimentei e me excitei: entretenimento, sabedoria, Millôr, quadrinhos… Me encantei com teu jeito inteligente e bem-humorado. E o toque final, sua autodefinição: “A revista para quem tem um parafuso a mais”, ou seja, eu. Certa vez, li um de seus pais dizendo que você era um olhar mais distante do calor dos fatos. Vencer seus artigos de dimensões quilométricas sempre foi uma tarefa deliciosa. O gozo de te ler completa, antes que chegue tua versão mais nova, é um desafio mensal. Confesso que só consegui completá-lo um punhado de vezes. Há alguns anos, celebrei nossa união estável, assinei o contrato e você passou a fazer parte da minha rotina. Apesar de algumas mudanças, nem sempre agradáveis, você tem sido bastante positiva pra mim. Me apresentou pessoas como o Toledo, o Sandoval, a Malu, o João, o Fernando e tantos outros que me ajudam a entender melhor o mundo e a vida. Poucas vezes tive coragem de te escrever, e fiquei surpreso ao ver minhas palavras e meu nome tatuado nas tuas páginas. Gosto muito de você e espero que nossa relação ainda se estenda por muitas décadas.
BRUNO CALHEIRA_ITABUNA/BA
NOTA NUPCIAL DA REDAÇÃO: Somos monogâmicos, Bruno. Não acreditamos em divórcio. Como os pombos e os católicos, nossa relação é para sempre.
NOTA NORMATIVA DA REDAÇÃO: Não existe qualquer obrigação de ler a revista inteira. Nós, por exemplo, nunca lemos.
DOM SEBASTIÃO
Em seu artigo A ascensão dos charlatões (piauí_176, maio), Peter Burke refere-se aos “falsos Sebastiões” que teriam tirado proveito do fato de o corpo do rei de Portugal dom Sebastião, morto na batalha marroquina de Alcácer Quibir (1578), jamais ter sido encontrado. Mas o corpo de dom Sebastião foi realmente encontrado no rescaldo da batalha e identificado por um seu moço da câmara e pelos principais fidalgos portugueses presos pelos marroquinos. O cadáver foi levado a enterrar por um juiz português também ali presente, Belchior do Amaral, que oficializou assim a morte e enviou testemunho da identificação e enterro do corpo do rei para o governo que ficou em Lisboa. A verificação do que aqui escrevo pode ser feita de forma simples, consultando as fontes coevas. Entre as mais conhecidas, contam-se a Jornada de África, de Jerónimo de Mendonça (1607), ou a Miscelânea, de Miguel Leitão de Andrada (1629), ambos participantes na batalha. Numerosas outras crônicas, impressas e manuscritas, o atestam.
Peter Burke não está sozinho na propagação dessa afirmação, digamos, não verdadeira: vários outros historiadores muito respeitáveis o fizeram antes dele, esquecendo a consulta das fontes primárias. Resta a questão de saber por que razão o reconhecimento da morte do rei, muito claro nas fontes da época, se tornou virtualmente invisível para a maioria da população portuguesa e inclusive para a mais informada sobre temas históricos. Na minha interpretação, isso aconteceu devido ao uso político dos rumores sobre a sobrevivência do rei, logo na época, mas também pela fortíssima construção literária feita em torno do sebastianismo, na cultura portuguesa posterior, principalmente nos séculos XIX e XX. Sobre esses assuntos acabo de publicar um livro, Morte e Ficção do Rei Dom Sebastião, Lisboa, edições Tinta-da-china.
ANDRÉ BELO_RENNES/FRANÇA