cartas
Nov 2021 18h15
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QUESTÕES VULTOSAS
Fernando de Barros e Silva nos alerta que Jair Bolsonaro está longe de ser um morto-vivo (Última chance, piauí_182, novembro). O zumbi do Alvorada claudica entre erros, omissões e delitos, e não há obstáculo que o faça cair. O Brasil é cada vez menos um arremedo de nação (apud Barros e Silva), mas ninguém de posse da água benta ou dos dentes de alho está disposto a arriscar as suas benesses federais. Eu cá matutei com os meus botões sobre as causas desse servilismo abjeto, e cheguei a uma conclusão ilustrada por dois episódios históricos aqui no Reino Unido.
Como Primeiro Lorde do Almirantado durante a Primeira Guerra Mundial, Winston Churchill engendrou o desastroso assalto a Galípoli (Turquia), que resultou na morte de mais de 200 mil soldados aliados. Churchill assumiu o erro, renunciou e imediatamente juntou-se às tropas britânicas que lutavam na Europa. Ele poderia ter assumido um posto seguro na retaguarda, mas não: serviu por seis meses na Frente Ocidental, onde a taxa de baixas por morte ou ferimento era de 55%.
Em 1961, o secretário de Estado (equivalente a ministro no Brasil) John Profumo começou um caso extraconjugal com uma rapariga que simultaneamente andava com um adido naval soviético. No auge da Guerra Fria, o “caso Profumo” causou um escândalo quando revelado pela imprensa. Apesar de não ter cometido nenhum deslize que comprometesse a segurança nacional, John Profumo renunciou ao cargo e, pelo resto da vida, trabalhou como voluntário em uma instituição de caridade.
Winston Churchill e John Profumo possuíam um dos mais caros e incomuns atributos de um governante ou político: vergonha na cara.
ATHAYDE TONHASCA JR._PERTH/REINO UNIDO
POLÍCIA FEDERAL
A devassa promovida pelo repórter Allan de Abreu nos meandros da Polícia Federal sob a gestão do atual governo – um trabalho investigativo primoroso sob o título de O aparelho (piauí_182, novembro) – revela, passo a passo, a tentativa de desmonte de um dos mais importantes organismos de Estado, criado constitucionalmente para a defesa contra crimes de toda espécie envolvendo a ordem pública, e uma gama enorme de atribuições. Por meio de uma ousada apropriação pelo governante de plantão, que subverte a estrutura original da PF e a submete aos seus desígnios, há uma tentativa de arremedo de criar uma milícia tão do agrado de ditadores.
O trabalho conjunto da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de juízes de primeira instância revelou a existência de um modus operandi no qual as maiores empreiteiras do país financiaram partidos políticos, numa simbiose escabrosa, que chocou a opinião pública. Como consequência, ocorreu a prisão de empresários e políticos, com perdas de mandatos.
Essa autêntica solapada da PF faz parte do desmonte daquele trabalho que provocou tanta esperança no povo brasileiro, cansado da impunidade dos poderosos, os quais rapidamente se organizaram e já estão dando a resposta, tal qual na Itália com a Operação Mãos Limpas.
Parabéns, também, à piauí por estar abrindo um espaço maior para as atividades literárias, como é o caso do surpreendente texto Carta às cabeças brasileiras do futuro, da talentosa escritora carioca Eliana Alves Cruz, uma autêntica revelação.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
GRANDE ALDIR BLANC
A piauí_182, novembro, nos traz uma matéria que alivia, e muito, a barra em que vivemos: Que falta nos faz um país, de Leonardo Lichote, mostra em detalhes a gravação de um disco, contendo letras inéditas do grande poeta Aldir Blanc, por mim denominado “O Gigante da Muda”. Nesta altura do campeonato, é um bálsamo poder ser apresentado a pedaços de poesia, que nos provocam inúmeras sensações e nos dão a impressão de, quem sabe?, um futuro mais luminoso.
Temos que agradecer a Mari Lucia Sá Freire, que em um trabalho meticuloso, foi descobrindo trechos do profícuo trabalho e do talento do Aldir. É difícil não se emocionar com algumas letras, tais como a de Baião da Muda, que diz: Quem que se deixou amordaçar/E aí se foi sem reclamar/Sem dizer sim nem que não/Quem que avoou sem nenhum pio/Foi lá pras bandas de outro rio/Ave de arribação.
Gostaria de destacar, na mesma edição, o trabalho investigativo de Allan de Abreu (O aparelho), no qual fica evidente o trabalho competente – sim, para esse tipo de coisa ele é muito competente – do presidente Jair Bolsonaro em aparelhar e se apossar do poder global da Polícia Federal, que hoje, ao que nos consta, é um órgão auxiliar do poder bolsonariano, servindo aos seus propósitos, seus filhos, amigos e grupos de seu interesse.
ANTONIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA
CAMPO SEMÂNTICO
Escrevo apenas para apontar um pequeno anacronismo cometido na piauí_182, novembro.
Na seção Esquina, o texto Abrigo de cérebros, de Consuelo Dieguez, afirma que, em 1940, Motel e Genny Gleizer atuavam no “Partido Comunista Brasileiro”. Entretanto, desde sua fundação em 1922 até a divisão do partido em 1962, o então único partido comunista no país se identificava como PCB, Partido Comunista do Brasil.
Foi apenas em 1962 que o partido se dividiu em duas partes, a minoritária mantendo o nome original (o PCdoB) e a outra passando a adotar o nome Partido Comunista Brasileiro.
A mudança de nome é um dos motivos (dos menos importantes, creio) da cisão do partido e foi proposta como parte das tentativas de legalizá-lo, já que se acusava o “do Brasil” de significar que ele não passava de mera sucursal do PCUS a atuar no Brasil, apesar de “do Brasil” e “Brasileiro” serem semanticamente iguais.
ELTON BOVOLATO DE CASTRO_SÃO CARLOS/SP
LIVROS
Sobre a reportagem Pânico nas livrarias (piauí_182, novembro), faltou relatar sobre o efeito Amazon nos preços dos livros. Por terem que dar descontos de até 70%, as editoras têm aumentado o valor do preço de capa, mantendo assim a sua margem e deixando cada vez mais vulneráveis as pequenas livrarias.
BENJAMIN MAGALHÃES_RIO DE JANEIRO/RJ
COMENTÁRIO À CARTA DO LEITOR
Peço vênia a sua majestade, o Pinguim, para um comentário adicional à carta do leitor Pablo Borges Paz (piauí_182, novembro), a propósito do artigo Perigo à vista, de autoria de Sergio Fausto (piauí_180, setembro). Direto ao ponto: na ditadura militar não se compravam votos, punia-se o rebelde com cassação, prisão e outros que tais; o Centrão, como o conhecemos, surgiu na reta final da Constituição de 1988, orquestrado pelo conservadorismo de direita e regido pela agridoce figura de Roberto Cardoso Alves, o “Robertão”; a politização do franciscano “é dando que recebemos” também tem tudo a ver com o popular e longevo caixa dois. Basta que se diga que nos anos 1950 Ademar de Barros usava como jingle de campanha sua famosa “caixinha”, supostamente destinada a educação, saúde e obras públicas, mas que lubrificava seu partido, o PSP. Assim foi, assim é: Pátria amada, Brasil!
P.S.: Assessoria histórica sem custo para os arquivos pinguínicos:
1) A famosa frase atribuída a Magalhães Pinto sobre a política e as nuvens em realidade foi dita muito antes por Wenceslau Braz. É o que assegura Afonso Arinos de Mello Franco, em sua obra Um Estadista da República. Magalhães Pinto só pegou carona;
2) O tal “jabuti”, tão em moda atualmente, foi criado por Vitorino Freire (PSD-MA) nos anos 1950, ao dizer que o simpático animalzinho não subia em árvore, ou seja, alguém o colocava lá, como se faz atualmente ao se incluir temas estranhos a um projeto em tramitação, por meio de emendas.
EVANDRO FONSECA PARANAGUÁ_BRASÍLIA/DF
NOTA EXORTATÓRIA DA REDAÇÃO: O complemento nominal (ou seria adjunto adnominal?) “sem custo para os arquivos pinguínicos” figura entre os mais belos do idioma. Difícil encontrar seis palavras que provoquem emoção tão forte.
APÊNDICE À NOTA EXORTATÓRIA DA REDAÇÃO: A famosa frase que Magalhães Pinto surrupiou de Wenceslau Braz na verdade são três: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou.” Note-se que nenhuma delas tem a potência lírica de “sem custo para os arquivos pinguínicos”.
AÇÚCAR NA VEIA
Quase não escrevo esta cartinha: minha namorada (que pediu para registrar que a revista impressa não chegou de novo) disse que não entendo nada de culinária, e que só faço isso por inveja de missivistas frequentes como o Dirceu Luiz Natal. Mas minha causa é justa, pois a excelente reportagem O leite que condensa o Brasil, de Juliana Faddul, (piauí_182, novembro) tem duas lacunas: a) não há menção ao beijinho; b) carece de uma apologia definitiva (talvez até patriótica) do brigadeiro. Ouso afirmar que, entre os doces, equivale ao nosso pão de queijo (vocês se lembram de O irresistível pão de queijo da Yara?, vide Questões de forno e fogão, 12 agosto de 2011, no site da piauí).
Para ser justo: discutir o beijinho talvez não seja tão relevante, porque é basicamente leite condensado cozido com o que quer que você tenha à mão. Assim, se você se confundir e usar espinafre em pó, por exemplo, o desfecho será um beijinho de espinafre, não um brigadeiro de espinafre. Sem querer ofender um eventual amante do beijinho, é bem provável que esse doce tenha surgido quando alguém, após ter prometido um brigadeiro ao namorado, e percebendo a ausência de cacau na cozinha (provavelmente consumido na larica da véspera), decidiu improvisar com coco ou açúcar (ou qualquer outra coisa) – dando ao resultado esse nome sugestivo (branding é tudo).
Quero registrar que endosso a crítica de que os doces nacionais são exageradamente açucarados – até para me desvincular de meus ancestrais de Pelotas (que têm uma formiga por mascote) e do hábito vexatório de mamar Leite Moça direto da lata na infância. E que acho que a Anvisa deveria incluir chocolate granulado na lista de substâncias tóxicas ou controladas. Mas, primeiro, acho um pouco injusto quando a crítica é associada aos franceses, um povo que popularizou o consumo matinal de uma meia-lua gordurosa e adocicada, e que coloca geleia em qualquer coisa. Segundo, condenar o brigadeiro pelo excesso de açúcar de algumas receitas é como condenar o sushi paulista por causa do temaki skin; ou, numa analogia mais adequada, condenar o chocolate em geral por causa de sua versão belga. Ah, eles podem comer fritas com maionese, mas, como falam francês, ninguém reclama.
Meu ponto: usando cacau em pó, você tem a liberdade de escolher a proporção de açúcar que quiser – basta adicionar mais cacau, ou outros ingredientes como amendoim, castanhas, café, frutas, proteína (soja ou whey – com albumina, vira omelete) etc. Claro, isso interfere no ponto de cozimento e na consistência, mas tudo bem: ainda que possa entortar as colheres mais frágeis, ou até substituir a bolinha do pebolim, mesmo o mais duro brigadeiro da história amolece após dez segundos no micro-ondas. Enfim, é importante expandir as possibilidades e ser tolerante com o gosto de cada um (desde que não use granulado).
Talvez essa sugestão de misturas ofenda os pudores dos mais tradicionalistas, saudosos da sobremesa da vovó, que retrucariam que isso já não é mais brigadeiro; mas eu procuro não me guiar muito pela minha avó, que ainda tem dificuldade para entender ou aceitar coisas básicas, como casamento entre pessoas do mesmo sexo, linguiça vegana ou TikTok (admito que esse nem eu entendo). Onde quer que se misture cacau e leite condensado, aí estará a essência do brigadeiro.
Enfim, vocês têm abordado tantos temas gastronômicos nas últimas edições (é chef de ditador, é bolinho de feijoada etc.) que podiam ressuscitar as Questões de forno e fogão da Cozinha Transcendental – talvez acrescentando comentários nerds do Bernardo Esteves para explicar as propriedades químicas das reações e misturas causadas pelo preparo, ou da Consuelo Dieguez sobre a história de algum escândalo envolvendo as preferências de magnatas etc.
Claro, o assunto fica um pouco menos engraçado quando vocês nos lembram dos milhões de brasileiros com fome ou insegurança alimentar – muitos catando restos no lixo do supermercado para sobreviver. Mas diversão não é tudo: obrigado por não nos deixarem esquecer isto.
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
NOTA DULCÍSSIMA DA REDAÇÃO: Assim como os bolos que você, neto ingrato, via sair olorosos e fumegantes do forno divino da prendada avó, essa resposta também será servida em fatias: (1) Prezada namorada, torcemos para que o exemplar tenha chegado; caso contrário, entre em contato; (2) Não há nada de errado em invejar Dirceu Luiz Natal. Leitores como ele são mesmo invejáveis; (3) Concordamos com a recomendação de incluir o chocolate granulado na lista das substâncias tóxicas. Mas por que parar aí? E a pizza doce? E o cream cheese no sushi? Nem que seja por pura precaução (vai que alguém se anima), e o teu beijinho de espinafre?; (4) Instada a colaborar com pautas gastronômicas, Consuelo Dieguez declarou que começará a publicar uma resenha elegante dos restaurantes mais finos de Ibiza; (5) Além do pão de queijo da Yara, você chegou a ler o nosso Tratado Geral da Goiabada, publicado logo no segundo número da piauí, em novembro de 2006? De tão bom, leva a crer que de lá para cá foi tudo ladeira abaixo.
EVANGELHOS
A piauí_181, outubro, destoa do que a revista vem publicando habitualmente, exceto pela ótima matéria As palavras e a felicidade, de Marcelo Musa Cavallari. Tirante a descrição da bem-aventurança na tradução, a edição está muito ruim, com muito nervosismo e opinião, sem concretude, enfim, uma edição superpanfletária. Só para deixar claro, acho abominável o governo de plantão, mas a revista tem sua reputação fundada no rigor jornalístico, e não na escrita raivosa e emocional.
LEONARDO ANDRÉ GANDARA_BELO HORIZONTE/MG
NEGOÇIÃO
O artigo Pequenos fascismos, grandes negócios (piauí_181, outubro) nos remete a uma crítica aberta ao bolsonarismo. Beleza. Porém, o autor se mostra totalmente perdido ao afirmar que “mesmo em condições normais, o mercado sempre produz muito mais perdedores que vencedores”. Em que aula de economia o autor se perdeu? Como essa afamada instituição denominada revista piauí pretende combater esse mal?
Aproveito a oportunidade para fazer minha campanha pela anarquia. Ora, os jornalistas estão tão perdidos e abduzidos pelo culto à personalidade que não percebem que, desde que o smartphone surgiu, o sistema anarquista de poder tornou-se possível. Sim. Basta com políticos. Já podemos votar em tudo, a qualquer momento. Já existe o blockchain. Um aplicativo pode governar um país.
Apenas o Judiciário pode permanecer em hierarquia. O Legislativo e o Executivo podem funcionar em anarquia, “smart-phone-based”: #downloadanarquia
MARCELO ALCANTARA_SANTOS/SP
NOTA CONFORMADA DA REDAÇÃO: Infelizmente, concordamos. Faz tempo que nós aqui só funcionamos na base da anarquia.