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AS EMAS DO ALVORADA É QUE PAGAM O PATO

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POR UM FIO

A capa da piauí_184, janeiro, apesar de não ser uma das minhas favoritas da revista, é uma das que mais conversou com o recheio dela em todos esses anos que assino. O Brasil claramente vive um período de luto há tempos (sem contar a pandemia) e as reportagens da edição trazem isso: luto pelo fim do Programa Mais Médicos, luto pelo rompimento de barragens no país, luto pelas mulheres que morrem todos os dias devido ao aborto não legalizado, luto pela guerra às drogas que não dá certo e luto por aqueles que morrem em decorrência da homofobia. Não creio que este será nosso ano de superação, mas ainda acredito neste país.

Que venham, no futuro, mais capas cômicas e alegres!

GUSTAVO RIGONATO_AMERICANA/SP

LULA E A TERCEIRA VIA

O jornalista Fernando de Barros e Silva, no artigo Lula e o “melhor do PSDB” (piauí_184, janeiro), tem razão ao concluir o texto advertindo que a situação do Brasil é terminal, e que não se fala em consolidar as instituições ou ampliar os horizontes da democracia, mas em salvá-las da destruição. Realmente a reeleição de Bolsonaro será um desastre completo, motivo pelo qual aqueles que têm consciência desse fato devem estar atentos ao desenrolar dos acontecimentos.

Lula, por ser pragmático, fez um importante aceno a um adversário histórico, Geraldo Alckmin, para compor sua chapa presidencial. Não deixa de ser um lance de mestre, mas que encontrará enorme resistência entre a militância petista, além do receio da figura do vice assumir o lugar do titular, como ocorreu em vários momentos de nossa história recente. O lado positivo seria também uma tentativa de restaurar a social-democracia no país, pois tanto os tucanos como os petistas foram os responsáveis pelos melhores momentos de nossa democracia após a ditadura militar.

Lula só tem a ganhar com tal convite, pois revelou seu lado negociador, que prevalece sobre seus pronunciamentos mais radicais, que só agradam à militância. Alckmin é quem eventualmente pode perder ao desistir de uma candidatura ao governo de São Paulo.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

VARIEGADOS

No artigo de estreia na revista, Meg Weeks acompanhou o périplo de Mariana para poder abortar (Em nome da mãe, piauí_184, janeiro). Porém, a autora não citou outras situações análogas relativas aos direitos reprodutivos, tal como a extensa reportagem anterior de Angélica Santa Cruz (“A gente acolhe”, piauí_174, março de 2021), que foi comentada em carta na edição seguinte. A referenciação creio ser importante para situar a questão, no âmbito da revista em primeiro lugar, e também no acompanhamento dos retrocessos legais quanto à descriminalização do aborto que teimam em acontecer em nosso país. No mais, no trabalho de Meg Weeks chama a atenção que há redes de viabilização do aborto fora do Brasil, com estrutura adequada, confiável e de acompanhamento pós-intervenção. Parece não ser tão complicado para ser adotado como modelo, vencida a polêmica, muito mais moralista e pseudorreligiosa do que legal ou biológica. E foi útil saber que o uso de milhas aéreas pode ter um fim muito mais nobre do que bancar ininterruptas e irritantes propagandas na tevê de conhecida empresa/site que vende passagens e pacotes turísticos por meio desse artifício.

Já na piauí_183, dezembro de 2021, o diálogo entre Fernando de Barros e Silva (Cinquenta tons de direita) e a Esquina de João Batista Jr. (O puxador de votos) foi providencial, para ilustrar que nunca houve uma terceira via, mas tão somente uma direita com maquiagens distintas, pragmática, mais ou menos bolsonarista a depender do calor – e do valor – do momento. Faltou uma menção à expressão original do livro de E. L. James, adaptada por Guilherme Boulos no primeiro debate presidencial de 2018, quando se referiu aos outros candidatos como sendo os “cinquenta tons de Temer” (Lula estava preso e Haddad ainda não o havia substituído). Sabemos que por mais um ano haverá algumas construções e muitas destruições político-governamentais, e as amostras de tais articulações no Legislativo (Arthur, o miúdo, de Angélica Santa Cruz) e Executivo (Na encruzilhada, de Consuelo Dieguez) estão dadas e fadadas a rumar para o inevitável abismo. Esperanças natalinas? Ainda que o bom velhinho também esteja de partida do Brasil, como vemos pela capa da edição, há que se considerar que, na festa de fim de ano no Palácio do Planalto, com pronunciamentos de presidente e ministros, a única coisa mais próxima da realidade foi o Papai Noel lá presente. Assim, para um Feliz 2023, torço para que tenhamos um 2022 de muito trabalho político, democrático, institucional e eleitoral.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

CARTA SOBRE UMA CARTA

Primeiro, minha gratidão a Adriana Hellering (Cartas, piauí_184, janeiro), por nos lembrar dos passarinhos – e a vocês pelas dicas sobre o que funciona ou não para poupá-los. Num país onde crianças morrem por falta de médicos, e mulheres por serem obrigadas a levar uma gestação indesejada até o fim, adesivar janelas é uma forma de resistência. Ainda mais em São Paulo.

Também agradeço a Meg Weeks pela matéria Em nome da mãe (agora aberta ao público!), na mesma edição, e ao projeto Milhas pela Vida das Mulheres – cujo trabalho deveria ser bem mais conhecido, a fim de conscientizar a sociedade sobre os riscos do aborto clandestino no Brasil e a possibilidade de fazê-lo em segurança em países vizinhos.

Agora, o textão.

Pesquisei sobre a ação proposta pelo Psol e pela Anis visando à descriminalização do aborto – a ADPF 442/DF. Embora exista um precedente na 1ª Turma do STF (HC 124306/RJ) comprando a tese de admitir o aborto voluntário nas doze primeiras semanas da gestação, acho difícil que o plenário venha a concluir o julgamento de forma positiva nos próximos anos – além da existência de certa resistência de setores da sociedade (e de algumas autoridades, como o atual PGR), não seria difícil atrasar a decisão mediante pedidos de vistas.

Fico surpreso que não tenhamos avançado mais nesse tema “comendo pelas beiradas”, pacificando mais interpretações que flexibilizem o ônus de provar a ocorrência das exceções legais (li uma matéria da Folha de S.Paulo de 29/07/2018 referindo que não seria necessário comprovar a ocorrência do estupro e que bastaria procurar uma unidade de saúde – mas já ouvi anedotas relatando o contrário), a fim de criar para a doutrina jurídica uma “ladeira escorregadia” conducente à descriminalização. Pesquisei um pouco o assunto, e fiquei um tanto frustrado por não encontrar uma literatura específica focando aborto em caso de gravidez na adolescência; é no mínimo estranho que pessoas que não são consideradas (legalmente) responsáveis o suficiente para dirigir um carro sejam obrigadas a assumir as responsabilidades da gestação e da maternidade. Mais ainda porque é consenso que a gravidez precoce – além do impacto socialmente adverso sobre as perspectivas de vida a longo prazo da gestante e do nascituro – implica risco à saúde: a) da gestante e b) do nascituro (risco aumentado de complicações neonatais e mortalidade infantil: há um gráfico interessante do Centro de Controle e Prevenção de Doenças mostrando que, nos Estados Unidos, a mortalidade infantil referente a gestantes com menos de 20 anos é quase o dobro da taxa relativa a mães entre 30 e 34 anos de idade).

RAMIRO PERES_SÃO PAULO/SP

ARMÁRIO ABERTO

Achei o texto do Marco Pigossi (Eu me sinto invencível, piauí_184, janeiro) extremamente “Ai, como é difícil ser um homem branco educado padrãozinho cis rico… não dá nem para se assumir sem correr o risco de perder o papel de galã de novela das 9!”. Poxa, que barra, menina! E, para que fique claro, o problema não é ele ter problemas apropriados à realidade dele e escrever sobre coisas que importam para ele. Todo mundo tem seu lugar de fala e todo mundo tem direito de falar a partir dele. O problema é ele escrever um texto egocêntrico, cheio de autopiedade e pouca consciência de seus privilégios e trivialidades. Muito melhor seria um texto com uma pegada “Poxa, se foi difícil para mim, imagina para outros em situações infinitamente mais vulneráveis, imagina o quanto ainda temos que caminhar, vamos falar sobre isso?”. Pior ainda é todo mundo aplaudir como se ele fosse um herói. Pigossi é tão ingenuozinho, se preocupou esse tempo todo à toa! Gay branco, rico, cis, padrãozinho é sempre aplaudido.

IURI BAPTISTA_CAMPINAS/SP

VIK MUNIZ

Na reportagem Feira extraordinária, da magnífica Clara Rellstab na piauí_183, dezembro de 2021, há um pequeno equívoco: ela menciona que a Feira de São Joaquim tem 39 mil m² de extensão. Metragem quadrada é medida de área, extensão é comprimento. Tico e Teco aqui acham que a feira tem 39 mil m² de área. E olha que raramente eles concordam entre si!

FÁBIO BATALHA_DUQUE DE CAXIAS/RJ

NOTA BIOGRÁFICA DA REDAÇÃO: Clara Rellstab foi sempre considerada magnífica por todos que tiveram a ventura de conhecê-la. A única exceção foi o seu professor de geometria (que a considerava apenas estupenda). Abra uma champanhota para Tico e Teco, eles estão de parabéns (pena que não possamos dizer a mesma coisa do nosso departamento de Checagem e Revisão).

EXPLOSIVO

Senhores, em nome do suposto rigor: O atual presidente da República, Jair Bolsonaro, NÃO foi para a reserva porque planejou explodir bombas em quartel, fosse assim teria sido expulso sem direito a soldo (Na encruzilhada, piauí_183, dezembro). Ocorre que quando um militar se candidata, entra em licença, se eleito, vai para a reserva remunerada, se não eleito, volta para o quartel. No caso do dito-cujo, ele foi eleito, então saiu conforme acima. “Jornalismo independente, rigoroso e apartidário”: verdade, ou mais um órgão impresso a vilipendiá-la? Não posso crer que seja desconhecimento da jornalista, mas se for, há que ver por aí quem anda em vossas páginas.

JÉSU ANTOMAR_PORTO ALEGRE/RS

NOTA SOBRE QUEM ANDA PELAS NOSSAS PÁGINAS: É tanta gente, Jésu, que até perdemos a conta. Importa aqui lembrar uma dessas pessoas, o grande repórter Luiz Maklouf Carvalho, morto prematuramente em 2020. Mak, como todos o chamavam, é autor de uma biografia seminal do presidente. Nela, fica claro que Bolsonaro teve, sim, que deixar o Exército porque planejou explodir bombas em quartéis. Em janeiro de 1988, o Conselho de Justificação das Forças Armadas o condenou por um sonoro placar de três a zero. O caso foi encaminhado ao Superior Tribunal Militar, que, em junho daquele ano, encontrou uma saída salomônica: absolveu-o, deixando subentendido que ele se apressasse a abandonar o Exército por livre e espontânea vontade. Bolsonaro optou pela política e, em novembro, elegeu-se vereador pelo Rio de Janeiro. Até as emas do Alvorada sabem disso e é de se perguntar se não hesitaram em aceitar os tabletes de cloroquina por desconfiarem da sensatez daquele que já foi chamado de “mau militar” por um general-presidente. Mas tergiversamos. Antes de nos despedirmos, urge passar adiante um recado que nos chega de um dos cassinos mais elegantes de Ibiza. Diretamente de um jogo de chemin de fer (o preferido de James Bond!), a repórter Consuelo Dieguez manda avisar que sua matéria não diz que Bolsonaro foi expulso do Exército, mas que o atentado o empurrou para a reserva. No que uma ema mais sagaz talvez comente com a amiga: e ficamos nós aqui a pagar essa conta.

BERMUDES

No artigo “Eu não existi” (piauí_180, setembro de 2021), vemos um senhor, Sergio Bermudes, numa foto com uma estante de imponentes livros encadernados (uma coleção de jurisprudências?). Devido à Covid, ele teria ficado inconsciente por um ano. Vemos sua vida surgir no texto. Uma trajetória dentro do exercício do direito no Rio de Janeiro. Seu gosto refinado, todos os seus discos de Ella Fitzgerald, suas relações pessoais com ex-presidentes e artistas. E muita cultura com demonstrações de erudição. De passagem, há a informação da sucessão na Academia Brasileira de Letras. Dos candidatos, que agora foram eleitos, estão Gilberto Gil e Fernanda Montenegro. Ficamos sabendo que nessa imortalidade operam influências e forças tão terrenas.

Contudo, na seção Cartas do mês de outubro, o leitor Umberto Noce demonstra indignação com a piauí por dar espaço àquele senhor que iguala o atual ocupante da Presidência deste país a Lula. Pessoalmente, gostei do texto. Acho que essa revista tem a ver com o mundo diverso (o leitor sugere que na publicação houve uma demonstração da força das relações do personagem).

Mas diante de todas essas considerações, gostaria de dizer que concordo com o leitor: houve jactância.

ANDRÉ LUIZ RESENDE DE SOUZA_BELO HORIZONTE/MG

NOTA FILOSÓFICA DA REDAÇÃO SÓ PARA DAR UM JEITO DE REPETIR A PALAVRA “JACTÂNCIA”: Abstraindo-se do artigo em questão – esta nota é impessoal –, nós aqui na redação ficamos nos perguntando se a tal da jactância (de novo!) não faz parte da vasta experiência humana. E se faz, se ela não tem lugar nesse tal “mundo diverso” sobre o qual devemos nos debruçar.

BOLA DE CRISTAL

“Quando será o golpe?” (de Jair Bolsonaro), pergunta André Petry, na piauí_178, julho de 2021.

Meu palpite é que a tentativa de golpe será logo após o primeiro turno, dia 2 de outubro, se Lula estiver à frente do total de votos de Bolsonaro. A raiva será ainda maior se Moro for disputar com Lula o segundo turno, dia 30 de outubro. Armas, dinheiro para as Forças Armadas, aumentos salariais para policiais federais e cooptação de forças estaduais, é tudo preparação para o golpe que vai sair pela culatra. Bolsonaro deveria ser preso com seu clã e seus generais milicianos palacianos de plantão. É a caquistocracia em seu esplendor.

PAULO SERGIO ARISI_PORTO ALEGRE/RS

UNIVERSIDADE

Não sou da área acadêmica, mas gostei do artigo do autor anônimo (sob o pseudônimo Benamê Kamu Almudras), Parece revolução, mas é só neoliberalismo (piauí_172, janeiro de 2021). As questões levantadas no artigo inicial me fizeram refletir, e acredito que o autor (ou a autora) parece ter mais reflexões singulares para outros debates. A escolha do anonimato me pareceu estratégica para mostrar que o importante é a discussão de ideias, e não necessariamente personalizar o debate, mesmo porque já se conhece as “vaidades acadêmicas”. Eu conheço, e é um porre.

CESAR POLACHINI_SÃO PAULO/SP


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