cartas
Fev 2022 15h47
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CAPA
Bela capa de fevereiro, mais que merecida para a grande Elza Soares, amiga de meu pai.
Ficou apenas uma pergunta: Por que o Nei Lopes e a Cléa Maria Ferreira deixaram de fora o… Pelé?!!
BILLY BLANCO JR._RIO DE JANEIRO/RJ
Como leitor da revista e admirador do projeto, acho que a capa da piauí_185, fevereiro, foi o mais grave erro de vocês nesta já longa jornada. A homenagem a Elza Soares é muita justa, mas a seleção de Nei Lopes e de Cléa Maria Ferreira, ao escolher as cinquenta personalidades brasileiras, foi desastrosa por ser antidemocrática e injusta. Antidemocrática porque seria muito mais amplo e plural ouvir por um ou dois dias leitores e assinantes. Injusta porque parece que os “eleitos” pela revista colocaram suas preferências pessoais sem critério, coerência e, pior, com escolhas que reforçam preconceitos e estigmas por fatos que não têm relação alguma com a cultura ou com o esporte. Então fica aqui minha justa homenagem aos esquecidos Pelé (o maior de todos disparado – o mais acintoso “esquecimento”), Martinho da Vila (músico dos mais talentosos e que muito fez pela arte e pelos direitos das minorias), Barbosa (o injustiçado goleiro da Copa de 1950, que muito sofreu calado ao lado da família) e Wilson Simonal (que, aliás, tem filhos maravilhosos, que jamais revelaram ranço ou amargor). A capa da piauí_185 foi mais uma morte civil para alguns deles. Com o meu respeito de sempre.
CHRISTIANO LEME_RESENDE/RJ
NOTA QUE COMEÇA INTERROGATIVA E TERMINA EXCLAMATIVA: E cadê o Machado de Assis? Cadê a Mãe Menininha do Gantois? Cadê o Cartola? Pois é, Christiano, nós sentimos a mesma revolta que você quando vimos a capa. Nossa indignação só foi aplacada quando percebemos o seguinte: numa lista de apenas cinquenta brasileiros negros que fizeram e fazem a diferença, sempre haverá um mundo de nomes que ficará de fora!!!
RESENHA DE FEVEREIRO
A capa da piauí_185, fevereiro, vem com cinquenta certezas da negritude cantada e contada por Elza Soares. Quanto à Semana de Arte Reaça, a revista foi perfeita na crítica e na criatividade, sem tons de bairrismo, mesmo sendo carioquíssima, certo? Mais antropofágico que isso, somente os bolsominions ali retratados, arremedos de classe média, a digerir embutidos e eructar caviar. Certo colunista e biógrafo do Rio de Janeiro deve ter ficado satisfeito. O porre de eventos sobre a efeméride nesses dias foi, assim, atenuado, talvez em função do número 22 da data não ajudar muito, em referência ao partido que o possui. Falando em partido, por outro lado, há espaço para a crítica da ausência. Na esquina O casal federal, de Luigi Mazza, sobre os deputados Sâmia Bomfim e Glauber Braga, poderiam ter sido incluídas duas informações: ela foi vereadora na capital paulista e ele é pré-candidato a presidente da República, ainda que em situação política nebulosa e incerta. Para os filiados ao Psol (cujo número de registro no TSE é 50!) são fatos óbvios, mas não para a maioria do público da piauí, enriquecendo a matéria. Mas foi icônico saber que Hugo é mais assíduo no Parlamento do que muitos dos pares de seus pais.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
QUESTÕES DA CIÊNCIA
Sou leitora assídua da piauí desde 2009, mas escrevo minha primeira mensagem para a redação (de qualquer publicação).
Venho celebrar o retorno da ciência às páginas da revista, tema do qual sentia imensa falta. A piauí_185, fevereiro, foi a minha favorita em muitos meses, graças aos ótimos artigos Tropa de mensageiros, No jardim real e Em busca dos primeiros. Para ficar perfeito, só faltou um artigo de João Moreira Salles sobre matemática.
Não que eu não aprecie muitas das outras questões, mas as da ciência sempre foram o principal motivo da minha assinatura, e andavam bem esquecidas ultimamente. Há bastante tempo tenho lido os nomes dos repórteres, com medo de ver desaparecer o de Bernardo Esteves, de quem sou grande admiradora. Cidade do átomo (piauí_74, novembro 2012) é um dos melhores artigos de divulgação científica que já li. Poderia citar vários; gostei de tudo dele que apareceu na revista.
Precisamos de mais e mais e mais ciência. Vocês são o oásis, por favor, continuem nesse caminho.
KAROLINE MORAES OLIVEIRA_CAMPINAS/SP
PIAUÍ HERALD
Nunca, nem no Diário da Dilma, me diverti tanto com a piauí como nessa edição de fevereiro, com a resenha da Semana de Arte Reaça (piauí_185, fevereiro). Matéria de gênio, parabéns!
GERALDO MAIA_BELO HORIZONTE/MG
O JARDINEIRO
É incrível a trajetória do garoto que coletava e colecionava insetos e gostava de vasculhar o céu observando as estrelas, descrita pelo jornalista e escritor Filipe Vilicic (No jardim real, piauí_185, fevereiro), e que aos 17 anos trancou o curso de biologia que cursava na Unicamp para se tornar um mochileiro, que morou na França e na Suíça e conheceu os países da Europa Oriental durante os três anos que durou essa etapa de vida, na qual para se sustentar fez todos os tipos de bicos. Foi para o México, juntou alguma grana trabalhando em hotelaria e foi praticar mergulho nas praias de Cuba e Belize, tornando-se depois instrutor de mergulho em Honduras, onde conheceu a sueca Anna Sveide, com quem se casou e foi viver em Gotemburgo, em cuja universidade terminou a graduação de biologia, doutorando-se pela mesma, tendo realizado excursões científicas pela Amazônia, tornando-se aos 32 anos curador do Jardim Botânico de Gotemburgo, o maior dos países escandinavos.
Alexandre Antonelli é o nome desse jovem pesquisador brasileiro, que aproveitou as oportunidades que lhe foram oferecidas para tornar-se professor de biodiversidade na Universidade de Gotemburgo e professor visitante na Universidade de Oxford. Assinou cerca de duzentos artigos científicos, mencionados em 12 mil estudos. Com tal bagagem, acabou por ser convidado a ser o diretor científico dos Kew Gardens, os Jardins Botânicos Reais, onde encontrou condições excepcionais para continuar desenvolvendo seus trabalhos, jamais esquecendo sua condição de brasileiro para ajudar nosso país, tão desprezado pelas autoridades ambientais e cujo presidente sempre deu péssimo exemplo, pouco se importando com o aumento do desmatamento da Amazônia.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
SERTANEJO
Escrevo para expressar meu profundo descontentamento, e até uma ponta de tristeza, com uma palavra escolhida pelo repórter João Batista Jr. para o subtítulo de sua reportagem O dono da voz, publicada na piauí_185, fevereiro: “Como um matuto de Goiás virou o maior empresário da música sertaneja do Brasil.”
Eu não conhecia Wander Oliveira até a leitura da matéria. No entanto, conheço o significado da palavra “matuto” e já presenciei uma pessoa chorando por ter sido chamada assim. A escolha do termo, atrelado ao sintagma “de Goiás”, claramente marca uma posição, uma leitura e confere um tom depreciativo, reproduzindo estereótipos.
O dicionário Houaiss traz: “matuto: 1) diz-se de ou indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social; caipira, roceiro, jeca. freq. pej.”
Como disse, não conhecia Wander Oliveira, não estou escrevendo esta mensagem especificamente por ele ou por sua trajetória, nem pelo que representa, mas pelo modo como o jornalista decidiu tratar tudo isso, imprimindo um olhar depreciativo, como se o fato de alguém ter nascido ou vivido no interior fosse parâmetro suficiente para definir o que pode ser dito dessa pessoa.
Ao anunciar como o “matuto de Goiás virou o maior empresário da música sertaneja no Brasil”, a reportagem sugere que a “história incrível” que está prestes a contar deve sua excepcionalidade a uma trajetória que transita entre dois polos impensáveis, como se esperasse que o leitor reconhecesse na primeira parte da frase os atributos intrínsecos de ser um “matuto de Goiás” que impediriam alguém de se tornar um empresário. A pressuposição se apoia em estereótipos, em uma visão maniqueísta e preconceituosa a respeito do interior do Brasil, historicamente subestimado por uma construção discursiva que logrou estabelecer relações entre a geografia e as possibilidades de pensamento, criatividade e olhar crítico de seus habitantes. Em outras palavras, nas regiões que detêm a centralidade econômica do Brasil e somente em seus grandes centros urbanos estariam as pessoas mais inteligentes, mais “safas”, mais “antenadas”, que têm “traquejo social” invejável e cujo “espírito” estaria muito longe da “rusticidade” do matuto.
Nada disso contribui para o debate e para o pensamento crítico que nós, leitores, buscamos nos textos da revista.
Sou docente da Universidade do Estado de Minas Gerais e estudiosa de literatura espanhola. Nasci, vivo e vivi boa parte da vida no interior de Minas Gerais. Já andei por Goiás também. Essas regiões têm suas peculiaridades; é certo que o conservadorismo perpassa as relações sociais, que há descompassos temporais que assombram, que há abandonos e violências de toda ordem, mas nada disso determina ou confina os nascidos aqui nem seus habitantes. Nada pode justificar o emprego de expressões como “matuto de Goiás”, mesmo porque dificilmente leríamos algo como “matuto de São Paulo ou do Rio de Janeiro”.
Que nossas palavras e o espaço público sirvam para o debate crítico saudável, lúcido e justo, não para manter perspectivas cristalizadas sobre o outro e seu lugar que pouco conhecemos.
MAYRA MOREYRA CARVALHO_MARIA DA FÉ/MG
NOTA INQUIETANTE DA REDAÇÃO: Aí é que está! Já tomávamos providências para demitir os integrantes do Esquadrão Avançado de Zeladoria da Pureza Vocabular quando um deles pediu licença para se defender. Ouvimos, então, que há seis definições de “matuto” no Houaiss, algumas das quais lisonjeiras. Mas o que nos deixou inquietos é que, além dos significados, temos que “analisar o contexto em que a expressão é empregada”. Imagine só, Mayra! Nossa edição do Houaiss tem 2 922 páginas! E ainda temos que “analisar o contexto”?!
QUESTÕES DO DESCALABRO
Ao ler as reportagens Fogo cruzado (de Luigi Mazza, sobre uma escola no Acre) e Os pequenos que se foram (de Solano Nascimento, sobre o Programa Mais Médicos) na piauí_184, janeiro, fiquei pensando se, para resolver os problemas da Escola Márcio Bestene Koury, precisaríamos desconsiderar e desencorajar os professores que lá trabalham ou culpar os profissionais que tiraram as mais altas notas e não aceitaram as vagas para lá lecionarem, ou mesmo contratar professores cubanos “que não tinham limites de fichas, atendiam todo mundo, mesmo tarde da noite”? Acho que o estilo de Luigi Mazza é bem mais interessante para pensar problemas.
Se para diminuirmos a morte evitável de uma criança (sem dúvida prioridade das prioridades) a solução foi o Programa Mais Médicos, não deveríamos ter feito isso muito antes de 2013? Se são os médicos cubanos os responsáveis por isso, eles o são por serem cubanos (deveríamos formar médicos lá ou contratar apenas os formados na ilha?) ou é pela medicina de Cuba (deveríamos estudar, conhecer, implantar esses métodos de ensino aqui)? Se a melhora da saúde se dá pelo fato de ter mais médicos, não devíamos então aceitar o “ato médico”? A população de todo o país merece ter seu direito à saúde assegurado como preconiza a Constituição, e isso vai muito além do que ter a cooperação dos médicos cubanos. Obrigado aos médicos cubanos; desprezo ao CFM elitista, corporativista e genocida; e a favor de artigos que não sejam enviesados e superficiais, e que favoreçam a construção de pontes e não de muros, além de ajudar a se fazer o verdadeiro debate.
MARCELO BATISTA_CAMPINAS/SP
JANEIRO BOMBADO
Quase acabando a leitura da deliciosa piauí_184, janeiro. O artigo A mulher que forjou Van Gogh foi uma elegia à arte. Johanna Bonger teve a sensibilidade de unir as cartas às obras do gênio impressionista. Fez história.
Passando à dura realidade brasileira, entendi a profundidade da destruição do presidente capitão na educação em Fogo cruzado, na saúde em Os pequenos que se foram, as agruras do agro em O agrobolsonarismo e a questão da mulher na matéria Em nome da mãe.
Finalizo com um apelo: é indispensável uma série sobre os destruidores da pátria. Pai, filhos e agregados. A hora é essa.
CLARA DAVIDOVICH_RIO DE JANEIRO/RJ
EDUCAÇÃO
Adorei a reportagem Fogo cruzado (piauí_184, janeiro). O conjunto dos problemas de sempre, apresentado com muito carinho. Me lembra as minhas visitas ao interior do Nordeste entre 1976 e 1980 com um grupo do Banco Mundial tentando analisar as categorias de gastos das secretarias de Educação (gastavam muito em edifícios, pouco em material didático e salários para os professores) com resultados fracos.
Na reportagem, é impressionante a dedicação das professoras e só faltou um comentário sobre os baixos salários. Sou um suíço visitando o Rio Grande do Sul, e tentando, com a ajuda da revista piauí, me reconectar com os temas relevantes do Brasil.
ALBERT STOCKER_ZUG/SUÍÇA
LIBERTEM O PINGUIM!
Quanto desengano… Não votei no Bozo, minha intuição quase infalível fez-me asserir que o elemento era, como de fato é, fajuto. Entretanto, certo é que não podemos confiar nos nossos bacorejos totalmente. Foi esse o caso, quando decidi assinar a piauí. A revista, outrora grossa de páginas e matérias instigantes, definhou. Atentem: Lugar de pinguim de geladeira é fora dela! pinguim livre!
ALEXANDRE MORAES_RECIFE/PE
NOTA LIVRE DA REDAÇÃO INSPIRADA NA NOTA ANTERIOR DA REDAÇÃO: Alexandre, não se arrependa da sua assinatura porque o pinguim está soltinho da silva! Encontramos o danado folheando freneticamente aquelas 2 922 páginas em busca da palavra “bacorejo”! Em vez de ficar só lendo, vão vocês todos lá também! Folheiem até a página 372! Estão presos, por acaso?
FOGO NO MUSEU
Como esclareceu Emily Almeida na esquina Besouros teutônicos (piauí_185, fevereiro), o Museu Nacional – local que frequentei diuturnamente, pois nasci no bairro de São Cristóvão – é administrado pela UFRJ, e logo após aquela tragédia surgiu um protesto com rotineiras bandeiras vermelhas, culpando o descaso com a cultura pelo governo Temer, óbvia intenção de omitir a responsabilidade da universidade, cuja direção sempre foi de filiados ao Psol, sendo que havia uma verba anual “carimbada” (cerca de 9 milhões de reais) destinada ao museu, mas depois de dez anos não realizaram o trabalho de prevenção contra incêndios, orçado em cerca de 500 mil reais, e ninguém foi acusado por esse crime.
ELIAS NOGUEIRA SAADE_BELO HORIZONTE/MG
ESCUTA SOLIDÁRIA
Despertou meu interesse a matéria sobre o trabalho de prevenção do suicídio realizado em Medellín (La escucha, piauí_185, fevereiro). Nesse campo o Brasil tem pontuado com várias iniciativas, e nos orgulhamos muito da que tivemos há cerca de três anos – o Guarapuava Salvando Vidas –, que hoje conta com vinte voluntários que todos os dias, das 19 às 23 horas, atendem quem nos procura, a maioria mostrando ideação suicida. Curiosamente, no dia 14 de fevereiro, recebemos uma chamada da Colômbia.
ARTHUR ANTONIO MONDIN_GUARAPUAVA/PR