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João Batista Jr. Jul 2022 12h59
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Após uma espera de dois anos, entre exames e acompanhamento psicológico, o Comitê de Ética do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, aprovou a cirurgia de construção peniana em um homem trans, por meio de uma técnica relativamente nova chamada Total Corporal Mobilization (TCM), ou mobilização total dos corpos cavernosos (os tecidos que, irrigados com sangue, produzem a ereção). Realizada no dia 27 de maio passado pelo Sistema Único de Saúde, a operação sob comando do urologista Ubirajara Barroso Jr. durou sete horas – e foi um sucesso.
O paciente, um gestor financeiro de 27 anos que pede para ter sua identidade preservada, tem agora 6 cm de pênis. O órgão ganhou uma uretra feita a partir de tecido tirado do céu da boca, com extensão até a ponta do membro recém-construído. Essa manobra permitirá que o paciente realize um de seus maiores sonhos: ter autonomia para urinar de pé. Ele também terá ereção e, quem sabe, a chance de realizar a penetração durante o ato sexual.
Essa foi a primeira vez que a TCM foi utilizada em uma pessoa trans. Nos últimos três anos, o procedimento foi aplicado em quatro homens cisgêneros com problemas como micropênis, amputação e câncer genital. Todos foram operados pelo SUS, no Hospital das Clínicas (HC) de Salvador. “Esse procedimento permite triplicar um pênis disfuncional, no caso do micropênis, ou criar um órgão completamente novo, no caso de um paciente trans”, explica Barroso Jr., que criou a técnica TCM e realizou a cirurgia.
Nascido em Salvador, filho de pai bancário e de uma dona de casa, Ubirajara Barroso Jr. primeiro fez residência em cirurgia para depois se formar em urologia pediátrica pelo Hospital Infantil de Michigan, em Detroit. Casado com uma radiologista e pai de dois filhos, o médico de 52 anos é coordenador da disciplina de urologia da UFBA.
Ele concebeu a TCM quando tratava um paciente que teve seu órgão genital arrancado por um cachorro quando era bebê, com 8 meses. Na adolescência, esse rapaz contou ao médico que conseguia se masturbar e atingir prazer quando estimulava a região do períneo. Foi quando Barroso Jr. pensou em trazer essa região sensível e cheia de vasos sanguíneos para “fora” do corpo, construindo assim um novo membro. “Embora muitas pessoas pensem no pênis como um membro externo, metade do órgão fica dentro do organismo, com enervações responsáveis por toda a sua funcionalidade”, explica o médico.
Foram mais de dez anos de estudos, até que em 2019 – quando o rapaz mutilado tinha 18 anos – a cirurgia foi finalmente realizada. O paciente passou de zero para 7,5 cm de pênis. Um ano e meio depois, a técnica foi empregada em um homem que, durante um surto psicótico, amputou parte de seu órgão genital com uma faca. A operação fez com que seu pênis passasse de 4 cm para 12,5 cm. Depois veio um paciente com micropênis, cujo órgão tinha 1 cm em estado flácido e 3,5 cm quando ereto. Após a cirurgia, seu pênis, ereto, passou a atingir 9,5 cm. O quarto caso foi um paciente que teve câncer de pênis: passou de 3 cm para 11 cm. Os bons resultados convenceram Barroso Jr. de que a técnica poderia ser usada na redesignação sexual. “Pouca gente sabe, mas o clitóris e o pênis são muito semelhantes em suas vascularizações e enervações”, diz o urologista.
A TCM difere da faloplastia, técnica de engrossamento e aumento peniano que envolve enxerto de gordura. A faloplastia para um homem trans implica na confecção de um pênis com tecidos retirados de outras partes do corpo, como o antebraço e a perna. Nesse procedimento, a sensibilidade do novo órgão é limitada, e ele só fica ereto com auxílio de uma prótese. Se o paciente trans operado no final de maio for capaz de penetração, isso pode abrir caminho para novas cirurgias do mesmo tipo. Só no HC de Salvador, há uma fila de espera com 97 homens trans cadastrados no protocolo, sendo que três deles devem se submeter ao procedimento nos próximos meses.
Em 2008, a portaria nº 457 do Ministério da Saúde criou a gratuidade do Processo Transexualizador pelo SUS. Após um extenso processo de avaliação psicológica e psiquiátrica, mulheres trans e travestis têm o direito de realizar cirurgias de feminilização e redesignação sexual. No entanto, o país conta com apenas cinco centros médicos aptos a executar esses procedimentos (que são diferentes do TCM).
No caso dos homens trans, o SUS realiza as cirurgias de histerectomia (retirada do útero) e ooforectomia (retirada dos ovários). “O Conselho Federal de Medicina não permite a faloplastia em homens trans por causa do altíssimo índice de problemas”, explica o médico José Carlos Martins Jr., dono de uma clínica particular em Blumenau, responsável por cirurgias de redesignação sexual em mulheres trans e autor de Transgêneros: Orientações Médicas para uma Transição Segura. A TCM pode ser um caminho alternativo para homens trans que desejam ter um órgão genital masculino.
O pênis urina, realiza o ato sexual e transmite prazer, reagindo a estímulos variados como toque e temperatura, em uma combinação orquestrada entre cérebro, tecidos e nervos. Não admira que a construção peniana seja um dos procedimentos mais complexos da medicina. Nos Estados Unidos, apenas 1,1 mil pessoas fizeram faloplastia de afirmação de gênero em 2019, de acordo com a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos.
É uma porção pequena da população, mas nem por isso a necessidade de cirurgias de transição deixa de ser, na definição de Barroso Jr., “uma questão de saúde pública”. “Como sociedade, devemos cuidar de todas as pessoas. Uma técnica pode ser aplicada em dez pessoas ou em 1 milhão, não importa”, pondera o médico. “Não podemos esquecer que o índice de mutilação e suicídio entre pessoas trans é elevadíssimo. Vale sempre ter empatia para proporcionar a chance de alguém viver em sua plenitude.”