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UM DEBATE EM TORNO DO AGRONEGÓCIO

Imagem Um debate em torno do agronegócio

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AGRONEGÓCIO

Parabéns a Marcos Emílio Gomes por sua radiografia do agronegócio no Brasil (O agro é top?, piauí_192, setembro). Mas senti falta de duas coisas: primeiro, alguma referência ao projeto de lei nº 1293/2021, denominado “PL do autocontrole”, que está prestes a ser aprovado – a “boiada passando a toque de caixa”. Se virar lei, vai dizimar a fiscalização sanitária do agronegócio, e tornará impossível algo como a Operação Carne Fraca. Mais: o art. 20 do PL isenta de registro os insumos agropecuários fabricados pelo próprio produtor, o que pode incluir até agrotóxicos e produtos de uso veterinário – a menos que estejam previstos em ato do Ministério da Agricultura.

Segundo, embora se costume falar do agronegócio como um setor homogêneo, é a criação de animais (e, principalmente, a pecuária) que apresenta os problemas morais e sociais mais graves: envolvimento em escândalos (como narra Consuelo Dieguez em Um golpe de mestre, reportagem publicada no site da piauí em maio de 2017, sobre a delação dos donos da JBS) e contribuições desproporcionais para desmatamento, emissões de carbono, problemas crônicos de saúde dos consumidores e de funcionários de frigoríficos, inflação dos alimentos (como mostrado na série Má alimentação à brasileira, publicada no site da piauí entre julho e setembro) e, claro, para o sofrimento dos próprios animais – cujo bem-estar é absurda e sistematicamente negligenciado.

Enfim, é provável que a pecuária seja o nosso “petróleo”. Isso fica um pouco mais revoltante porque, diferente do setor de combustíveis fósseis, a todo momento se vê gente tentando apresentar a pecuária como atividade sustentável (pois agora todos querem dizer que são “ESG”), sem que haja, porém, qualquer referência objetiva ao significado disso (uma bem-vinda iniciativa para suprir essa lacuna de objetividade está ocorrendo no setor de finanças, com destaque para a metodologia proposta pelas Soluções Inclusivas Sustentáveis, SIS, em um ranking de instituições financeiras). Enquanto isso, países desenvolvidos ameaçam embargar nossas exportações e, cada vez mais, substituem nossa carne por produtos derivados de plantas – e nossa sociedade dobra a aposta num modo de produção que (espero) será visto com vergonha por nossos descendentes.

Mas isso não deveria surpreender: estamos fazendo o mesmo em relação ao carvão (Cinzas que queimam, piauí_189, junho).

RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS

A qualidade do texto O agro é top? não honra o passado da revista piauí, e preocupa pelo futuro. A metodologia utilizada no cálculo de participação no PIB contestada no texto foi desenvolvida na Universidade Harvard pelo professor John H. Davis e seu assistente Ray Goldberg décadas atrás. Reconhece que para conhecer e avaliar o setor é preciso ir além do que ocorre dentro das fazendas, incluindo os insumos que antecedem a produção agrícola e seu processamento posterior. Mais recentemente, o professor Goldberg, ainda vivo e atuante, incorporou preocupações que vão além da produção, acrescentando as questões de meio ambiente, trabalhistas, os consumidores e a saúde pública, no livro Food Citizenship: Food Systems Advocates in an Era of Distrust (Oxford University Press, 2018).

Os demais pontos citados têm compreensão igualmente medíocre e não vou elaborar.

PEDRO DE CAMARGO NETO_SÃO PAULO/SP

O artigo O agro é top? tem dados aprofundados, importantes e revela contrastes. O texto permitiria também uma proposta estratégica, pois “se com tantas imperfeições conseguimos realizar avanços científicos, econômicos e de impulsionamento em algumas cadeias produtivas, imagine o que poderíamos fazer aperfeiçoando a prática desse conceito”. Marcos Emílio Gomes apresenta um texto com investigações e números, uma tese forte. Tenho uma observação crítica, e a faço com a melhor das intenções. Não vi no texto uma única menção ao cooperativismo. Esse setor reúne mais de 1 milhão de produtores rurais, cerca de 54% da produção brasileira, e tem um aspecto importantíssimo quando olhamos o agronegócio não só como sinônimo de agropecuária, mas como um modelo de cadeias produtivas, em que temos cooperativas agroindustriais que competem com grandes multinacionais privadas.

Há uma análise de agronegócio baseada no conceito criado nos anos 1950 pelos professores John Davis e Ray Goldberg em Harvard e trazido para o Brasil por Ney Bittencourt de Araújo, e ensinado pioneiramente na FEA-USP no Pensa (Programa de Estudos dos Sistemas Agroindustriais), com o professor Décio Zylbersztajn, no início dos anos 1990. Creio exigir além do cooperativismo um destaque substancial para a indústria brasileira de alimentação e bebida, e como essa sim, a indústria pós-porteira das fazendas teria doravante um papel vital num próximo ciclo onde muitos dos pontos levantados por Marcos Emílio Gomes poderiam ser aperfeiçoados. Para 4 milhões de pequenas propriedades com agricultores famintos, a única saída é a cooperativa.

O maior de todos os erros seria associar o conceito de agronegócio a uma linha ideológica.

A cooperativa de Canudos, na Caatinga baiana, produz derivados de frutos do sertão e vende para a cidade e para o exterior. É agronegócio. O Dona Ana em Sinop vende suco de jabuticaba, é agronegócio. O valor de mercado da Coca-Cola, que equivale ao valor bruto da agropecuária brasileira, é agronegócio.

O texto é bom e provocativo, nos estimula a pensar mais.

JOSÉ LUIZ TEJON_ SÃO PAULO/SP

TELEGRAM

Gostaria de expressar solidariedade à jornalista Vanessa Barbara, que se embrenhou por grupos de direita no Telegram por duas semanas (“Híbridos zumbificados interagem com o 5G”, piauí_192, setembro). Eu termino de ler a reportagem com intenso mal-estar. Imagino o quanto ela sentiu ao passar esse tempo lendo mentiras, alucinações, ódio, crueldade…

Espero que a piauí tenha oferecido o suporte psicológico necessário à repórter. E não há como não se questionar como é que seres humanos podem chegar a tal ponto.

BRUNO LUIZ T. PAULINO_BELO HORIZONTE/MG

Quero saber se a jornalista Vanessa Barbara está bem, se pagaram adicional de insalubridade para ela fazer essa matéria e se estão pagando a terapia dela.

Espero que sim, pois só de ler a matéria a radiação já chegou em mim. Coragem.

JÉSSICA BARBOSA DE ARAUJO_SÃO PAULO/SP

NOTA DO DEPARTAMENTO DE RH: Bruno e Jéssica, sinceramente. Se fôssemos pagar terapia para cada repórter que se mete nesses pântanos de enxofre, não sobraria dinheiro para mais nada nessa Redação. Se a moda pega, estamos fritos.

PANFLETO PIAUÍ

No mês de setembro comemoramos os 200 anos da Independência e os 100 anos do rádio, mas a piauí_192 passou ao largo desses assuntos e focou sua última edição, antes do primeiro turno, em panfletar. Senão vejamos: Ninguém segura o Prerrô exibe um advogado com sua trupe em torno da adulação a Lula e Alckmin. Transgressões do populismo termina com a seguinte conclusão: “O escândalo chamado de ‘orçamento secreto’ ultrapassa e muito a corrupção dos governos petistas.” “Híbridos zumbificados interagem com o 5G” relata as conversas de grupos extremistas de direita no Telegram. O dia em que não morri termina dizendo que a ditadura militar do Brasil parece estar longe do fim. Já Ataque brutal mostra a saga de Eunício Oliveira triturando uma família para aumentar seu patrimônio. Allan de Abreu se esqueceu de dizer que o déspota é atualmente candidato a deputado federal apoiando e apoiado por Lula. A revista ainda dá destaque – neste momento? – à romantizada história da criação de um partido em Os PTs possíveis. Sem esquecer da capa, que remete a um Sete de Setembro violento (de 1822 ou 2022?).

Nesta edição panfletária, se salva o artigo O jogo mudou, de Jairo Nicolau, que relata erros dos dois lados da polarização. Diante de tanta parcialidade, sugiro que o novo slogan seja: “piauí, para quem tem 13 parafusos a mais.”

MARCOS ROBERTO CARVALHO_SÃO PAULO/SP

VARIEGADOS

Excelentes as observações trazidas pelo cientista político Jairo Nicolau (O jogo mudou, piauí_192, setembro). Muito se tenta compreender sobre o fenômeno de 2018, e em que momento se permitiu que um político de fundo de plenário, como Jair Bolsonaro, pudesse ser capitaneado ao cargo de presidente da República.

Nicolau traz três fatos que teriam possibilitado tal façanha. Não rechaço nenhum deles, mas acredito que outros dois mais importantes ficaram de fora dessa análise. O primeiro é o déficit na instrução educacional de grande parte da população. O estudo formal, para além de fomentar o conhecimento, também inspira a consciência crítica sobre o status quo social.

Segundo, não podemos nos esquecer da pirotecnia chamada Operação Lava Jato, que acabou por maturar de forma mais agressiva o antipetismo. A Lava Jato jamais teve o intuito de varrer a corrupção do Brasil, foi apenas um projeto de poder de um grupo interessado em levar a sua forma de pensar à política. Não há santos, meus caros; de boas intenções, o Inferno está cheio.

Ainda na mesma edição, como advogado posso dizer que a reportagem Ninguém segura o Prerrô exemplificou bem a luta árdua que os causídicos brasileiros enfrentam no exercício do seu múnus. Infelizmente, ainda temos que lidar com um Poder Judiciário que muitas vezes decide com base na pressão social, e não na análise vagarosa e equidistante das partes, como vimos na reportagem, em que o STF, pressionado para colaborar com o clima político provocado pela Lava Jato, foi obrigado a se curvar para não passar a imagem de ser condescendente com a corrupção, ao arrepio da interpretação incontroversa do que já dizia o texto constitucional acerca do conhecido princípio da presunção de inocência.

Vida longa ao Grupo Prerrogativas, que representa muito bem o dia a dia árduo de ser advogado no Brasil.

E, por fim, quero registrar o trabalho fenomenal do repórter Tiago Coelho na primeira reportagem da série Querino, na piauí_191, agosto, intitulada A dependência. Penso que devemos racializar todas as nossas relações sociais, pois, em alguma medida, o racismo, ainda que de forma inconsciente, as moldou ou ainda o faz, porque os oprimidos, de tanto contato com a opressão, também podem repercuti-lo. Engana-se quem pensa que com a dita abolição da escravatura, como os livros de história apontam, cessaram os trabalhos degradantes, ou análogos à escravidão. Pelo contrário, a branquitude não abre mão de seus privilégios, e continua reivindicando a mão de obra negra como se fosse uma obrigação moral ou natural.

LEONARDO CALDAS P. DE SOUZA_SALVADOR/BA

BENFEITOR
Segue aí minha inveja sem maldade dos jornalistas que escrevem matérias bem apuradas, bem escritas. Eu mando direto o link das reportagens da piauí para um punhado de gente que gosta de leitura boa, de executivo a porteiro de prédio, cabeleireiro e vendedor. Gente que gosta de boas histórias, muito bem contadas. Obrigado por isso!

ALEXANDRE AUGUSTO_via e-mail

NOTA ENCORAJADORA DA REDAÇÃO: Tem que manter isso aí, Alexandre!

LULISMO

Em carta anterior, lamentei o caminho tortuoso que a piauí estava trilhando, pois as primeiras edições mostravam uma linha parecida com a de Millôr – um anarquista contra o anarquismo, capaz de cunhar a frase Hay gobierno? Soy contra. No hay gobierno? Tambiém SOY. Lendo a última edição, quase toda endereçada a criticar o bolsonarismo (que repudio veementemente) e elogiar o lulismo sem nenhuma crítica – como se Lula e seu partido fossem inocentes de todas as corrupções, apesar dos bilhões recuperados, e de sua adesão aos regimes falidos e antidemocráticos da América Latina –, concluí que infelizmente Gramsci infiltrou-se na revista, tornando-a panfletária e ideologicamente parcial. Vou economizar 32 reais por mês.

ELIAS SAADE_BELO HORIZONTE/MG

ME AJUDA A TE AJUDAR

A piauí_192, setembro, estampou uma arma estilizada tamanho GG na capa.

Pois bem, estávamos eu e minha esposa na praia enquanto eu lia com orgulho a minha revista, quando fui abordado pelo simpático proprietário da barraca que nos servia. Ele me perguntou que “peça” era aquela na capa de revista, elogiou a arma e me perguntou se era uma “.40”, seja lá o que isso significa. Comentei que era só uma ilustração e ele respondeu: “Muito bonita a peça.” Minha esposa imediatamente me pediu para esconder a capa, com medo de sermos confundidos com bolsonaristas.

Nesses tempos de polarização, fica aqui o meu apelo para evitarem armas e bandeiras do Brasil na capa, para que eu possa ler a minha piauí em locais públicos e divulgar com tranquilidade a revista pela qual tenho muito apreço sem ser abordado por fãs de armas, “terraplanistas”, antivaxxers e afins.

RODRIGO ABBÊS BAÊTA NEVES_NITERÓI/RJ

NOTA INQUISITIVA DA REDAÇÃO: Dureza, hein, Rodrigo? Levamos seu apelo ao nosso capista de plantão. Ele leu, coçou o queixo, franziu o cenho e especulou: “Fico imaginando como esse pessoal reagiu à capa da piauí_182…” (Tá bom, tá bom, a gente rememora: naquela capa, aparecia apenas um imenso osso descarnado.)

ESQUINA

O jornalismo da piauí sempre me agradou muito, e justamente por isso não pude passar despercebido por uma parte esquisita de uma matéria que me suscitou curiosidade, Guerra sem fim, piauí_192, setembro: “Claudia deparou-se com dois soldados do Comando Vermelho – ou, como ela diz, ‘dois meninos’.”

Caso o autor não houvesse feito essa contraposição entre a forma como ele chamaria os indivíduos e a forma como a moradora os chama, provavelmente eu não teria percebido.

Do jeito que está, soa como se ele achasse, realmente, que são dois “soldados” (que, presumo, são adolescentes), e o modo como ela se refere seria ingênuo, incorreto, ou talvez abonador? O trecho parece perdido.

Fiquei curioso e reflexivo, o jornalista crê que “como ela diz” está errado? Não são meninos perdidos para uma estrutura social violenta e injusta? Ele está mais correto com seu termo, dois soldados, sem aspas?

Pergunto honestamente, pode ter sido somente um artifício jornalístico. E agradeço pelo pequeno, mas importante, registro sobre mais um fatídico dia de violência no Rio de Janeiro.

EDMUNDO FERREIRA_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA SINCERA DA REDAÇÃO: São dois pontos de vista da mesma tragédia. Os moradores do asfalto costumam chamar os jovens do tráfico de “soldados”. A moradora da favela, no entanto, os considera apenas “meninos” que ela viu crescer.

ERRATA

A reportagem Com a força da água, publicada na piauí_192, setembro, informou equivocadamente que Adelina Khau era empregada doméstica. Na verdade, ela era dona de casa. O erro decorreu do fato de que, no português de Moçambique, as donas de casa são chamadas de “domésticas”. A correção foi inserida na versão digital da reportagem.

Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.


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