vultos do antropoceno
Bernardo Esteves Out 2022 16h31
20 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
O antropólogo e filósofo da ciência francês Bruno Latour se surpreendeu quando foi abordado numa noite de 2009 por um climatologista durante um coquetel. “Você pode nos ajudar?”, pediu o cientista. “Estamos sendo atacados de forma injusta.” Referia-se aos negacionistas da crise climática, que contestam os milhares de estudos científicos das últimas décadas mostrando que o aumento da temperatura média do planeta decorre dos gases do efeito estufa lançados na atmosfera pela humanidade.
Para o pensador francês, morto no dia 9 de outubro aos 75 anos, o apelo era no mínimo incomum. Latour estava mais acostumado a ouvir críticas dos cientistas. Tinha dedicado sua carreira a investigar a maneira como eles estabelecem as verdades da ciência. Defendia que os fatos científicos não eram verdades da natureza reveladas pelos pesquisadores, mas que, em vez disso, dependiam de arranjos complexos de pessoas, objetos e instituições. Para muitos cientistas, o francês era um relativista que não acreditava na existência objetiva dos fatos. Diziam que ele enxergava as conclusões científicas como simples construções sociais e que não compreendia o funcionamento da ciência. Mas, em 2009, o vento estava virando, e os cientistas precisavam de sua expertise para lutar contra a desinformação.
Por isso, o pedido de ajuda o espantou. “Pessoas que nunca tinham entendido o que os pesquisadores dos estudos sociais da ciência estávamos fazendo de repente se deram conta de que precisavam de nós”, disse Latour ao evocar o episódio, anos depois, numa entrevista à revista Science. “Os cientistas não estavam intelectual, política ou filosoficamente equipados para resistir ao ataque de colegas que os acusavam de ser nada mais do que um monte de lobistas”, completou.
Em 2009, os negacionistas haviam redobrado sua artilharia depois do chamado Climategate, como ficou conhecido o vazamento de milhares de documentos e e-mails trocados ao longo de mais de uma década por um grupo de climatologistas da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. As mensagens mostravam os cientistas discutindo a interpretação de dados e a preparação de gráficos e tabelas. Apresentado com um viés todo próprio, o conteúdo dos e-mails foi denunciado como suposta prova de que os cientistas estavam forjando suas conclusões.
Na França, a claque dos céticos era encabeçada por um cientista influente: o geoquímico Claude Allègre, ministro da Educação, Pesquisa e Tecnologia no fim dos anos 1990, no governo socialista de Lionel Jospin. (Hoje, aos 85 anos, ele anda sumido da esfera pública, mas suas ideias continuam ressoando.) Depois do Climategate, Allègre subiu o tom de suas críticas. Num livro lançado no ano seguinte, alegou que o aquecimento global antrópico era um mito e acusou o IPCC (Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, na sigla em inglês) de ser um “sistema mafioso”, referindo-se ao grupo de pesquisadores montado pela Organização das Nações Unidas para estudar a crise climática. O IPCC era então – como é ainda hoje – considerado a maior autoridade científica sobre o assunto.
As mensagens do Climategate não mostravam nada além da negociação corriqueira que ocorre durante a construção dos fatos científicos. É um processo interno, altamente técnico e especializado, que normalmente não chega ao conhecimento público depois que o fato científico passa a ser aceito como verdade. Em sua obra, Latour mostrou como o silenciamento desse processo contribuiu para gerar no público uma imagem deturpada de como a ciência é feita. Então, no auge do Climategate, os cientistas, acusados de forjar suas conclusões apenas por cumprir o ritual próprio do debate científico, não sabiam como reagir.
“O Climategate mostrou a extraordinária fraqueza da filosofia pública das ciências aos próprios cientistas”, disse Latour em uma conversa com a piauí ocorrida em 2014, quando veio participar de um colóquio no Rio de Janeiro. Nesse contexto, os conceitos e ferramentas que Latour e seus colegas desenvolveram para mostrar de onde vem a solidez dos fatos científicos eram mais essenciais do que nunca. “Pela primeira vez, temos a real necessidade de mostrar a ciência em ação e de tornar visíveis as mediações científicas”, afirmou.
No caso da climatologia, mostrar a ciência em ação significa revelar a intrincada rede material e institucional que sustenta nossas convicções sobre a origem humana do aquecimento global – uma vasta rede, que se apoia em estações meteorológicas, supercomputadores, modelos, satélites e sensores de todo tipo, mas também em laboratórios, congressos, tratados diplomáticos, artigos científicos e relatórios do IPCC. Para negar o aquecimento antrópico, é preciso demolir esse sólido edifício.
Os próprios cientistas do clima pareciam ter percebido que, para restabelecer a autoridade do conhecimento científico, era preciso expor suas entranhas, mostrar ao público como eram as mediações científicas. “Com a crise climática e o Climategate, o discurso público dos cientistas se tornou bem mais próximo dos estudos sociais da ciência”, disse Latour. Ou seja: agora eram os próprios cientistas que faziam questão de realçar todo o aparato que sustentava suas conclusões. Mas o francês disse não ver qualquer ironia no fato de os antigos críticos de sua obra terem adotado o mesmo argumento que antes rechaçavam. “Pelo contrário, é uma tragédia.”
Foi em 2010 que o autor percebeu que, para reagir aos ataques que vinham sofrendo, os cientistas do clima aos poucos estavam se alinhando com as ideias que ele e seus colegas defendiam havia décadas. O relato dessa constatação é a cena de abertura de Investigações sobre os Modos de Existência, livro publicado em 2012. Hoje, essa é considerada por muitos sua obra maior, a culminação de uma reflexão teórica elaborada ao longo de mais de três décadas. Latour reconheceu que já não havia mais tempo para que os cientistas e os sociólogos da ciência continuassem se estranhando. “Todo esse assunto se tornou muito sério para tais briguinhas”, escreveu. “Temos os mesmos inimigos e devemos responder às mesmas urgências.”
Bruno Latour foi um dos maiores intelectuais de sua geração. Dedicou-se a investigar a produção das verdades não só na ciência, mas também na religião, nos tribunais e em outras esferas. Era um antropólogo dos modernos, conforme sua própria definição. Os “modernos”, no caso, são as civilizações ocidentais construídas em torno de ideias forjadas na Europa e na América do Norte e que se espalharam por boa parte do planeta.
É marcante na obra de Latour a sua crítica veemente à distinção entre natureza e cultura, traço fundador da modernidade. Essa crítica aparece em Jamais Fomos Modernos, de 1991, seu título mais conhecido. Ele se aproximava, nesse aspecto, do trabalho de antropólogos como o francês Philippe Descola ou o brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, autor frequentemente citado por Latour e elo importante da sua rede de ligações com o Brasil. Viveiros de Castro e Déborah Danowski, filósofa ambiental com quem é casado, eram amigos próximos e colaboradores do pensador francês.
Nascido em 1947 na Borgonha, em uma família dona de uma vinícola fundada no século XVIII, Latour teve formação em filosofia e teologia, e foi católico praticante até o fim da vida. Atuou ora como filósofo, ora como antropólogo, ora como sociólogo, trabalhando como pesquisador da Escola Nacional Superior de Minas de Paris, na França, e depois do Instituto de Estudos Políticos, ou Sciences Po.
No início de sua carreira, Latour decidiu estudar os cientistas do mesmo modo como os etnólogos estudam os povos indígenas, prestando atenção aos ritos e rotinas e fazendo pesquisas em laboratório. Nos anos 1970, a convite do neurocientista francês Roger Guillemin, começou seu primeiro estudo de campo no Instituto Salk de Estudos Biológicos, em San Diego, na Califórnia. Passou dois anos no laboratório com a equipe de Guillemin, que estava tentando determinar a estrutura molecular de dois hormônios produzidos por neurônios no hipotálamo – trabalho que renderia a Guillemin o Nobel de Medicina em 1977.
No livro A Vida de Laboratório, que lançou com o colega britânico Steve Woolgar em 1979, Latour descreve como os cientistas faziam seus experimentos e selecionavam os resultados que pretendiam aproveitar, traduzidos mais tarde nos gráficos e tabelas dos artigos científicos. “Ele mostrou como na forma da molécula de um hormônio há interesses econômicos, preconceitos, questões de raça ou competição – todas as coisas que estavam presentes no processo que confirmou aquela forma”, define Ivan da Costa Marques, um engenheiro eletrônico convertido para os estudos sociais da ciência, estudioso da obra de Latour e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Latour sistematizou suas reflexões sobre a construção dos fatos científicos em seu livro seguinte, Ciência em Ação. Lançado em 1987, tornou-se um clássico da sociologia da ciência. Ali, explicou a produção do conhecimento científico de forma muito diferente dos termos que os próprios cientistas usavam para descrever seu ofício. Para o francês, os fatos científicos são estabelecidos a partir da associação de uma rede complexa de elementos que inclui os cientistas e seus instrumentos, mas também reagentes, micro-organismos, instituições e fatores históricos e sociais.
As verdades científicas não são menos sólidas ou verdadeiras quando descritas nesses termos. Elas apenas tiram sua força de bases diferentes. Uma verdade será tanto mais robusta quanto maior e mais estável for a quantidade de elementos humanos e não humanos associados na sua sustentação – Latour colocava todos eles em pé de igualdade, sem qualquer privilégio para os humanos. Para abraçar essa visão, contudo, é preciso admitir que o conhecimento científico não é absoluto, mas situado no tempo e no espaço.
Talvez por isso o pensamento de Latour tenha soado tão perturbador pa-ra alguns. “É como se você chegasse para um padre que por cinquenta anos rezou a missa do mesmo jeito e lhe dissesse: ‘Deus não é bem isso que você está pensando’”, compara Costa Marques. No fundo, a resistência que muitos cientistas tinham em relação ao filósofo vinha da incompreensão de sua obra. “Latour era um cara subversivo e de verdades difíceis”, afirma Marques. “Ele tinha um amor profundo e incompreendido pelas ciências, e queria salvá-las.”
Um caso extremo da incompreensão da obra de Latour se revelou quando um psicólogo o abordou numa conferência e lhe perguntou – de boa-fé – se ele acreditava na realidade. O evento aconteceu em Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Latour ficou abismado com a pergunta: parecia-lhe tão absurdo quanto imaginar que biólogos podiam ser contrários à existência da vida, ou que astrônomos duvidassem da presença das estrelas. Ao mesmo tempo, era um sinal da distância que havia entre o que ele julgava estar fazendo e a forma como sua mensagem era recebida. O episódio motivou-o a escrever A Esperança de Pandora, lançado em 1999. A obra é dedicada, entre outros, ao autor da pergunta – o californiano Stephen Glickman, um especialista no comportamento de hienas que virou amigo de Latour depois do episódio.
Um exemplo mais belicoso da incompreensão da obra do francês é o desafio lançado a ele e seus colegas pelo físico norte-americano Alan Sokal em 1996. “Convido quem acredita que as leis da física são meras convenções sociais a tentar transgredi-las a partir das janelas do meu apartamento”, escreveu o pesquisador da Universidade de Nova York, que morava no 21º andar. Sokal foi um dos protagonistas das chamadas science wars, ou guerras da ciência, um debate caloroso em que se engalfinharam cientistas e estudiosos da ciência nos anos 1990. O físico estava no pelotão de frente dos “realistas”, que acusavam os cientistas sociais de inspiração pós-modernista de não acreditarem na realidade objetiva. Nessa contenda, Latour era um general de brigada dos “construcionistas”.
Obviamente, Latour não duvidava da força da gravidade, razão pela qual jamais se jogou pela janela do 21º andar. Apenas preferia explicá-la em termos diferentes, incluindo em sua análise uma miríade de fatos, objetos e fenômenos interconectados. Na entrevista à Science, publicada em 2017, ao discutir a briga com os realistas, ele disse que certamente não era contra a ciência. “Mas devo admitir que me senti bem de rebaixar um pouquinho os cientistas. Havia algum entusiasmo juvenil no meu estilo.” Acrescentou que a situação, de lá para cá, mudara completamente. “Estamos de fato em guerra, uma guerra conduzida por uma mistura de grandes corporações e cientistas que negam a mudança do clima.”
Latour notou que seus adversários estavam aprendendo com as ferramentas desenvolvidas por ele e seus colegas dos estudos sociais da ciência – e as usavam para combater a ciência. Os negacionistas do clima chamavam a atenção para as incertezas da ciência climática com o objetivo de alimentar uma controvérsia que simplesmente não existia para os cientistas. Ao jogar luz sobre as tais incertezas, os negacionistas argumentavam que não havia motivos para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, já que a própria ciência não estava totalmente convicta do seu papel no aquecimento da atmosfera.
“Estava eu errado ao participar da invenção desse campo conhecido como estudos da ciência?”, questionou-se Latour em um artigo. Era uma pergunta retórica: a única saída possível para o impasse seria continuar mostrando, como ele vinha fazendo há décadas, a profusão de elementos envolvidos na consolidação das verdades científicas. E isso, em vez de enfraquecer as conclusões científicas, operava no sentido oposto: era a razão de sua força.
Um dos traços centrais do pensamento de Latour é a atribuição de agência a todo tipo de seres e objetos, ceifando o pedestal em que a humanidade se colocou na era moderna. Para ele, não há por que conferir qualquer prerrogativa especial aos humanos, pois suas atitudes, bem como os efeitos da ação alheia, lhes afetam tanto quanto qualquer outra criatura. Essa proposta está na base da abolição dos dualismos que sustentam a civilização moderna, como as distinções entre natureza e cultura, sujeito e objeto, ciência e política.
Para o pensador francês, a melhor forma de caracterizar uma criatura não é dizendo o que ela é, mas sim o que ela faz e o que faz os outros fazerem. É assim que a ciência define os novos fatos e objetos que aparecem no laboratório. Os hormônios que deram o Nobel a Roger Guillemin, por exemplo, não são descritos pelo que são em si mesmos, mas pela forma como atuam sobre sensores ou compostos químicos e pela reação que provocam nos organismos que os produzem. A ação está no centro do pensamento de Latour e da Teoria Ator-Rede, uma metodologia de pesquisa que ele criou nos anos 1980 com o francês Michel Callon, o britânico John Law, a holandesa Annemarie Mol e outros colaboradores.
A Teoria Ator-Rede propõe descrever fenômenos variados observando a forma como os diferentes atores – humanos e não humanos – agem uns sobre os outros e como se associam em redes. Para isso, recomenda Latour, o pesquisador deve estar atento aos rastros visíveis deixados por essas associações. “Essa teoria oferece a possibilidade de lidar com as composições muito heterogêneas desses coletivos”, diz o antropólogo Guilherme Sá, pesquisador da Universidade de Brasília e estudioso da obra de Latour. É menos uma abordagem metodológica formal e mais uma lente através da qual se observam os problemas de pesquisa, e por isso foi adotada por especialistas de várias disciplinas. “Não se trata de uma teoria voltada especificamente para as ciências sociais”, afirma Sá. “Ela tem maleabilidade para se associar com diversas expertises. Por isso, foi adotada por gente das artes visuais, da engenharia, da economia e de outras áreas.”
O pensamento de Latour era marcado pelo espírito provocador, pelo tom irônico e sarcástico e pela originalidade do estilo, incomum entre os acadêmicos. “Havia da parte dele uma tentativa de forjar uma narrativa atraente para buscar aliados fora da própria academia. Não é à toa que teve tantos leitores e admiradores fora das ciências sociais”, avalia Sá. Para ele, o francês é um pensador que renuncia à navegação de cabotagem, ou seja, se recusa a se prender ao porto seguro das referências conhecidas. “Latour é um convite para singrar outros mares.”
No começo deste século, Bruno Latour se dedicou a pensar a grande crise ambiental que o planeta está enfrentando, causada em grande medida pelo estilo de vida dos modernos. “A modernidade nos autorizou a realizar coisas que antes não era possível fazer, como certas intervenções na natureza que fizemos sem medir as consequências”, diz o antropólogo Eduardo Vargas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Latour fez estudos empíricos em laboratórios, tribunais, organizações religiosas e na administração pública. Ele se propunha a mergulhar em profundidade em cada campo que estudava, continua Vargas. “Não é muito usual alguém que consiga transitar por campos tão diferentes num mundo de especialistas.”
Na avaliação de Alyne Costa, professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e estudiosa de questões ambientais, a obra de Latour nos leva a problematizar a própria ideia de crise. “Quando falamos em crise, damos a entender que é algo que vai passar, mas isso que estamos vivendo não vai mais passar”, afirma, referindo-se ao aquecimento global. “Já entramos em outro regime climático, justamente porque negligenciamos todas essas agências que permitiam a manutenção do mundo como ele era.”
A visão moderna de mundo, essa que separa natureza e cultura, está na origem da exploração predatória dos recursos do planeta, o que levou a humanidade a mudar a composição da atmosfera, provocar a extinção em massa de seres vivos e a poluição em escala nunca antes vista, inclusive de ambientes onde nenhum ser humano jamais pôs os pés. Os rastros deixados pelos humanos nesse processo estão inscritos indelevelmente nas próprias camadas do planeta, tanto que se estuda mudar o nome da época geológica em que vivemos para Antropoceno.
O livro Políticas da Natureza, de 1999, traz a primeira reflexão sistemática de Latour sobre a crise ecológica, um tema que ele já havia abordado transversalmente em trabalhos anteriores. Ali ele mostrou como a mesma visão moderna de mundo que provocou a crise ambiental será, também, nosso maior obstáculo para sair dela, a menos que seja superada. De um lado, temos o mundo indiscutível da natureza, que é objeto de estudo da ciência. Do outro, há o mundo da cultura, habitado pelos humanos, que é o teatro da política. Essas duas dimensões da vida pública não se comunicam, e aí reside a ruína de qualquer tentativa de salvar o mundo.
Na visão de Latour, só conseguiremos enfrentar a crise ambiental se superarmos esse dualismo e mudarmos radicalmente a forma de fazer política. Para que haja uma democracia de fato, é preciso incorporar a voz dos atores não humanos que foram excluídos do debate político quando separamos a natureza da cultura. As negociações diplomáticas sobre o clima só serão efetivas quando, junto com as delegações de cada país, sentarem-se à mesa representantes da atmosfera, das florestas, dos rios, do oceano, dos animais, das plantas e dos micro-organismos. Latour defendia a criação de um “parlamento das coisas”, conceito que ele formulou inicialmente nos anos 1990. “Essa ideia de uma democracia estendida às coisas traz uma aposta de Latour de que vamos conseguir criar novas formas de habitar o mundo se conseguirmos enxergar melhor outros agentes que estão fazendo o mundo conosco”, diz Alyne Costa.
Ela notou que, mesmo diante da gravidade da crise, o pensamento ambiental de Latour é caracterizado por um certo otimismo e pela renúncia ao derrotismo. “Ele escapa do cinismo de quem diz que está tudo bem ou que a tecnologia vai nos salvar, mas ao mesmo tempo não fica preso no lamento”, afirma. “Ele queria convencer os modernos de que é possível encontrar formas mais justas e plurais de habitar o mundo, desde que reconheçam que jamais foram modernos.”
Aos poucos, as reflexões de Latour sobre o meio ambiente passaram a incorporar o conceito de Gaia, que batizou uma hipótese formulada nos anos 1970 pela bióloga norte-americana Lynn Margulis e pelo químico britânico James Lovelock, que morreu em julho passado aos 103 anos. Nessa teoria, Gaia é um sistema autorregulado composto pelo planeta Terra e pelas formas de vida que o habitam. Latour redefiniu o conceito e mostrou como Gaia irrompeu na vida dos humanos, uma imagem que sintetiza a crise ambiental.
“Gaia ajuda a mostrar que a natureza não é uma coisa que simplesmente está aí, mas tem uma história e é produzida por bilhões de anos de interações entre bactérias, elementos químicos e outros agentes”, diz Alyne Costa, que estudou o conceito em sua pesquisa de doutorado. “É uma convocação para prestarmos atenção ao fato de que somos parte de uma rede muito mais extensa de seres dos quais dependemos.”
O interesse de Latour pela questão ambiental foi também o que selou sua nova aliança com os cientistas. O climatologista que o abordou naquele coquetel tinha razão de lhe pedir ajuda. Mais do que ninguém, o filósofo era capaz de explicar por que a certeza dos cientistas quanto à origem humana do aquecimento do planeta já não era o suficiente para fazer políticos e empresários agirem para conter a crise. “É bastante fácil explicar por que as pessoas não se precipitam para confiar nos resultados dos cientistas”, disse Latour à piauí naquela entrevista de 2014. “O que se pede é que você ao mesmo tempo aprenda um monte de coisas sobre a natureza e que mude seu modo de vida.”
Latour observou que, na crise climática, quem estava mais preocupado e apaixonado com os fatos do aquecimento global eram os próprios cientistas que supostamente deviam falar sobre eles de forma desinteressada. Ele citou o caso da concentração de gás carbônico na atmosfera, que, no ano anterior, havia atingido a casa das 400 partes por milhão, um valor sem precedente nos últimos 800 mil anos (no fim de outubro de 2022, já eram 416 ppm). “Nenhum climatologista pode ouvir essa frase e passar a outro tópico”, disse o francês. “A constatação soa como uma sirene ensurdecedora.”
A crise climática escancarou o que ele vinha denunciando há décadas: não faz sentido um mundo em que os cientistas descobrem os fatos e a política fica sendo o terreno das opiniões, crenças e valores. Foi precisamente por se enxergar nesse mundo que os climatologistas se viram paralisados diante dos ataques dos negacionistas. “Você não pode mais se defender dizendo que ‘só faz ciência’ e que não se mistura com os problemas de valores”, disse Latour.
Motivado pelas reflexões sobre Gaia, o filósofo se interessou pelos estudos da “zona crítica”, como é chamada a porção da Terra que concentra toda a vida no planeta – a camada que abrange a parte baixa da atmosfera, oceano, solo e subsolo. Na década passada, ele acompanhou várias expedições multidisciplinares de estudiosos da zona crítica, numa espécie de retorno à etnografia da ciência que ele praticou no início da carreira. “É uma forma de abordar a questão de Gaia num nível muito mais local”, disse Latour. “Trata-se de recuperar o máximo possível de dados geológicos, químicos e bioquímicos para em seguida compreender a dinâmica das transformações pelas formas de vida, por um lado, e pelos humanos, por outro.” A jornalista Ava Kofman, que fez um perfil de Latour para o New York Times em 2018, acompanhou uma dessas visitas e relatou que o francês era tratado como uma espécie de celebridade no observatório da zona crítica.
A atuação de Latour ficou longe de se restringir ao espaço acadêmico. O autor também fez teatro a partir de suas reflexões ambientais. O projeto Gaïa Global Circus, uma peça escrita por Pierre Daubigny com argumento do filósofo, põe em cena cientistas, a própria Gaia personificada e um Noé do Antropoceno. Ainda no universo das artes, ele também foi curador de exposições híbridas como o mundo que ele ajudou a revelar. “Não eram nem exatamente exposições de ciência, nem exatamente de arte”, afirma Eduardo Vargas, da UFMG. “Ele saiu do lugar-comum do acadêmico que fica no gabinete lendo, escrevendo e dando aula.”
Latour fez conferências salpicadas de elementos teatrais, e promoveu encenações que representavam temas e personagens das suas reflexões. Com o próprio Vargas, que fez pós-doutorado com ele em Paris, replicou um debate do começo do século XX entre os sociólogos franceses Émile Durkheim e Gabriel Tarde – este último um autor que o brasileiro estudara em seu mestrado e que o francês incorporou à sua lista de referências teóricas.
Em 2015, ano da conferência do clima de Paris, Latour dirigiu uma simulação de seu “parlamento das coisas” com centenas de estudantes divididos em delegações que representavam as ONGs, os jovens e os indígenas, mas também os solos, as florestas, a internet e outros atores humanos e não humanos. “Latour estava sempre experimentando localmente com diversas ferramentas, e sempre de forma coletiva”, diz Alyne Costa.
Antes dos seus 70 anos, Bruno Latour recebeu o Prêmio Holberg, considerado equivalente a um Nobel para a área das humanidades, pela “ambiciosa análise e reinterpretação da modernidade” e pela elaboração de novos conceitos e métodos que “reimaginaram completamente os estudos sociais da ciência”. Em 2021, levou o Prêmio Kyoto, outro com status de um Nobel, pelo desenvolvimento de “uma filosofia focada nas interações entre a tecnociência e a estrutura social”.
O autor francês produziu fartamente até o fim. O currículo disponível em seu site oficial tem 112 páginas e lista dezessete livros escritos só por ele e 172 artigos acadêmicos, sem contar capítulos, obras coletivas e de divulgação e produções em mídias variadas. O currículo não cita seu último livro, Onde Estou?: Lições do Confinamento para Uso dos Terrestres. Lançada no ano passado, a obra traz reflexões do filósofo motivadas pela experiência do isolamento social.
“A pandemia ilustrou muito claramente a ideia de rede de Latour”, diz Alyne Costa, que assina o posfácio da edição brasileira do livro. “Estamos vendo a duras penas como um ser ínfimo, o coronavírus, foi capaz de globalizar a si mesmo e fazer muitas coisas passarem por ele, produzindo redes à sua maneira.” A pandemia atestou ainda uma ideia em que Latour vinha insistindo: Gaia não tem lado de fora. “Estamos todos enredados, o que acontece em Wuhan tem efeitos sobre todos nós, e esta é a Terra em que vamos ter que nos virar”, continua Costa. “Estamos confinados nela para sempre, e é dela que temos que aprender a cuidar.”
Um dos capítulos de Onde Estou? parte do relato de uma sessão de quimioterapia e outras experiências médicas vividas por Latour para refletir sobre o corpo biológico no mundo de Gaia. “Ter um corpo consiste em aprender a ser afetado”, escreveu. “O antônimo de ‘corpo’ não é ‘alma’, ‘espírito’, ‘consciência’ ou ‘pensamento’, mas sim ‘morte’ – assim como o de Gaia é Marte, o planeta inerte.”
Latour vai fazer falta porque se foi no momento em que seu pensamento poderia ser mais útil para a humanidade, em razão da crise climática. Deixou em aberto uma obra que decerto continuaria a crescer, como notou Patrice Maniglier, professor de filosofia na Universidade Paris Nanterre, num obituário publicado no site AOC. Maniglier escreveu: a morte de Latour “nos priva de um dos aliados mais preciosos que tivemos nos últimos tempos para enfrentar o grande desafio civilizacional que temos hoje”.